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A história do Espaço Colectivo Autogestionado do Alto da Fontinha, pelos próprios intervenientes.
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Showing Revision 3 created 04/08/2012 by saritamoreira.

  1. Não é que fosse uma ideia nova na cabeça do grupo ocupar,
  2. já era uma coisa que faz parte dos nossos objetivos e dos nossos princípios.
  3. Começamos a perceber que era um espaço que estava abandonado,
  4. que já era um espaço onde os miúdos saltavam as grades para vir jogar à bola.
  5. Porque é uma escola, um edifício público…
  6. A escola é fixe, é um lugar tranquilo onde todos podem estar.
  7. E é bonito porque é para a comunidade,
  8. todos podem estar aqui independente de quem seja.
  9. E ocupamos a escola no dia 10 de Abril (2011) e pronto,
  10. depois ficou um grupo de 7, 8, pessoas mais ou menos,
  11. que ficaram sempre cá dentro do edifício a viver.
  12. Durante um mês, não tivemos problemas nenhuns,
  13. nunca cá veio ninguém perguntar nada.
  14. Primeiro vieram aqui ocupar este espaço, e depois a polícia veio…
  15. porque eu passei um dia aqui de manhã, às 7 da manhã
  16. e vi aqui muita polícia, armados e…
  17. E pronto, e a tirarem o pessoal todo daqui.
  18. Taparam ali a porta…
  19. O processo demorou mais ou menos uma hora até eles entrarem no edifício.
  20. Havia 3 pessoas que tinham ido para o telhado para tornar a coisa mais lenta.
  21. Depois disto estar limpo, tiraram o lixo todo, pintaram, puseram aqui…
  22. Faziam aqui coisas para as pessoas se juntarem, crianças e tudo
  23. e eles vêm tirar as pessoas daqui?
  24. Algemadas? Sinceramente…
  25. Se fosse para um assalto eles fugiam…
  26. Mas isto parecia coisa do faroeste, de manhã às 8 horas da manhã aqui.
  27. Lá em baixo estavam para aí 8 carros da polícia,
  28. estava aqui a carrinha da polícia de choque, estava o carro dos bombeiros,
  29. enorme, que acabou por não vir cá porque nem entrava,
  30. depois foram buscar outro.
  31. Era carrinhas de emergência por todo o lado…
  32. Ai meu deus nosso senhor.
  33. Que a policia aparecesse sem vontade de conversar
  34. e com o intuito de nos expulsar de uma forma que nós consideramos ilegal
  35. porque tanto quanto sabemos a lei permite-nos uma estadia de até 90 dias
  36. em espaços públicos depois da notificação.
  37. Portanto, não houve notificação, a notificação foi o despejo.
  38. Estávamos à espera de ser contactados pelas autoridades,
  39. como é obvio, não estávamos à espera de ser expulsos
  40. tão rapidamente e sem possibilidade de diálogo.
  41. O que veio a seguir, basicamente, foi a sensação de insatisfação.
  42. Foi principalmente o que isso causou,
  43. porque ocupou-se a escola, começou-se a programar actividades,
  44. começou-se a ter a Es.Col.A frequentada,
  45. começou-se a ter as visitas dos vizinhos,
  46. começou-se a criar uma dinâmica que se foi gerando praticamente sozinha.
  47. Evidentemente, estas coisas não podem acabar assim de um momento para o outro.
  48. Não é com uma carga policial ou com a vontade da Câmara
  49. de fechar o espaço que, simplesmente, as pessoas
  50. iriam virar costas e meter-se em casa e nunca mais pensar naquilo.
  51. Assembleia da Es.Col.A da Fontinha, hoje às 18h30, no Largo da Fontinha,
  52. para se decidir o que fazer, depois da invasão policial de hoje.
  53. E depois começou uma luta da comunidade.
  54. Eu propunha só enviarmos uma carta à Câmara a dizer que a população
  55. quer a Es.Col.A até ao dia de S. João.
  56. Pomos um prazo e, se o prazo não for cumprido, reocupamos.
  57. E temos uma coisa a nosso favor que é um prazo que não foi cumprido,
  58. provavelmente. E é o que a população quer, de facto.
  59. E, portanto, como a Câmara não nos disse um «não»
  60. - a Câmara, efectivamente, não nos disse um «não»
  61. e as notícias que têm saído na comunicação social
  62. são que a vereadora está interessada no nosso projecto.
  63. Acho que foi uma asneira muitíssimo grande
  64. – além de eu ter família na polícia também –
  65. eles foram uns grandessíssimos brutos, uns grandessíssimos estúpidos,
  66. em fazer aquilo que fizeram.
