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O que o silêncio nos pode ensinar sobre o som

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    Para muitos de nós agora,
    a nossa vida está mais calma que o normal.
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    E o silêncio pode ser angustiante.
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    Pode fazer-nos sentir sozinhos
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    ou apenas muito conscientes
    das coisas que estamos a perder.
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    Eu estou sempre a pensar no som.
  • 0:17 - 0:18
    Sou um "designer" do som
  • 0:18 - 0:21
    e sou o apresentador do "podcast"
    "Twenty Thousand Hertz."
  • 0:21 - 0:25
    Trata dos sons mais reconhecíveis
    e interessantes do mundo.
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    Mas eu acho que chegou o momento
    perfeito para falar do silêncio.
  • 0:29 - 0:31
    Porque o que eu vim a entender
  • 0:31 - 0:35
    é que o silêncio não existe.
  • 0:35 - 0:38
    A pessoa que abriu a minha mente
    para essa ideia
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    é um dos compositores
    mais influentes da História.
  • 0:41 - 0:43
    (Música)
  • 0:43 - 0:47
    John Cage causou impacto
    em artistas de muitos géneros,
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    de músicos da vanguarda
    à dança moderna, à música pop.
  • 0:51 - 0:54
    Neste momento, estamos a ouvir
    a sua peça de 1948,
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    chamada "In a Landscape."
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    Esta versão foi gravada em 1994
    por Stephen Drury.
  • 0:59 - 1:02
    (Música)
  • 1:05 - 1:08
    Esta peça não é muito típica
    da escrita de John Cage.
  • 1:09 - 1:12
    Ele é mais conhecido pelas suas inovações
    e técnicas de vanguarda.
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    Mas, apesar da sua reputação,
  • 1:14 - 1:19
    ninguém estava preparado
    para o que ele fez em 1952,
  • 1:19 - 1:22
    quando ele criou a peça
    mais desafiadora da sua carreira.
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    Chamava-se "4 minutos e 33 segundos"
  • 1:26 - 1:31
    e era uma peça a que alguns críticos
    se recusaram a chamar "música",
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    porque, durante toda da peça,
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    o músico não toca absolutamente nada.
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    Bom, do ponto de vista técnico
    o músico está a tocar um silêncio.
  • 1:42 - 1:45
    Mas para o público,
    parece que nada está a acontecer.
  • 1:46 - 1:48
    O 4'33" de John Cage
    foi apresentado pela primeira vez
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    no verão de 1952,
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    pelo conhecido pianista David Tudor.
  • 1:53 - 1:56
    Foi na sala de Concertos Maverick
    em Woodstock, Nova Iorque.
  • 1:56 - 2:00
    Trata-se de um belo edifício de madeira
    com uma enorme entrada para o exterior.
  • 2:00 - 2:02
    David Tudor apareceu no palco,
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    sentou-se ao piano;
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    depois, fechou a tampa do piano.
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    Ficou sentado em silêncio,
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    e só se mexeu para abrir
    e fechar a tampa do piano
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    entre cada um dos três movimentos.
  • 2:12 - 2:14
    Depois de o tempo acabar,
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    levantou-se
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    e saiu do palco.
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    O público não sabia o que pensar.
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    As pessoas questionaram se Cage
    estava a levar a sério a sua carreira.
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    Um grande amigo escreveu-lhe,
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    implorando-lhe que não transformasse
    a sua carreira numa anedota.
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    John Cage tinha,
    se é que se pode chamar assim,
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    composto uma peça musical
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    que desafiava algumas
    ideias muito enraizadas
  • 2:39 - 2:41
    sobre composição musical.
  • 2:41 - 2:43
