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← Como os animais, os insetos e as plantas estão a evoluir nas cidades

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Showing Revision 7 created 10/01/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Este é o lugar onde cresci.
  2. Uma pequena aldeia
    perto da cidade de Roterdão
  3. na Holanda.
  4. Nos anos 70 e 80,
    quando eu era adolescente,
  5. esta área ainda era tranquila.
  6. Estava cheia de quintas,
    campos e pantanais.
  7. Eu passava ali o meu tempo livre,
    entretido,
  8. a pintar quadros a óleo como este,
  9. a colher flores silvestres,
    a observar as aves
  10. e também a colecionar insetos.
  11. Este foi um dos meus achados valiosos.

  12. Este é um besouro muito especial,
  13. um besouro fantástico chamado
    besouro-de-formiga.
  14. É um tipo de besouro
    que passa a vida toda
  15. dentro de um formigueiro.
  16. Ele evoluiu para falar "formiguês".
  17. Usa os mesmos sinais químicos,
  18. os mesmos odores que as formigas
    usam para comunicar entre si.
  19. Neste momento, este besouro
    está a dizer à formiga operária:
  20. "Olá, eu também sou uma formiga operária,
  21. "estou com fome, dá-me comida."
  22. E a formiga obedece,
  23. porque o besouro usa
    os mesmos sinais químicos.
  24. Ao longo de milhões de anos,
  25. este besouro evoluiu para viver
    numa sociedade de formigas.
  26. Ao longo dos anos,

  27. enquanto vivi naquela aldeia,
  28. apanhei 20 000 besouros diferentes
  29. e montei uma coleção
    de besouros presos por alfinetes.
  30. Isto fez com que, desde muito cedo,
    me interessasse pela evolução.
  31. Como é que aparecem
    todas estas formas diferentes,
    toda esta diversidade?
  32. Assim, vim a ser biólogo evolutivo,

  33. como Charles Darwin.
  34. E tal como Charles Darwin,
    também me senti frustrado
  35. pelo facto de a evolução ser uma coisa
    que ocorreu sobretudo no passado.
  36. Nós estudamos os padrões que vemos hoje,
  37. tentando compreender a evolução
    que ocorreu no passado,
  38. mas nunca a conseguimos ver
    acontecer em tempo real.
  39. Não conseguimos observá-la.
  40. Como Darwin disse:
  41. "Não vemos nenhuma
    dessas lentas transformações em marcha,
  42. "enquanto a mão do tempo
    não marcar o passar das eras."
  43. Ou será que vemos?
  44. Nas últimas décadas,

  45. os biólogos evolutivos
    perceberam que, às vezes,
  46. a evolução ocorre mais depressa
    e até pode ser observada,
  47. especialmente quando o ambiente
    muda drasticamente
  48. e a necessidade de adaptação é grande.
  49. E é claro, ultimamente
  50. as grandes mudanças ambientais
    habitualmente são causadas por nós.

  51. Nós cortamos, irrigamos,
    aramos, construímos,
  52. injetamos na atmosfera
    gases com efeito de estufa
  53. que mudam o clima.
  54. Introduzimos plantas e animais exóticos
  55. em lugares onde eles não viviam antes
  56. e pescamos, caçamos e abatemos árvores
    para alimentação e outras necessidades.
  57. Todas estas mudanças ambientais
    atingem o epicentro nas cidades.

  58. As cidades formam um habitat
    totalmente novo, criado por nós.
  59. Revestimos tudo com tijolos,
    cimento, vidro e aço,
  60. que são superfícies impermeáveis
  61. onde as plantas só conseguem enraizar
    com muita dificuldade.
  62. Também é nas cidades que encontramos

  63. as maiores concentrações
    de poluição química,
  64. de luz artificial e de ruído.
  65. Encontramos uma combinação absurda
    de plantas e animais
  66. do mundo inteiro que vivem na cidade,
  67. porque fugiram de jardins,
  68. de aquários e do comércio de animais.