  67. Eles apenas tinham que chegar aqui e perguntar à vizinhança
  68. se havia alguma coisa que dizer, se eram pessoas competentes,
  69. se eram pessoas educadas, se nos sentíamos bem com eles
  70. ou se éramos mal-tratados.
  71. Mediante a nossa informação, eles reagiam.
  72. Não era reagir como reagiram.
  73. Eles foram uns grandes estúpidos, uns grandes brutos,
  74. porque aquilo que vocês estavam a fazer era para bem,
  75. porque enquanto esteve ali a badalhoquice das seringas,
  76. das garrafas, do lixo todo, não apareceu ninguém,
  77. mas como vocês andavam a trabalhar para melhorar aqui a zona...
  78. Era muito bom para as crianças,
  79. era muito bom para os idosos, porque
  80. – olhe – eu já não sou nenhum bebé, já fiz 81 anos.
  81. Assembleias sempre cada vez mais participadas,
  82. cada vez aparecia mais gente,
  83. gente muito diferente, gente de alguns quadrantes políticos,
  84. outras pessoas completamente apolíticas,
  85. mas sempre com a vontade determinada de resolver esta questão.
  86. E pronto, tive uma conversa engraçada com a senhora que,
  87. em nome pessoal também,
  88. me foi dando os mais diversos argumentos,
  89. desde «porque é que não preferem reunir numa sala confortável,
  90. com cadeiras confortáveis, com ar condicionado e onde lhes podemos oferecer um café?»
  91. A que eu respondi que gostaríamos muito de recebê-la
  92. nas nossas instalações, mas que nos tinham posto na rua.
  93. Olha, eu vou ser franca...
  94. [Se fizessem ali um projecto o quê que você gostava que se fizesse?]
  95. Eu, eu, eu para ir para lá, sabes que a mim custa-me muito
  96. ...eu para ir para lá não me comprometo
  97. para estar a dizer que vou e depois faltar, mais vale ser logo positiva, não é?
  98. Mas está bem, há pessoas que vão estar, não é?
  99. Que gostariam que fizessem ali algum, um convívio, não é?
  100. Um convívio mas mais necessitado era as crianças terem ali
  101. as mães iam trabalhar e depois as crianças saíam da escola
  102. elas ficavam ali.
  103. Isso foi, o da Câmara [Rui Rio]
  104. Esse é que tirou isso às crianças - foi ele que tirou.
  105. Ele para mim só faz coisas que....
  106. Ora bem, isto foi tudo assim um processo porque a Câmara sempre esteve em silêncio
  107. sempre se manteve em silêncio, nunca quis saber o que aconteceu
  108. nunca quis saber o que é que motivou as pessoas a fazerem isso
  109. o que é que lá estavam a fazer
  110. para quê que o estavam a fazer, a Câmara nunca quis saber de nada disso.
  111. Até ao momento em que, na minha modesta opinião, foi a pressão popular.
  112. "ninguém pode parar a iniciativa popular"
  113. "queremos a escola para o povo"
  114. "mesmo emparedado o povo não fica calado"
  115. "O «Rio» só cria barragens e o povo resiste nas margens"
  116. "E tudo o Rio lebou"
  117. "A escola é nossa"
  118. "Da es.col.a para o bairro ou da câmara para o abandono?"
  119. "Antes emparedado do que ocupado?"
  120. "Para não ser «inteligente» basta ser presidente de uma Câmara deficiente"
  121. "Liberta espaços, cria alternativas"
  122. No dia 14 de Maio aprova dar todo o apoio à luta da Es.Col.A.,
  123. na defesa de um projecto que permitiu devolver à comunidade,
  124. ao menos por algum tempo,
  125. uma escola encerrada há 5 anos sem qualquer preocupação
  126. com a necessidade das pessoas,
  127. a sua segurança e a educação das suas crianças.
  128. A desocupação violenta da Es.Col.A. do Alto da Fontinha
  129. constitui um acto de arrogância e insensibilidade
  130. na defesa de interesses alheios aos da população.
  131. Todo o apoio à luta e ao projecto da Es.Col.A.
  132. do Alto da Fontinha.
  133. 14 de Maio, Assembleia Popular do Porto
  134. E a oposição por sua vez pressionou a Câmara,
  135. que por sua vez se viu obrigada a dar-nos alguma da sua atenção.
  136. São as vicissitudes da democracia… não é?
  137. A Es.col.A. da Fontinha até agora teve contacto com dois vereadores.
  138. A doutora professora Guilhermina Rego,
  139. que é a vereadora do pelouro do Conhecimento e Coesão Social.
