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Neil MacGregor: 2600 anos de história num objeto

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    As coisas que fazemos
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    têm uma qualidade suprema --
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    elas vivem mais tempo do que nós.
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    Nós perecemos, elas sobrevivem;
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    nós temos uma vida, elas têm muitas vidas,
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    e em cada vida elas podem significar coisas diferentes.
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    O que significa que, enquanto nós todos temos uma biografia,
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    elas têm muitas.
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    Eu quero falar esta manhã
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    acerca da história, a biografia -- ou antes, as biografias --
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    de um objeto em particular,
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    uma coisa notável.
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    Ele não tem, concordo,
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    grande aspeto.
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    É quase do tamanho de uma bola de rugby.
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    É feito de barro,
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    e foi modelado
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    para ter uma forma cilíndrica,
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    coberto com uma escrita apertada
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    e depois cozido ao sol.
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    E como podem ver,
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    levou alguns maus tratos,
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    o que não é surpreendente
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    porque foi feito há dois mil anos e meio
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    e foi desenterrado
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    em 1879.
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    Mas hoje,
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    esta coisa é, creio,
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    um protagonista de relevo
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    na política do Médio Oriente.
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    E é um objeto
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    com histórias fascinantes
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    e histórias que nem por sombras se acham concluídas.
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    A história começa
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    na guerra Irão-Iraque
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    e naquela série de eventos
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    que culminaram
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    na invasão do Iraque
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    por forças estrangeiras,
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    a queda de um governante despótico
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    e uma mudança instantânea de regime.
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    E quero começar
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    por um episódio daquela sequência de eventos
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    com que a maioria de vós estará bastante familiarizada,
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    o banquete de Belsazar --
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    porque estamos a falar da guerra Irão-Iraque
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    de 539 a.C.
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    E os paralelos
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    entre os eventos
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    de 539 a.C. e 2003 e no ínterim
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    são espantosos.
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    O que estão a ver é uma pintura de Rembrandt,
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    agora na Galeria Nacional em Londres,
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    a ilustrar o texto do profeta Daniel
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    nas Escrituras Hebraicas.
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    E todos vocês sabem a história por alto.
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    Belsazar, o filho de Nabucodonosor,
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    Nabucodonosor, que tinha conquistado Israel, saqueado Jerusalém
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    e capturado o povo
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    e levado os judeus para a Babilónia.
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    Não só os judeus, ele tinha levado consigo os vasos do templo.
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    Ele tinha saqueado, profanado o templo.
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    E os grandes vasos de ouro do templo em Jerusalém
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    tinham sido levados para a Babilónia.
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    Belsazar, o seu filho,
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    decide dar um banquete.
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    E de maneira a torná-lo ainda mais excitante,
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    ele acrescentou um pouco de sacrilégio ao resto da paródia,
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    e traz os vasos do templo.
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    Ele está já em guerra com os iranianos,
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    com o rei da Pérsia.
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    E naquela noite, Daniel conta-nos que,
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    no auge das festividades
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    apareceu uma mão e escreveu na parede:
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    "Foste pesado na balança e achado deficiente,
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    e o teu reino é entregue
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    aos medos e aos persas."
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    E naquela mesma noite
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    Ciro, rei dos persas, entrou em Babilónia
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    e todo o regime de Belsazar caiu.
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    É, claro, um grande momento
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    na história
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    do povo judeu.
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    É uma ótima história. É uma história que todos conhecemos.
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    "A escrita na parede"
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    faz parte da linguagem do quotidiano.
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    O que aconteceu a seguir
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    foi notável,
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    e é onde o nosso cilindro
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    entra na história.
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    Ciro, rei dos persas,
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    entrou na Babilónia sem luta --
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    o grande império da Babilónia,
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    que ia desde o centro sul do Iraque
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    ao Mediterrâneo,
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    sucumbe diante de Ciro.
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    E Ciro faz uma declaração.
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    E é isso o que este cilindro é,
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    a declaração feita pelo governante guiado por Deus
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    que derrubou o déspota iraquiano
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    e que ia trazer a liberdade ao povo.
