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← O que é um "squillo" e porque é que os cantores de ópera precisam dele? — Ming Luke

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Showing Revision 5 created 03/19/2020 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Dominada por uma paixão vingativa,
  2. a Rainha da Noite chora no meio do palco.
  3. Começa a cantar a sua ária principal,
  4. uma das partes mais conhecidas
    da adorada ópera de Mozart,
  5. "A Flauta Mágica".
  6. A orquestra enche a sala de música,
  7. mas a voz da rainha destaca-se
    acima dos instrumentos.
  8. A sua melodia ressoa por entre
    milhares de admiradores,
  9. chegando aos lugares
    à distância de 40 metros,
  10. tudo sem a ajuda de um microfone.
  11. Como é possível que uma simples voz
    possa ser ouvida tão nitidamente,
  12. por cima do poder
    de dezenas de instrumentos?
  13. A resposta está na física da voz humana
  14. e na técnica cuidadosamente afinada
    por um cantor de ópera experiente.
  15. Toda a música neste teatro
    provém das vibrações

  16. criadas pelos instrumentos,
  17. quer se trate das cordas de um violino,
    ou das cordas vocais dum executante.
  18. Essas vibrações enviam ondas pelo ar,
    interpretadas pelo nosso cérebro como som.
  19. A frequência dessas vibrações
  20. — especificamente, o número
    de ondas por segundo —
  21. representa como o nosso cérebro
    determina a intensidade duma só nota.
  22. Com efeito, cada nota que escutamos
  23. é uma combinação de múltiplas vibrações.
  24. Imaginem a corda duma guitarra
    que vibra na frequência mais baixa.
  25. Chama-se a isso "tom fundamental"
  26. e esta intensidade baixa
    é o que os nossos ouvidos usam
  27. para identificar uma nota.
  28. Mas esta vibração mais baixa
    provoca frequências adicionais
  29. chamadas "sobretons".
  30. que formam uma camada
    por cima do tom fundamental.
  31. Esses sobretons decompõem-se
    em frequências específicas
  32. chamadas harmónicas, ou parciais.
  33. É manipulando-as que os cantores
    de ópera fazem a sua magia.
  34. Cada nota tem um conjunto de frequências
    que abrange a sua série harmónica.

  35. O primeiro parcial vibra com o dobro
    da frequência do tom fundamental.
  36. O parcial seguinte
    é o triplo da frequência
  37. do tom fundamental, e por aí adiante.
  38. Praticamente todos
    os instrumentos acústicos
  39. produzem séries harmónicas
  40. mas a forma e o material
    de cada instrumento
  41. altera o equilíbrio das suas harmónicas.
  42. Por exemplo, uma flauta realça
    os primeiros parciais
  43. mas, no registo mais baixo
    de um clarinete,
  44. os parciais de número ímpar
    ressoam mais fortemente.
  45. A força dos diversos parciais
  46. faz parte do que dá a cada instrumento
    a sua assinatura sonora especial.
  47. Também afeta a capacidade
    de um instrumento
  48. de se destacar no meio duma multidão,
  49. porque os nossos ouvidos estão
    mais fortemente sintonizados
  50. numas frequências do que noutras.
  51. Este é o segredo do poder de projeção
    de um cantor de ópera.

  52. Uma soprano lírica
  53. — a mais alta das quatro vozes padrão —
  54. pode produzir notas
    com frequências fundamentais,
  55. que vão das 250 às 1500
    vibrações por segundo.
  56. Os ouvidos humanos são
    mais sensíveis às frequências
  57. entre as 2000 e as 5000
    vibrações por segundo.
  58. Assim, se o cantor pode fazer realçar
    os parciais nesta gama,
  59. pode visar um belo local sensorial
    onde seja mais provável ser ouvido.
  60. Os parciais mais altos também
    são vantajosos
  61. porque há menos competição
    por parte da orquestra
  62. cujos sobretons são mais fracos
    nessas frequências.
  63. O resultado de realçar esses parciais
  64. é um timbre distinto de campainha
    chamado o "squillo" dum cantor.
  65. Os cantores de ópera
    trabalham durante décadas

  66. para criar o seu "squillo".
  67. Podem produzir frequências mais altas
  68. modificando a forma e a tensão
    das suas cordas vocais e do trato vocal.
  69. Alterando a posição
    da língua e dos lábios,
  70. acentuam alguns sobretons
    enquanto aprofundam outros.
  71. Os cantores também aumentam
    a gama de parciais com o "vibrato"
  72. — um efeito musical em que uma nota
    oscila levemente de intensidade.
  73. Isso cria um som mais cheio
    que ressoa por cima dos "vibratos",
  74. comparativamente estreitos,
    dos instrumentos.
  75. Depois de terem os parciais adequados,

  76. empregam outras técnicas
    para reforçar o seu volume.
  77. Os cantores expandem a capacidade
    dos pulmões e aperfeiçoam a postura
  78. para um fluxo de ar
    consistente e controlado.
  79. A sala de concertos também ajuda
  80. com superfícies rígidas que refletem
    as ondas de som para a audiência.
  81. Todos os cantores tiram partido
    destas técnicas

  82. mas as diversas assinaturas vocais
    exigem diferentes preparativos físicos.
  83. Um cantor wagneriano
    precisa de criar resistência
  84. para alimentar a epopeia
    de quatro horas do compositor.
  85. Enquanto os cantores de "bel canto"
    exigem cordas vocais versáteis
  86. para saltitar entre as árias acrobáticas.
  87. A biologia também estabelece
    alguns limites
  88. — nem todas as técnicas são adequadas
    para todos os tipos de músculos
  89. e a voz muda à medida
    que os cantores envelhecem.
  90. Mas, seja numa sala de ópera,
    seja no chuveiro,

  91. estas técnicas podem transformar
    vozes sem amplificação
  92. em retumbantes obras-primas musicais.