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← Como algumas aldeias de pescadores desencadearam uma revolução da conservação marinha

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Showing Revision 15 created 11/04/2019 by Maricene Crus.

  1. Eu sou biólogo marinho
  2. e estou aqui para lhes falar
    sobre a crise em nossos oceanos.
  3. Mas, desta vez, eu não seja portador
    de uma mensagem que já tenham ouvido,
  4. porque queria dizer-lhes
    que se a sobrevivência dos oceanos
  5. dependesse apenas de pessoas como eu,
  6. de cientistas que colaboram
    em publicações especializadas,
  7. estaríamos em uma situação
    muito pior do que estamos.
  8. Porque, como cientista,
  9. as coisas mais importantes que aprendi
  10. sobre manter nossos oceanos
    saudáveis e produtivos,
  11. não vieram da faculdade, mas de pescadores
  12. que vivem em alguns dos lugares
    mais pobres do planeta.
  13. Tenho aprendido que,
    como conservacionista,
  14. a pergunta mais importante não é:
    "Como mantemos as pessoas de fora?",
  15. e sim: "Como temos certeza de que
    as populações costeiras do mundo todo
  16. têm alimento suficiente?"
  17. Cada um de nossos oceanos
    é tão essencial para nossa sobrevivência
  18. quanto a atmosfera,
    as florestas e os solos.
  19. A produtividade espantosa dos oceanos
    equipara a pesca à agricultura,
  20. como um pilar da produção
    de alimento para a humanidade.
  21. Porém, algo tem dado errado.

  22. Estamos acelerando
    um processo de extinção,
  23. com o qual minha área de atuação
    tem falhado totalmente em lidar.
  24. No centro da questão,
    há uma crise humana e humanitária.
  25. O golpe mais devastador sofrido
    até agora por nossos oceanos

  26. é causado pela sobrepesca.
  27. A cada ano, pescamos mais,
    mais profundo e mais distante.
  28. A cada ano, pescamos menos peixe.
  29. Entretanto, a crise da sobrepesca
    constitui um grande paradoxo:
  30. é desnecessária, evitável
    e totalmente reversível,
  31. porque a pesca é uma das fontes
    mais lucrativas do planeta.
  32. Com as estratégias corretas,
    podemos reverter a sobrepesca.
  33. A meu ver, o fato de ainda
    não termos feito isso
  34. é uma das grandes falhas da humanidade.
  35. Em nenhum lugar essa falha é tão evidente

  36. quanto nas águas quentes
    em ambos os lados da Linha do Equador.
  37. Nossos trópicos são o habitat
    para a maioria das espécies oceânicas
  38. e de muitas pessoas cuja sobrevivência
    depende de nossos mares.
  39. Podemos chamá-las
    de "pescadores de pequeno porte",
  40. mas esse termo é inapropriado
  41. para um grupo que corresponde
    a mais de 90% dos pescadores do mundo.
  42. A pesca que eles realizam
    é geralmente mais seletiva e sustentável
  43. do que a destruição desenfreada
  44. frequentemente empreendida
    por barcos pesqueiros maiores.
  45. Esses habitantes costeiros
    têm muito a ganhar com a conservação,
  46. pois, para muitos deles,
  47. é a pesca que os livra da pobreza,
    da fome ou da migração forçada
  48. em países nos quais o Estado
    muitas vezes não pode ajudar.
  49. Sabemos que o panorama é sombrio:
  50. as reservas diminuem nas linhas
    de frente da mudança climática,
  51. o aquecimento dos oceanos,
  52. a morte dos recifes de corais,
    tempestades catastróficas, traineiras,
  53. frotas de empresas
  54. e navios gananciosos de países ricos
    que pescam além da quota.
  55. A extrema vulnerabilidade
    é a nova realidade.
  56. Desembarquei pela primeira vez
    na ilha de Madagascar há 20 anos,

  57. com a missão de documentar
    a história natural marinha.
  58. Fiquei fascinado pelos recifes
    de coral que explorei
  59. e certamente sabia como protegê-los,
  60. porque a ciência fornecia
    todas as respostas:
  61. fechar permanentemente
    as áreas próximas a eles.
  62. Os pescadores costeiros
    simplesmente precisavam pescar menos.
  63. Eu fui falar com os anciões
    da aldeia de Andavadoaka
  64. e sugeri que fechassem a parte mais
    saudável e diversificada dos recifes
  65. a todas as formas de pesca,
  66. para criar um refúgio que ajudaria
    na recuperação das reservas,
  67. porque, segundo os cientistas,
    após cerca de cinco anos,
  68. as populações de peixes nesses refúgios
    seriam muito maiores,
  69. reconstituindo as áreas de pesca ao redor,
  70. melhorando as condições para todos.
  71. Aquela conversa não foi muito boa.