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    Em sonante babilónio --
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    foi escrito em babilónio --
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    ele diz: "Eu sou Ciro, rei de todo o Universo,
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    o grande rei, o poderoso rei,
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    rei da Babilónia, rei dos quatro cantos do mundo."
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    Eles não são tímidos nas hipérboles, como podem ver.
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    Isto é provavelmente
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    o primeiro verdadeiro comunicado de imprensa
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    de um exército vitorioso
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    que temos.
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    E é escrito, como iremos ver a seu tempo,
  • 4:31 - 4:34
    por consultores de Relações Públicas muito competentes.
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    Portanto, a hipérbole não é, com efeito, surpreendente.
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    E o que é que o grande rei, o poderoso rei,
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    o rei dos quatro cantos do mundo, vai fazer?
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    Ele continua a dizer que, tendo conquistado a Babilónia,
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    ele irá permitir, imediatamente, que todos os povos
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    que os babilónios -- Nabucodonosor e Belsazar --
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    capturaram e escravizaram,
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    sejam libertos.
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    Ele vai permitir que eles retornem aos seus países.
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    E mais importante,
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    ele vai permitir a todos recuperarem
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    os deuses, as estátuas,
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    os vasos do templo
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    que tinham sido confiscados.
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    Todos os povos que os babilónios tinham oprimido e expatriado
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    irão para casa,
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    e eles levarão com eles os seus deuses.
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    E eles poderão restaurar os seus altares
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    e adorar os seus deuses
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    à sua maneira, nos seus próprios lugares.
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    Este é o decreto,
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    este objeto é a prova
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    do facto de que os judeus,
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    depois do exílio na Babilónia,
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    dos anos que passaram sentados ao longo dos rios de Babilónia,
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    a chorar sempre que se lembravam de Jerusalém,
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    esses judeus tiveram permissão para irem para casa.
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    Eles tiveram permissão para regressarem a Jerusalém
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    e para reconstruírem o Templo.
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    É um documento central
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    na história judaica.
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    E o livro de Crónicas, o livro de Esdras nas Escrituras Hebraicas
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    relataram-no em termos sonantes.
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    Esta é a versão judaica
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    da mesma história.
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    "Assim disse Ciro, rei da Pérsia,
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    'Todos os reinos da Terra o Senhor Deus dos céus me deu,
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    e Ele encarregou-me
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    de Lhe construir uma casa em Jerusalém.
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    Quem é, de entre vós, do Seu povo?
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    Que o Senhor Deus esteja com ele,
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    e lhe permita que suba [a Jerusalém].'"
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    "Suba" -- aaleh.
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    O elemento central, ainda,
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    a noção de retorno,
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    uma parte central
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    da vida do judaísmo.
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    Como todos vocês sabem, aquele retorno do exílio,
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    o segundo templo,
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    remodelou o judaísmo.
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    E essa mudança,
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    aquele grandioso momento histórico,
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    foi tornado possível por Ciro, o rei da Pérsia,
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    relatado nas Escrituras Hebraicas
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    e em babilónio, em barro.
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    Dois textos excelentes,
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    então e a política?
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    O que estava a acontecer
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    era a mudança fundamental na história do Médio Oriente.
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    O império do Irão, os medos e os persas,
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    unidos sob Ciro,
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    tornou-se o primeiro grande império mundial.
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    Ciro começa nos anos de 530 a.C.
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    E na época do seu filho Dario,
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    todo o Mediterrâneo oriental
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    está sob controlo persa.
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    Este império é, de facto,
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    o Médio Oriente tal como o conhecemos agora,
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    e é o que dá forma ao Médio Oriente tal como o conhecemos agora.
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    Foi o mais vasto império que o mundo conhecera até então.
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    Muito mais importante,
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    foi o primeiro
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    estado multicultural, multireligioso
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    a uma escala enorme.
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    E tinha de ser governado de uma nova maneira.
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    Tinha de ser governado em línguas diferentes.
