YouTube

Got a YouTube account?

New: enable viewer-created translations and captions on your YouTube channel!

Portuguese subtitles

← Como meia dúzia de aldeias piscatórias deram origem a uma revolução na conservação marinha

Get Embed Code
19 Languages

Showing Revision 5 created 11/11/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Sou biólogo marinho
  2. e venho falar-vos da crise nos oceanos
  3. mas, desta vez, com uma mensagem
    que talvez nunca tenham ouvido,
  4. porque quero dizer-vos
    que, se a sobrevivência dos oceanos
  5. dependesse apenas de pessoas como eu,
  6. dos cientistas que colaboram
    em publicações,
  7. estaríamos numa situação
    muito pior do que estamos.
  8. Porque, enquanto cientista,
  9. a coisa mais importante que aprendi,
  10. para manter os oceanos
    saudáveis e produtivos,
  11. não foi na faculdade,
    mas com os pescadores
  12. que vivem nalguns dos países
    mais pobres do planeta.
  13. Enquanto conservacionista, aprendi
    que a pergunta mais importante não é:
  14. "Como mantemos as pessoas afastadas?"
  15. mas "Como queremos garantir
    que as populações costeiras do mundo
  16. "tenham o suficiente para comer?"
  17. Os oceanos são tão fundamentais
    para a nossa sobrevivência
  18. como a atmosfera,
    as florestas ou os solos.
  19. A sua espantosa produtividade
    equipara as pescas com a agricultura,
  20. enquanto alicerces
    da produção de alimentos
  21. para a Humanidade.
  22. Mas há coisas que estão
    a correr muito mal.

  23. Estamos a acelerar
    uma situação de extinção
  24. uma situação que a minha área
    até aqui não tem conseguido deter.
  25. Na essência, trata-se de uma crise
    humana e humanitária.
  26. O golpe mais devastador sofrido
    pelos oceanos até aqui

  27. é a pesca em excesso.
  28. Todos os anos, pescamos mais,
    mais profundamente, mais longe.
  29. Todos os anos, pescamos menos peixe.
  30. A crise da pesca excessiva
    é um grande paradoxo,
  31. é desnecessária, é evitável
    e totalmente reversível,
  32. porque as pescas são um dos recursos
    mais produtivos do planeta.
  33. Com as estratégias adequadas
    podemos inverter a pesca excessiva.
  34. O facto de ainda não o termos feito,
    na minha opinião,
  35. é um dos maiores fracassos
    da Humanidade.
  36. Em parte alguma, este fracasso
    é mais evidente

  37. do que nas águas quentes
    de cada lado do Equador.
  38. Os trópicos albergam
    a maioria das espécies do oceano,
  39. e a maioria das pessoas cuja existência
    depende dos mares.
  40. Chamamos e estes pescadores costeiros
    "pescadores de pequena escala"
  41. mas "pequena escala"
    é uma palavra incorreta.
  42. para uma frota que engloba mais de 90%
    dos pescadores mundiais.
  43. A pesca deles é geralmente
    mais seletiva e sustentável
  44. do que a destruição indiscriminada
  45. demasiadas vezes efetuada
    por barcos industriais maiores.

  46. Estas populações costeiras
    têm mais a ganhar com a conservação
  47. porque, para muitos deles,
  48. a pesca é o que os livra da pobreza,
    da fome ou da migração forçada
  49. em países onde o Estado
    por vezes é incapaz de os ajudar.
  50. Sabemos que o quadro geral é sombrio:
  51. os "stocks" desaparecem nas linhas
    da frente da alteração climática,
  52. o aquecimento dos mares,
    os recifes moribundos,
  53. as tempestades catastróficas,
  54. arrastões, frotas fábricas,
  55. navios gananciosos de países mais ricos
    que pescam mais do que a sua quota.
  56. Uma vulnerabilidade extrema
    é a nova normalidade.
  57. Eu desembarquei pela primeira vez
    na ilha de Madagáscar, há 20 anos,

  58. com a missão de documentar
    a sua história natural marinha.
  59. Fiquei deslumbrado com os recifes
    corais que explorei
  60. e sabia bem como os proteger,
  61. porque a ciência fornecia
    todas as respostas:
  62. fechar as áreas dos recifes
    permanentemente.
  63. Os pescadores costeiros
    tinham de pescar menos peixe.
  64. Abordei os anciãos aqui
    na aldeia de Andavadoaka
  65. e recomendei-lhes que fechassem
    a todos os tipos de pesca
  66. os recifes de corais mais saudáveis
    e mais diferenciados
  67. para formarem um refúgio
    que ajudasse a recomposição dos "stocks"
  68. porque, conforme a ciência nos diz,
    ao fim de uns cinco anos,
  69. as populações de peixes nesses refúgios
    seriam muito maiores,
  70. repovoando as áreas
    de pesca para além deles,
  71. e melhorando a vida de toda a gente.
  72. Essa conversa não correu lá muito bem.

