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← O que o silêncio nos pode ensinar sobre o som

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Showing Revision 7 created 09/19/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Para muitos de nós agora,
    a nossa vida está mais calma que o normal.
  2. E o silêncio pode ser angustiante.
  3. Pode fazer-nos sentir sozinhos
  4. ou apenas muito conscientes
    das coisas que estamos a perder.
  5. Eu estou sempre a pensar no som.

  6. Sou um "designer" do som

  7. e sou o apresentador do "podcast"
    "Twenty Thousand Hertz."
  8. Trata dos sons mais reconhecíveis
    e interessantes do mundo.
  9. Mas eu acho que chegou o momento
    perfeito para falar do silêncio.
  10. Porque o que eu vim a entender
  11. é que o silêncio não existe.
  12. A pessoa que abriu a minha mente
    para essa ideia
  13. é um dos compositores
    mais influentes da História.
  14. (Música)

  15. John Cage causou impacto
    em artistas de muitos géneros,

  16. de músicos da vanguarda
    à dança moderna, à música pop.
  17. Neste momento, estamos a ouvir
    a sua peça de 1948,
  18. chamada "In a Landscape."
  19. Esta versão foi gravada em 1994
    por Stephen Drury.
  20. (Música)

  21. Esta peça não é muito típica
    da escrita de John Cage.

  22. Ele é mais conhecido pelas suas inovações
    e técnicas de vanguarda.
  23. Mas, apesar da sua reputação,
  24. ninguém estava preparado
    para o que ele fez em 1952,
  25. quando ele criou a peça
    mais desafiadora da sua carreira.
  26. Chamava-se "4 minutos e 33 segundos"
  27. e era uma peça a que alguns críticos
    se recusaram a chamar "música",
  28. porque, durante toda da peça,
  29. o músico não toca absolutamente nada.
  30. Bom, do ponto de vista técnico
    o músico está a tocar um silêncio.
  31. Mas para o público,
    parece que nada está a acontecer.
  32. O 4'33" de John Cage
    foi apresentado pela primeira vez

  33. no verão de 1952,
  34. pelo conhecido pianista David Tudor.
  35. Foi na sala de Concertos Maverick
    em Woodstock, Nova Iorque.
  36. Trata-se de um belo edifício de madeira
    com uma enorme entrada para o exterior.
  37. David Tudor apareceu no palco,
  38. sentou-se ao piano;
  39. depois, fechou a tampa do piano.
  40. Ficou sentado em silêncio,
  41. e só se mexeu para abrir
    e fechar a tampa do piano
  42. entre cada um dos três movimentos.
  43. Depois de o tempo acabar,
  44. levantou-se
  45. e saiu do palco.
  46. O público não sabia o que pensar.

  47. As pessoas questionaram se Cage
    estava a levar a sério a sua carreira.
  48. Um grande amigo escreveu-lhe,
  49. implorando-lhe que não transformasse
    a sua carreira numa anedota.
  50. John Cage tinha,
    se é que se pode chamar assim,
  51. composto uma peça musical
  52. que desafiava algumas
    ideias muito enraizadas
  53. sobre composição musical.
  54. É uma coisa que os músicos
    ainda debatem hoje.
  55. Para entender o que
    John Cage estava a pensar,

  56. vamos voltar aos anos 40.
  57. Naquela época,
  58. John Cage estava a ficar conhecido
    por compor para piano preparado.
  59. (Música)

  60. Para fazer música como essa,

  61. John Cage tinha de colocar objetos
    dentro do piano,
  62. entre as cordas.
  63. Coisas que achamos pelo chão,
  64. como parafusos, fitas e borrachas.
  65. Assim, transformava-se o piano
  66. de um instrumento tonal
    com tons altos e baixos
  67. numa coleção de sons únicos.
  68. A música que estão a ouvir
    é a "Sonata V" de Cage
  69. das "Sonatas e Interlúdios para
    Piano Preparado",
  70. provavelmente o seu trabalho
    mais famoso, para além do 4'33".
  71. Esta versão foi executada por Boris Berman
  72. John Cage escreveu instruções
    extremamente detalhadas
  73. sobre onde colocar cada objeto no piano.
  74. Mas é impossível para qualquer artista
    conseguir exatamente os mesmos objetos,
  75. portanto o som que recebemos
    é sempre diferente.
  76. Basicamente, tudo se resume ao acaso.
  77. Isto era totalmente louco
    e diferente do modo
  78. como a maioria dos compositores
    e músicos são ensinados a fazer as coisas.
  79. John Cage estava a ficar
    cada vez mais interessado

  80. no acaso e na aleatoriedade,
  81. permitindo que o universo apresentasse
    a resposta para a pergunta:
  82. "Que nota devo tocar a seguir?"
  83. Mas para ouvir a resposta à pergunta
  84. primeiro é preciso ouvir.
  85. Nos anos 40, ouvir o universo
  86. era cada vez mais difícil de fazer.
  87. (Música)

