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← A nossa conversa sobre imigração é defeituosa — aqui está como ter uma melhor

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Showing Revision 4 created 11/11/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Hoje em dia, ouvimos frequentemente
    que o sistema de imigração é defeituoso.
  2. Eu gostaria de defender hoje
  3. que a nossa conversa sobre imigração
    também é defeituosa
  4. e sugerir alguns meios para que, juntos,
    possamos construir uma melhor.
  5. Para tal fim, vou propor
    algumas novas perguntas
  6. sobre imigração,
  7. sobre os Estados Unidos
  8. e sobre o mundo,
  9. perguntas que podem mover as fronteiras
    do debate sobre a imigração.
  10. Não vou começar com a discussão acesa
    que temos hoje em dia,

  11. enquanto as vidas e o bem-estar
    dos imigrantes estão em risco
  12. nas fronteiras dos EUA
    e muito para além delas.
  13. Em vez disso, vou começar
    por mim mesmo, na pós-graduação
  14. em Nova Jersey, em meados dos anos 90,
    estudante apaixonado da história dos EUA
  15. que é o que ensino atualmente,
    como professor
  16. na Universidade de Vanderbilt,
    em Nashville, no Tennessee.
  17. Quando eu não estava a estudar,
  18. às vezes, para evitar escrever
    a minha dissertação,
  19. os meus amigos e eu íamos à cidade
  20. para distribuir panfletos em neon,
    protestando contra a legislação
  21. que estava a ameaçar
    retirar os direitos dos imigrantes.
  22. Os nossos panfletos eram sinceros,
    eram bem intencionados,

  23. estavam factualmente corretos...
  24. Mas agora eu percebo que eles
    também eram um problema.
  25. O que eles diziam era:
  26. "Não retirem os direitos dos imigrantes
    ao ensino público,
  27. "aos serviços médicos,
    à rede de segurança social.
  28. "Eles trabalham arduamente.
  29. "Pagam impostos.
  30. "São cumpridores da lei.
  31. "Usam menos os serviços sociais
    do que os americanos.
  32. "Estão dispostos a aprenderem inglês,
  33. "e os filhos deles prestam serviço militar
    aos EUA em todo o mundo."
  34. Esses são os argumentos
    que ouvimos todos os dias.
  35. Os imigrantes e os seus defensores
  36. usam-nos quando enfrentam
    os que negam os direitos dos imigrantes
  37. ou que os excluiriam da sociedade.
  38. Até certo ponto, faz todo o sentido
  39. que essas seriam o tipo de reivindicações
  40. a que recorreriam
    os defensores dos imigrantes.
  41. Mas, a longo prazo,
    e talvez até a curto prazo,

  42. eu acho que esses argumentos
    podem ser contraproducentes.
  43. Porquê?
  44. Porque é sempre uma batalha muito difícil
  45. defendermo-nos no terreno
    do nosso adversário.
  46. Involuntariamente, os panfletos que
    os meus amigos e eu estávamos a distribuir
  47. e as versões desses argumentos
    que ouvimos hoje em dia
  48. estavam a jogar o jogo anti-imigrante.
  49. Estávamos a jogar o jogo,
    em parte por considerar
  50. que os imigrantes
    eram pessoas do exterior,
  51. ao contrário de — como espero
    sugerir dentro de minutos —
  52. serem pessoas que já estão,
    de forma importante, no interior.
  53. São aqueles que são hostis
    aos imigrantes — os nativistas —
  54. que conseguiram enquadrar
    o debate da imigração
  55. em três questões principais.
  56. Primeiro, há a questão de os imigrantes
    poderem ser ferramentas úteis.

  57. Como é que nós podemos usar os imigrantes?
  58. Vão tornar-nos mais ricos
    e mais poderosos?
  59. A resposta nativista
    a esta pergunta é: não,
  60. Os imigrantes não têm nada
    ou quase nada a oferecer.
  61. A segunda pergunta é
    se imigrantes são "outros".

  62. Os imigrantes podem tornar-se
    mais como nós?
  63. Conseguem vir a ser como nós somos?
  64. Conseguem integrar-se?
  65. Estão dispostos a integrar-se?
  66. Aqui, de novo,
    a resposta nativista é: não.
  67. Os imigrantes serão sempre
    diferentes de nós e inferiores a nós.
  68. E a terceira pergunta é
    se os imigrantes são parasitas.