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    O facto deste decreto ser em babilónio diz uma coisa.
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    E tinha de reconhecer os seus diferentes costumes,
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    diferentes povos, diferentes religiões, diferentes crenças.
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    Todos são respeitados por Ciro.
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    Ciro estabelece um modelo
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    de como governar
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    uma grande sociedade multinacional, multireligiosa, multicultural.
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    E o resultado disso
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    foi um império que incluía as áreas que veem no écrã,
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    e que sobreviveu durante 200 anos com estabilidade
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    até ter sido destruído por Alexandre.
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    Deixou um sonho do Médio Oriente como uma unidade,
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    e uma unidade onde pessoas de diferentes credos
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    podiam viver juntas.
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    As invasões gregas acabaram com ele.
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    E claro, Alexandre não conseguiu manter um governo
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    e fragmentou-se.
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    Mas o que Ciro representou
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    permaneceu absolutamente central.
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    O historiador grego Xenofonte
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    escreveu o seu livro "Ciropédia"
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    promovendo Ciro como o grande governante.
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    E na cultura europeia, depois disso,
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    Ciro permaneceu o modelo.
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    Esta é uma imagem do século XVI
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    para vos mostrar quão difundida
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    estava realmente a sua veneração.
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    E o livro de Xenofonte sobre Ciro
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    sobre como se governa uma sociedade diversa
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    foi um dos grandes manuais
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    que inspiraram os Pais Fundadores
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    da Revolução Americana.
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    Jefferson era um grande admirador --
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    os ideais de Ciro
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    obviamente transpareciam nos ideais do século XVIII
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    no modo de se criar a tolerância religiosa
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    num novo estado.
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    Entretanto, de volta à Babilónia,
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    as coisas não tinham estado a correr bem.
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    Depois de Alexandre, dos outros impérios,
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    Babilónia entra em declínio, cai em ruínas,
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    e todos os traços do grande império babilónico se perdem --
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    até 1879
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    quando o cilindro é descoberto
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    numa escavação de uma expedição do Museu Britânico, na Babilónia.
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    E entra agora outra história.
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    Entra aquele grande debate
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    de meados do século XIX:
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    São as Escrituras fiáveis? Podemos confiar nelas?
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    Nós só sabíamos
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    do regresso dos judeus e do decreto de Ciro
  • 9:44 - 9:46
    através das Escrituras Hebraicas.
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    Nenhuma outra evidência.
  • 9:48 - 9:50
    Subitamente, isto apareceu.
  • 9:50 - 9:52
    E grande excitação
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    num mundo onde aqueles que acreditavam nas Escrituras
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    tinham tido a sua fé na criação abalada
  • 9:56 - 9:58
    pela evolução, pela geologia,
  • 9:58 - 10:00
    aqui estava a prova
  • 10:00 - 10:02
    de que as Escrituras eram historicamente verdadeiras.
  • 10:02 - 10:05
    É um grande momento do século XIX.
  • 10:05 - 10:10
    Mas -- e isto, claro, é onde se torna complicado --
  • 10:10 - 10:12
    os factos eram verdadeiros,
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    viva a arqueologia,
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    mas a interpretação era bastante mais complicada.
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    Porque o relato do cilindro e o relato da Bíblia Hebraica
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    diferem num aspeto-chave.
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    O cilindro babilónico
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    é escrito pelos sacerdotes
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    do grande deus da Babilónia, Marduk.
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    E, sem surpresas,
  • 10:31 - 10:33
    eles contam-nos de que tudo isto foi feito por Marduk.
  • 10:33 - 10:36
    "Marduk, cremos, chamou Ciro pelo seu nome."
  • 10:36 - 10:39
    Marduk leva Ciro pela mão,
  • 10:39 - 10:41
    chama-o para pastorear o seu povo
  • 10:41 - 10:44
    e dá-lhe o governo da Babilónia.
  • 10:44 - 10:46
    Marduk diz a Ciro
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    que ele fará estas grandes e generosas coisas
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    de libertar os povos.
