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← Porque é que devemos ler Flannery O’Connor? — Iseult Gillespie

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Showing Revision 6 created 03/02/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Uma avó tagarela e um bandido vagabundo
    encontram-se numa estrada de terra.

  2. Um vendedor de Bíblias atrai
    um filósofo perneta para um celeiro.
  3. Um faz-tudo viajante ensina a uma surda
    a primeira palavra numa antiga plantação.
  4. Da sua quinta na Geórgia rural,

  5. rodeada por um bando
    de aves de estimação,
  6. Flannery O’Connor escreveu
    contos de marginais,
  7. de intrusos e inadaptados
    inseridos no mundo que melhor conhece:
  8. o Sul dos EUA.
  9. Publicou dois romances,
  10. mas talvez seja mais conhecida
    pelos seus contos
  11. que exploram a vida duma pequena cidade
  12. com uma linguagem picante,
    um humor original
  13. e cenários deliciosamente desagradáveis.
  14. Nas horas livres, O'Connor
    desenhava caricaturas

  15. e a sua escrita também
    está repleta de caricaturas.
  16. Nas suas histórias, uma mãe tem o rosto
    "tão largo e inocente como um repolho",
  17. um homem tem tanta energia
    como uma "esfregona"
  18. e o corpo duma mulher
    tem a forma de uma "urna funerária".
  19. Os nomes das suas personagens
    são igualmente maliciosas.

  20. Vejam a história "The Life You
    Save May be Your Own".
  21. em que Tom Shiftlet, um vagabundo
    maneta se introduz na vida
  22. de uma velhota chamada Lucynell Crater
  23. e da sua filha surda-muda.
  24. Embora a Sra. Crater seja
    senhora do seu nariz,

  25. a sua casa isolada
    está a cair aos bocados.
  26. A princípio, podemos desconfiar
    dos motivos de Shiftlet
  27. quando se oferece para reparar a casa,
  28. mas O'Connor depressa revela
    que a velhota
  29. é tão cheia de segundas intenções
    como o seu hóspede inesperado
  30. e confunde as suposições do leitor
    sobre quem é que tem vantagem.
  31. Para O'Connor, nenhum tema
    tinha limites.

  32. Embora fosse uma católica devota,
  33. não tinha receio de explorar
    a possibilidade
  34. de um pensamento piedoso
    e um comportamento pouco piedoso
  35. coexistirem na mesma pessoa.
  36. Na sua novela "The Violent Bear it Away"
  37. a principal personagem enfrenta
    a vocação de ser um homem de Deus
  38. mas também é um incendiário
    e um assassino.
  39. O livro começa com o profeta relutante
    numa posição muito complicada:
  40. "O tio de Francis Marion Tarwater
    tinha morrido apenas há meio dia
  41. "quando o rapaz ficou demasiado bêbado
    para acabar de cavar a sepultura".
  42. É um tipo que passa que "arrasta
    o corpo da mesa do pequeno almoço
  43. "onde ele ainda estava sentado
    e o enterra [...]
  44. "com terra suficiente por cima
    para evitar que os cães o desenterrem".
  45. Embora se discuta ainda
    qual a sua política,

  46. a ficção de O'Connor pode ser
    sintonizada com o racismo do Sul.
  47. Em "Everything that Rises Must Converge,”
  48. descreve um filho furioso
    com o fanatismo da sua mãe.
  49. Mas a história revela
    que ele tem os seus pontos fracos
  50. e sugere que o facto de ele
    reconhecer o mal
  51. não isenta o seu carácter
    de ser avaliado.
  52. Mesmo quando O'Connor investiga
    aspetos desagradáveis da humanidade,

  53. deixa entreaberta a porta
    para a redenção.
  54. Em "A Good Man is Hard to Find,”
  55. redime uma avó insuportável
    ao perdoar a um criminoso empedernido
  56. mesmo quando ele encurrala a família dela.
  57. Embora nos possa chocar o preço
    que a mulher paga pela sua redenção,
  58. somos forçados a enfrentar
    os matizes, em momentos
  59. que, de outro modo, podíamos considerar
    puramente violentos ou malvados.
  60. A mestria do grotesco de O'Connor

  61. e a forma como explora a insularidade
    e a superstição do Sul,
  62. levam-na a ser considerada
    uma escritora gótica do Sul.
  63. Mas a sua obra vai muito além
    do puramente ridículo
  64. e das características assustadoras
    associadas aos sexos
  65. para revelar a variedade
    e os matizes do carácter humano.
  66. Sabia que parte dessas variedades
    eram incómodas
  67. e que as suas histórias
    podiam ser um gosto adquirido,
  68. mas divertia-se
    a desafiar os seus leitores.
  69. O'Connor morreu de lúpus,
    aos 39 anos,

  70. depois de a doença a ter isolado
    na quinta de Geórgia, durante 12 anos.
  71. Durante esses anos,
  72. escreveu grande parte
    da sua obra mais imaginativa.
  73. A sua capacidade de pairar
    entre a repulsão e a revelação
  74. continua a atrair leitores
    ao seu mundo de ficção
  75. que nos surpreende continuamente.
  76. Como sublinha a sua personagem,
    Tom Shiftlet,
  77. o corpo é "como uma casa:
  78. "não vai a parte nenhuma,
  79. "mas o espírito, minha senhora,
    é como um automóvel:
  80. "está sempre em movimento".