  69. O que é que acontece com uma espécie

  70. num ambiente totalmente modificado?
  71. Infelizmente, muitas espécies
    extinguem-se.
  72. Mas as que não se extinguem
  73. adaptam-se de modo espetacular.
  74. Atualmente, os biólogos
    começam a perceber
  75. que as cidades são as panelas de pressão
    da evolução moderna.
  76. São lugares onde as plantas
    e os animais selvagens
  77. estão a evoluir depressa,
    diante dos nossos olhos,
  78. para se adequarem
    às novas condições urbanas.
  79. Tal qual como o besouro-de-formiga
    fez há milhões de anos,
  80. quando se mudou
    para uma colónia de formigas.
  81. Hoje encontramos animais e plantas
  82. que se mudaram para a colónia
    dos seres humanos
  83. e estão a adaptar-se às nossas cidades.
  84. Ao fazerem isso,
  85. também começamos a perceber
  86. que a evolução
    pode ocorrer muito depressa.
  87. Nem sempre demora "o passar das eras",
  88. pode acontecer diante dos nossos olhos.
  89. Este, por exemplo,
    é o rato-de-patas-brancas.

  90. É um mamífero nativo
    da área de Nova Iorque.
  91. Há mais de 400 anos,
    antes da construção da cidade,
  92. estes ratos viviam por toda a parte.
  93. Mas hoje estão limitados
    a pequenas ilhas de áreas verdes,
  94. os parques da cidade, rodeados
    por um mar de asfalto e de trânsito.
  95. Como uma versão moderna dos
    tentilhões de Darwin nos Galápagos.
  96. E, como os tentilhões de Darwin,

  97. os ratos de cada parque,
    em separado, começaram a evoluir,
  98. começaram a diferenciar-se uns dos outros.
  99. Este é o meu colega, Jason Munshi-South,
  100. da Universidade Fordham,
  101. que está a estudar este processo.
  102. Ele está a estudar o ADN
    dos ratos-de-patas-brancas
  103. nos parques de Nova Iorque,
  104. para tentar perceber como
    é que estão a começar a evoluir
  105. neste arquipélago de ilhas.
  106. Ele está a usar um tipo de ADN
    de impressões digitais, e diz:
  107. "Se me derem um rato,
  108. "sem me dizer de onde ele vem,
  109. "basta-me olhar para o ADN,
  110. "para dizer exatamente
    de que parque ele veio."
  111. Vejam até que ponto
    acabaram por ser diferentes.
  112. Jason também descobriu
    que essas mudanças,

  113. essas mudanças evolutivas,
  114. não são aleatórias,
    significam qualquer coisa.
  115. Por exemplo, no Central Park,
  116. encontramos ratos
    que desenvolveram genes
  117. que lhes permitem digerir
    comida muito gordurosa.
  118. Comida humana.
  119. Todos os anos, há 25 milhões de pessoas
    que visitam o Central Park.
  120. É o parque mais visitado
    na América do Norte.
  121. Essas pessoas deixam para trás lanches,
  122. amendoins e restos de comida,
  123. e os ratos começaram a comer isso,
  124. uma dieta totalmente diferente
    da que estavam habituados.
  125. Com o passar dos anos,
  126. começaram a adaptar-se
    a essa dieta humana, muito gordurosa.
  127. Este aqui é outro animal urbano
    espertalhuço.

  128. O caracol-de-jardim europeu.
  129. Um caracol muito vulgar,
  130. tem todos os tipos
    de variedade de cores,
  131. desde o amarelo-claro ao castanho-escuro.
  132. Essas cores são totalmente definidas
  133. pelo ADN do caracol.
  134. Essas cores também determinam
    a gestão de calor do caracol
  135. que vive dentro da casca.
  136. Por exemplo, um caracol
    exposto à luz do sol, a sol aberto,
  137. se tem uma casca amarelo-clara,
  138. não aquece tanto como um caracol
    que tem uma casca castanho-escuro.
  139. Tal como sentimos menos calor
    num carro branco
  140. do que se estivermos num carro preto.
  141. Há um fenómeno chamado
    ilhas de calor urbanas,

  142. o que significa que,
    no centro de uma grande cidade,
  143. a temperatura pode ser
    vários graus mais quente
  144. do que fora da cidade.
  145. Isso tem a ver
  146. com a concentração
    de milhões de pessoas,
  147. com todas as suas atividades
    e as suas máquinas
  148. que geram calor.
  149. Além disso, o vento é bloqueado
    pelos prédios altos,
  150. e todo o aço, tijolo e cimento
    absorvem o calor do sol
  151. e libertam-no durante a noite.
  152. Assim, temos uma bolha de ar quente
    no centro das grandes cidades.
  153. Os meus alunos e eu pusemos a hipótese
    de que talvez esses caracóis,
  154. com as suas cascas variadas,
  155. estejam a adaptar-se
    às ilhas de calor urbanas.
  156. Talvez nos centros das cidades
  157. talvez possamos descobrir
    que a cor da casca está a evoluir
  158. para reduzir o sobreaquecimento
    dos caracóis.
  159. Para estudar isto, começámos
    um projeto de ciência cidadã.

