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← O "bullying" pelos olhos e ouvidos de um observador | Craig Crawford | TEDxHelena

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Showing Revision 23 created 09/26/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Sou diretor duma escola primária
    aqui na cidade.
  2. Trabalho no ensino há 17 anos.
  3. Uma das coisas que adoro
    no trabalho com miúdos
  4. é que a honestidade deles,
    por vezes, chega a assustar-nos.
  5. Centenas de miúdos que me dizem
    que preciso de emagrecer uns quilos,
  6. que o meu cabelo está a ficar grisalho,
  7. e outra coisas que tenho de melhorar.
  8. (Risos)
  9. Mas, às vezes, dizem coisas
    que passam dos limites,
  10. e até são agressivos.
  11. Aquilo que ensinamos vai muito além
    da parte meramente académica.
  12. Algumas das lições mais importantes
    ocorrem no recreio todos os dias.
  13. Um conflito no baloiço
    pode tornar-se uma lição de vida.
  14. Quando vejo o noticiário
    sobre coisas em Washington,
  15. há ali algumas pessoas

  16. que mereciam ser privadas de recreio.
  17. (Risos)
  18. Mas tentar que os miúdos percebam
    que tudo tem a sua hora e o seu lugar,
  19. pode ser muito complicado,
  20. e fazê-los compreender essas lições.
  21. Às vezes, as coisas que eles dizem
    podem tornar-se agressivas,
  22. mas devemos fazer a pergunta:
    "Afinal, o que é o 'bullying'?"
  23. Vamos analisar.
  24. A definição de "bullying" diz respeito
    a um desequilíbrio do poder,
  25. e tem de ser repetitivo,
  26. tem de ser contínuo
    e ter uma vítima para isso.
  27. Às vezes, um miúdo diz uma coisa
    ou faz uma coisa cruel
  28. ou antipática
  29. mas, se só foi uma vez,
  30. não se configura "bullying".
  31. É apenas a ocasião
    de lhe dar una lição de vida.
  32. Mas é o comportamento
    contínuo que os miúdos têm
  33. que pode ser considerado
    como "bullying".
  34. Parte disso é aprendido
    e não ocorre só com os miúdos.
  35. podem ser adultos.
  36. Se pensarem um pouco
  37. e recordarem quem foi
    o vosso professor favorito na escola,
  38. provavelmente não me irão falar
    da matéria que ele ensinava,
  39. de quando usaram
    aquela coisa da trigonometria,
  40. ou qualquer coisa como ser possível
  41. desenvolver e decompor um polinómio.
  42. Vão falar da relação que tinham com ele,
  43. da forma como ele sabia
    que vocês se podiam esforçar mais,
  44. e não vos largariam
    até vocês melhorarem.
  45. Aí também pode haver intimidação.
  46. Sou uma pessoa
    da matemática e da ciência,
  47. em parte porque este lado
    do meu cérebro é muito racional;
  48. já este lado, bem, há algo errado aqui.
  49. Mas também por causa de uma
    professora de línguas que tive no 7.º ano.
  50. Ela decidiu que não gostava de mim.
  51. E eu decidi que era
    um sentimento recíproco.
  52. E foi assim que se passou o ano,
    mas era ela quem tinha poder.
  53. Ela era a pessoa que tinha
    o controlo das coisas
  54. e fazia questão de
    me diminuir como escritor.
  55. Em parte, isso foi por causa
    deste lado do meu cérebro,
  56. eu escrevi essa quantidade,
    e não essa quantidade,
  57. Mas ela fazia-me sentir
    minúsculo como escritor,
  58. e era ela quem mandava.
  59. Os adultos também podem fazer isso.
  60. Mas há estatísticas sobre
    o que é o "bullying",
  61. portanto, vamos dar uma olhadela.
  62. Essencialmente, e para abreviar,
  63. um em cada cinco miúdos
    relata ter sido vítima de "bullying".