  72. Três quartos da população
    de 27 milhões da ilha de Madagascar

  73. vivem com menos de US$ 2 por dia.
  74. Meu sincero apelo para que pescassem
    menos não levou em conta
  75. o que aquilo de fato significaria
  76. para pessoas que dependem
    da pesca para sobreviver.
  77. Foi apenas outra pressão exterior,
    foi uma restrição e não uma solução.
  78. O que representa proteger uma longa lista
    de espécies com nomes em latim pra Resaxx,
  79. uma mulher de Andavadoaka
    que pesca todos os dias
  80. pra colocar comida na mesa
    e mandar os netos para a escola?
  81. Aquela rejeição inicial me ensinou
    que o ponto crucial da conservação
  82. é uma jornada de ouvir com atenção,
  83. de entender as pressões e as realidades
    que as comunidades enfrentam
  84. em razão da dependência da natureza.
  85. Essa ideia tornou-se o princípio
    fundamental do meu trabalho
  86. e culminou em uma organização
    que trouxe uma nova abordagem
  87. da conservação dos oceanos,
  88. por meio do trabalho de reformulação
    da pesca com as comunidades costeiras.
  89. Naquele tempo, assim como agora,
    o trabalho começou escutando-os,
  90. e o que descobrimos nos surpreendeu.
  91. De volta ao seco sul de Madagascar,

  92. soubemos que uma espécie era
    extremamente importante para o aldeões:
  93. esse polvo impressionante.
  94. Descobrimos que a crescente demanda
    estava extinguindo esse recurso econômico.
  95. Também descobrimos que esse animal
    cresce surpreendentemente rápido,
  96. dobrando de peso a cada um ou dois meses.
  97. Concluímos que proteger
    apenas uma pequena área de pesca
  98. por apenas alguns meses,
  99. poderia aumentar
    drasticamente o volume de pesca,
  100. o suficiente para fazer a diferença
    para o resultado dessa comunidade,
  101. em um período que talvez fosse aceitável.
  102. A comunidade concordava conosco e
    decidiu fechar uma pequena área do recife
  103. para a pesca de polvo
    por um tempo, fazendo um ritual
  104. para invocar as bençãos dos ancestrais,
    para que evitassem a pesca ilegal.
  105. Quando aquele recife foi reaberto
    para a pesca seis meses depois,
  106. nenhum de nós estava preparado
    para o que aconteceria.
  107. O volume de pesca aumentou,
  108. as pessoas capturavam
    polvos cada vez maiores,
  109. como não se via há anos.
  110. As aldeias vizinhas viram
    o crescimento da pesca
  111. e criaram os próprios cercos,
  112. o que fez com que o modelo se espalhasse
    por centenas de quilômetros da costa.
  113. Quando fizemos as contas,
  114. vimos que essas comunidades,
    que estão entre as mais pobres do mundo,
  115. tinham descoberto como dobrar a renda
    em questão de meses, pescando menos.
  116. Imaginem uma conta poupança da qual
    sacam metade do saldo todos os anos,
  117. mas o dinheiro continua aumentando.
  118. Não existem oportunidades
    de investimento no planeta
  119. que possam retribuir de forma
    eficaz como a pesca o faz.
  120. Mas a verdadeira mágica
    foi além dos lucros,

  121. pois uma mudança muito mais profunda
    estava acontecendo naquelas comunidades.
  122. Estimulados pelo aumento da pesca,
  123. líderes de Andavadoaka se aliaram
    a várias comunidades vizinhas
  124. para criar uma vasta área de conservação,
  125. que se estendia por quilômetros
    ao longo da costa.
  126. Eles proibiram a pesca com veneno
    e com redes mosquiteiras,
  127. e criaram refúgios permanentes
  128. ao redor de recifes de coral
    e de mangues ameaçados,
  129. incluindo, para minha surpresa,
  130. aqueles mesmos aspectos que eu tinha
    apresentado apenas dois anos antes,
  131. quando minha doutrina da proteção
    marinha foi completamente rejeitada.
  132. Criaram uma área de proteção
    liderada pela comunidade,
  133. um sistema democrático
    para a administrar a vida marinha local,
  134. que teria sido totalmente
    inconcebível alguns anos antes.
  135. E eles não pararam por aí:

  136. em 5 anos, obtiveram
    direitos legais do Estado
  137. para administrar
    mais de 320 km² do oceano,
  138. banindo das águas as traineiras
    industriais destrutivas.
  139. Dez anos depois, temos visto
    a recuperação dos recifes críticos
  140. dentro daqueles refúgios.
  141. As comunidades estão exigindo maior
    reconhecimento do direito de pesca
  142. e preços mais justos
    que recompensem a sustentabilidade.
  143. Mas tudo isso é apenas
    o começo da história,

  144. pois as medidas tomadas
    por essas poucas aldeias
  145. desencadearam uma revolução
    de conservação da vida marinha
  146. que se espalhou
    por milhares de quilômetros,
  147. atingindo centenas de milhares de pessoas.
  148. Hoje, em Madagascar, centenas de áreas
    são administradas pelas comunidades,
  149. e aplicam essa abordagem baseada
    nos direitos humanos à conservação,
  150. a todos os tipos de pesca,
    dos caranguejos da lama à cavalinha.
  151. Esse modelo cruzou as fronteiras
    do leste da África e do Oceano Índico
  152. e agora se multiplica
    pelas ilhas do sudeste asiático.
  153. Da Tanzânia ao Timor-Leste,
    da Índia à Indonésia,
  154. estamos vendo o desenrolar
    da mesma história:
  155. que quando planejamos bem,
  156. a conservação marinha rende dividendos
    que vão além da proteção da natureza,
  157. melhorando a pesca
  158. e provocando ondas de mudança social
    ao longo de costas inteiras,
  159. fortalecendo a confiança, a cooperação
  160. e a resiliência de comunidades
    que enfrentam as injustiças da pobreza
  161. e da mudança climática.
  162. Tenho sido privilegiado
    de passar minha carreira

  163. catalizando e interligando
    esses movimentos pelos trópicos,
  164. e aprendi, como conservacionista,
  165. que nossa meta deve ser
    vencer em grande escala,
  166. e não perder aos poucos.
  167. Precisamos intensificar
    essa oportunidade global
  168. para reformular a pesca:
  169. com trabalhadores de campo
    que permaneçam nessas comunidades
  170. e as interliguem, para ajudá-las a agir
    e a aprender umas com as outras;
  171. com governantes e advogados
    que apoiem essas comunidades
  172. para assegurar direitos
    para a administração da pesca;
  173. com a priorização do alimento local
    e da garantia de emprego,
  174. acima de todos os interesses competitivos
    na economia dos oceanos;
  175. e o fim dos subsídios
    para as frotas industriais
  176. grotescamente sobrecapitalizadas,
  177. e que essas embarcações estrangeiras
    fiquem fora das águas costeiras.
  178. Precisamos de sistemas ágeis de dados
  179. que coloquem a ciência
    nas mãos das comunidades,
  180. para potencializar a conservação
    das espécies-alvo ou do habitat.
  181. Precisamos de agências de desenvolvimento,
  182. de financiadores
    e de agências de conservação
  183. que elevem sua ambição
    à escala de investimento,
  184. o que é fundamental
    para concretizar esse ideal.
  185. E, para chegar lá,
  186. todos nós temos que repensar
    a conservação marinha,
  187. como uma experiência
    de abundância e de fortalecimento,
  188. e não de rigor e de alienação;
  189. um movimento guiado pelas pessoas
  190. que dependem de mares
    saudáveis para sobreviverem,
  191. não por valores científicos abstratos.
  192. Eliminar a sobrepesca é apenas um passo
    para consertar nossos oceanos.

  193. Os horrores do aquecimento global,
    da acidificação e da poluição
  194. crescem a cada dia.
  195. Mas é um grande passo.
  196. É um passo que podemos dar hoje
  197. e que dará um impulso essencial
  198. para encontrar soluções para a exploração
  199. de outras áreas emergenciais
    de nossos oceanos.
  200. O nosso sucesso estimula o deles.
  201. Se desistirmos por desespero,
    o jogo estará acabado.
  202. Resolvemos esses desafios
    quando os encaramos, um a um.
  203. Nossa extrema dependência
    dos oceanos é a solução

  204. que tem passado despercebida,
  205. porque não há nada de pequeno
    nos pescadores de pequeno porte.
  206. São 100 milhões de pessoas
    que fornecem alimento para bilhões.
  207. É esse exército de conservacionistas,
    que trabalham todos os dias,
  208. que está em perigo.
  209. Somente eles têm o conhecimento
    e o alcance global necessários
  210. para reconstruir a relação
    com nossos oceanos.
  211. Ajudá-los a conseguir isso
    é o que podemos fazer de mais poderoso

  212. para manter nossos oceanos vivos.
  213. Obrigado.

  214. (Aplausos)