    É uma coisa que os músicos
    ainda debatem hoje.
  • 2:44 - 2:47
    Para entender o que
    John Cage estava a pensar,
  • 2:47 - 2:49
    vamos voltar aos anos 40.
  • 2:49 - 2:50
    Naquela época,
  • 2:50 - 2:54
    John Cage estava a ficar conhecido
    por compor para piano preparado.
  • 2:54 - 2:55
    (Música)
  • 2:55 - 2:57
    Para fazer música como essa,
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    John Cage tinha de colocar objetos
    dentro do piano,
  • 2:59 - 3:01
    entre as cordas.
  • 3:01 - 3:03
    Coisas que achamos pelo chão,
  • 3:03 - 3:06
    como parafusos, fitas e borrachas.
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    Assim, transformava-se o piano
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    de um instrumento tonal
    com tons altos e baixos
  • 3:11 - 3:14
    numa coleção de sons únicos.
  • 3:14 - 3:17
    A música que estão a ouvir
    é a "Sonata V" de Cage
  • 3:17 - 3:19
    das "Sonatas e Interlúdios para
    Piano Preparado",
  • 3:19 - 3:23
    provavelmente o seu trabalho
    mais famoso, para além do 4'33".
  • 3:23 - 3:25
    Esta versão foi executada por Boris Berman
  • 3:26 - 3:29
    John Cage escreveu instruções
    extremamente detalhadas
  • 3:29 - 3:32
    sobre onde colocar cada objeto no piano.
  • 3:32 - 3:36
    Mas é impossível para qualquer artista
    conseguir exatamente os mesmos objetos,
  • 3:36 - 3:38
    portanto o som que recebemos
    é sempre diferente.
  • 3:38 - 3:41
    Basicamente, tudo se resume ao acaso.
  • 3:41 - 3:44
    Isto era totalmente louco
    e diferente do modo
  • 3:44 - 3:48
    como a maioria dos compositores
    e músicos são ensinados a fazer as coisas.
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    John Cage estava a ficar
    cada vez mais interessado
  • 3:51 - 3:54
    no acaso e na aleatoriedade,
  • 3:54 - 3:57
    permitindo que o universo apresentasse
    a resposta para a pergunta:
  • 3:57 - 3:59
    "Que nota devo tocar a seguir?"
  • 3:59 - 4:01
    Mas para ouvir a resposta à pergunta
  • 4:01 - 4:04
    primeiro é preciso ouvir.
  • 4:04 - 4:05
    Nos anos 40, ouvir o universo
  • 4:05 - 4:08
    era cada vez mais difícil de fazer.
  • 4:08 - 4:10
    (Música)
  • 4:10 - 4:13
    A empresa Muzak foi fundada nos anos 30
  • 4:13 - 4:14
    e teve êxito imediatamente.
  • 4:14 - 4:18
    Em breve, havia uma constante
    música de fundo em quase toda a parte.
  • 4:18 - 4:20
    Era quase impossível escapar-lhe.
  • 4:21 - 4:24
    John Cage percebeu que as pessoas
    estavam a perder a opção
  • 4:24 - 4:26
    de bloquear a música de fundo do mundo.
  • 4:26 - 4:30
    Ele temia que Muzak impedisse as pessoas
    de ouvir o silêncio por completo.
  • 4:31 - 4:33
    Em 1948,
  • 4:33 - 4:35
    quatro anos antes de escrever 4'33",
  • 4:35 - 4:37
    John Cage referiu que queria escrever
  • 4:38 - 4:40
    uma peça de quatro minutos e meio
    de silêncio
  • 4:40 - 4:43
    e vendê-la à empresa Muzak.
  • 4:43 - 4:45
    Começou como uma espécie
    de declaração política
  • 4:45 - 4:47
    ou de comentário improvisado,
  • 4:47 - 4:50
    mas essa ideia tocou num ponto sensível
    e evoluiu rapidamente.
  • 4:50 - 4:54
    John Cage começava a pensar
    profundamente no silêncio.
  • 4:54 - 4:57
    Quando visitou um lugar
    realmente silencioso,
  • 4:57 - 5:00
    fez uma descoberta surpreendente.
  • 5:00 - 5:04
    John Cage visitou uma câmara anecoica
    na Universidade de Harvard.
  • 5:04 - 5:07
    As câmaras anecoicas são salas
    tratadas acusticamente
  • 5:07 - 5:10
    para minimizar o som quase até zero.
  • 5:10 - 5:12
    Não há nenhuns sons nessas salas,
  • 5:12 - 5:15
    por isso John Cage pensava
    que não ia ouvir nada.
  • 5:15 - 5:18
    Mas, na verdade, ouviu
    o seu sangue a circular.
  • 5:18 - 5:20
    (Pulsações)
  • 5:20 - 5:22
    Eu pessoalmente experimentei
    uma câmara anecoica.
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    É uma experiência extravagante
  • 5:24 - 5:27
    que pode mudar completamente
    as nossas perceções
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    sobre o som e o silêncio.
  • 5:29 - 5:32
    Parecia que o meu cérebro estava
    a tornar-se num amplificador,
  • 5:32 - 5:34
    à procura de qualquer coisa para ouvir.
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    Tal como Jonh Cage,
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    eu escutava nitidamente o meu sangue
    a circular pelo meu corpo.
  • 5:40 - 5:42
    John Cage percebeu, naquele momento,
  • 5:42 - 5:47
    que onde quer que estejamos,
    até o nosso corpo está a emitir sons.
