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← Como uma tecnologia melhor nos poderia proteger de distrações

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Showing Revision 20 created 03/26/2017 by Margarida Ferreira.

  1. O que significa fazer bom uso do tempo?
  2. Eu gasto muito do meu tempo
  3. a pensar em como gastar o meu tempo.
  4. Provavelmente demasiado.
    Provavelmente fico obcecado.
  5. Os meus amigos acham que sim.
  6. Mas eu sinto que preciso de fazer isso,
    porque nestes dias,
  7. parece que pequenos pedaços
    do meu tempo fogem de mim.
  8. Quando isso acontece, sinto
    como se partes da minha vida
  9. estejam a fugir também
  10. Especificamente,

  11. parece que pequenas partes
    do meu tempo se perdem
  12. em várias coisas como isto,
  13. como a tecnologia — eu verifico coisas.
  14. Vou dar-vos um exemplo.
  15. Se eu receber um email como este
  16. — quem nunca recebeu
    um email como este?
  17. "Eu fui marcado numa foto".
  18. Quando isto aparece,
  19. eu não consigo evitar
    clicar imediatamente nele.
  20. Porque, e se for uma má foto?
  21. Então, eu tenho que clicar imediatamente.
  22. Mas não vou apenas clicar em "Ver foto,"
  23. Vou gastar os 20 minutos seguintes.
  24. (Risos)

  25. Mas o pior é que eu sei
    que isso vai acontecer

  26. e, mesmo sabendo disso,
    vai acontecer na mesma,
  27. isso não me impede de fazer
    a mesma coisa da próxima vez.
  28. Ou encontro-me numa situação como esta:
  29. Vou ver os meus emails
    e desço na lista para me atualizar,
  30. A questão é que, 60 segundos depois,
  31. eu volto a descer na lista
    para me atualizar novamente,
  32. Porque é que eu faço isto?
  33. Não faz qualquer sentido.
  34. Mas vou dar-vos uma dica
    da razão por que isto acontece.

  35. O que acham que faz mais
    dinheiro nos EUA
  36. do que filmes, parques de diversão
    e basebol, tudo junto?
  37. As máquinas caça-níqueis.
  38. Como é que essas máquinas
    fazem tanto dinheiro,
  39. se jogamos com tão pouco dinheiro?
  40. Nós jogamos com moedas.
  41. Como é que isso é possível?
  42. Bem...
  43. o meu telemóvel
    é uma máquina caça-níqueis.
  44. Sempre que olho para o meu telemóvel,
  45. estou a jogar numa máquina caça-níqueis
  46. para ver o que é que obtenho.
  47. O que é que obtenho.
  48. Sempre que eu verifico o meu email,
    estou a jogar.
  49. "O que é que eu vou obter?"
  50. Sempre que percorro as notícias,
  51. estou a jogar numa
    máquina caça-níqueis
  52. para ver o que é
    que vou obter a seguir.
  53. Mesmo sabendo como isto funciona
  54. — e eu sou um "designer" —
  55. sei exatamente como
    esta psicologia funciona,
  56. eu sei o que está a acontecer,
  57. mas não me resta escolha,
  58. Mesmo assim, sou apanhado por isto.
  59. Então o que podemos fazer?

  60. Porque isto deixa-nos com
    esta relação de tudo ou nada
  61. com a tecnologia.
  62. Ou vocês a estão a usar,
  63. e estão sempre interligados
    e distraídos
  64. ou vocês não a usam,
  65. e ficam a pensar:
  66. "Estou a perder algo importante?"
  67. Por outras palavras,
    ou vocês estão distraídos
  68. ou têm medo de perder algo.
  69. Não é verdade?
  70. Então, precisamos
    de reconquistar a escolha.