  64. Portanto, se olharem para
    as duas pessoas à vossa direita
  65. e para as duas pessoas à vossa esquerda,
  66. é provável que uma de vocês
    também tenha sido vítima de "bullying".
  67. Eu até arriscaria dizer
    que talvez tenha sido mais de uma.
  68. Mas os miúdos, às vezes, não se queixam
    ou não percebem que é "bullying".
  69. Pensam que são apenas
    trocas de galhardetes.
  70. Às vezes com a minha família
    ou com amigos meus,
  71. trocamos certas palavras que,
    quem as ouvisse, certamente diria:
  72. "Bolas, alguém acabou de ser agredido".
  73. Mas pode ser só a maneira
    como falamos uns com os outros.
  74. No entanto, as estatísticas
    levam-me a este outro diapositivo.
  75. Temos aqui duas representações
    de "bullying".
  76. A que está do lado esquerdo
  77. é a típica imagem de "bullying"
    que imaginamos.
  78. Há o grandalhão agressivo que vai
    bater num miúdo mais pequena
  79. que mostra um olhar de medo
    porque sabe o que vai acontecer.
  80. Todos nós já estivemos nessa situação
    ou já vimos alguém estar.
  81. Entendemos bem esta imagem.
  82. Mas vou falar da outra imagem
  83. e também me vou prolongar
    mais um pouco sobre ela,
  84. porque quero que pensem melhor
  85. no que está a ocorrer
    do que na vítima em si.
  86. Temos o miúdo
    que é considerado como o alvo,
  87. e vemos que os agressores
    olham para ela de forma intimidante.
  88. O olhar do miúdo é real.
  89. É medo,
  90. é o medo de "Será que vou
    apanhar agora?
  91. "Como é que vai ser?
  92. "O que é que vai acontecer depois?"
  93. Nós conhecemos o aspeto
    das vítimas de "bullying",
  94. mas vou falar sobre
    os outros miúdos,
  95. e queria que refletissem neles
    num contexto maior.
  96. O "assistente" — falemos dele
    por instantes.
  97. Este miúdo provavelmente
    fica ao canto e pensa:
  98. "Sou amigo do agressor. Alinho.
  99. "Tenho alguma proteção já que
    agora faço parte do grupo."
  100. A má notícia para este miúdo
  101. é que ele talvez esteja enganado.
  102. Será agredido por outro miúdo qualquer.
  103. Falemos então do agressor.
  104. Verifico que a maioria
    dos miúdos que agridem
  105. são agredidos de qualquer forma,
    de qualquer modo.
  106. Então, para o agressor,
  107. é como passar a estar
    no comando dessa situação,
  108. ser capaz de controlar algo
  109. e aquele miúdo, o seu alvo,
    permite-lhe ter esse controlo
  110. já que ele próprio não o tem
    noutras áreas da sua vida.
  111. Temos os miúdos que apoiam,
  112. "Dá-lhe! Dá-lhe! Dá-lhe!"
  113. Não que eu tenha ouvido isso.
  114. Mas o que talvez eles estejam
    a querer dizer com "dá-lhe!"
  115. seja um sinónimo para
    "Graças a Deus não sou eu."
  116. Para alguns destes miúdos,
    é isso que conta.
  117. Eles podem ser vítimas de coisas
    no mundo deles.
  118. então, o facto de que
    isso acontece noutro sítio
  119. é do que realmente eles falam.
  120. Os que ficam de fora
    são uma mistura curiosa.
  121. Quando eu falar deles,
    vocês podem pensar: "OK..."
  122. mas acompanhem-me.
  123. As raparigas, se olharmos para elas,
  124. têm um olhar parecido com o da vítima.
  125. Pode haver algumas
    que só observam e dizem:
  126. "Isto é mesmo horrível."
  127. Isso pode acontecer por causa
    do que acontece no mundo delas.
