Portuguese, Brazilian subtitles

← Como animais, insetos e plantas estão evoluindo nas cidades

Get Embed Code
33 Languages

Showing Revision 89 created 09/09/2020 by Maricene Crus.

  1. Eu cresci aqui,
  2. numa pequena vila perto
    da cidade de Roterdã,
  3. na Holanda.
  4. Nas décadas de 1970 e 1980,
    quando eu era adolescente,
  5. esta área ainda era um lugar tranquilo.
  6. Era cheia de fazendas, campos e pântanos,
  7. e eu passava meu tempo livre lá,
  8. me divertindo,
  9. fazendo pinturas a óleo como esta,
  10. coletando flores silvestres,
    observando pássaros
  11. e também coletando insetos.
  12. E este foi um dos meus
    achados mais valiosos.

  13. Ele é muito especial, o incrível
    besouro europeu barriga-vermelha.
  14. Ele passa toda a vida
    dentro de um formigueiro.
  15. Ele evoluiu para se comunicar
    com as formigas.
  16. Usa os mesmos sinais químicos
  17. e cheiros que as formigas
    usam para se comunicar,
  18. e este besouro está dizendo
    a esta formiga operária:
  19. "Ei, eu também sou uma formiga operária,
    estou com fome, por favor, me alimente".
  20. E a formiga obedece,
  21. porque o besouro usa
    as mesmas substâncias químicas.
  22. Ao longo de milhões de anos,
  23. este besouro desenvolveu um jeito de viver
    dentro de uma sociedade de formigas.
  24. Ao longo dos anos,
    quando eu morava naquela vila,

  25. reuni 20 mil besouros diferentes
  26. e montei uma coleção fixa.
  27. Desde muito cedo,
    me interessei pela evolução.
  28. Como surgem todas essas formas
    diferentes e essa diversidade?
  29. Então me tornei biólogo evolucionista,
    como Charles Darwin.

  30. E como ele, logo também fiquei frustrado
  31. pelo fato de que a evolução é algo
    que aconteceu principalmente no passado.
  32. Estudamos os padrões que vemos hoje,
  33. tentando entender a evolução
    que ocorreu no passado,
  34. mas nunca podemos ver isso
    acontecendo em tempo real.
  35. Não podemos observá-la.
  36. Como o próprio Darwin já disse:
  37. "Não vemos essas mudanças
    lentas em andamento,
  38. até que o ponteiro do tempo
    tenha marcado o decorrer das eras".
  39. Ou será que vemos?
  40. Nas últimas décadas,

  41. biólogos evolucionistas
    perceberam que, às vezes,
  42. a evolução avança muito mais rápido
    e pode realmente ser observada,
  43. especialmente quando o ambiente
    muda drasticamente
  44. e a necessidade de adaptação é grande.
  45. E, claro, hoje em dia,
  46. grandes mudanças ambientais
    geralmente são causadas por nós.
  47. Cortamos, irrigamos, aramos, construímos,
  48. bombeamos gases de efeito estufa
    na atmosfera que mudam o clima.
  49. Colocamos plantas exóticas e animais
    em lugares onde eles não viviam antes,
  50. e pegamos peixes, árvores e caça
    para alimentação e outras necessidades.
  51. E todas essas mudanças ambientais
    têm seu epicentro nas cidades.

  52. É um habitat completamente novo
    que nós mesmos criamos.
  53. E o cobrimos com tijolo,
    concreto, vidro e aço,
  54. criando superfícies impermeáveis
  55. que as plantas conseguem enraizar
    apenas com enorme dificuldade.
  56. Também nas cidades, temos
    as maiores concentrações

  57. de poluição química,
  58. luz artificial e ruído.
  59. Vemos misturas selvagens de plantas
    e animais do mundo todo vivendo na cidade,
  60. pois escaparam do comércio de jardinagem,
    aquários e animais de estimação.
  61. E o que será que uma espécie faz