  140. Eu não faço bem ideia do que isto quer dizer…
  141. E o vereador António Rebelo, se não me engano.
  142. Que é o vereador do Património,
  143. que é dos bens materiais ou dos imóveis que a Câmara possui.
  144. E os seus assistentes, quer dizer, as pessoas reúnem-se
  145. assim numas equipas monumentais.
  146. Sabiamos de antemão que nessa Assembleia Municipal
  147. a oposição ia levantar essa questão da Es.col.A. da Fontinha,
  148. era uma daquelas assembleias municipais em que os munícipes
  149. de vez em quando têm o direito de intervir,
  150. apesar de que sempre que isso acontece
  151. o presidente da câmara levanta-se e vai-se embora…
  152. Portanto, primeiro despejo, mobilização, onda de solidariedade,
  153. concentração na parte de trás da câmara…
  154. E a câmara resolve entregar a chave!
  155. Ando de bicicleta, faço os trabalhos de casa,
  156. brinco com os meus colegas também.
  157. E convivo com toda a gente!
  158. Construímos aqui um ginásio, temos aqui saco de boxe,
  159. temos aqui pesos para fazer musculação....
  160. Oh, esses gajos são malucos, então um gajo é daqui,
  161. fez tanto por isto e o caralho e agora querem-nos tirar daqui porquê?
  162. Se houvesse problemas aqui…
  163. Mas é que não há, a vizinhança até gosta.
  164. Os miúdos vêm para aqui brincar.
  165. E vêm para aqui estudar e tudo.
  166. O apoio educativo começou aqui na fontinha,
  167. foi uma das primeiras actividades, para auxiliar essencialmente as crianças
  168. no pós-escolar, no trabalho que elas têm,
  169. nos trabalhos de casa, estudar para os testes,
  170. aprender aquilo que elas quiserem aprender.
  171. Começou com poucas crianças, agora geralmente são mais.
  172. Crianças aqui da zona,
  173. as mais pequenas com 5 anos, até aos 12.
  174. O apoio educativo em si tem sido um dos alicerces
  175. deste próprio projecto e que tem corrido bem até ao momento.
  176. Agora… É um bocado difícil e complicado
  177. tu alterares os ritmos que as crianças têm numa escola normal
  178. e virem para aqui, dar-lhes mais responsabilidade
  179. e onde tentas dar mais liberdade para elas aprenderem
  180. e fazerem o que querem. Mas tentamos, é por aí.
  181. Posso pôr um bocadinho de azul?
  182. Qual, este?
  183. Um azul.
  184. Até agora está a ser fixe! Menos alguns raspanetes que nós levamos,
  185. isso é que não é fixe.
  186. Onde é que eu ia?
  187. A Câmara diz ao Es.Col.A:
  188. «Nós estamos disponíveis para assinar um contrato de cedência do espaço»,
  189. a dinheiro, porque a Câmara – embora isto depois seja outra conversa –
  190. neste momento não cede coisíssima nenhuma, só aluga,
  191. não está previsto nenhum modelo de contrato de cedência,
  192. só estão previstos contratos de aluguer, por muito baratos que sejam,
  193. mas sempre de aluguer.
  194. E a Câmara compromete-se a assinar o contrato de cedência.
  195. Nós assinámos o contrato de cedência.
  196. Duas pessoas do colectivo foram mandatadas para assinar
  197. esse contrato de promessa que tinha a duração de 30 dias
  198. para o Es.Col.A constituir uma associação e dez dias
  199. para ambas as partes assinarem um contrato.
  200. O Es.Col.A constituiu uma associação, notificou a Câmara de tal e,
  201. até ao momento, nunca chegou um contrato de cedência do espaço.
  202. Até ao dia em que chega uma ordem de despejo, cinco meses depois.
  203. Quando algumas pessoas ainda acreditavam na boa-vontade
  204. da Câmara em cumprir o que prometeu e enviar um contrato de cedência,
  205. desenganem-se e tomem lá uma ordem de despejo.
  206. O que é que eu hei-de dizer à polícia...
  207. Que não têm nada que despejar isto.
  208. Se há muitas pessoas que gostam disto aqui, não têm nada que despejar.
  209. Não afecta, de todo,
  210. Eu, pelo menos, não notei que a notícia do despejo viesse desmoralizar.
  211. Tínhamos uma ordem de despejo para o dia 30 de Março
  212. até ao momento que, mais uma vez, a oposição,
  213. resolveu propor uma suspensão para essa ordem de despejo,
  214. que foi votada nessa assembleia municipal,
  215. foi votada e ganhou com a abstenção da bancada
  216. que emitiu a ordem de despejo.
  217. Eu agora vou fazer tudo por tudo para a Es.Col.A não vá...
  218. Para que toda a gente não vá ser despejada!