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← O drama silencioso da fotografia

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Showing Revision 8 created 07/06/2016 by Maricene Crus.

  1. Não tenho certeza se todas as pessoas
    aqui conhecem minhas fotografias.
  2. Quero começar mostrando
    algumas fotos e depois falarei.
  3. Devo contar a vocês
    um pouquinho de minha história,

  4. porque estaremos falando sobre isso
    durante minha palestra aqui.
  5. Nasci em 1944, no Brasil,
  6. numa época em que o Brasil não era
    ainda uma economia de mercado.
  7. Nasci numa fazenda,
  8. uma fazenda que ainda tinha
    mais de 50% de floresta tropical.
  9. Um local maravilhoso.
  10. Vivi com pássaros e animais incríveis,
  11. nadei em pequenos rios com jacarés.
  12. Aproximadamente 35 famílias
    viviam nessa fazenda,
  13. e nós consumíamos tudo
    que era produzido nela.
  14. Poucas coisas iam para o mercado.
  15. Uma vez por ano,
  16. a única coisa que ia para o mercado
    era o gado que criávamos
  17. e fazíamos viagens de cerca de 45 dias
    para chegar ao abatedouro,
  18. trazendo milhares de cabeças de gado,
  19. e cerca de 20 dias de viagem
    de volta à nossa fazenda novamente.
  20. Quando eu tinha 15 anos,

  21. foi necessário que eu deixasse esse lugar
  22. e fosse para uma cidade bem maior
  23. onde fiz a segunda parte
    da escola secundária.
  24. Lá aprendi coisas diferentes.
  25. O Brasil estava começando
    a se urbanizar, a se industrializar,
  26. e eu conheci a política.
  27. Tornei-me um pouco radical,
    era membro de partidos de esquerda,
  28. e me tornei ativista.
  29. Fui à universidade para ser economista.
  30. Fiz um mestrado em economia.
  31. E a coisa mais importante em minha vida

  32. também aconteceu nessa época.
  33. Encontrei uma garota incrível
  34. que se tornou
    minha melhor amiga pela vida,
  35. minha parceira em tudo que fiz até agora,
  36. minha esposa, Lélia Wanick Salgado.
  37. O Brasil radicalizou-se muito fortemente.

  38. Lutamos duramente contra a ditadura,
  39. e num certo momento
    foi necessário para todos nós
  40. decidir entrarmos para a clandestinidade
    com as armas em mãos ou deixar o Brasil.
  41. Éramos muito jovens,
  42. e nossa organização achou
    que seria melhor que partíssemos.
  43. Então fomos para a França,
    onde fiz um doutorado em economia.
  44. Lélia tornou-se arquiteta.
  45. Trabalhei depois
    para um banco de investimento.
  46. Fizemos muitas viagens,
    financiamos desenvolvimento,
  47. e projetos econômicos
    na África com o Banco Mundial.
  48. E um dia a fotografia
    invadiu totalmente a minha vida.

  49. Tornei-me fotógrafo.
  50. Abandonei tudo, me tornei fotógrafo,
  51. e comecei a fazer a fotografia
  52. que era importante para mim.
  53. Muitas pessoas diziam
    que eu era fotojornalista,
  54. ou fotógrafo antropologista,
  55. ou fotógrafo ativista.
  56. Mas fiz muito mais do que isso.
  57. Assumi a fotografia como minha vida.
  58. Vivi completamente dentro da fotografia,
  59. realizando projetos de longo prazo,
  60. e quero mostrar a vocês algumas fotos...
  61. Novamente, vocês verão dentro
    dos projetos sociais que segui fazendo,
  62. publiquei muitos livros
    sobre essas fotografias,
  63. mas mostrarei apenas algumas agora.
  64. Nos anos 90, de 1994 a 2000,

  65. fotografei uma história chamada Migrações.
  66. Tornou-se um livro e um show.
  67. Mas, na época em que estava
    fotografando isso,

  68. passei por um momento
    muito difícil em minha vida,
  69. grande parte em Ruanda.
  70. Vi a brutalidade total em Ruanda.
  71. Vi mortes aos milhares por dia,
  72. perdi minha fé em nossa espécie.
  73. Não acreditava que fosse possível
    para nós vivermos muito mais,
  74. e comecei a ser atacado
    pelos meus próprios estafilococos.
  75. Comecei a ter infecções por todo o corpo.
  76. Quando fazia amor com minha mulher,
    não produzia nenhum esperma;
  77. eu estava sangrando.
  78. Fui ver o médico de um amigo, em Paris,
  79. disse a ele que eu estava muito doente.
  80. Ele me examinou longamente, e me disse:
  81. "Sebastião, você não está doente,
    sua próstata está perfeita.
  82. O que aconteceu é que você viu
    tantas mortes que você está morrendo.
  83. Você tem que parar. Pare.
  84. Você tem que parar,
    pois, do contrário, irá morrer".
  85. E tomei a decisão de parar.