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    E isto é a razão porque nós lhe deveríamos estar todos gratos
  • 10:52 - 10:54
    e para adorarmos Marduk.
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    Os escritores hebreus
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    no Antigo Testamento,
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    vocês não ficarão surpreendidos por saberem,
  • 11:01 - 11:03
    têm um ponto de vista bastante diferente disto.
  • 11:03 - 11:05
    Para eles, claro, não pode ter sido Marduk
  • 11:05 - 11:07
    que fez isto tudo acontecer.
  • 11:07 - 11:09
    Só pode ter sido Jeová.
  • 11:09 - 11:11
    E assim, em Isaías,
  • 11:11 - 11:13
    temos os textos maravilhosos
  • 11:13 - 11:15
    a dar todo o crédito por isto,
  • 11:15 - 11:16
    não a Marduk
  • 11:16 - 11:19
    mas ao Senhor Deus de Israel --
  • 11:19 - 11:21
    o Senhor Deus de Israel
  • 11:21 - 11:23
    que também chamou Ciro pelo nome,
  • 11:23 - 11:26
    também levou Ciro pela mão
  • 11:26 - 11:28
    e fala dele a pastorear o seu povo.
  • 11:28 - 11:30
    É um exemplo notável
  • 11:30 - 11:34
    de duas apropriações sacerdotais do mesmo evento,
  • 11:34 - 11:36
    duas diferentes tomadas de poder religiosas
  • 11:36 - 11:38
    de um facto político.
  • 11:38 - 11:40
    Deus, nós sabemos,
  • 11:40 - 11:42
    está habitualmente do lado dos grandes batalhões.
  • 11:42 - 11:45
    A questão é, que deus era?
  • 11:45 - 11:47
    E o debate inquieta
  • 11:47 - 11:49
    toda a gente no século XIX,
  • 11:49 - 11:51
    perceber que as Escrituras Hebraicas
  • 11:51 - 11:54
    são parte de um mundo de religião muito maior.
  • 11:54 - 11:56
    E é bastante claro
  • 11:56 - 11:59
    que o cilindro é mais antigo do que o texto de Isaías,
  • 11:59 - 12:01
    e no entanto, Jeová está a falar
  • 12:01 - 12:03
    em palavras muito semelhantes
  • 12:03 - 12:05
    àquelas usadas por Marduk.
  • 12:05 - 12:08
    E há a ligeira sensação de que Isaías sabe disso,
  • 12:08 - 12:10
    porque ele diz,
  • 12:10 - 12:13
    é Deus que está a falar, claro,
  • 12:13 - 12:15
    "Eu tenho-te chamado pelo teu nome
  • 12:15 - 12:17
    mas tu não me tens conhecido."
  • 12:17 - 12:19
    Penso que se reconhece
  • 12:19 - 12:21
    que Ciro não se apercebe
  • 12:21 - 12:24
    que está a agir sob as ordens de Jeová.
  • 12:24 - 12:27
    E igualmente, ele ficaria surpreendido ao saber que estava a agir sob as ordens de Marduk.
  • 12:27 - 12:29
    Porque curiosamente, claro,
  • 12:29 - 12:31
    Ciro é um bom iraniano
  • 12:31 - 12:33
    com um conjunto de deuses totalmente diferente
  • 12:33 - 12:35
    que não são mencionados em nenhum destes textos.
  • 12:35 - 12:37
    (Risos)
  • 12:37 - 12:39
    Isto é em 1879.
  • 12:39 - 12:41
    40 anos depois
  • 12:41 - 12:44
    e estamos em 1917,
  • 12:44 - 12:46
    e o cilindro entra num mundo diferente.
  • 12:46 - 12:48
    Desta vez, a política real
  • 12:48 - 12:50
    do mundo contemporâneo --
  • 12:50 - 12:53
    o ano da Declaração de Balfour,
  • 12:53 - 12:56
    o ano em que a nova potência imperial no Médio Oriente, a Grã-Bretanha,
  • 12:56 - 12:58
    decide que vai declarar
  • 12:58 - 13:00
    uma pátria judaica,
  • 13:00 - 13:02
    vai permitir que
  • 13:02 - 13:04
    os judeus regressem.
