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← Sebastião Salgado: O silencioso drama da fotografia

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Subtitles translated from English Showing Revision 11 created 05/24/2013 by Rita Maia.

  1. Não estou certo de que
    todas as pessoas aqui
  2. estejam familiarizadas
    com as minhas fotografias.
  3. Vou começar por vos
    mostrar algumas fotografias
  4. e depois falarei.
  5. Devo contar-vos um
    pouco da minha história

  6. porque é sobre isso que vamos falar
  7. durante o meu discurso aqui.
  8. Eu nasci no Brasil em 1944,
  9. numa época em que o Brasil ainda
    não era uma economia de mercado.
  10. Nasci numa quinta,
  11. uma quinta em que mais
    de metade ainda era floresta tropical.
  12. Um sítio maravilhoso.
  13. Vivi com pássaros e animais incríveis.
  14. Nadei nos nossos lagos
    com os nossos caimões.
  15. Eram cerca de 35 famílias
    que viviam nesta quinta
  16. e tudo o que produzíamos lá, consumíamos.
  17. Muito pouco ia para o mercado.
  18. Uma vez por ano, a única coisa
    que ia para o mercado
  19. era o gado que criávamos.
  20. Fazíamos viagens de 45 dias
  21. até chegarmos ao matadouro para
  22. trazermos centenas de cabeças de gado.
  23. Eram cerca de 20 dias
    para a viagem de regresso
  24. até estarmos de volta à quinta.
  25. Quando tinha 15 anos,

  26. vi-me obrigado a deixar este lugar
  27. e ir para uma cidade um
    pouco maior – muito maior –
  28. onde completei a segunda
    parte do ensino secundário.
  29. Aí, aprendi muitas coisas diferentes.
  30. O Brasil começava a urbanizar-se,
    a industrializar-se,
  31. e eu conhecia a política.
    Tornei-me um pouco radical.
  32. Era membro dos partidos de esquerda
  33. e tornei-me ativista.
  34. Fui para a universidade
    para me tornar economista.
  35. Tirei mestrado em economia.
  36. E a coisa mais importante da minha vida

  37. aconteceu nesta altura.
  38. Conheci uma rapariga incrível
  39. que se tornou na minha
    melhor amiga de uma vida
  40. e a minha sócia em tudo
    o que fiz até agora,
  41. a minha mulher, Lélia Wanick Salgado.
  42. O Brasil radicalizou-se muito depressa.

  43. Lutámos muito contra a ditadura,
  44. numa altura em que era necessário
  45. entrar na clandestinidade
    com armas em punho
  46. ou deixar o Brasil. Eramos muito jovens
  47. e a nossa organização achou que
    seria melhor que partíssemos.
  48. Então, fomos para França,
  49. onde tirei doutoramento em economia.
  50. A Lélia tornou-se arquiteta.
  51. Depois trabalhei para
    um banco de investimento.
  52. Fizemos imensas viagens,
    desenvolvimento financeiro,
  53. projetos económicos em
    África com o World Bank.
  54. E um dia a fotografia invadiu
    totalmente a minha vida.

  55. Tornei-me fotógrafo.
  56. Abandonei tudo e tornei-me fotógrafo
  57. e comecei a fazer fotografia
  58. que era importante para mim.
  59. Muitas pessoas dizem-me
    que sou fotojornalista,
  60. que sou fotógrafo-antropólogo,
  61. que sou fotógrafo-ativista.
  62. Mas eu fiz muito mais do que isso.
  63. Fiz da fotografia a minha vida.
  64. Vivi completamente dentro da fotografia
  65. em projetos de longa duração.
  66. Quero mostrar-vos algumas fotografias
  67. de... novamente, irão ver
    por dentro, projetos sociais
  68. em que participei.
    Publiquei muitos livros
  69. com estas fotografias.
  70. Mas agora vou
    mostra-vos apenas algumas.
  71. Nos anos 90, de 1994 a 2000,

  72. fotografei uma história
    chamada "Migrações".
  73. Tornou-se num livro e num espetáculo.
  74. Mas enquanto estava a fotografar isto,

  75. vivi um período muito difícil na
    minha vida, a maior parte no Ruanda.
  76. No Ruanda, assisti
    à brutalidade absoluta.
  77. Vi centenas de mortes por dia.
  78. Perdi a fé na nossa espécie.
  79. Não acreditava que fosse possível vivermos mais
  80. e comecei a ser atacado
    pelos meus próprios estafilococos.
  81. Comecei a ter infeções por todo o lado.
  82. Quando fazia amor com a minha
    mulher, não saía esperma,
  83. mas sangue.
  84. Fui consultado por um
    médico amigo, em Paris.
  85. Disse-lhe que estava muito doente.
  86. Ele fez-me um exame rigoroso
    e disse-me: "Sebastian,
  87. "tu não estás doente.
    A tua próstata está ótima.
  88. "O que aconteceu é que viste
    tanta morte que estás a morrer.
  89. "Precisas parar. Para.
  90. Precisas parar. Caso contrário, morres."
  91. E tomei a decisão de parar.