  71. Queremos ter uma relação com a tecnologia
  72. que nos deixe escolher
    como utilizamos o nosso tempo com ela,
  73. e vamos precisar
    da ajuda dos "designers",
  74. porque só saber isto não ajuda.
  75. Vamos precisar de ajuda do "design".
  76. E como seria isso?
  77. Vou dar-vos um exemplo
    comum a todos nós:

  78. conversa — mensagem de texto.
  79. Vamos imaginar duas pessoas.
  80. A Nancy está à esquerda,
    a trabalhar num documento,
  81. e o John está à direita.
  82. John lembra-se de repente,
  83. "Preciso de perguntar à Nancy sobre
    aquele documento antes que me esqueça."
  84. Quando ele lhe envia uma mensagem,
  85. isso acaba com a concentração dela.
  86. É isto que estamos sempre a fazer,
    a acabar com a concentração dos outros,

  87. a torto e a direito.
  88. E há um preço alto a pagar por isso
  89. porque, sempre que nos
    interrompemos uns aos outros,
  90. levamos cerca de 23 minutos, em média,
  91. para recuperarmos a nossa atenção.
  92. Na verdade, circulamos por
    dois projetos diferentes
  93. antes de voltarmos para
    o que estávamos a fazer primeiro.
  94. Esta é a pesquisa de Gloria Mark
    combinada com a pesquisa da Microsoft,
  95. que nos mostrou isto.
  96. A pesquisa dela também mostra
    que isto forma maus hábitos.
  97. Quanto mais interrupções
    temos do meio externo,
  98. mais estamos a ser condicionados
    e treinados para nos interromper.
  99. Na verdade, nós interrompemo-nos
    a nós próprios a cada três minutos e meio.
  100. Isto é uma loucura!

  101. Então como podemos mudar isto?
  102. Como a Nancy e o John estão
    nesta relação de tudo ou nada,
  103. a Nancy pode querer desligar,
    mas depois ficava preocupada:
  104. "E se estou a perder algo importante?"
  105. O "design" pode concertar este problema.

  106. Vamos imaginar a Nancy,
    novamente à esquerda,
  107. O John à direita.
  108. O John lembra-se:
    "Tenho de enviar o documento à Nancy"
  109. Só que, desta vez, a Nancy pode marcar
    que está concentrada.
  110. Digamos que ela arrasta uma barra e diz:
  111. "Quero estar concentrada
    durante 30 minutos,"
  112. e então — bum — está concentrada.
  113. Agora, quando o John quiser
    enviar-lhe uma mensagem,
  114. ele pode tirar essa ideia da cabeça,
  115. porque acha que precisa,
  116. de pôr cá for a essa ideia,
    antes que se esqueça.
  117. Só que, desta vez,
  118. as mensagens são guardadas
    para que a Nancy continue concentrada,
  119. mas o John pode tirar a ideia da cabeça.
  120. Mas isto só funciona
    se um último detalhe for verdadeiro,

  121. que é o facto de a Nancy
    precisar de saber que,
  122. se algo for realmente muito importante,
  123. o John pode interrompê-la.
  124. Mas, ao contrário de ter constantes
    interrupções acidentais sem motivo,
  125. estamos a criar
    interrupções conscientes.
  126. Estamos a fazer duas coisas aqui.

  127. Estamos a criar uma nova escolha
    tanto para a Nancy como para o John.
  128. Mas há uma segunda coisa subtil
    que também estamos a fazer neste caso.
  129. É o facto de estarmos a mudar
    a pergunta a que estamos a responder.
  130. Ao contrário de o objetivo
    de uma conversa ser:
  131. "Vamos fazê-lo de uma forma
    que torne fácil enviar uma mensagem"
  132. — é este o objetivo da conversa,
  133. devia ser muito fácil enviar
    uma mensagem a alguém —
  134. mudamos o objetivo para algo
    mais profundo e com valor humano
  135. que é: "Vamos criar uma comunicação
    da melhor qualidade possível"
  136. numa relação entre duas pessoas.
  137. Então melhorámos o objetivo.
  138. Agora, será que os "designers"
    se preocupam realmente com isso?

