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← Nossa conversa sobre imigração está falida. Veja como podemos mudar para uma melhor.

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Showing Revision 12 created 01/12/2020 by Elisa Santos.

  1. Frequentemente ouvimos
    que o sistema de imigração está falido.
  2. Hoje quero argumentar
    que a conversa sobre imigração está falida
  3. e sugerir alguns caminhos
    para, juntos, construirmos algo melhor.
  4. Para isso, vou propor novas perguntas
  5. sobre imigração,
  6. sobre os Estados Unidos
  7. e sobre o mundo.
  8. Perguntas que podem mudar
    as fronteiras do debate sobre imigração.
  9. Não vou começar pelo debate ardente
    que temos atualmente,
  10. até porque a vida e o bem-estar
    dos imigrantes estão em risco
  11. na fronteira norte-americana
    e bem além dela.
  12. Em vez disso, vou começar
    por mim, na pós-graduação,
  13. em New Jersey em meados da década de 1990,
    estudando seriamente a história dos EUA,
  14. que ensino atualmente
    como professor na Vanderbilt University
  15. em Nashville, Tennessee.
  16. E quando eu não estava estudando,
    às vezes para fugir da minha dissertação,
  17. meus amigos e eu íamos para a cidade
  18. distribuir panfletos coloridos,
    protestando contra as leis
  19. que ameaçavam retirar
    os direitos dos imigrantes.
  20. Nossos panfletos eram sinceros,
    bem-intencionados,
  21. precisos...
  22. Mas hoje percebo que eles tinham
    outro tipo de problema.
  23. Eles diziam o seguinte:
  24. "Não retirem o direito
    dos imigrantes à educação pública,
  25. aos serviços de saúde,
    à rede de seguridade social.
  26. Eles trabalham duro.
  27. Eles pagam impostos.
  28. Eles respeitam a lei.
  29. Eles usam menos serviços sociais
    do que os norte-americanos.
  30. Eles se esforçam para aprender inglês,
  31. e seus filhos servem no exército
    norte-americano no mundo todo".
  32. Ouvimos esses argumentos todos os dias.
  33. Os imigrantes e seus defensores os usam
  34. ao confrontar aqueles que negam
    direitos aos imigrantes
  35. ou mesmo os excluem da sociedade.
  36. E até certo ponto, faz muito sentido
  37. que os defensores dos imigrantes
    aleguem esse tipo de coisa.
  38. Mas, a longo prazo,
    e talvez mesmo a curto prazo,
  39. acho que esses argumentos
    podem ser contraproducentes.
  40. Por quê?
  41. Porque sempre é uma batalha árdua
  42. defender-se no terreno de seu oponente.
  43. E, inadvertidamente,
    os panfletos que entregávamos
  44. e as versões desses argumentos
    que ouvimos hoje em dia
  45. estavam, na verdade,
    jogando contra os imigrantes.
  46. Em parte estávamos jogando esse jogo
  47. como se os imigrantes fossem forasteiros,
  48. em vez de, como quero sugerir em breve,
  49. serem pessoas que já estão aqui,
    do lado de dentro, de formas importantes.
  50. Os nativistas, que são
    hostis aos imigrantes,
  51. tiveram sucesso em enquadrar
    o debate sobre a imigração
  52. em três perguntas principais.
  53. Primeiro, se os imigrantes
    podem ser ferramentas úteis.
  54. Como nós podemos usar os imigrantes?
  55. Eles nos tornarão
    mais ricos e mais fortes?
  56. A resposta nativista
    para essa pergunta é não,
  57. os imigrantes têm pouco
    ou nada para oferecer.
  58. A segunda pergunta é
    se os imigrantes são "os outros".
  59. Os imigrantes podem
    se parecer mais conosco?
  60. Eles conseguem se parecer mais conosco?
  61. Eles conseguem se integrar?
  62. Eles querem se integrar?
  63. De novo, a resposta nativista é não,
  64. os imigrantes são permanentemente
    diferentes de nós e inferiores a nós.
  65. E a terceira pergunta é
    se os imigrantes são parasitas.
  66. Eles são perigosos para nós?
    Eles vão drenar nossos recursos?
  67. Aqui, a resposta nativista é sim e sim,
  68. os imigrantes representam uma ameaça
    e vão solapar nossa riqueza.
