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← O que o silêncio pode nos ensinar sobre o som

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Showing Revision 12 created 08/14/2020 by Leonardo Silva.

  1. Para muitos de nós, neste momento,
  2. a vida está mais silenciosa
    do que o normal.
  3. E o silêncio pode ser desconcertante.
  4. Pode nos deixar solitários
  5. ou apenas conscientes demais
    das oportunidades que estamos perdendo.
  6. Reflito sobre o som o tempo todo.

  7. Sou designer de som
  8. e apresento o podcast
    "Twenty Thousand Hertz".
  9. Diz respeito aos sons mais perceptíveis
    e interessantes do mundo.
  10. Mas acho que este é o momento perfeito
    para falar sobre o silêncio.
  11. Porque passei a entender
  12. que o silêncio não existe.
  13. E a pessoa que abriu
    minha mente para essa ideia
  14. é um dos compositores
    mais influentes da história.
  15. (Música de piano)

  16. John Cage causou um impacto
    em artistas de muitos estilos musicais,

  17. desde músicos de vanguarda
    à dança moderna, até a música pop.
  18. Estamos ouvindo agora sua peça de 1948
    chamada "In a Landscape".
  19. Esta versão foi gravada em 1994
    por Stephen Drury.
  20. (Música de piano)

  21. Esta peça não é muito característica
    da composição de John Cage.

  22. Ele é mais conhecido por suas inovações
    e técnicas de vanguarda.
  23. Mas, apesar de sua reputação,
  24. ninguém estava preparado
    para o que ele fez em 1952,
  25. quando criou a peça mais ousada
    de sua carreira.
  26. Chamava-se "4'33''",
  27. e era uma peça que alguns críticos
    até se recusavam a chamar de "música",
  28. porque, durante toda a peça,
  29. o intérprete executa
  30. absolutamente nada.
  31. Tecnicamente, o intérprete
    está, na verdade, executando pausas.
  32. Mas, para a plateia,
    parece que nada está acontecendo.
  33. "4'33''" de John Cage
    foi executada pela primeira vez

  34. no verão de 1952,
  35. pelo renomado pianista David Tudor.
  36. Foi no Maverick Concert Hall,
    em Woodstock, Nova York.
  37. Este é um belo edifício de madeira
  38. com aberturas enormes
    para a parte externa.
  39. David Tudor entrou no palco,
  40. sentou-se ao piano
  41. e fechou a tampa do piano.
  42. Depois se sentou em silêncio,
  43. movendo-se apenas para abrir
    e fechar a tampa do piano
  44. entre cada um dos três movimentos.
  45. Depois que o tempo acabou,
  46. ele se levantou
  47. e saiu do palco.
  48. (Música de piano)

  49. A plateia não sabia o que pensar.

  50. Isso fez as pessoas se perguntarem
    se Cage estava levando a carreira a sério.
  51. Um amigo próximo até lhe escreveu,
  52. implorando para que ele não transformasse
    sua carreira em uma piada.
  53. John Cage havia, se podemos chamar assim,
  54. composto uma peça musical
  55. que realmente desafiou
    algumas ideias bem estabelecidas
  56. sobre composição musical.
  57. É algo que os músicos debatem até hoje.
  58. Para entender exatamente
    o pensamento de John Cage,

  59. vamos voltar aos anos 1940.
  60. Naquela época,
  61. John Cage se tornava famoso
    compondo para o piano preparado.
  62. (Música de piano)

  63. Para criar música assim,

  64. John Cage colocava objetos
    dentro do piano,
  65. entre as cordas.
  66. Coisas que se encontra por aí,
  67. como parafusos, fita adesiva e borrachas.
  68. Agora, o piano foi transformado
  69. de um instrumento tonal
    com tons altos e baixos
  70. em uma coleção de sons únicos.
  71. A música que estamos ouvindo
    é "Sonata V", de Cage,
  72. de "Sonatas and Interludes
    for Prepared Piano",
  73. talvez sua obra mais famosa,
    além de "4'33''".
  74. Esta versão foi executada
    por Boris Berman.
  75. John Cage escreveu instruções
    incrivelmente detalhadas
  76. sobre onde colocar cada objeto no piano.
  77. Mas é impossível para cada intérprete
    obter exatamente os mesmos objetos.
  78. Então, o som resultante
    é sempre diferente.
  79. Basicamente, tudo se resume ao acaso.
  80. Isso era muito estranho
  81. para o modo como ensinam a maioria
    dos compositores e músicos a criar coisas.
  82. John Cage ficava cada vez mais interessado
    no acaso e na aleatoriedade

  83. e permitia que o Universo
    respondesse à pergunta:
  84. "Que nota devo tocar a seguir?"
  85. Mas, para ouvir a resposta à pergunta,
  86. primeiro precisamos escutar.
  87. E, na década de 1940,
  88. escutar o Universo
    era cada vez mais difícil.
  89. (Música de elevador)