  69. São perigosos para nós?
  70. Será que eles esgotarão
    os nossos recursos?
  71. Aqui, a resposta nativista é:
  72. "Sim e sim, os imigrantes representam
    uma ameaça e sugam as nossas riquezas".
  73. Estas três perguntas e a animosidade
    dos nativistas por detrás delas,
  74. conseguiram enquadrar os contornos
    gerais do debate sobre a imigração.
  75. Estas perguntas são anti-imigrantes
    e nativistas no seu cerne,
  76. construídas em volta duma divisão
    hierárquica dos de dentro e os de fora,
  77. nós e eles,
  78. na qual só nós temos importância
  79. e eles não.
  80. O que dá a essas perguntas
    força e poder,
  81. para além do círculo de nativistas
    empenhados,
  82. é a forma como eles exploram
    uma noção quotidiana,
  83. aparentemente inofensiva,
    de pertença nacional,
  84. a ativam, a elevam
  85. e a inflamam.
  86. Os nativistas empenham-se
    em fazer distinções absolutas

  87. entre os de dentro e os do exterior.
  88. Mas a própria distinção está no centro
    da forma como as nações se definem.
  89. As fissuras entre dentro e fora,
  90. que frequentemente se enraízam
    nas questões de etnia e de religião,
  91. estão sempre ali para serem
    aprofundadas e exploradas.
  92. Isso potencialmente dá à abordagem
    nativista uma repercussão
  93. muito para além daqueles
    que se consideram anti-imigrantes,
  94. e, até mesmo, entre aqueles
    que se consideram pró-imigrantes.
  95. Por exemplo, quando os aliados
    da Lei dos Imigrantes
  96. respondem a essas perguntas
    que os nativistas fazem,
  97. levam-nas a sério.
  98. Legitimam essas perguntas
    e, em certa medida,
  99. as suposições anti-imigrantes
    que estão por detrás delas.
  100. Quando levamos essas perguntas a sério,
    sem darmos por isso,
  101. estamos a reforçar as cerradas,
    fronteiras de exclusão
  102. da conversa sobre a imigração.
  103. Então como chegámos até aqui?

  104. Como é que essas se tornaram as principais
    formas para falarmos sobre a imigração?
  105. Vamos recapitular um pouco.
  106. É aqui que entra em cena
    a minha formação em história.
  107. Durante o primeiro século dos EUA
    na sua situação de nação independente,
  108. pouco se fez para restringir
    a imigração a nível nacional.
  109. Aliás, vários políticos e funcionários
    trabalharam arduamente
  110. para recrutar imigrantes
  111. para desenvolver a indústria
  112. e para servirem de colonos,
    para se apoderarem do continente.
  113. Mas, depois da Guerra Civil,
  114. as vozes nativistas aumentaram
    em volume e em poder.
  115. Os asiáticos, os latino-americanos,
    os caribenhos e os imigrantes europeus
  116. que escavaram os canais dos americanos,
  117. que cozinharam os seus jantares,
  118. que lutaram nas suas guerras
  119. e que puseram na cama
    as crianças, à noite,
  120. encontraram uma xenofobia intensa
  121. que apelidou os imigrantes
    de estranhos permanentes
  122. que nunca deviam ser autorizados
    a tornarem-se "de dentro".
  123. Até meados de 1920,
    os nativistas ganharam,

  124. aprovando leis racistas
  125. que excluíram números inauditos
    de imigrantes e refugiados vulneráveis.
  126. Os imigrantes e os seus aliados
    deram seu melhor para reagir,
  127. mas encontraram-se na defensiva,
  128. presos, de certa forma,
    nas molduras nativistas.
  129. Quando os nativistas diziam
    que os imigrantes não eram úteis,
  130. os aliados dos imigrantes
    diziam: "Sim, são".
  131. Quando os nativistas acusaram
    os imigrantes de serem os outros,
  132. os aliados dos imigrantes prometeram
    que eles se iam integrar.
  133. Quando os ativistas
    acusavam os imigrantes
  134. de serem parasitas perigosos,
  135. os aliados dos imigrantes realçavam
    a sua lealdade, a sua obediência,
  136. o seu trabalho duro
    e a sua economia de gastos.
  137. Mesmo quando os defensores
    davam as boas-vindas aos imigrantes,
  138. muitos deles ainda consideravam
    os imigrantes como estranhos,
  139. dignos de dó, de serem resgatados,
    de serem estimulados,
  140. e de serem tolerados,
  141. mas nunca totalmente incluídos
    como iguais em respeito e em direitos.
  142. Depois da II Guerra Mundial