  128. Se refletirmos sobre isso,
  129. as raparigas podem ser vítimas
    de abuso físico,
  130. de algo nada bom que ocorra
    no mundo delas.
  131. Assim, elas assistem a algo
    que pode ser muito difícil para elas.
  132. O miúdo perto do cacifo
    exprime-se com um "Uhhh..."
  133. Vejo miúdos assim.
  134. Para aquele miúdo, é como:
  135. "Espero que isso seja a pior coisa
    que eu tenha de enfrentar hoje."
  136. Assim, aquele bocejo soa como:
  137. "Finjo não estar muito interessado nisto"
  138. mas também pode ser:
  139. "Gostava que isto fosse tudo por hoje
  140. "porque lá em casa
    vai acontecer o mesmo"
  141. ou "Mais tarde, isto vai acontecer."
  142. Algumas pessoas dirão que os
    miúdos precisam de endurecer.
  143. Posso dizer-vos, há miúdos
    a chegar à minha escola, todos os dias,
  144. que são mais rijos que o Super-homem,
    verdadeiros heróis,
  145. com o que aguentam fora da escola
  146. e chegam interessados em aprender.
  147. Uma frase que gosto de repetir é:
  148. "Precisamos de cuidar das
    necessidades básicas dos miúdos
  149. "antes mesmo de aplicar
    os objetivos educacionais",
  150. ou seja, as necessidades deles
    estão satisfeitas?
  151. Se um miúdo vem ter comigo
    logo pela manhã
  152. e está com fome, não dormiu bem,
  153. foi violentado ou coisa assim,
  154. e a primeira coisa que fazemos é dizer:
  155. "Toma lá uns exercícios
    de matemática, toca a trabalhar",
  156. ele não vai prestar atenção.
  157. Isso não tem o menor valor para ele.
  158. O que ele quer é:
    "Vou comer ou não?"
  159. Mas voltemos ao amigo
    que está a bocejar.
  160. Repito, pode haver coisas
    que ocorrem no mundo dele
  161. que eu gostava que vocês considerassem
  162. porque, como estes miúdos
    se envolvem nestas cenas
  163. arrastam outros
    para lugares sombrios.

  164. Se há miúdos que começam
    a brigar no recreio
  165. e vêm ter comigo e dizem:,
  166. "A gente só estava a brigar,
    qual é o problema?"
  167. eu respondo:
    "Vocês os dois estavam a brigar.
  168. "Vamos conversar sobre isso.
  169. "Esta pessoa aqui
    é fisicamente agredida em casa.
  170. "Por isso, sempre que ela
    assiste a violência física,
  171. "isso transporta-a a um lugar sombrio.
  172. "Mas nós só estávamos
    a chamar nomes um ao outro,
  173. "é como falamos um com o outro."
  174. "Esta pessoa é violentada
    moralmente em casa.
  175. "É humilhada em toda a parte.
  176. "Por isso, quando ela ouve isso,
    isso transporta-a a um lugar sombrio."
  177. Muitos olham para mim e dizem:
  178. "Esse miúdo nunca sofreu 'bullying'.
    Vejam o tamanho dele!"
  179. Errado.
  180. Sofri muito "bullying" em miúdo,
    às vezes, por causa do meu tamanho.
  181. Eu era o grandalhão, o gigante, o girafa,
  182. todas essas coisas.
  183. Mas eu também era vítima de violência
    moral e física em casa.
  184. Não dos meus pais! Que fique claro!
  185. Mas é algo muito pessoal e íntimo.
  186. Então, sempre que vejo "bullying",
  187. tenho uma reação muito concreta,
    visceral, sempre que isso acontece.
  188. Então, qual é a melhor maneira
    de combater o "bullying"?
  189. Vejamos.
  190. Vou tentar ler isto:
  191. "A ação de perceber, de ter consciência,
    de estar sensível,
  192. "de experimentar indiretamente..."
    e todas essas palavras enormes.