  90. A empresa Muzak foi fundada nos anos 1930.

  91. Ela realmente decolou,
  92. e logo havia música de fundo constante
    em quase todos os lugares.
  93. Era quase impossível escapar.
  94. John Cage percebeu que as pessoas
    estavam perdendo a opção
  95. de excluir a música de fundo do mundo.
  96. Ele temia que Muzak impedisse as pessoas
    de ouvir o silêncio por completo.
  97. Em 1948,

  98. quatro anos antes de compor "4'33''",
  99. John Cage mencionou que queria compor
  100. uma peça de silêncio
    de quatro minutos e meio
  101. e vendê-la para a empresa Muzak.
  102. Tudo começou
  103. como uma espécie de declaração política
    ou comentário improvisado,
  104. mas essa ideia ganhou força
    e evoluiu rapidamente.
  105. John Cage estava começando a pensar
    profundamente sobre o silêncio.
  106. Quando visitou um lugar
    verdadeiramente silencioso,
  107. ele fez uma descoberta surpreendente.
  108. John Cage visitou uma câmara anecoica
    na Universidade de Harvard.

  109. Câmaras anecoicas são salas
    tratadas acusticamente
  110. para minimizar o som a quase zero.
  111. Não há sons nessas salas.
  112. Então, John Cage não esperava
    ouvir absolutamente nada.
  113. Mas, na verdade, ouviu
    o próprio sangue circulando.
  114. (Pulso)

  115. Tive uma experiência pessoal
    numa câmara anecoica,

  116. e é uma experiência extraordinária
  117. que pode mudar completamente
    nossas percepções sobre som e silêncio.
  118. Parecia realmente que meu cérebro
    havia ligado um amplificador,
  119. tentando ouvir qualquer coisa.
  120. Assim como John Cage,
  121. eu conseguia ouvir muito claramente
    o sangue percorrendo meu corpo.
  122. John Cage percebeu, naquele momento,

  123. que, não importa onde estejamos,
    até mesmo o corpo cria sons.
  124. Basicamente, não existe
    silêncio verdadeiro.
  125. Enquanto estivermos em nosso corpo,
  126. sempre ouviremos algo.
  127. É aqui que o interesse de John Cage
    pelo acaso e pela aleatoriedade

  128. encontrou seu interesse pelo silêncio.
  129. Ele percebeu que criar
    um ambiente sem distrações
  130. não se tratava de criar silêncio.
  131. Não se tratava nem mesmo
    de controlar o ruído.
  132. Tratava-se dos sons que já existiam,
  133. mas que, de repente,
    ouvimos pela primeira vez
  134. quando estamos realmente
    prontos para escutar.
  135. Isso é o que é muitas vezes
    mal interpretado sobre "4'33''".

  136. As pessoas acham que é uma piada,
  137. mas isso não é verdade.
  138. Soa diferente em todo lugar
    onde a executamos.
  139. E essa é a questão.
  140. O que John Cage realmente
    queria que ouvíssemos
  141. era a beleza do mundo sonoro
    ao nosso redor.
  142. (Gorjeio de aves)

  143. (Murmúrio)

  144. (Sino da igreja)

  145. (Cricrido de grilos e pio de coruja)

  146. "4'33''" deve ser uma experiência atenta

  147. que nos ajuda a nos concentrarmos
    em aceitar as coisas como elas são.
  148. Não é uma experiência em que outra pessoa
    possa dizer como devemos nos sentir.
  149. É profundamente pessoal.
  150. Isso também levanta
    algumas questões bem importantes
  151. sobre nosso mundo sonoro.
  152. Será que "4'33 ''" é música, é som,
  153. é música sonora?
  154. Existe alguma diferença?
  155. John Cage nos lembra
  156. de que a música não é o único
    tipo de som que vale a pena ouvir.
  157. Vale a pena contemplar todos os sons.
  158. Temos uma oportunidade única na vida
    de reajustar nossos ouvidos.

  159. E, se nos tornarmos
    mais conscientes do que ouvimos,
  160. faremos o mundo soar melhor.
  161. Silêncio não é quando desligamos
    a mente para os sons,
  162. mas quando conseguimos começar a escutar
  163. e ouvir o mundo em toda sua beleza sonora.
  164. Então, com esse espírito,

  165. vamos executar "4'33''" juntos,
  166. onde quer que você esteja.
  167. São três movimentos,
  168. e avisarei quando começar.
  169. Preste atenção na estrutura e no ritmo
    dos sons ao seu redor neste momento.
  170. Tente ouvir o alto e o suave,
  171. o harmônico, o dissonante
  172. e todos os pequenos detalhes
    que tornam cada som único.
  173. Passe este tempo atento e concentrado
    neste momento sonoro da vida real.
  174. Aproveite o esplendor de ouvir e escutar.
  175. Então, aí vem o primeiro movimento.
  176. Começando...
  177. agora.
  178. [I. Tacet]

  179. (Sem áudio)

  180. E eis o segundo movimento.

  181. Serão 2 minutos e 23 segundos.
  182. [II. Tacet]

  183. (Sem áudio)

  184. E eis o último movimento.

  185. Será 1 minuto e 40 segundos.
  186. [III. Tacet]

  187. (Sem áudio)

  188. É isso.

  189. Conseguimos.
  190. Obrigado pela atenção.