  88. A empresa Muzak foi fundada nos anos 30

  89. e teve êxito imediatamente.
  90. Em breve, havia uma constante
    música de fundo em quase toda a parte.
  91. Era quase impossível escapar-lhe.
  92. John Cage percebeu que as pessoas
    estavam a perder a opção
  93. de bloquear a música de fundo do mundo.
  94. Ele temia que Muzak impedisse as pessoas
    de ouvir o silêncio por completo.
  95. Em 1948,

  96. quatro anos antes de escrever 4'33",
  97. John Cage referiu que queria escrever
  98. uma peça de quatro minutos e meio
    de silêncio
  99. e vendê-la à empresa Muzak.
  100. Começou como uma espécie
    de declaração política
  101. ou de comentário improvisado,
  102. mas essa ideia tocou num ponto sensível
    e evoluiu rapidamente.
  103. John Cage começava a pensar
    profundamente no silêncio.
  104. Quando visitou um lugar
    realmente silencioso,
  105. fez uma descoberta surpreendente.
  106. John Cage visitou uma câmara anecoica
    na Universidade de Harvard.

  107. As câmaras anecoicas são salas
    tratadas acusticamente
  108. para minimizar o som quase até zero.
  109. Não há nenhuns sons nessas salas,
  110. por isso John Cage pensava
    que não ia ouvir nada.
  111. Mas, na verdade, ouviu
    o seu sangue a circular.
  112. (Pulsações)

  113. Eu pessoalmente experimentei
    uma câmara anecoica.

  114. É uma experiência extravagante
  115. que pode mudar completamente
    as nossas perceções
  116. sobre o som e o silêncio.
  117. Parecia que o meu cérebro estava
    a tornar-se num amplificador,
  118. à procura de qualquer coisa para ouvir.
  119. Tal como Jonh Cage,
  120. eu escutava nitidamente o meu sangue
    a circular pelo meu corpo.
  121. John Cage percebeu, naquele momento,

  122. que onde quer que estejamos,
    até o nosso corpo está a emitir sons.
  123. Basicamente, não existe
    o silêncio absoluto.
  124. Enquanto estivermos no nosso corpo,
  125. estaremos sempre a escutar alguma coisa.
  126. Foi aqui que o interesse de John Cage
    pelo acaso e pela aleatoriedade

  127. se encontrou com o seu interesse
    pelo silêncio.

  128. Ele percebeu que criar
    um ambiente sem distrações
  129. não era criar silêncio.
  130. Nem sequer se tratava
    de controlar o barulho.
  131. Tratava-se dos sons que já existiam
  132. mas que, de repente,
    escutamos pela primeira vez,
  133. quando estamos preparados para ouvir.
  134. Isso era frequentemente
    incompreendido sobre 4'33"

  135. As pessoas assumiam que era uma piada,
  136. mais não podiam estar
    mais longe da verdade.
  137. Soa de modo diferente
    onde quer que seja tocada.
  138. E esse é o objetivo.
  139. O que John Cage realmente
    queria que ouvíssemos
  140. era a beleza do mundo sonoro
    à nossa volta.
  141. (Chilrear de pássaros)

  142. (Vozes sobrepostas)

  143. (Sino da igreja a tocar)

  144. (Grilos a cantar e coruja a piar)

  145. O 4'33" devia ser
    uma experiência consciente

  146. que nos ajudasse a focarmo-nos
    em aceitar as coisas como elas são.
  147. Não é uma coisa que qualquer um possa
    dizer-nos como nos devemos sentir.
  148. É profundamente pessoal.
  149. Também traz à tona
    algumas questões bem grandes
  150. sobre o nosso mundo sonoro.
  151. O 4'33" será música, será som?
  152. Será música sonora?
  153. Há alguma diferença?
  154. John Cage lembra-nos
  155. que a música não é o único tipo de som
    que vale a pena escutar.
  156. Vale a pena pensar em todos os sons.
  157. Temos uma oportunidade única na vida

  158. para redefinir os nossos ouvidos.
  159. Se nos tornarmos mais conscientes
    daquilo que ouvimos,
  160. acabaremos por fazer
    com que o nosso mundo soe melhor.
  161. O silêncio não é quando desligamos
    as nossas mentes para o som,
  162. é quando podemos
    começar a ouvir o mundo
  163. em toda a sua beleza sonora.
  164. Então, dentro deste espírito,

  165. vamos tocar 4'33" todos juntos,
  166. onde quer que estejamos.
  167. São três movimentos,
  168. e eu aviso quando eles começarem.
  169. Ouçam a textura e o ritmo
    dos sons à vossa volta.
  170. Ouçam o alto e o suave,
  171. o harmónico, o dissonante,
  172. e todos os pequenos detalhes
    que tornam único cada som.
  173. Passem este tempo atentos e focados
    neste momento sonoro da vida real.
  174. Aproveitem a magnificência
    de escutar e ouvir.
  175. Aí vem o primeiro movimento.
  176. Vai começar...
  177. agora.
  178. [I - Em silêncio]

  179. E este é o movimento dois.

  180. Serão 2 minutos e 23 segundos.
  181. [II - Em silêncio]

  182. E este é o movimento final.

  183. Será de 1 minuto e 40 segundos.
  184. [III- Em silêncio]

  185. E é tudo.

  186. Nós conseguimos.
  187. Obrigado pela atenção.