  86. Estava realmente transtornado
    com a fotografia e tudo mais no mundo,
  87. e tomei a decisão
    de voltar para onde nasci.
  88. Foi uma grande coincidência.
  89. Foi na época em que meus pais
    já estavam muito velhos.
  90. Tenho sete irmãs.
  91. Sou o único homem na minha família,
    e, juntos, todos decidiram
  92. transferir aquela terra
    para mim e a Lélia.
  93. Quando recebemos essa terra,
    ela estava tão morta quanto eu.
  94. Quando eu era criança,
    havia mais de 50% de floresta tropical.
  95. Quando recebemos a terra,
  96. havia menos do que 0,5%
    de floresta tropical,
  97. como em toda a minha região.
  98. Para construir
    o desenvolvimento brasileiro,
  99. destruímos muito de nossa floresta.
  100. Como vocês fizeram aqui,
    nos Estados Unidos,
  101. ou como foi feito na Índia,
    em todo canto deste planeta.
  102. Para construir nosso desenvolvimento,
    chegamos a uma enorme contradição,
  103. destruindo tudo a nosso redor.
  104. Essa fazenda que tinha
    milhares de cabeças de gado
  105. tinha agora apenas algumas centenas,
  106. e não sabíamos como lidar com isso.
  107. E Lélia surgiu com uma ideia incrível,
    uma ideia louca.
  108. Ela disse: "Por que você não repõe
    a floresta tropical que havia aqui antes?

  109. Você diz que nasceu no paraíso!
    Vamos reconstruí-lo".
  110. E fui ver um bom amigo,

  111. que era engenheiro florestal,
    para preparar um projeto para nós.
  112. E nós começamos a plantar,
  113. e no primeiro ano
    perdemos muitas árvores;
  114. no segundo, menos, e bem lentamente
    essa terra morta começou a renascer.
  115. Começamos a plantar
    centenas de milhares de árvores,
  116. somente espécies nativas,
    com as quais construímos
  117. um ecossistema idêntico
    àquele que fora destruído,
  118. e a vida começou a voltar
    de uma forma incrível.
  119. Foi necessário transformar nossa terra
    em um parque nacional.
  120. Fizemos isso, devolvemos
    essa terra à natureza.
  121. Ela se tornou um parque nacional.
  122. Criamos uma instituição
    chamada Instituto Terra,
  123. e construímos um enorme projeto ambiental
    para levantar dinheiro mundo afora.
  124. Aqui em Los Angeles,
    na Bay Area, em São Francisco,
  125. ela é dedutível de impostos
    nos Estados Unidos.
  126. Levantamos dinheiro na Espanha,
    na Itália, e muito no Brasil.
  127. Trabalhamos com muitas empresas no Brasil
    que investem neste projeto; o governo.
  128. E a vida começou a voltar,
    e tive um grande desejo
  129. de voltar a fotografar novamente.
  130. Nessa época, meu desejo
    não era o de fotografar apenas
  131. um animal que eu havia fotografado
    toda minha vida: nós.
  132. Queria fotografar os outros animais,
  133. fotografar as paisagens,
  134. fotografar a nós,
    mas no princípio de tudo,
  135. no tempo em que vivíamos
    em equilíbrio com a natureza.
  136. E prossegui.
  137. Comecei no início de 2004
    e terminei no final de 2011.
  138. Criamos uma quantia incrível de fotos.
  139. Lélia fez o design de todos meus livros,
    e de todos meus shows.
  140. Ela é a criadora de meus shows.
  141. E o que queremos com essas fotos
  142. é criar uma discussão sobre
    o que temos que é primordial no planeta
  143. e o que devemos manter aqui,
  144. se queremos viver
    com algum equilíbrio em nossa vida.
  145. E eu queria nos ver
  146. quando usávamos antigamente
    nossos instrumentos de pedra.
  147. Isso ainda existe.
  148. Estive na Fundação Nacional do Índio,
    na semana passada,
  149. e apenas no Amazonas
    temos cerca de 110 grupos indígenas
  150. que ainda não foram contatados.
  151. Temos que proteger
    a floresta nesse sentido.
  152. E com essas fotos,
    espero que possamos criar
  153. um sistema de informação.
  154. Tentamos fazer uma nova
    apresentação do planeta,
  155. e quero mostrar a vocês algumas fotos
    desse projeto, por favor.
  156. Bem, isto...