  139. Queremos ter conversas sobre o que
    estes profundos objetivos humanos são?
  140. Vou contar-vos uma história.
  141. Há pouco mais de um ano,
  142. ajudei a organizar um encontro
  143. entre alguns "designers" importantes
    em tecnologia e Tich Nhat Hanh.
  144. Thich Nhat Hanh é um porta-voz
    internacional da meditação consciente.
  145. E foi um encontro maravilhoso.
  146. Vocês têm de imaginar.
    Pensem numa sala.
  147. Num dos lados da sala há
    vários "geeks" de tecnologia.
  148. No outro lado da sala,
  149. há um monte de monges budistas
    com túnicas castanhas e cabeças rapadas.
  150. O tema era sobre
    os profundos valores humanos, como:
  151. "Como será o futuro da tecnologia
  152. "quando estamos a projetar
  153. para os temas e os valores
    humanos mais profundos
  154. A nossa conversa concentrou-se
    em como ouvir mais atentamente
  155. o que estes valores poderiam ser.
  156. Ele fez uma piada durante a conversa
  157. que se, ao contrário
    de um corretor ortográfico,
  158. tivéssemos algo
    que verificasse a compaixão,
  159. ou seja, se realçássemos uma palavra
    que pudesse ser acidentalmente abrasiva,
  160. considerada abrasiva por outra pessoa.
  161. Será que este tipo de conversa
    acontece no mundo real,

  162. e não apenas nestas
    reuniões de "designers"?
  163. Bem, a resposta é sim.
  164. Uma das minhas favoritas
    é o Couchsurfing.
  165. Se não sabem o que é,
    o Couchsurfing é um website
  166. que relaciona pessoas
    que estão a procurar um lugar para ficar
  167. com um sofá grátis,
    de alguém que está a tentar oferecê-lo.
  168. Então, um serviço excelente.

  169. Qual seria o objetivo deles?
  170. Para o que vocês projetariam
    se trabalhassem na Couchsurfing?
  171. Talvez pensem que seja para
    combinar convidados com anfitriões.
  172. Certo?
  173. Este é um bom objetivo.
  174. Mas seria como o nosso objetivo
    com a troca de mensagens,
  175. em que estamos apenas
    a tentar entregar mensagens.
  176. Então qual é o objetivo humano
    mais profundo?

  177. Eles estabeleceram o seu objetivo
  178. como a necessidade de criar
    experiências duradouras e positivas
  179. e relações entre pessoas
    que nunca se conheceram.
  180. O facto mais impressionante
    sobre isto ocorreu em 2007.
  181. Apresentaram um meio de medir isto,
  182. o que é incrível.
  183. Vou dizer-vos como funciona.
  184. Para cada objetivo que tivermos,
    temos de ter uma forma de o medir
  185. para sabermos como estamos a fazer
  186. — uma maneira de medir o sucesso.
  187. Então, eles agarram em duas pessoas
  188. que se encontraram,
  189. e o número de dias que
    essas pessoas passaram juntas.
  190. Depois, fazem uma estimativa
    de quantas horas houve naqueles dias,
  191. quantas horas aquelas duas
    pessoas ficaram juntas.
  192. Depois de passarem aquele tempo juntos,
  193. perguntam aos dois:
  194. "Quão positiva foi a sua experiência?
  195. "Teve uma boa experiência
    com esta pessoa que conheceu?"
  196. E subtraem daquelas horas positivas
  197. a quantidade de tempo
    que as pessoas passaram no website,
  198. porque isso é um custo
    para a vida das pessoas.
  199. Porquê valorizar isto como sucesso?
  200. E o que sobrar é aquilo
    a que eles se referem como:
  201. "uma rede de convivência orquestrada",
  202. ou apenas a criação
    duma rede "Bons Tempos".
  203. A rede de horas que não existiriam
    se a Couchsurfing não existisse.
  204. Conseguem imaginar o quão inspirador
    seria vir trabalhar todos os dias

  205. e medir o nosso próprio sucesso
  206. na verdadeira rede de novas contribuições
    de horas para a vida das pessoas
  207. que são positivas, e nunca existiriam
  208. se não fizéssemos o que iremos fazer hoje?
  209. Conseguem imaginar um mundo inteiro
    a trabalhar assim?
  210. Conseguem imaginar uma rede social