  92. Estava muito aborrecido
    com a fotografia,
  93. com tudo no mundo
  94. e tomei a decisão de
    regressar ao sítio onde tinha nascido.
  95. Foi uma grande coincidência.
  96. Foi na altura em que os meus
    pais estavam muito velhos.
  97. Tenho sete irmãs. Sou um dos
    poucos homens da minha família
  98. e elas tomaram a decisão
  99. de transferir aquela terra
    para mim e para a Léila.
  100. Quando recebemos esta terra,
    ela estava tão morta quanto eu.
  101. Quando era miúdo, mais
    de 50% era floresta tropical.
  102. Quando a recebemos,
  103. era menos de 0,5% de floresta tropical,
  104. assim como o resto da região.
  105. Para construir o desenvolvimento,
    o desenvolvimento brasileiro,
  106. destruímos muita da nossa floresta.
  107. Tal como fizeram aqui nos Estados Unidos,
  108. ou na Índia e por todo o planeta.
  109. Para construirmos o desenvolvimento,
  110. chegámos à enorme contradição
  111. de destruirmos tudo à nossa volta.
  112. Esta quinta, que tinha
    milhares de cabeças de gado
  113. tinha, agora, apenas umas centenas
  114. e nós não sabíamos como lidar com eles.
  115. A Léila teve uma ideia incrível, louca.
  116. Ela perguntou-me: "Porque não repões
    a floresta tropical que aqui tinhas antes?

  117. "Dizes que nasceste no paraíso.
  118. "Vamos reconstruir o paraíso."
  119. Eu fui visitar um grande amigo,

  120. engenheiro florestal.
  121. Pedi-lhe que nos fizesse um projeto
  122. e começámos. Começámos a plantar.
  123. No primeiro ano perdemos
    muitas árvores, no segundo menos
  124. e lentamente, esta terra morta
    começou a nascer novamente.
  125. Começámos a plantar centenas
    de milhares de árvores,
  126. apenas espécies locais,
    apenas espécies nativas
  127. onde construímos um ecossistema
    semelhante ao que estava destruído
  128. e a vida começou a surgir
    de uma forma incrível.
  129. Foi necessário transformar o terreno
  130. em parque nacional.
  131. Transformámo-lo. Devolvemos
    esta terra à natureza.
  132. Tornou-se num parque nacional.
  133. Criámos uma instituição
    chamada Instituto Terra
  134. e construímos um grande projeto ambiental
    de angariação de fundos em todo o lado.
  135. Aqui em Los Angeles, na área
    da baía de São Francisco,
  136. tornou-se dedutível em impostos
    nos Estados Unidos.
  137. Angariámos dinheiro em Espanha,
    em Itália e muito no Brasil.
  138. No Brasil, trabalhámos com muitas empresas
  139. que investiam no projeto, o governo.
  140. E a vida começou a surgir e
    eu tinha um grande desejo
  141. de regressar à fotografia,
    de voltar a fotografar.
  142. E desta vez, o meu desejo
    era o de não fotografar mais
  143. apenas o único animal que havia
    fotografado toda a vida: nós.
  144. Eu desejava fotografar os outros animais,
  145. fotografar as paisagens,
  146. de nos fotografar, mas do início,
  147. do período em que vivíamos
    em equilíbrio com a natureza.
  148. E assim foi. Comecei
    no início de 2004
  149. e terminei no final de 2011.
  150. Criámos uma quantidade
    incrível de fotografias
  151. e o resultado... a Léila tratou do design
    de todos os meus livros,
  152. do design de todos os espetáculos.
    É a criadora dos espetáculos.
  153. O que queremos com estas fotos
  154. é levar à discussão sobre o que
    temos de puro no planeta
  155. e o que temos que
    preservar neste planeta
  156. se queremos viver e ter algum
    equilíbrio na nossa vida.
  157. Queria ver-nos
  158. quando usávamos, sim, os
    nossos instrumentos em pedra.
  159. Nós ainda existimos. Na semana passada,
  160. estive na Fundação Nacional
    do Índio no Brasil
  161. e, só na floresta amazónica
    temos cerca de 110 grupos
  162. de índios que ainda não estão contactáveis.
  163. Neste sentido, devemos
    proteger a floresta.
  164. E com estas fotografias,
    espero que possamos criar
  165. informação, um sistema de informação.
  166. Tentámos fazer uma nova
    apresentação do planeta.
  167. Quero mostrar-vos agora
    apenas algumas fotos
  168. deste projeto.
  169. Bem, isto — (Aplausos) —