  143. e, especialmente, a partir de meados
    dos anos 60 até recentemente,
  144. os imigrantes e os seus aliados
    inverteram a maré,
  145. derrubando as restrições
    dos meados do século XX
  146. e ganhando um novo sistema que dava
    prioridade à reunificação da família,
  147. à admissão de refugiados
  148. e à admissão dos que tinham
    capacidades especiais.
  149. Mas, mesmo nessa altura,
  150. não conseguiram mudar
    fundamentalmente, os termos do debate
  151. e assim, aquele enquadramento perdurou,
  152. pronto para ser assumido de novo
    no nosso momento convulsivo.
  153. Esta conversa é defeituosa.
  154. As antigas perguntas
    são prejudiciais e fraturantes.
  155. Então, como passamos desta conversa

  156. para uma que, mais provavelmente,
    nos trará para um mundo mais honesto,
  157. que seja mais justo,
  158. que seja mais seguro?
  159. Eu quero sugerir que o que devemos fazer
  160. é uma das coisas mais difíceis
    que uma sociedade pode fazer:
  161. é voltar a traçar as fronteiras
    de quem é importante,
  162. cuja vida, cujos direitos
  163. cuja prosperidade é importante.
  164. Precisamos de voltar
    a traçar as fronteiras.
  165. Precisamos de voltar a traçar
    as nossas fronteiras pessoais.
  166. Para isso, precisamos, primeiro,
    de agarrar na visão do mundo
  167. que é amplamente aceite
    mas também seriamente defeituosa.
  168. De acordo com essa visão do mundo,
  169. há o lado de dentro das fronteiras
    nacionais, o interior da nação,
  170. que é onde moramos, trabalhamos
    e cuidamos dos nossos interesses.
  171. E depois há o lado de fora;
    há tudo o resto.
  172. De acordo com essa visão do mundo,
    quando os imigrantes entram na nação,
  173. estão a passar
    do lado de fora para dentro,
  174. mas continuam a ser de fora.
  175. Qualquer poder ou recursos
    que eles recebam
  176. são mais presentes nossos do que direitos.
  177. Não é difícil perceber porque é
    que essa é uma visão do mundo tão comum.

  178. Ela é reforçada na forma quotidiana
  179. com que falamos, agimos
    e nos comportamos,
  180. até aos mapas com fronteiras
    que penduramos nas salas de aula.
  181. O problema com essa visão do mundo
    é que ela não corresponde minimamente
  182. à forma como o mundo funciona
  183. e à forma como funcionava no passado.
  184. Claro, os trabalhadores americanos
    criaram riqueza na sociedade.
  185. Mas os imigrantes também,
  186. particularmente, em partes da economia
    americana que são indispensáveis
  187. e onde poucos americanos trabalham,
    como a agricultura.
  188. Desde a fundação da nação,
  189. os americanos estiveram dentro
    da força de trabalho americana.
  190. Claro, os americanos criaram
    instituições na sociedade
  191. que garantem direitos.
  192. Mas os imigrantes também.
  193. Eles estiveram presentes durante
    cada um dos grandes movimentos sociais,
  194. como o de direitos civis
    ou o do trabalho organizado,
  195. em que lutaram para alargar
    os direitos da sociedade para todos.
  196. Assim, os imigrantes
    já estão dentro da luta
  197. pelos direitos, pela democracia
    e pela liberdade.
  198. E, finalmente, os americanos
    e outros cidadãos do hemisfério norte

  199. não se preocuparam só
    com os seus problemas
  200. e não ficaram dentro
    das suas fronteiras.
  201. Não respeitaram as fronteiras
    dos outros países
  202. Foram mundo fora com os seus exércitos.
  203. Apoderaram-se dos
    territórios e recursos
  204. e extraíram lucros enormes
    de muitos dos outros países
  205. de onde os imigrantes vêm.
  206. Nesse sentido, muitos imigrantes
    já estão inseridos no poder americano.
  207. Tendo em mente este mapa diferente,
    de mentalidade de dentro e de fora,
  208. a questão não é se os países recetores
  209. vão deixar os imigrantes entrar.
  210. Eles já estão lá dentro.
  211. A questão é se os EUA e os outros países
  212. vão conceder aos imigrantes
    o acesso aos direitos e aos recursos
  213. que, num papel fundamental,
    com o seu trabalho e ativismo,
  214. eles e os seus países de origem
    ajudaram a criar

  215. Com esse novo mapa em mente,
  216. podemos tratar de várias perguntas novas,
    difíceis e urgentemente necessárias,
  217. radicalmente diferente daquelas
    que perguntávamos antes,
  218. perguntas que podem mudar
    as fronteiras do debate sobre a imigração.
  219. As nossas três perguntas
    são sobre os direitos dos trabalhadores,
  220. sobre a sua responsabilidade
  221. e sobre a igualdade.
  222. Primeiro, precisamos de fazer perguntas
    sobre os direitos dos trabalhadores.