  • 13:04 - 13:06
    E a resposta a isto
  • 13:06 - 13:09
    pela população judaica na Europa Oriental é rapsódica.
  • 13:09 - 13:11
    E através da Europa Oriental,
  • 13:11 - 13:13
    os judeus exibem imagens de Ciro
  • 13:13 - 13:15
    e de Jorge V
  • 13:15 - 13:17
    lado a lado --
  • 13:17 - 13:19
    os dois grandes governantes
  • 13:19 - 13:22
    que permitiram o regresso a Jerusalém.
  • 13:22 - 13:25
    E o cilindro de Ciro volta a estar à vista do público
  • 13:25 - 13:27
    e o texto disto
  • 13:27 - 13:30
    como uma demonstração do porque é que o que vai acontecer
  • 13:30 - 13:33
    depois do fim da guerra em 1918
  • 13:33 - 13:36
    é parte de um plano divino.
  • 13:36 - 13:38
    Todos sabemos o que aconteceu.
  • 13:38 - 13:41
    O Estado de Israel é estabelecido,
  • 13:41 - 13:44
    e 50 anos mais tarde, nos finais dos anos 60,
  • 13:44 - 13:47
    é claro que o papel da Grã-Bretanha, como a potência imperial, terminou.
  • 13:47 - 13:50
    E outra história do cilindro começa.
  • 13:50 - 13:52
    A região, decidem o Reino Unido e os EUA,
  • 13:52 - 13:55
    tem de ser mantida a salvo do comunismo,
  • 13:55 - 13:58
    e a superpotência que irá ser criada para fazer isso
  • 13:58 - 14:00
    será o Irão, o Xá.
  • 14:00 - 14:03
    E assim, o Xá inventa uma história iraniana,
  • 14:03 - 14:05
    ou retorna à história iraniana,
  • 14:05 - 14:08
    que o coloca no centro de uma grande tradição
  • 14:08 - 14:10
    e produz moedas
  • 14:10 - 14:12
    mostrando-se a si mesmo
  • 14:12 - 14:14
    com o cilindro de Ciro.
  • 14:14 - 14:17
    Quando ele tem as suas grandes celebrações em Persépolis,
  • 14:17 - 14:19
    ele convoca o cilindro
  • 14:19 - 14:22
    e o cilindro é emprestado pelo Museu Britânico, vai para Teerão,
  • 14:22 - 14:24
    e faz parte daquelas grandes celebrações
  • 14:24 - 14:27
    da dinastia Pahlavi.
  • 14:27 - 14:30
    O cilindro de Ciro: o garante do Xá.
  • 14:30 - 14:33
    10 anos mais tarde, outra história:
  • 14:33 - 14:35
    a Revolução Iraniana, 1979.
  • 14:35 - 14:37
    A Revolução Islâmica, desaparece Ciro;
  • 14:37 - 14:39
    não estamos interessados naquela história,
  • 14:39 - 14:42
    estamos interessados no Irão islâmico --
  • 14:42 - 14:44
    até o Iraque,
  • 14:44 - 14:47
    a nova superpotência que todos nós decidimos que deveria haver na região,
  • 14:47 - 14:49
    ataca.
  • 14:49 - 14:51
    Então, outra guerra Irão-Iraque.
  • 14:51 - 14:53
    E torna-se crítico para os iranianos
  • 14:53 - 14:56
    lembrarem-se do seu passado grandioso,
  • 14:56 - 14:58
    do seu passado grandioso,
  • 14:58 - 15:01
    quando combateram o Iraque e venceram.
  • 15:01 - 15:03
    Torna-se crítico encontrar um símbolo
  • 15:03 - 15:06
    que una todos os iranianos --
  • 15:06 - 15:08
    muçulmanos e não-muçulmanos,
  • 15:08 - 15:11
    cristãos, zoroastrianos, judeus a viver no Irão,
  • 15:11 - 15:13
    povos que eram devotos, não devotos.