  69. Eu sugiro que essas três perguntas
    e a animosidade nativista por trás delas
  70. tiveram sucesso em definir
    os contornos do debate sobre imigração.
  71. Essas perguntas são nativistas
    e anti-imigrantes em seu cerne,
  72. construídas em torno de uma espécie
    de divisão hierárquica
  73. entre quem é de dentro e quem é de fora,
  74. nós e eles,
  75. na qual só nós importamos,
  76. e eles não.
  77. E o que dá força e poder
    a essas perguntas,
  78. para além do círculo dos nativistas,
  79. é a forma como elas tocam
  80. em um sentimento cotidiano e aparentemente
    inofensivo de pertencimento nacional
  81. e ativam, aumentam
    e inflamam esse sentimento.
  82. Os nativistas se empenham
    em fazer distinções cruéis
  83. entre quem é de dentro e quem é de fora.
  84. Mas a própria distinção está no cerne
    de como as nações se definem.
  85. As fissuras entre dentro e fora,
  86. que normalmente se concentram
    em questões de raça e religião,
  87. estão sempre ali para serem
    aprofundadas e exploradas.
  88. E isso potencialmente ecoa
    as abordagens nativistas
  89. muito além daqueles
    que se consideram anti-imigrantes,
  90. e, notadamente, mesmo entre alguns
    que se consideram a favor dos imigrantes.
  91. Então, por exemplo, quando os aliados
    da Lei dos Imigrantes
  92. respondem as perguntas
    colocadas pelos nativistas,
  93. eles as levam a sério.
  94. Eles legitimam essas perguntas
    e, de certa forma,
  95. as suposições anti-imigrantes
    que estão por trás delas.
  96. Quando levamos essas perguntas a sério,
  97. sem saber, estamos reforçando
    as fronteiras fechadas e restritivas
  98. da conversa sobre imigração.
  99. Como chegamos a isso?
  100. Como essa se tornou a principal forma
    de falarmos sobre imigração?
  101. Aqui, precisamos de um pouco de contexto,
    e é onde entra minha formação em história.
  102. Durante o primeiro século dos EUA
    como nação independente,
  103. foi feito muito pouco, nacionalmente,
    para restringir a imigração.
  104. De fato, muitos políticos e empregadores
    se empenharam em recrutar imigrantes
  105. que fortaleceram a indústria
  106. e serviram de colonos,
    para se apropriarem do continente.
  107. Mas depois da Guerra Civil,
  108. a voz dos nativistas
    ganhou volume e poder.
  109. Os imigrantes asiáticos,
    latino-americanos, caribenhos e europeus,
  110. que cavaram canais
    para os norte-americanos,
  111. cozinharam seus jantares,
  112. lutaram suas guerras,
  113. e colocaram suas crianças para dormir,
  114. se depararam com uma nova
    e intensa xenofobia,
  115. que colocava os imigrantes
    como forasteiros permanentes
  116. que nunca poderiam se tornar
    "pessoas de dentro".
  117. Em meados da década de 1920,
    os nativistas venceram,
  118. instaurando leis racistas
  119. que excluíam inúmeros imigrantes
    e refugiados vulneráveis.
  120. Os imigrantes e seus aliados
    fizeram o possível para resistir,
  121. mas estavam na defensiva,
  122. de alguma forma presos
    no enquadramento dos nativistas.
  123. Quando os nativistas disseram
    que os imigrantes não eram úteis,
  124. seus aliados disseram: "Sim, eles são".
  125. Quando os nativistas acusaram
    os imigrantes de serem "outros",
  126. os aliados deles prometeram
    que eles iriam se integrar.
  127. Quando os nativistas
  128. acusaram os imigrantes
    de serem parasitas perigosos,
  129. seus aliados enfatizaram
    a lealdade, a obediência,
  130. o trabalho árduo e a parcimônia deles.
  131. Mesmo quando defensores
    deram boas-vindas aos imigrantes,
  132. muitos ainda consideraram
    os imigrantes como forasteiros,
  133. de quem deviam sentir pena,
    ou que deviam resgatar,
  134. inspirar,
  135. e tolerar,
  136. mas que nunca foram tratados
    como iguais em direitos e respeito.