  62. quando vive em um ambiente
    totalmente alterado?
  63. Infelizmente, muitas entram em extinção.
  64. Mas aquelas que não se extinguem,
    se adaptam de maneiras espetaculares.
  65. Os biólogos hoje em dia
    estão começando a perceber
  66. que as cidades são
    as "panelas de pressão" da evolução.
  67. São lugares onde plantas
    e animais selvagens
  68. estão evoluindo sob o nosso olhar
    muito rapidamente
  69. para se adequar a essas
    novas condições urbanas.
  70. Exatamente como aquele besouro
    fez milhões de anos atrás,
  71. quando se mudou
    para uma colônia de formigas.
  72. Agora encontramos animais e plantas
    que se moveram dentro da colônia humana
  73. e estão se adaptando às nossas cidades.
  74. E ao fazermos isso,
  75. também estamos começando a perceber
    que a evolução pode ocorrer muito rápido.
  76. Nem sempre leva um longo lapso de tempo;
    pode acontecer sob nossos olhos.
  77. Por exemplo, este é
    o camundongo de patas brancas.

  78. Mamífero nativo da área
    ao redor de Nova York,
  79. e mais de 400 anos atrás,
    antes da construção da cidade,
  80. este camundongo vivia em toda parte.
  81. Mas hoje em dia, estão presos
    em pequenas ilhas verdes,
  82. os parques da cidade, rodeados
    por um mar de asfalto e trânsito.
  83. Um pouco como uma versão moderna
    dos tentilhões de Darwin nas Galápagos.
  84. E da mesma forma,

  85. os camundongos de cada parque
    começaram a evoluir
  86. e a se tornar diferentes uns dos outros.
  87. Este é meu colega, Jason Munshi-South,
    da Universidade Fordham,
  88. que está estudando esse processo.
  89. Ele está estudando o DNA
    dos camundongos de patas brancas
  90. nos parques da cidade de Nova York,
  91. e tentando entender como eles
    estão começando a evoluir
  92. naquele arquipélago de ilhas.
  93. Ele está usando um tipo
    de impressão digital de DNA e diz:
  94. "Se alguém me der um camundongo,
  95. não me diga de onde vem.
  96. Apenas observando o DNA dele, já posso
    dizer exatamente de que parque vem".
  97. Isso mostra o quanto eles
    se tornaram diferentes.
  98. Jason também descobriu
    que essas mudanças evolutivas,

  99. não são aleatórias, elas significam algo.
  100. Por exemplo, no Central Park,
  101. descobrimos que os camundongos
    desenvolveram genes
  102. que lhes permitem lidar
    com alimentos muito gordurosos.
  103. Comida humana.
  104. Todos os anos, 25 milhões de pessoas
    visitam o Central Park.
  105. É o parque mais visitado
    da América do Norte.
  106. As pessoas deixam para trás salgadinhos,
    amendoim e outras comidas nada saudáveis,
  107. e os camundongos começaram a comer isso,
  108. uma dieta totalmente diferente
    daquela a que estão acostumados,
  109. e ao longo dos anos,
  110. eles evoluíram para se adequar
    a essa dieta muito gordurosa e humana.
  111. Este é outro animal urbano:
    o caracol de jardim europeu,

  112. que é muito comum e tem
    todo tipo de variação de cores,
  113. de amarelo pálido a marrom escuro.
  114. E essas cores são totalmente
    determinadas pelo DNA do caracol.
  115. Elas também determinam
    o controle de calor do caracol
  116. que vive dentro dessa concha.
  117. Por exemplo, um caracol
    que fica exposto ao sol forte,
  118. se tem uma concha amarela pálida,
  119. não aquece tanto quanto um caracol
    dentro de uma concha marrom-escura.
  120. Assim como sentimos que fica mais fresco
    dentro de um carro de cor clara,
  121. do que dentro de um carro preto.
  122. Existe um fenômeno chamado ilhas de calor,

  123. que significa que no centro
    de uma grande cidade,
  124. a temperatura pode ser vários graus
    mais alta do que fora dela.
  125. Isso tem a ver com o fato
  126. de que as concentrações
    de milhões de pessoas,
  127. e suas atividades e máquinas, geram calor.
  128. Além disso, o vento é bloqueado
    pelos altos edifícios,
  129. e todo o aço, tijolo e concreto
    absorvem o calor solar
  130. e o irradiam à noite.
  131. Então há uma bolha de ar quente
    no centro das grandes cidades,
  132. e meus alunos e eu descobrimos
    que talvez aqueles caracóis de jardim,
  133. com suas conchas variáveis,
  134. estejam se adaptando às ilhas de calor.
  135. Talvez no centro de uma cidade,
    a cor da casca esteja evoluindo
  136. para reduzir o superaquecimento
    dos caracóis.
  137. E para estudar isso,
    começamos um projeto de ciência cidadã.