  193. Vamos, portanto, simplificar:
    meter-se na pele de alguém,
  194. — em sentido figurado, é claro —
  195. O que eu quero dizer é que se coloquem
    no lugar da outra pessoa.
  196. Faço painéis de impacto sobre vítimas
    para o Departamento de Correção.
  197. Uma escola em que eu trabalhava
    foi roubada há uns anos
  198. e puseram-me a conversar
    com os detidos
  199. sobre o impacto em cadeia
    dos crimes deles,
  200. porque eles pensam: "Roubamos coisas
    que vendemos. Qual é o problema?"
  201. Tentamos fazê-los entender
    o contexto maior
  202. do facto de que, ao roubar as coisas,
  203. precisamos de repor essas coisas.
  204. e por isso, não podemos comprar
    coisas novas para os miúdos

  205. e isso tem impacto nos pais e na perceção
    deles sobre a segurança da escola.
  206. Posso dizer-vos
  207. que passei muito tempo, nos últimos dias
  208. a lidar com a insegurança
    dos pais em relação à escola.
  209. Não tínhamos tido nenhum problema,
    mas agora já temos alguns.
  210. Então, tentamos conseguir
    que os detidos pensem no contexto social
  211. de que não é somente
    a vítima do roubo que perde,
  212. mas que as coisas que fazemos
    têm impacto nas pessoas à nossa volta.
  213. Os meus dois filhos desobedientes,
  214. que estão agora com 20 e 21 anos,
  215. dir-vos-ão que ouviram o pai dizer:
  216. "Ninguém tem o direito
    de estragar o dia a alguém."
  217. Isso é pensar nos outros e tentar
    que os miúdos compreendam.
  218. Estou sempre na escola a trabalhar
    com os meus alunos
  219. para que percebam isto melhor.
  220. Todas as manhãs,
    durante os avisos, eu digo:
  221. "Hoje, vocês têm duas tarefas:
  222. "Usem as mãos, os pés
    e os vossos objetos só para vocês.
  223. "Também quero que digam,
    três coisas agradáveis
  224. "a qualquer pessoa da escola.
  225. "Encontrem três pessoas,
    e digam-lhes qualquer coisa amável,
  226. "esqueçam as grosserias."
  227. Mas é mais fácil dizer do que fazer.
  228. O que tentamos trabalhar com os miúdos
  229. é que a regra de ouro
    também é uma regra boa.
  230. "Quando falamos da nossa escola,
    se todos fizerem isso,
  231. "então milhares de coisas boas
    serão ditas nesse dia.
  232. "Isso não fará a diferença
    na vida das pessoas?"
  233. Além de ser um ótimo desafio
    andar por aí, como se fôssemos adultos,
  234. a dizer: "Certo, hoje vou encontrar
    três pessoas e dizer:
  235. "Olá, gostei da forma como estacionou
    o seu carro — super."
  236. em vez de dizer: "Não posso acreditar..."
  237. (Risos)
  238. Mas não quero que se riam
    quando se lembrarem
  239. do que lhe disseram sobre a forma
    como ele estacionou o carro.
  240. (Risos)
  241. Se todos disséssemos três coisas amáveis,
  242. que tipo de mudança isso causaria?
  243. Portanto, esse seria o desafio
    que coloco hoje,
  244. Num esforço contra o "bullying",
  245. tentem fazer as pessoas
    pensar para além do óbvio.
  246. Quem está a ouvir a mensagem
    que vocês estão a dizer?
  247. Quem está a ver a mensagem
    que vocês estão a transmitir?
  248. Pensem nisso
  249. para além da pessoa
    com quem estão a falar.
  250. Garanto, é um grande desafio
    para miúdos da escola primária,
  251. um grande desafio para mim que sou
    "velho, grisalho e com peso a mais",
  252. como os miúdos me dizem.
  253. É isto que gostava
    que levassem hoje para casa.
  254. Obrigado.
  255. (Aplausos)