  • 15:13 - 15:16
    E o emblema óbvio é Ciro.
  • 15:16 - 15:19
    Portanto, quando o Museu Britânico e o Museu Nacional de Teerão
  • 15:19 - 15:21
    cooperaram e trabalharam juntos, como temos feito,
  • 15:21 - 15:23
    os iranianos só pediram uma coisa
  • 15:23 - 15:25
    como um empréstimo.
  • 15:25 - 15:27
    É o único objeto que querem.
  • 15:27 - 15:29
    Eles querem pedir emprestado o cilindro de Ciro.
  • 15:29 - 15:31
    E no ano passado,
  • 15:31 - 15:35
    o cilindro de Ciro foi para Teerão
  • 15:35 - 15:38
    pela segunda vez.
  • 15:38 - 15:41
    É exposto apresentado aqui, colocado na sua vitrine
  • 15:41 - 15:44
    pela diretora do Museu Nacional de Teerão,
  • 15:44 - 15:47
    uma das muitas mulheres no Irão em posições de grande liderança,
  • 15:47 - 15:49
    a Sra. Ardakani.
  • 15:49 - 15:51
    Foi um grande acontecimento.
  • 15:51 - 15:54
    Este é o outro lado da mesma imagem.
  • 15:54 - 15:57
    Foi visto no Teerão
  • 15:57 - 15:59
    por entre um e dois milhões de pessoas
  • 15:59 - 16:01
    no espaço de alguns meses.
  • 16:01 - 16:03
    Isto está para além de qualquer exposição de maior êxito
  • 16:03 - 16:05
    no ocidente.
  • 16:05 - 16:08
    É o tema de um enorme debate
  • 16:08 - 16:11
    acerca do que este cilindro significa, do que Ciro significa,
  • 16:11 - 16:14
    mas acima de tudo, Ciro como é apresentado neste cilindro --
  • 16:14 - 16:17
    Ciro como o defensor da pátria,
  • 16:17 - 16:19
    o campeão, claro, da identidade iraniana
  • 16:19 - 16:21
    e dos povos iranianos,
  • 16:21 - 16:23
    tolerante em relação a todas as crenças.
  • 16:23 - 16:25
    E no atual Irão,
  • 16:25 - 16:28
    zoroastrianos e cristãos têm lugares garantidos
  • 16:28 - 16:31
    no parlamento iraniano, algo de que se ser muito, muito orgulhoso.
  • 16:31 - 16:34
    Para ver este objeto em Teerão,
  • 16:34 - 16:36
    milhares de judeus a viver no Irão
  • 16:36 - 16:38
    foram a Teerão para o verem.
  • 16:38 - 16:40
    Tornou-se um grande emblema,
  • 16:40 - 16:42
    um grande tema de debate
  • 16:42 - 16:45
    acerca do que o Irão é, interna e externamente.
  • 16:45 - 16:48
    É o Irão ainda o defensor dos oprimidos?
  • 16:48 - 16:50
    Vai o Irão libertar os povos
  • 16:50 - 16:53
    que os tiranos escravizaram e expropriaram?
  • 16:53 - 16:56
    Esta é a principal retórica nacional,
  • 16:56 - 16:58
    e foi toda montada
  • 16:58 - 17:00
    numa grande representação
  • 17:00 - 17:02
    que lançou o regresso.
  • 17:02 - 17:05
    Aqui veem este cilindro de Ciro, ampliado, em palco,
  • 17:05 - 17:08
    com grandes figuras da história iraniana
  • 17:08 - 17:10
    a juntarem-se para tomarem o seu lugar
  • 17:10 - 17:13
    no património do Irão.
  • 17:13 - 17:15
    Foi uma narrativa apresentada
  • 17:15 - 17:18
    pelo próprio presidente.
