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← A alteração climática vai desalojar milhões. Eis como nos preparamos

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Showing Revision 6 created 06/23/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Foi cerca de dois anos
    depois do furacão Katrina
  2. que eu vi pela primeira vez
    os mapas das inundações da Luisiana.
  3. Estes mapas das inundações são usados
    para mostrar terras perdidas no passado
  4. e terras que vão ser perdidas no futuro.
  5. Nesse dia, numa reunião da comunidade,
  6. estes mapas foram usados para explicar
  7. como uma onda de 9 metros
    que acompanhou o Furacão Katrina
  8. conseguiu inundar comunidades
    como a minha, no sul da Luisiana
  9. e comunidades ao longo do Mississípi
    e da costa de Alabama
  10. Acontece que o território
    que estávamos a perder
  11. era o nosso tampão
    de proteção contra o mar.
  12. Eu ofereci-me para interagir
    com os gráficos na parede,
  13. e num instante a minha vida mudou
    pela segunda vez em dois anos.
  14. O gráfico mostrava uma grande perda
    de terras no sul da Luisiana
  15. e um mar invasor,
  16. mas mais especificamente,
  17. os gráficos mostravam
    o desaparecimento da minha comunidade
  18. e de muitas outras comunidades
    antes do final do século.
  19. Eu não estava sozinha
    em frente daquela sala.

  20. Eu estava lá com outros membros
    das comunidades do sul de Luisiana
  21. — negros, nativos, pobres.
  22. Nós pensávamos que estávamos unidos
  23. apenas pela recuperação
    de um desastre temporário,
  24. mas descobrimos que agora estávamos
    unidos pela tarefa impossível
  25. de garantir que as nossas comunidades
  26. não seriam engolidas
    pela subida do nível do mar
  27. por causa das alterações climáticas.
  28. Amigos, vizinhos, família,
    a minha comunidade:
  29. eu partia do princípio
    que estariam sempre ali.
  30. Terra, árvores, pântanos, canais:
  31. eu achava que estariam sempre ali
  32. como tinham estado
    durante milhares de anos.
  33. Eu estava enganada.
  34. Para perceber o que estava
    a acontecer à minha comunidade,

  35. tive de falar com outras comunidades
    em todo o mundo.
  36. Comecei no sul da Luisiana
    com a Nação Unida Houma.
  37. Falei com defensores da juventude
    em Shishmaref, no Alasca.
  38. Falei com pescadoras na costa do Vietname,
  39. com defensores da justiça em Fiji,
  40. com novas gerações de líderes
  41. com civilizações antigas
    do Estreito de Torres.
  42. Comunidades que estão aqui
    há milhares de anos
  43. estavam a sofrer o mesmo destino,
  44. e todos pensavam como iríamos
    sobreviver nos próximos 50 anos.
  45. Até ao final do próximo século,

  46. prevê-se que mais
    de 180 milhões de pessoas
  47. serão deslocadas por causa
    das alterações climáticas,
  48. e no sul da Luisiana,
  49. quem consegue pagar o custo da mudança
    já o está a fazer agora.
  50. Estão a mudar-se porque o sul
    da Luisiana está a perder território
  51. a um dos ritmos mais rápidos do planeta.
  52. O desaparecimento
    é o que a minha comunidade
  53. tem em comum com outras
    comunidades costeiras.
  54. As comunidades de todo o mundo
    estão a lutar contra o desaparecimento,
  55. à medida que tomamos consciência
    dos impactos das alterações climáticas.
  56. Eu passei os últimos 14 anos
    a falar em nome das comunidades

  57. que têm sido diretamente
    afetadas pela crise climática.
  58. Estas comunidades estão a lutar
    contra a discriminação
  59. na recuperação de desastres climáticos,
  60. e estão também a tentar compensar
    a deslocação maciça de pessoas,
  61. com a chegada de muitos outros
  62. que veem uma oportunidade
    de começar de novo.
  63. Desde 2005, chamam-se
    "refugiados" às pessoas
  64. que partem quando são desalojados
    por causa de um desastre climático,
  65. mesmo quando não atravessam
    fronteiras internacionais.
  66. Estes termos, mal usados,
  67. que são criados para identificar outros,
  68. as vítimas,
  69. as pessoas que não deviam estar aqui,
  70. estes termos são barreiras,
  71. para a recuperação económica,
  72. para a integração social
  73. e para a recuperação necessária
  74. de crises climáticas
    e de traumas climáticos.
  75. As palavras são importantes.
  76. Também é importante a forma
    como tratamos as pessoas
  77. que estão a atravessar as fronteiras.
  78. Devíamos preocupar-nos
    com a forma como são tratadas
  79. as pessoas que estão
    a atravessar as fronteiras
  80. à procura de refúgio e segurança.
  81. Quanto mais não seja
  82. porque podemos ser nós
    ou alguém que amamos
  83. que precise de exercer
    o seu direito de migrar
  84. num futuro próximo.
  85. Devemos começar a preparar-nos
    para uma migração global.