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    Basicamente, não existe
    o silêncio absoluto.
  • 5:51 - 5:53
    Enquanto estivermos no nosso corpo,
  • 5:53 - 5:55
    estaremos sempre a escutar alguma coisa.
  • 5:55 - 5:59
    Foi aqui que o interesse de John Cage
    pelo acaso e pela aleatoriedade
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    se encontrou com o seu interesse
    pelo silêncio.
  • 6:01 - 6:05
    Ele percebeu que criar
    um ambiente sem distrações
  • 6:05 - 6:07
    não era criar silêncio.
  • 6:07 - 6:10
    Nem sequer se tratava
    de controlar o barulho.
  • 6:10 - 6:13
    Tratava-se dos sons que já existiam
  • 6:13 - 6:16
    mas que, de repente,
    escutamos pela primeira vez,
  • 6:16 - 6:19
    quando estamos preparados para ouvir.
  • 6:19 - 6:22
    Isso era frequentemente
    incompreendido sobre 4'33"
  • 6:22 - 6:24
    As pessoas assumiam que era uma piada,
  • 6:24 - 6:27
    mais não podiam estar
    mais longe da verdade.
  • 6:27 - 6:29
    Soa de modo diferente
    onde quer que seja tocada.
  • 6:29 - 6:31
    E esse é o objetivo.
  • 6:31 - 6:34
    O que John Cage realmente
    queria que ouvíssemos
  • 6:34 - 6:37
    era a beleza do mundo sonoro
    à nossa volta.
  • 6:37 - 6:40
    (Chilrear de pássaros)
  • 6:41 - 6:44
    (Vozes sobrepostas)
  • 6:45 - 6:48
    (Sino da igreja a tocar)
  • 6:49 - 6:53
    (Grilos a cantar e coruja a piar)
  • 6:54 - 6:57
    O 4'33" devia ser
    uma experiência consciente
  • 6:57 - 7:00
    que nos ajudasse a focarmo-nos
    em aceitar as coisas como elas são.
  • 7:01 - 7:05
    Não é uma coisa que qualquer um possa
    dizer-nos como nos devemos sentir.
  • 7:05 - 7:06
    É profundamente pessoal.
  • 7:07 - 7:09
    Também traz à tona
    algumas questões bem grandes
  • 7:09 - 7:11
    sobre o nosso mundo sonoro.
  • 7:11 - 7:13
    O 4'33" será música, será som?
  • 7:13 - 7:15
    Será música sonora?
  • 7:15 - 7:17
    Há alguma diferença?
  • 7:17 - 7:19
    John Cage lembra-nos
  • 7:19 - 7:22
    que a música não é o único tipo de som
    que vale a pena escutar.
  • 7:23 - 7:25
    Vale a pena pensar em todos os sons.
  • 7:25 - 7:28
    Temos uma oportunidade única na vida
  • 7:28 - 7:30
    para redefinir os nossos ouvidos.
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    Se nos tornarmos mais conscientes
    daquilo que ouvimos,
  • 7:33 - 7:36
    acabaremos por fazer
    com que o nosso mundo soe melhor.
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    O silêncio não é quando desligamos
    as nossas mentes para o som,
  • 7:41 - 7:43
    é quando podemos
    começar a ouvir o mundo
  • 7:43 - 7:46
    em toda a sua beleza sonora.
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    Então, dentro deste espírito,
  • 7:48 - 7:50
    vamos tocar 4'33" todos juntos,
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    onde quer que estejamos.
  • 7:52 - 7:53
    São três movimentos,
  • 7:53 - 7:55
    e eu aviso quando eles começarem.
  • 7:55 - 7:59
    Ouçam a textura e o ritmo
    dos sons à vossa volta.
  • 7:59 - 8:01
    Ouçam o alto e o suave,
  • 8:01 - 8:02
    o harmónico, o dissonante,
  • 8:03 - 8:06
    e todos os pequenos detalhes
    que tornam único cada som.
  • 8:07 - 8:12
    Passem este tempo atentos e focados
    neste momento sonoro da vida real.
  • 8:12 - 8:16
    Aproveitem a magnificência
    de escutar e ouvir.
  • 8:16 - 8:18
    Aí vem o primeiro movimento.
  • 8:18 - 8:20
    Vai começar...
  • 8:20 - 8:21
    agora.
  • 8:21 - 8:24
    [I - Em silêncio]
  • 8:50 - 8:52
    E este é o movimento dois.
  • 8:52 - 8:54
    Serão 2 minutos e 23 segundos.
  • 8:55 - 8:58
    [II - Em silêncio]
  • 11:18 - 11:20
    E este é o movimento final.
  • 11:20 - 11:22
    Será de 1 minuto e 40 segundos.
  • 11:23 - 11:26
    [III- Em silêncio]
  • 13:03 - 13:04
    E é tudo.
  • 13:04 - 13:06
    Nós conseguimos.
  • 13:06 - 13:08
    Obrigado pela atenção.
Title:
O que o silêncio nos pode ensinar sobre o som
Speaker:
Dallas Taylor
Description:

O que podemos ouvir em silêncio? Nesta exploração do som, Dallas Taylor, o apresentador do "podcast" Twenty Thousand Hertz, conta a história da composição musical mais debatida da história recente — a peça icónica do compositor John Cage 4'33"— e convida-nos a tomar conhecimento da paisagem sonora à nossa volta. Assistam até ao final para experimentar um desempenho de 4'33 ''.

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Video Language:
English
Team:
TED
Project:
TEDTalks
Duration:
13:22

Portuguese subtitles

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