  138. Criamos um aplicativo gratuito
    que permitiu a todos na Holanda
  139. tirar fotos de caracóis em jardins, ruas,
  140. no campo também,
  141. e as carregassem em uma plataforma
    da web de ciência do cidadão.
  142. Ao longo de um ano, obtivemos 10 mil fotos
  143. de caracóis fotografados na Holanda,
  144. e quando começamos
    a analisar os resultados,
  145. nossas suspeitas foram confirmadas.
  146. No centro das ilhas de calor,
  147. vimos que os caracóis desenvolveram
    conchas mais amarelas e claras.
  148. O caracol da cidade
    e o camundongo de Manhattan

  149. são apenas dois exemplos de uma lista
    crescente de animais e plantas
  150. que evoluíram para se adequar
    a este habitat urbano que criamos.
  151. Em um livro que escrevi
    sobre a evolução urbana,
  152. dou muitos outros exemplos.
  153. Como as ervas daninhas
    que desenvolveram sementes
  154. que germinam melhor na calçada.
  155. Gafanhotos que desenvolveram um som
  156. com um tom mais alto quando vivem
    perto de um tráfego barulhento.
  157. Mosquitos que evoluíram para se alimentar
    do sangue de passageiros humanos
  158. dentro das estações de metrô.
  159. E até mesmo o pombo comum da cidade,
    que desenvolveu formas de se desintoxicar
  160. da poluição por metais pesados
    mantendo-os em suas penas.
  161. No mundo todo, biólogos como eu

  162. estão se interessando
    por este processo fascinante
  163. da evolução urbana.
  164. Estamos percebendo que é um evento
    único na história da vida na Terra.
  165. Um ecossistema completamente novo
  166. que está evoluindo e se adaptando
    a um habitat que nós mesmos criamos.
  167. E não apenas acadêmicos.

  168. Também estamos começando
    a recrutar milhões de pares de mãos,
  169. ouvidos e olhos presentes na cidade.
  170. Cidadãos cientistas, alunos;
  171. junto com eles,
  172. estamos construindo
    uma rede global de observação
  173. que nos permite acompanhar
    este processo de evolução urbana
  174. em tempo real.
  175. Ao mesmo tempo, isso também
    deixa claro para as pessoas
  176. que a evolução não é apenas algo abstrato
  177. que é preciso viajar
    para Galápagos para estudar,
  178. ou ser paleontólogo para entender.
  179. É um processo biológico muito comum
  180. que está acontecendo o tempo todo,
    em todos os lugares.
  181. No seu quintal, na rua onde você mora,
  182. aqui fora deste auditório.
  183. Mas existe, é claro,
    o outro lado do meu entusiasmo.

  184. Quando eu volto para a vila onde cresci,
  185. já não encontro aqueles campos
    e pântanos que conhecia desde a juventude.
  186. A vila agora foi absorvida
    pela crescente aglomeração de Roterdã,
  187. e então, encontro shoppings,
    subúrbios e corredores de ônibus.
  188. E muitos dos animais e plantas
    com que eu estava acostumado
  189. desapareceram, incluindo
    talvez aquele besouro.
  190. Mas eu me consolo com o fato
    de que as crianças crescendo

  191. naquela vila hoje
  192. podem não estar mais vivenciando
    a natureza tradicional com a qual cresci,
  193. mas estão rodeadas por um novo tipo
    de natureza, de ecossistema,
  194. que, para elas, pode ser tão excitante
    quanto o tipo antigo foi para mim.
  195. Elas estão morando
    em uma nova e moderna Galápagos.
  196. Ao se associar a cidadãos cientistas
    e a biólogos evolucionistas como eu,
  197. elas podem se tornar
    os Darwins do século 21,
  198. e estudar a evolução urbana.
  199. Obrigado.

  200. (Aplausos)