  211. que, digamos, gosta de cozinhar,
  212. e que meça o seu sucesso com base
    em noites de cozinha organizadas
  213. e artigos sobre cozinha
    que as pessoas gostaram de ler,
  214. e subtraia disso os artigos
    que não gostaram de ler
  215. ou o tempo que ficaram a fazer scroll
    de que não gostaram?
  216. Imaginem uma rede social profissional
  217. que, ao invés de medir o sucesso
    em termos de conexões criadas
  218. ou mensagens enviadas,
  219. medisse o seu sucesso
    com base nas ofertas de trabalho
  220. que as pessoas receberam
  221. e ficaram contentes em receber
  222. e subtraísse a quantidade de tempo
    que as pessoas passam no website.
  223. Ou imaginem um serviço de encontros,
  224. como o Tinder ou outro qualquer,
  225. que, em vez de medir os deslizes
    de ecrã de cada pessoa,
  226. que é como eles medem o sucesso hoje,
  227. medisse as conexões profundas
    e românticas que as pessoas criassem.
  228. Seja lá o que isso fosse para elas.
  229. Conseguem imaginar
    um mundo inteiro a trabalhar assim,

  230. que vos ajudasse a fazer
    bom uso do vosso tempo?
  231. Para isso precisaríamos
    de um novo sistema
  232. porque talvez estejam a pensar,
  233. que a economia da Internet de hoje
    — a economia de hoje em geral —
  234. é medida em tempo gasto.
  235. Quanto mais utilizadores tem,
    mais uso lhe damos.
  236. Quanto mais tempo as pessoas gastam,
  237. é assim que medimos o sucesso.
  238. Mas já resolvemos este problema.

  239. Resolvemos com a comida orgânica,
    quando dissemos
  240. que precisávamos de avaliar
    as coisas de um modo diferente.
  241. Dissemos que isto é um
    tipo diferente de alimento.
  242. Não a podemos comparar
    baseando-nos apenas no preço.
  243. É uma categoria diferente de comida
  244. Nós resolvemos isso
    com a Certificação Leed,
  245. em que dissemos que
    isto é um tipo diferente de construção
  246. isto impõe valores diferentes,
    em sustentabilidade e meio ambiente.
  247. E se tivéssemos algo assim
    para a tecnologia?

  248. E se tivéssemos algo cujo
    propósito e objetivo
  249. fosse ajudar a criar uma rede positiva
    de novas contribuições para a vida humana?
  250. E se pudéssemos
    avaliar isto de um modo diferente,
  251. para que funcionasse?
  252. Imaginem que davam a isto espaço
    premium numa aplicação.
  253. Imaginem se houvesse navegadores
    que vos ajudassem a encontrar
  254. este tipo produtos.
  255. Conseguem imaginar como seria emocionante
    viver e criar num mundo assim?
  256. Nós podemos criar este mundo hoje.

  257. Líderes de empresas,
    tudo o que têm de fazer...
  258. Só vocês podem dar prioridade
    a uma nova métrica,
  259. que será a métrica para a rede positiva
    de contribuições para a vida humana.
  260. Tenham uma conversa franca sobre isto.
  261. Talvez não estejam a fazer
    isto corretamente
  262. mas vamos começar esta conversa.
  263. "Designers", vocês podem redefinir
    o sucesso, podem redefinir o "design".

  264. Indiscutivelmente, vocês têm mais poder
    do que muitos na vossa organização
  265. para criar as escolhas
    que nos afetam a todos.
  266. Talvez como na medicina,
  267. em que temos o juramento de Hipócrates
  268. como reconhecimento
    da responsabilidade e do alto valor
  269. de que temos doentes a tratar.
  270. E se os "designers" tivessem algo assim,
  271. com base neste novo modelo de "design"?
  272. E utilizadores, para todos nós,

  273. nós podemos exigir tecnologias
    que funcionem desta forma.
  274. Parece difícil, mas o McDonald's não tinha
    saladas até que os consumidores exigiram.
  275. O Walmart não tinha comida orgânica
    até os consumidores exigirem.
  276. Nós temos de exigir este
    novo tipo de tecnologia.
  277. E nós podemos fazer isto.
  278. Fazendo isto, contribuiríamos
  279. para uma mudança de um mundo
    que é dirigido e orientado
  280. inteiramente pelo tempo gasto,
  281. para um mundo orientado
    para um bom uso do tempo.
  282. Eu quero viver neste mundo,
  283. e quero que esta conversa aconteça.

  284. Vamos começar esta conversa agora.
  285. Obrigado.
  286. (Aplausos)