  223. Como é que as políticas existentes
    dificultam os imigrantes de se defenderem
  224. e facilitam a sua exploração,
  225. fazendo baixar os salários, os direitos
    e a proteção para toda a gente?
  226. Quando os imigrantes são ameaçados
    por vistorias, detenções e deportações,
  227. os seus patrões sabem
    que eles podem ser violentados
  228. que lhes podem dizer
    que, se eles reagirem,
  229. serão entregues aos serviços da Imigração.
  230. Quando os patrões sabem
  231. que podem aterrorizar um imigrante
    por falta de documentação,
  232. isso torna o trabalhador hiper-explorável,
  233. e isso gera impactos,
    não só para os trabalhadores imigrantes
  234. mas para todos os trabalhadores.
  235. Em segundo lugar, precisamos de fazer
    perguntas sobre a responsabilidade.

  236. Qual é o papel que têm os países
    ricos e poderosos como os EUA,
  237. fazendo com que seja difícil ou impossível
  238. que os imigrantes se mantenham
    nos seus países de origem?
  239. Fazer as malas e sair do nosso país
    é difícil e perigoso,
  240. mas muitos imigrantes não têm
    possibilidade de ficar no seu país,
  241. se quiserem sobreviver.
  242. Guerras, tratados comerciais
  243. e hábitos de consumo enraizados
    no hemisfério norte
  244. exercem um papel
    preponderante e devastador.
  245. Quais são as responsabilidades que os EUA,
  246. a União Europeia e a China
  247. — os maiores emissores
    de carbono do mundo —
  248. têm perante os milhões de pessoas
    já desalojadas pelo aquecimento global?
  249. E em terceiro lugar, precisamos
    de fazer perguntas sobre a igualdade.

  250. A desigualdade mundial é um problema
    doloroso que está a intensificar-se.
  251. As receitas e a sua disparidade
    estão a agravar-se em todo o mundo.
  252. Progressivamente, o que determina
    se somos pobres ou ricos,
  253. mais do que qualquer outra coisa,
  254. é o país onde nascemos,
  255. o que pode parecer ótimo
    se somos de um país próspero.
  256. Mas o que, na verdade, significa
    é uma profunda e injusta distribuição
  257. das hipóteses de ter
    uma vida longa, saudável e plena.
  258. Quando os imigrantes mandam
    dinheiro ou bens para as famílias,
  259. isso exerce um papel significativo
    em diminuir essas disparidades,
  260. apesar de ser um papel incompleto.
  261. Isso faz mais do que todos os programas
    de auxílio ao estrangeiro, juntos,
  262. no mundo inteiro.
  263. Começámos com as perguntas nativistas

  264. sobre imigrantes como ferramentas,
  265. como os "outros"
  266. e como parasitas.
  267. Onde é que estas novas perguntas
    sobre direitos dos trabalhadores
  268. sobre responsabilidades
  269. e sobre igualdade
  270. podem levar-nos?
  271. Estas perguntas rejeitam a pena
    e abraçam a justiça.
  272. Essas questões rejeitam
    a divisão nativista e nacionalista
  273. de nós contra eles.
  274. Vão ajudar-nos a prepararmo-nos
    para os problemas que estão a chegar
  275. e para problemas
    como o aquecimento global
  276. que já estão entre nós.
  277. Não vai ser fácil virar as costas
    às perguntas que estivemos a fazer,

  278. a esta nova série de perguntas.
  279. Não é um desafio pequeno
  280. assumir e ampliar
    as nossas fronteiras pessoais.
  281. Vai ser preciso sagacidade,
    criatividade e coragem.
  282. As velhas perguntas
    têm estado connosco há muito tempo,
  283. e não vão ceder o caminho
    por si mesmas,
  284. não vão ceder o caminho
    do dia para a noite.
  285. E mesmo que consigamos
    mudar essas perguntas,
  286. as respostas vão ser complicadas,
  287. e vão requerer sacrifícios e compromissos.
  288. Num mundo desigual, teremos
    sempre de prestar atenção
  289. à pergunta de quem tem o poder
    para se juntar à conversa
  290. e quem não tem.
  291. Mas as fronteiras
    do debate sobre a imigração
  292. podem ser alteradas.
  293. Cabe a todos nós alterá-las.
  294. Obrigado.

  295. (Aplausos)