  73. (Risos)

  74. Três quartos da população
    de 27 milhões de Madagáscar

  75. vivem com menos de dois dólares por dia.
  76. O meu apelo fervoroso
    para pescarem menos não teve em conta
  77. o que isso significava
    para aquelas pessoas
  78. que dependem da pesca
    para a sua sobrevivência.
  79. Era mais uma imposição do exterior,
  80. uma restrição, em vez duma solução.
  81. O que é que a proteção duma longa lista
    de nomes latinos de espécies
  82. significa para Resaxx,
    uma mulher de Andavadoaka
  83. que pesca todos os dias
    para pôr comida na mesa
  84. e enviar os netos para a escola?
  85. Essa rejeição inicial ensinou-me
    que a conservação, na sua essência,
  86. é um percurso de escutar intensamente
  87. de perceber as pressões e as realidades
    que as comunidades enfrentam
  88. dada a sua dependência da Natureza.
  89. Esta ideia tornou-se
    no princípio fundador do meu trabalho
  90. e deu azo a uma organização
    que trouxe uma nova abordagem
  91. à conservação do oceano,
  92. trabalhando para recriar as pescas
    com as comunidades costeiras.
  93. Nessa época, tal como hoje,
    o trabalho começou por escutar.
  94. O que aprendemos deixou-nos estupefactos.
  95. Nessa altura, no sul seco de Madagáscar,

  96. soubemos que havia uma espécie
    extremamente importante para os aldeões:
  97. este polvo espantoso.
  98. Soubemos que a procura crescente
    estava a dar cabo dum recurso económico.
  99. Mas também soubemos que este animal
    cresce extremamente depressa,
  100. duplicando de peso
    ao fim de um ou dois meses.
  101. Argumentámos que a proteção
    de uma pequena área de pescas apenas
  102. durante uns meses,
  103. levaria a um aumento drástico das pescas,
  104. o suficiente para fazer a diferença
    nos resultados desta comunidade,
  105. num período que podia ser aceitável.
  106. A comunidade também pensou o mesmo,
  107. optando por suspender,
    temporariamente, a pesca do polvo,
  108. numa pequena área dos recifes,
  109. usando um código social habitual,
  110. que envolvia as bênçãos dos antepassados,
    para evitar a pesca furtiva.
  111. Quando esses recifes reabriram
    à pesca, seis meses depois,
  112. ninguém estava preparado
    para o que aconteceu a seguir.
  113. As pescas dispararam.
  114. Homens e mulheres apanhavam
    polvos cada vez maiores,
  115. como ninguém já via há anos.
  116. As aldeias vizinhas viram
    a explosão das pescas
  117. e tiraram as suas conclusões,
  118. espalhando o modelo como um vírus
    por centenas de quilómetros da costa.
  119. Quando fizemos as contas.
  120. vimos que estas comunidades,
    das mais pobres do planeta,
  121. tinham encontrado uma forma
    de duplicar as receitas
  122. numa questão de meses, pescando menos.
  123. Imaginem uma conta de poupança
  124. de onde tiramos metade
    do saldo, todos os anos
  125. e as poupanças continuam a aumentar.
  126. Não há nenhuma oportunidade
    de investimento, no planeta,
  127. que possa retribuir
    o que as pescas retribuem.
  128. Mas a magia real
    funcionou para além do lucro,

  129. porque ocorreu uma transformação
    mais profunda nestas comunidades.
  130. Incitados pelo aumento das pescas,
  131. os líderes de Andavadoaka juntaram forças
    com duas dúzias de comunidades vizinhas
  132. para instituir uma grande área
    de conservação,
  133. ao longo de dúzias
    de quilómetros da costa.
  134. Proibiram pescar com veneno
    e com redes mosquiteiras
  135. e instituíram refúgios permanentes
  136. em volta dos recifes de coral
    e dos mangais ameaçados,
  137. incluindo, para minha grande surpresa,
  138. as mesmas ideias que eu tinha ventilado
    dois anos antes,
  139. quando a minha evangelização
    para a proteção marinha
  140. tinha sido redondamente rejeitada.
  141. Criaram uma área protegida
    liderada pela comunidade,
  142. um sistema democrático
    para o governo marinho local
  143. que era totalmente inimaginável
    alguns anos antes.
  144. Mas não se ficaram por aqui.