  160. Criámos um aplicativo gratuito
    para telemóvel
  161. que permite que as pessoas
    de toda a Holanda
  162. tirem fotos de caracóis
    nos seus jardins, na sua rua,
  163. e também em pleno campo,
  164. e enviá-las a uma plataforma
    de ciência cidadã.
  165. Durante um ano, recebemos 10 000 fotos
  166. de caracóis fotografados na Holanda,
  167. e, quando começámos
    a analisar os resultados,
  168. as nossas suspeitas confirmaram-se.
  169. No centro de ilhas de calor urbanas,
  170. descobrimos que os caracóis desenvolveram
    cascas mais amarelas, de cor mais clara.
  171. O caracol da cidade
    e o rato de Manhattan

  172. são apenas dois exemplos duma lista
    crescente de animais e plantas
  173. que evoluíram para se adaptarem
    a estes novos habitats
  174. estes habitats urbanos que criámos.
  175. Num livro que escrevi sobre este tema,
  176. o tema da evolução urbana,
  177. eu dou mais exemplos.
  178. Por exemplo, de ervas-daninhas
    que desenvolveram sementes
  179. que germinam melhor no pavimento.
  180. Gafanhotos que desenvolveram um canto
  181. num tom mais alto quando vivem
    perto do trânsito ruidoso.
  182. Mosquitos que evoluíram
    para sugar o sangue dos passageiros
  183. dentro das estações do metro.
  184. E até mesmo o pombo vulgar da cidade
  185. que desenvolveu maneiras
    de se desintoxicar
  186. da poluição dos metais pesados,
    colocando-os nas penas.
  187. Biólogos como eu, em todo o mundo,

  188. estão a interessar-se
    por estes processos fascinantes
  189. da evolução urbana.
  190. Estamos a perceber que vivemos
    um acontecimento singular
  191. na história da vida na Terra.
  192. Um ecossistema completamente novo
  193. que está a evoluir e a adaptar-se
    ao habitat que nós criámos.
  194. Mas não só os académicos,

  195. também começámos a recrutar
    milhões de mãos,
  196. de ouvidos e de olhos
    presentes nas cidades,
  197. de cientistas cidadãos, de estudantes.
  198. Juntamente com eles,
  199. estamos a construir
    uma rede de observação global
  200. que nos permite observar
    este processo de evolução urbana
  201. em tempo real.
  202. Ao mesmo tempo,
    fica claro para as pessoas
  203. que a evolução não é uma coisa abstrata,
  204. que precisamos de ir até
    aos Galápagos para estudar,
  205. ou ser um paleontólogo
    para entender como funciona.
  206. É um processo biológico muito comum
  207. que acontece o tempo todo, em toda parte.
  208. No nosso quintal, na nossa rua,
  209. do lado de fora deste teatro.
  210. Claro que há um outro lado,
    oposto ao meu entusiasmo.

  211. Quando volto à aldeia onde cresci,
  212. já não encontro os campos
    e os pantanais da minha juventude.
  213. A aldeia foi absorvida
  214. pelo crescimento da cidade de Roterdão.
  215. Hoje encontro centros comerciais,
  216. zonas residenciais
    e corredores para autocarros.
  217. A maioria dos animais e plantas
    que eu conhecia já desapareceram,
  218. incluindo, talvez,
    até o besouro-de-formiga.
  219. Mas consolo-me com o facto
    de que as crianças que crescem

  220. atualmente naquela aldeia
  221. podem não conhecer
    a natureza tradicional em que cresci,
  222. mas estão cercadas por
    um novo tipo de natureza,
  223. um novo tipo de ecossistema,
  224. que, para elas, pode ser tão empolgante
    como a antiga era para mim.
  225. Elas estão a viver numa
    versão moderna dos Galápagos.
  226. Ao fazerem equipa com cientistas cidadãos
  227. e com biólogos evolutivos, como eu,
  228. elas podem vir a ser
    os Darwins do século XXI,
  229. estudando a evolução urbana.
  230. Obrigado.

  231. (Aplausos)