  86. É uma realidade já hoje.
  87. As cidades e as comunidades
    não estão preparadas.
  88. De facto, o nosso sistema económico
    e o nosso sistema social
  89. não estão preparados
    para lucrar com pessoas que migram.
  90. Isso vai causar
    muita gentrificação climática,
  91. e também vai penalizar
    o movimento de pessoas,
  92. normalmente por exploração
    da mão de obra
  93. e normalmente através da criminalidade.
  94. A gentrificação climática que ocorre
    antes de o nível do mar subir,
  95. é o que estamos a ver
    em lugares como Miami,
  96. onde as comunidades
    afastadas da beira-mar
  97. estão a sofrer aumento dos preços
    por estarem em lugares elevados
  98. onde foram postos inicialmente
  99. à medida que as pessoas
    se mudam para longe da costa.
  100. Essas pessoas estão a ser mudadas,
    a ser forçadas a mudar-se para longe
  101. dos sistemas sociais e económicos
    de que precisam para sobreviver.
  102. A gentrificação climática também acontece
    como consequência da alteração climática.

  103. Quando um grande número
    de pessoas saem de um local
  104. por um período indefinido de tempo,
  105. vemos outras a entrar.
  106. Também vemos ocorrer
    a gentrificação climática
  107. quando casas destruídas
    são agora “construídas ecologicamente”
  108. mas têm um valor maior,
  109. geralmente valores que os negros,
    as pessoas de cor e os pobres
  110. que querem voltar a casa,
    não podem pagar.
  111. A diferença de preços na renda
    ou na compra de uma casa
  112. é a diferença entre poder
    pôr em prática o direito,
  113. enquanto ser humano, de regressar
    à sua comunidade
  114. ou ser forçado
    a deslocar-se para outro lugar
  115. com menos segurança climática,
  116. menos caro,
  117. e isolado.
  118. A crise climática é um assunto
    muito mais amplo

  119. do que as emissões de CO2,
  120. e é um assunto muito diferente
    de apenas um clima extremo.
  121. Estamos a enfrentar uma mudança
  122. em todos os aspetos
    da nossa realidade global.
  123. E a migração climática
    é apenas uma pequena parte,
  124. mas vai continuar a ter efeitos em cascata
  125. tanto nas cidades costeiras
    como nas cidades no interior.
  126. Então o que devemos fazer?

  127. Eu tenho alguma ideias.
  128. (Risos)

  129. Primeiro, devemos reformular
    a nossa compreensão do problema.

  130. A alteração climática não é o problema.
  131. A alteração climática
    é um sintoma terrível
  132. dum sistema económico
  133. que foi construído para uma minoria
  134. para extrair todos os bens preciosos
    deste planeta e das pessoas,
  135. dos nossos recursos naturais
  136. aos frutos do trabalho humano.
  137. Este sistema criou esta crise.
  138. (Aplausos)

  139. Temos de ter a coragem para reconhecer
    que tirámos demasiado.

  140. Não podemos fechar os olhos
  141. ao facto de que o mundo inteiro
    está a pagar um preço
  142. pelo privilégio e pelo conforto
    de apenas algumas pessoas no planeta.
  143. É tempo de fazermos
    grandes mudanças sociais
  144. num sistema que incentiva o consumo
  145. ao ponto de provocar
    um desequilíbrio global.
  146. Os nossos sistemas social,
    político e económico de extração
  147. têm de ser transformados
    em sistemas que regeneram a Terra
  148. e promovem a liberdade
    humana no mundo.
  149. É arrogante pensar que é a tecnologia
    que nos vai salvar.
  150. É egocêntrico pensar que podemos manter
  151. esta abordagem injusta e extrativa
    do modo de vida neste planeta
  152. e sobreviver.
  153. (Aplausos)