  145. Em cinco anos, asseguraram
    direitos legais do Estado
  146. para gerir 500 km2 do oceano,
  147. eliminando das águas
    arrastões industriais destruidores,
  148. Dez anos depois, estamos a ver
    a recuperação dos recifes críticos
  149. no interior desses refúgios.
  150. As comunidades estão a requerer
    um reconhecimento maior
  151. dos seus direitos a pescar
  152. e a preços mais justos
    que recompensem a sustentabilidade.
  153. Mas tudo isto é apenas
    o início da história,

  154. porque esta meia dúzia
    de aldeias piscatórias em ação
  155. tinham provocado uma revolução
    na conservação marinha
  156. que se espalhara por milhares
    de quilómetros,
  157. com impacto em centenas
    de milhares de pessoas.
  158. Hoje, em Madagáscar, centenas de locais
    são geridos pelas comunidades,
  159. que aplicam esta abordagem à conservação,
    com base nos direitos humanos
  160. a todos os tipos de pescas,
    desde os caranguejos às cavalinhas.
  161. O modelo transpôs fronteiras
    para a África Oriental e o Oceano Índico
  162. e está agora a percorrer as ilhas
    até ao sudeste asiático.
  163. Da Tanzânia a Timor Leste,
    da Índia à Indonésia,
  164. estamos a ver ocorrer a mesma história
  165. de que, quando a concebemos
    como deve ser,
  166. a conservação marinha recolhe dividendos
  167. que vão muito além
    da proteção da Natureza,
  168. melhorando as pescas
  169. e motivando ondas de mudança social
    ao longo das costas,
  170. reforçando a confiança, a cooperação
  171. e a resiliência das comunidades
    para enfrentar a injustiça da pobreza
  172. e a alteração climática.
  173. Eu tenho sido privilegiado
    por passar a minha carreira

  174. a catalisar e a interligar
    estes movimentos nos trópicos
  175. e aprendi que, enquanto conservacionistas,
  176. o nosso objetivo é ganhar em escala,
  177. em vez de perder mais lentamente.
  178. Precisamos de aproveitar
    esta oportunidade global
  179. para reconstituir as pescas:
  180. com trabalhadores no terreno
    para ligação com as comunidades
  181. e para as interligar, para as apoiar
    a atuar e a aprender umas com as outras;
  182. com governos e advogados
    ao lado das comunidades
  183. para garantir os seus direitos
    para gerir as pescas;
  184. dar prioridade aos alimentos locais
    e à segurança dos empregos,
  185. acima de todos os interesses
    em competição na economia dos oceanos;
  186. acabar com os subsídios
    para frotas industriais
  187. grosseiramente sobrecapitalizadas
  188. e manter os barcos
    industriais e estrangeiros
  189. fora das águas costeiras.
  190. Precisamos de sistemas de dados ágeis
  191. que coloquem a ciência
    nas mãos das comunidades,
  192. para otimizar a conservação
    das espécies alvo ou dos "habitats".
  193. Precisamos de organizações
    de desenvolvimento,
  194. de doadores e de uma instituição
    de conservação
  195. que eleve a ambição deles
    à escala do investimento
  196. urgentemente necessária
    para concretizar esta visão.
  197. Para lá chegar,
  198. precisamos de reimaginar
    a conservação marinha
  199. enquanto narrativa
    de abundância e de poder,
  200. não de austeridade nem de alienação;
  201. um movimento guiado pelas pessoas
  202. que dependem dos mares saudáveis
    para a sua sobrevivência,
  203. não por valores científicos abstratos.
  204. Claro que limitar a pesca excessiva
    é apenas um passo para curar o oceano.

  205. Os horrores do aquecimento, a acidificação
    e a poluição aumentam todos os dias.
  206. Mas é um passo enorme.
  207. É um passo que podemos dar hoje
  208. e é um passo que dará
    um impulso muito necessário
  209. para as soluções de exploração
  210. para outras dimensões
    da nossa emergência oceânica.
  211. O nosso êxito impulsiona o deles.
  212. Se desistirmos, desesperados,
  213. o jogo acabou.
  214. Resolvemos estes desafios
    agarrando num de cada vez.
  215. A nossa enorme dependência
    dos oceanos é a solução

  216. que tem estado escondida
    à vista desarmada,
  217. porque não há nada pequeno
    nos pescadores de pequena escala.
  218. Têm a força de cem milhões
    e fornecem alimento a milhares de milhões.
  219. É este exército de conservacionistas
    de todos os dias
  220. que têm mais coisas em jogo.
  221. Só eles têm os conhecimentos
    e o alcance global necessário
  222. para remodelar a nossa relação
    com os nossos oceanos.
  223. Ajudá-los a conseguir isso é a coisa
    mais importante que podemos fazer

  224. para manter vivos os nossos oceanos.
  225. Obrigado.

  226. (Aplausos)