  • 17:18 - 17:20
    E para mim,
  • 17:20 - 17:22
    levar este objeto para o Irão,
  • 17:22 - 17:24
    ser autorizado a levar este objeto para o Irão
  • 17:24 - 17:26
    foi ser autorizado a fazer parte
  • 17:26 - 17:28
    de um debate extraordinário
  • 17:28 - 17:30
    levado ao mais alto nível
  • 17:30 - 17:32
    sobre o que o Irão é,
  • 17:32 - 17:35
    que diferentes aspetos do Irão há
  • 17:35 - 17:37
    e como as diferentes histórias do Irão
  • 17:37 - 17:40
    poderiam dar forma ao mundo hoje.
  • 17:40 - 17:43
    É um debate que ainda está a continuar,
  • 17:43 - 17:45
    e vai continuar a ressoar,
  • 17:45 - 17:47
    porque este objeto
  • 17:47 - 17:49
    é uma das maiores declarações
  • 17:49 - 17:51
    de uma aspiração humana.
  • 17:51 - 17:55
    Ele alinha com a Constituição americana.
  • 17:55 - 17:58
    Certamente que diz bem mais sobre as verdadeiras liberdades
  • 17:58 - 18:00
    do que a Magna Carta.
  • 18:00 - 18:03
    É um documento que pode significar tantas coisas,
  • 18:03 - 18:06
    para o Irão e para a região.
  • 18:06 - 18:08
    Uma réplica dele
  • 18:08 - 18:10
    encontra-se nas Nações Unidas.
  • 18:10 - 18:13
    Em Nova Iorque, neste outono, vai estar presente
  • 18:13 - 18:15
    quando os grandes debates
  • 18:15 - 18:18
    sobre o futuro do Médio Oriente tiverem lugar.
  • 18:18 - 18:20
    E quero terminar perguntando-vos
  • 18:20 - 18:22
    qual vai ser a próxima história
  • 18:22 - 18:24
    na qual figura este objeto.
  • 18:24 - 18:26
    Ele vai aparecer, certamente,
  • 18:26 - 18:28
    em muitas mais histórias do Médio Oriente.
  • 18:28 - 18:30
    E que história do Médio Oriente,
  • 18:30 - 18:32
    que história do mundo,
  • 18:32 - 18:34
    querem vocês ver
  • 18:34 - 18:36
    refletir o que é dito,
  • 18:36 - 18:38
    o que é expresso neste cilindro?
  • 18:38 - 18:40
    O direito dos povos
  • 18:40 - 18:42
    de viverem juntos no mesmo estado,
  • 18:42 - 18:44
    de adorarem de maneira diferente, livremente --
  • 18:44 - 18:46
    um Médio Oriente, um mundo,
  • 18:46 - 18:48
    no qual a religião não seja o tema de divisão
  • 18:48 - 18:51
    ou de debate.
  • 18:51 - 18:54
    No mundo do Médio Oriente, neste momento,
  • 18:54 - 18:57
    os debates são, como sabem, estridentes.
  • 18:57 - 18:59
    Mas eu penso que é possível
  • 18:59 - 19:03
    que a mais poderosa e sábia de todas aquelas vozes
  • 19:03 - 19:05
    possa bem ser a voz
  • 19:05 - 19:07
    desta coisa muda,
  • 19:07 - 19:09
    o cilindro de Ciro.
  • 19:09 - 19:11
    Obrigado.
  • 19:11 - 19:15
    (Aplausos)
Title:
Neil MacGregor: 2600 anos de história num objeto
Speaker:
Neil MacGregor
Description:

Um cilindro de barro coberto de escrita cuneiforme acadiana, danificado e partido, o Cilindro de Ciro é um poderoso símbolo de tolerância religiosa e de multiculturalismo. Nesta palestra fascinante, Neil MacGregor, Diretor do Museu Britânico, descreve 2600 anos de história do Médio Oriente, através deste único objeto.

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Video Language:
English
Team:
TED
Project:
TEDTalks
Duration:
19:16
Isabel Vaz Belchior added a translation

Portuguese subtitles

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