  137. Depois da Segunda Guerra Mundial,
    especialmente de meados da década de 1960
  138. até muito recentemente,
  139. os imigrantes e seus aliados
    inverteram a maré,
  140. derrubando as restrições
    dos meados do século 20
  141. e conquistando um novo sistema
    que priorizava a reunificação familiar,
  142. a admissão de refugiados
  143. e a admissão de quem tivesse
    habilidades especiais.
  144. Mas mesmo então,
  145. não tiveram sucesso em mudar
    fundamentalmente os termos do debate,
  146. e assim a estrutura persistiu,
  147. pronta para ser retomada
    neste momento convulsivo.
  148. Essa conversa está falida.
  149. As perguntas antigas
    são danosas e divisivas.
  150. Então como podemos ir dessa conversa
  151. para uma que possa nos aproximar
    de um mundo mais igual,
  152. mais justo,
  153. mais seguro?
  154. Sugiro que precisamos fazer
  155. uma das coisas mais difíceis
    que qualquer sociedade pode fazer:
  156. redefinir a fronteira
    de quem é importante;
  157. quem são as pessoas cuja vida, direitos
  158. e prosperidade importam.
  159. Precisamos redefinir essas fronteiras.
  160. Precisamos redefinir as nossas fronteiras.
  161. Para isso, primeiro precisamos confrontar
    uma visão de mundo mantida globalmente,
  162. mas também imensamente falha.
  163. De acordo com essa visão de mundo,
  164. há o lado de dentro
    das fronteiras nacionais,
  165. o lado de dentro da nação,
  166. onde nós vivemos, trabalhamos
    e cuidamos da nossa vida.
  167. E há o lado de fora: todo o resto.
  168. Por essa visão de mundo,
  169. quando os imigrantes cruzam
    a fronteira para dentro da nação,
  170. eles passam de fora pra dentro,
  171. mas continuam forasteiros.
  172. Qualquer poder ou recurso que eles recebam
  173. são presentes nossos, e não direitos.
  174. Não é difícil ver por que essa é
    uma visão de mundo usualmente mantida.
  175. Ela é reforçada na forma cotidiana
    como falamos, agimos e nos comportamos,
  176. de acordo com as fronteiras dos mapas
    pendurados em nossas salas de aula.
  177. O problema com essa visão de mundo
    é que ela não corresponde
  178. à forma como o mundo realmente funciona
  179. e como funcionou no passado.
  180. Claro, os trabalhadores norte-americanos
    geraram riqueza para a sociedade.
  181. Mas os imigrantes também,
  182. especialmente em áreas indispensáveis
    da economia norte-americana
  183. e nas quais poucos norte-americanos
    trabalham, como a agricultura.
  184. Desde que a nação foi fundada,
  185. os norte-americanos fizeram parte
    da força de trabalho dos EUA.
  186. É claro que os norte-americanos
    fortaleceram as instituições da sociedade
  187. que garantem os direitos.
  188. Mas os imigrantes também.
  189. Eles estiveram presentes
    nos principais movimentos sociais,
  190. como o movimento por direitos civis
    e do trabalho organizado,
  191. que lutaram para expandir
    os direitos para todos na sociedade.
  192. Então os imigrantes já estão dentro,
  193. na luta por direitos,
    democracia e liberdade.
  194. E, finalmente, os norte-americanos
    e outros cidadãos do Norte Global
  195. não cuidaram só de sua vida
  196. e não se mantiveram
    dentro de suas fronteiras.
  197. Eles não respeitaram
    as fronteiras de outras nações.
  198. Saíram pelo mundo com seus exércitos,
  199. tomaram territórios e recursos,
  200. e extraíram lucros imensos
    de muitos dos países
  201. de onde vêm os imigrantes.
  202. Nesse sentido, muitos imigrantes já estão
    dentro da potência norte-americana.
  203. Considerando esse outro mapa
    de "dentro" e "fora",
  204. a questão não é se os países
    que recebem imigrantes
  205. vão deixar os imigrantes entrarem.
  206. Eles já estão dentro.
  207. A questão é se os EUA e outros países
  208. vão dar aos imigrantes
    acesso aos direitos e recursos
  209. em cuja criação o trabalho,
    o ativismo e o país natal deles
  210. já tiveram um papel fundamental.
  211. Considerando esse novo mapa,
  212. podemos nos voltar para um conjunto
    de perguntas duras, novas e urgentes,
  213. radicalmente diferentes
    das que fizemos antes.