  170. Obrigado. Muito obrigado.
  171. É por isto que devemos lutar arduamente

  172. para preservarmos tal como está agora.
  173. Mas existe outra parte que
    precisamos reconstruir juntos,
  174. para construirmos as nossas sociedades,
    a nossa família moderna das sociedades,
  175. estamos num estádio em que
    não podemos voltar atrás.
  176. Mas criamos uma contradição incrível.
  177. Para construímos tudo isto,
    destruímos bastante.
  178. A nossa floresta no Brasil,
    aquela antiga floresta
  179. que era do tamanho da Califórnia,
  180. está hoje destruída em 93%.
  181. Aqui, na costa ocidental,
    vocês destruíram a vossa floresta.
  182. Por aqui, sim? As florestas
    de sequoias desapareceram.
  183. Desapareceram muito depressa.
  184. Há dois dias, vinha de Atlanta
  185. e voava sobre desertos
  186. que nós fizemos, criámos
    com as nossas próprias mãos.
  187. A Índia não tem mais árvores.
    A Espanha não tem mais árvores.
  188. Precisamos reconstruir
    estas florestas.

  189. Estas florestas são
    a essência das nossas vidas.
  190. Precisamos de respirar.
    A única fábrica
  191. capaz de transformar CO2 em oxigénio
  192. são as florestas.
  193. A única máquina capaz
    de captar o carbono
  194. que produzimos, sempre,
  195. mesmo se o reduzirmos – em tudo o
    que fazemos, produzimos CO2 –
  196. são as árvores.
  197. Coloco a questão...
    Há 3 ou 4 semanas atrás,
  198. lemos nos jornais
  199. que milhões de peixes
    morreram na Noruega.
  200. Falta de oxigénio na água.
  201. Coloco-me a questão se,
    em algum momento,
  202. não iremos ter falta de oxigénio
    para todas as espécies animais,
  203. incluindo a nossa. Seria muito complicado.
  204. Para o sistema marinho,
    as árvores são essenciais.

  205. Vou dar-vos um pequeno exemplo
    que vão compreender facilmente.
  206. Vocês, pessoas felizes, que
    têm muito cabelo na cabeça,
  207. se tomarem um duche, demora-vos
  208. 2 ou 3 horas a secar o cabelo,
  209. se não usarem secador.
  210. A mim, um minuto, está seco.
    O mesmo acontece com as árvores.
  211. As árvores são o cabelo do nosso planeta.
  212. Quando chove num sítio sem árvores,
  213. em apenas alguns minutos,
    a água chega na corrente,
  214. traz terra, destrói a nossa fonte de água,
  215. destrói os rios
  216. e não há humidade para reter.
  217. Quando temos árvores,
    o sistema de raízes retém a água.
  218. Todos os ramos das árvores,
    as folhas que caem
  219. criam uma área húmida
  220. e levam vários meses debaixo
    de água, seguem para os rios
  221. e mantêm a nossa fonte,
    mantêm os nossos rios.
  222. Isto é o mais importante,
  223. quando pensamos que precisamos
    de água para tudo na vida.
  224. Quero agora mostrar-vos, para terminar,

  225. apenas algumas fotos que, para mim,
  226. são muito importantes para isso.
  227. Lembram-se que vos disse que,
  228. quando recebi a quinta dos meus pais
  229. que era o meu paraíso,
    aquela era a quinta.
  230. Terra completamente destruída,
    a erosão, a terra tinha secado.
  231. Mas podem ver nesta foto
  232. que estávamos a começar a construir
    um centro educacional
  233. que se tornou num centro ambiental
    bastante grande no Brasil.
  234. Mas veem-se muitos pontos
    pequenos na imagem.
  235. Em cada um desses pontos,
    havíamos plantado uma árvore.
  236. Há centenas de árvores.
  237. Agora vou mostrar-vos as fotos
    tiradas exatamente no mesmo sítio
  238. há dois meses atrás.
  239. (Aplausos)

  240. Disse-vos no início que era necessário

  241. plantarmos cerca de 2,5 milhões de árvores
  242. de cerca de 200 espécies diferentes,
  243. por forma a reconstruirmos o ecossistema.
  244. E mostro-vos a última fotografia.
  245. Temos agora 2 milhões de árvores plantadas.
  246. Estamos a fazer a fixação
  247. de cerca de 100 000 toneladas
    de carbono com estas árvores.
  248. Meus amigos, é muito fácil de fazer.
    Nós fizemos, não?

  249. Devido a um acidente que me aconteceu,
  250. voltámos e construímos um ecossistema.
  251. Nós, aqui nesta sala,
  252. acredito que temos a mesma preocupação.
  253. O modelo que criámos no Brasil,
  254. podemos transferi-lo para aqui.
  255. Podemos aplicá-lo em qualquer
    parte do mundo, não?
  256. E eu acredito que o podemos fazer juntos.
  257. Muito obrigado.

  258. (Aplausos)