  154. Para sobreviver nesta nova fase
    da nossa existência humana,

  155. precisamos de restruturar
    o nosso sistema social e económico
  156. para desenvolver uma resiliência coletiva.
  157. A restruturação social tem de visar
    o restauro e a reparação do planeta
  158. e das comunidades
    que foram saqueadas,
  159. criminalizadas
  160. e visadas durante gerações.
  161. Estes são os pontos essenciais.
  162. É aqui que começamos.
  163. Temos de estabelecer
    uma nova atitude social

  164. para ver a migração como um benefício,
  165. uma necessidade
    para a sobrevivência global,
  166. e não como uma ameaça
    aos nossos privilégios individuais.
  167. A resiliência seletiva significa
    que as cidades em desenvolvimento
  168. podem receber pessoas
  169. e providenciar alojamento,
  170. comida, água, cuidados de saúde
  171. sem impor um policiamento
    exagerado para todos,
  172. sejam quem forem,
  173. sejam de onde forem.
  174. O que significaria se começássemos
    a planear já a nossa migração climática?

  175. As cidades que estão a alastrar
    ou as cidades em decadência
  176. podem ver isto como a oportunidade
    de reconstruir uma infraestrutura social
  177. centrada na justiça e na igualdade.
  178. Podíamos financiar hospitais públicos
  179. e ajudá-los a prepararem-se
  180. para o que está a chegar
    por causa da migração climática,
  181. incluindo os traumas que vêm
    com a perda e o realojamento.
  182. Podemos investir mais tempo na justiça,
  183. mas não pode ser uma coisa temporária,
  184. não pode ser para ajudar
    défices orçamentais,
  185. tem de ser uma mudança a longo prazo
  186. e tem de ser um avanço na justiça.
  187. Isto já é possível.
  188. Depois do furacão Katrina,

  189. universidades e liceus
    em todo os EUA alojaram alunos
  190. para os ajudar a terminar o semestre
    ou o ano sem perderem aulas.
  191. Esses estudantes são hoje ativos
    produtivos da nossa sociedade.
  192. É isto que as nossas comunidades,
    empresas e instituições
  193. precisam para se preparem para agora.
  194. O tempo é agora.
  195. Enquanto restruturamos o problema
    de uma forma mais verdadeira

  196. e restruturamos os nosso sistemas sociais
    numa forma mais justa,
  197. tudo o que nos resta fazer
    é "reindigenizar-nos"
  198. e invocarmos um poder
    de tipo muito antigo.
  199. Isto significa essencialmente
    que precisamos de aprender a seguir
  200. — não é torná-la num símbolo,
    nem torná-la exótica, nem ignorá-la —
  201. a liderança e o conhecimento tradicional
  202. de um determinado local.
  203. Isto significa que devemos dedicar-nos
    a padrões de igualdade ecológica,
  204. de justiça climática e de diretos humanos
  205. como a base, um padrão base,
  206. um ponto de partida,
  207. para onde vai a nossa nova sociedade.
  208. Tudo isto requer que reconheçamos
    um poder maior que nós próprios

  209. e uma vida mais longa
    do que as que iremos viver.

  210. Requer que acreditemos
    que somos privilegiados o suficiente
  211. para não termos de ver.
  212. Temos de honrar os direitos da Natureza.
  213. Temos de promover
    os direitos humanos para todos.
  214. Temos de transformar
    uma sociedade descartável,
  215. individual
  216. numa que veja o nosso coletivo,
    a humanidade a longo prazo,
  217. caso contrário não vamos sobreviver.
  218. Temos de ver que até os melhores
    de nós estão presos num sistema injusto,
  219. e temos de reconhecer
  220. que a única maneira de sobreviver
  221. é descobrindo
  222. como alcançar uma libertação
    partilhada em conjunto.
  223. Felizmente,

  224. somos provenientes de pessoas poderosas.
  225. Somos provenientes dos que,
    duma maneira ou de outra,
  226. sobreviveram até ao ponto
    de estarmos aqui hoje.
  227. Esta é uma razão suficiente para lutar.
  228. E aprendam com o vosso amigo
    do sul da Luisiana,
  229. as lutas mais difíceis
    são as melhores de festejar.
  230. Vamos escolher fazer disto
    a próxima fase da nossa bela existência,
  231. e enquanto o fazemos,
  232. vamos fazê-lo justo para todos.
  233. Nós conseguimos.

  234. Nós conseguimos, porque temos de o fazer.
  235. Nós temos de o fazer,
    senão perdemos o planeta
  236. e perdemo-nos a nós.
  237. O trabalho começa aqui.
  238. O trabalho começa em conjunto.
  239. Esta é a minha oferta.
  240. Obrigada por a receberem. Merci.

  241. (Aplausos)