  157. (Aplausos)
  158. Obrigado. Muito obrigado.
  159. (Aplausos)
  160. Isto é pelo que devemos lutar fortemente
    para manter como está agora.

  161. Mas há uma outra parte
    que devemos reconstruir juntos,
  162. construir nossas sociedades,
    nossa sociedade de família moderna.
  163. Estamos num ponto
    em que não podemos voltar.
  164. Mas criamos uma contradição incrível.
  165. Para construir tudo isso,
    nós destruímos muito.
  166. Nossa antiga floresta no Brasil
  167. que era do tamanho da Califórnia,
    hoje está 93% destruída.
  168. Aqui, na costa Oeste,
    vocês destruíram sua floresta.
  169. As florestas vermelhas
    dos arredores daqui se foram.
  170. E foi muito rápido; elas despareceram.
  171. Vindo de Atlanta há dois dias,
  172. eu sobrevoei desertos que causamos
    com nossas próprias mãos.
  173. A Índia e a Espanha não têm mais árvores.
  174. E devemos reconstruir essas florestas.

  175. Elas são o sentido de nossa vida.
  176. Precisamos respirar.
  177. A única "fábrica" capaz de transformar
    CO2 em oxigênio são as florestas.
  178. A única "máquina" capaz
    de capturar o carbono
  179. que estamos produzindo, sempre,
  180. mesmo se o reduzirmos, para tudo
    que fazemos, produzimos o CO2,
  181. são as árvores.
  182. Levantamos a questão
    três ou quatro semanas atrás,
  183. quando vimos nos jornais que milhões
    de peixes morreram na Noruega
  184. por falta de oxigênio na água.
  185. Eu me questionei se, por um momento,
  186. não teremos falta de oxigênio
    para todas as espécies animais,
  187. inclusive a nossa; isso seria
    muito complicado para nós.
  188. Para o sistema de águas,
    as árvores são essenciais.

  189. Vou dar um pequeno exemplo
    o qual entenderão facilmente.
  190. Vocês, pessoas felizes,
    que têm uma vasta cabeleira,
  191. ela leva de duas a três horas para secar
    quando vocês tomam banho,
  192. se não usam um secador.
  193. Para mim, um minuto, e está seco.
  194. (Risos)
  195. O mesmo acontece com as árvores.
  196. Elas são a cabeleira de nosso planeta.
  197. Quando chove num lugar sem árvores,
  198. em poucos minutos, a água chega
    à correnteza, carrega o solo,
  199. destrói nossas nascentes, nossos rios,
    e não há retenção de umidade.
  200. Quando temos árvores,
    o sistema de raízes segura a água.
  201. Todos os galhos das árvores, as folhas
    que caem criam uma área úmida,
  202. e são precisos vários meses
    para que a água chegue aos rios,
  203. preservando nossas nascentes
    e nossos rios.
  204. Esta é a coisa mais importante,
  205. quando pensamos que necessitamos
    de água para toda atividade na vida.
  206. Quero mostrar a vocês agora,
    para encerrar, algumas fotos

  207. que para mim são
    muito importantes nesse sentido.
  208. Lembram-se de que contei a vocês
    que recebi de meus pais a fazenda
  209. que era meu paraíso?
  210. A fazenda estava assim.
  211. A terra completamente destruída:
    a erosão havia secado tudo.
  212. Mas podem ver nesta foto,
  213. que estávamos começando
    a construir um centro educacional
  214. que se tornou um centro ambiental
    muito grande no Brasil.
  215. Vocês veem muitos pontos nesta foto.
  216. Nós plantamos uma árvore
    em cada um desses pontos.
  217. Há milhares de árvores.
  218. Agora mostrarei as fotos feitas
    exatamente no mesmo local,
  219. dois meses atrás.
  220. (Aplausos)

  221. No começo foi necessário plantar
    aproximadamente 2,5 milhões de árvores,

  222. de cerca de 200 espécies diferentes
  223. para reconstruir o ecossistema.
  224. E vou mostrar a última foto.
  225. Temos 2 milhões de árvores
    plantadas agora.
  226. Retiramos cerca de 100 mil toneladas
    de carbono da atmosfera com essas árvores.
  227. Meu amigos, é muito fácil
    fazer isso; nós o fizemos, certo?

  228. Devido a uma situação
    que aconteceu comigo,
  229. nós voltamos e reconstruímos
    um ecossistema.
  230. Acredito que nós aqui, neste auditório,
  231. tenhamos a mesma preocupação.
  232. E o modelo que criamos no Brasil,
    pode ser transplantado aqui.
  233. Podemos usá-lo mundo afora, certo?
  234. E acredito que podemos fazer isso juntos.
  235. Muito obrigado.

  236. (Aplausos)