  214. Perguntas que podem mudar
    as fronteiras do debate sobre imigração.
  215. Nossas três perguntas são
    sobre direitos dos trabalhadores,
  216. sobre responsabilidade,
  217. e sobre igualdade.
  218. Primeiro, precisamos perguntar
    sobre direitos dos trabalhadores.
  219. Como as políticas existentes dificultam
    os imigrantes a se defenderem
  220. e facilitam que eles sejam explorados,
  221. reduzindo salários, direitos
    e proteções para todos?
  222. Quando os imigrantes são ameaçados
    com vistorias, detenções e deportações,
  223. seus empregadores sabem
    que eles podem ser agredidos,
  224. que podem dizer a eles que, se resistirem,
    serão levados ao serviço de imigração.
  225. Quando os empregadores sabem
  226. que podem aterrorizar um imigrante
    por sua falta de documentação,
  227. esse trabalhador se torna hiperexplorável,
  228. e isso impacta não só
    os trabalhadores imigrantes
  229. mas todos os trabalhadores.
  230. Segundo, precisamos fazer perguntas
    sobre responsabilidade.
  231. Qual é o papel de países ricos
    e poderosos como os Estados Unidos
  232. em tornar difícil ou impossível
  233. para os imigrantes permanecerem
    em seu país de origem?
  234. Juntar suas coisas e sair de seu país
    é difícil e perigoso,
  235. mas muitos imigrantes simplesmente
    não têm a opção de permanecer em sua casa,
  236. se quiserem sobreviver.
  237. Guerras, acordos comerciais
  238. e hábitos de consumo
    arraigados no Norte Global
  239. têm um papel importante e devastador.
  240. Que responsabilidades os Estados Unidos,
  241. a União Europeia e a China,
  242. líderes mundiais em emissão de carbono,
  243. têm com os milhões de pessoas
    já desalojadas pelo aquecimento global?
  244. E terceiro, precisamos fazer
    perguntas sobre igualdade.
  245. A desigualdade global é um problema
    desolador e crescente.
  246. Desigualdades de renda e bens
    crescem no mundo todo.
  247. Cada vez mais, o que determina
    se você é rico ou pobre,
  248. mais que qualquer outra coisa,
    é o país em que você nasce.
  249. O que pode parecer ótimo,
    se você nasce em um país próspero.
  250. Mas que, na verdade, significa
    uma distribuição profundamente injusta
  251. das chances de uma vida
    longa, saudável e plena.
  252. Quando imigrantes enviam
    dinheiro ou bens para a família,
  253. isso tem um papel importante
    em reduzir essas diferenças,
  254. ainda que insuficiente.
  255. Isso significa mais do que todos programas
    do mundo de ajuda a estrangeiros,
  256. juntos.
  257. Começamos com as perguntas nativistas
  258. que tratam os imigrantes como ferramentas,
  259. como "os outros"
  260. e como parasitas.
  261. Aonde essas novas perguntas
    sobre direitos dos trabalhadores,
  262. sobre responsabilidade
  263. e sobre igualdade
  264. nos levam?
  265. Essas perguntas rejeitam
    a pena e incluem a justiça.
  266. Essas perguntas rejeitam
    a divisão nativista e nacionalista
  267. de nós contra eles.
  268. Vão nos ajudar a nos prepararmos
    para os problemas que virão
  269. e problemas como o aquecimento global
    que já estão nos afetando.
  270. Não vai ser fácil mudar
    das perguntas que temos feito
  271. para esse novo conjunto de perguntas.
  272. Não é um desafio pequeno
  273. opor-se e expandir
    nossas próprias fronteiras.
  274. Será preciso perspicácia,
    criatividade e coragem.
  275. As perguntas antigas
    nos acompanharam por muito tempo,
  276. e não vão desaparecer por si,
  277. e nem da noite para o dia.
  278. E mesmo que consigamos mudar as perguntas,
  279. as respostas serão complicadas,
  280. e vão exigir sacrifícios e negociações.
  281. E, em um mundo desigual, precisamos
    sempre prestar atenção à pergunta
  282. de quem tem poder pra se juntar à conversa
  283. e quem não tem.
  284. Mas as fronteiras
    do debate sobre imigração
  285. podem ser alteradas.
  286. Está nas mãos de todos nós alterá-las.
  287. Obrigado.
  288. (Aplausos)