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← Será que a beleza pode abrir os nossos corações às conversas difíceis?

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Showing Revision 6 created 08/05/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Acredito que há beleza
  2. em ouvirmos as vozes das pessoas
    que não foram ouvidas.
  3. [Abrindo as cortinas, 2014]

  4. [O projeto de Jerome
    (asfalto e giz) III, 2014]

  5. [Sob um sol que não perdoa
    (de um espaço tropical]

  6. É uma ideia complexa,

  7. porque as coisas que têm de ser ditas
    nem sempre são agradáveis.
  8. [A distância entre o que temos
    e o que queremos (num espaço tropical)]
  9. Mas ainda assim, se reflectem a verdade,
  10. acho que, fundamentalmente,
    isso as torna belas.
  11. Há a beleza estética do trabalho

  12. [Terra e céu, 2012]
  13. que, às vezes, funciona
    como um cavalo de Troia.
  14. [Custo da retirada, 2017]
  15. Permite-nos abrir os nossos corações
    a conversas difíceis.
  16. [Vendo através do tempo, 2019]
  17. Talvez nos sintamos atraídos pela beleza,
  18. e enquanto a técnica nos obriga,
  19. a cor,
  20. a forma ou composição,
  21. talvez a conversa difícil
    se intrometa.
  22. [Retratos de alcatrão
    de Billy Lee e Ona Judge, 2016]

  23. Aprendi a pintar sozinho,

  24. passando tempo em museus
  25. e olhando para as pessoas
    — ou melhor, os artistas —
  26. de quem me disseram
    ser os mestres.
  27. Ao olhar para os Rembrandt
    [A Ronda da Noite],

  28. os Renoir [O Almoço dos Barqueiros],

  29. os Manet [Almoço na relva],

  30. torna-se evidente

  31. que, se quero aprender
    a pintar um auto-retrato
  32. ao estudar estes pintores,
  33. vou ter um problema
  34. quando tiver de misturar
    a cor da minha pele
  35. ou da pele das pessoas na minha família.
  36. Há fórmulas históricas, escritas,
  37. a dizerem-me como pintar pele branca,
  38. — que cores devo usar para a sub-pintura,
  39. que cores devo usar para
    os realces do impasto —
  40. coisa que não existe para a pele escura.
  41. Não há nada.
  42. Não há nada,

  43. porque a realidade é que
    a nossa pele não era considerada bela.
  44. A imagem, o mundo representado
    na história da pintura
  45. não me reflecte.
  46. Não reflecte as coisas a que dou valor,
  47. e esse é o conflito com que me deparo
    com tanta frequência.
  48. Adoro a técnica destes quadros,
  49. aprendi com a técnica destes quadros,
  50. e apesar disso, sei que eles
    não têm nada a ver comigo.
  51. E por isso há tantos de nós
    a corrigir esta história,

  52. só para podermos dizer
    que lá estivemos.
  53. Lá porque não conseguem ver-nos
    não significa que não estivéssemos lá.
  54. Estivemos ali, sim.
  55. Estivemos aqui.
  56. Continuámos a ser vistos
    como se não fôssemos belos,
  57. mas somos,
  58. e estamos aqui.
  59. Tantas das coisas que produzo
  60. acabam por ser tentativas falhadas
    de reforçar essa ideia.
  61. [Abrindo as cortinas, 2014]

  62. [Ver através do tempo, 2018]

  63. Embora a minha formação
    tenha sido ocidental,

  64. os meus olhos continuam atentos
    às pessoas que se parecem comigo.
  65. Por isso, às vezes, no meu trabalho,
  66. tenho usado estratégias como
    branquear o resto da composição
  67. para pôr o foco numa personagem
    que, de outro modo, ficaria invisível.
  68. Já recortei outras figuras da pintura,
  69. primeiro, para realçar a sua ausência,
  70. ou segundo, para colocar o foco
    nas outras figuras da composição.
  71. [Intravenoso
    (de um espaço tropical), 2020]

  72. "O Projecto Jerónimo", esteticamente,
    bebe em centenas de anos

  73. de pinturas de iconografia religiosa,
  74. [O projecto Jerónimo
    (a minha perda), 2014]

  75. um tipo de estrutura estética
    que era reservada para a Igreja,

  76. reservada para os santos.
  77. [Madona com o menino]
  78. [Folha dum salmo grego
    e Novo Testamento"]

  79. [Cristo Todo-Poderoso]

  80. É um projecto que explora
    o sistema de justiça criminal,

  81. sem perguntar "Estas pessoas
    são inocentes ou culpadas?",
  82. mas antes "É assim que devemos
    lidar com os nossos cidadãos?"
  83. Comecei este trabalho
  84. porque, depois de estar
    separado do meu pai
  85. durante quase 15 anos,
  86. voltei a estar em contacto com ele.
  87. Não sabia como arranjar espaço
    para ele na minha vida.
  88. Tal como a maioria das coisas
    que não entendo,
  89. tento compreendê-las no estúdio.
  90. Por isso comecei a fazer
    uns retratos criminais,
  91. que comecei a fazer porque
    pesquisei o meu pai no Google,
  92. perguntando-me que teria acontecido
    durante aqueles 15 anos.
  93. Onde é que ele tinha ido?
  94. E encontrei o retrato criminal dele,
    o que não me surpreendeu.
  95. Mas nessa primeira pesquisa,
    encontrei mais 97 homens negros
  96. exactamente com o mesmo
    primeiro e último nome,
  97. e encontrei os retratos criminais deles,
    e isso sim, foi uma surpresa.
  98. Não sabendo o que fazer,
  99. acabei por começar a pintá-los.
  100. Inicialmente, o alcatrão
    era uma fórmula para entender

  101. quanto das vidas destes homens
    se tinha perdido na prisão.
  102. Mas desisti disso,
  103. e o alcatrão tornou-se bem mais simbólico
  104. à medida que continuei,
  105. porque o que entendi
  106. foi que a quantidade de tempo
    que perdemos na prisão
  107. é apenas o início de todo o tempo
  108. em que sofreremos o seu impacto
    ao longo da vida.
  109. Então, em termos de beleza nesse contexto,

  110. sei através dos familiares dum amigo meu
  111. que estiveram na prisão,
  112. ou que lá estão actualmente,
  113. as pessoas querem ser lembradas.
  114. Querem ser vistas.
  115. Nós prendemos as pessoas
    durante muito tempo,
  116. em certos casos,
  117. pela única coisa pior
    que alguma vez fizeram.
  118. Até certo ponto,
  119. é uma forma de dizer,
  120. "Estou a ver-te.
  121. "Estamos a ver-te."
  122. E acho que esse gesto é belo.
  123. Na pintura
    "Por trás do mito da benevolência",

  124. há uma cortina com Thomas Jefferson
  125. pintada e repuxada para revelar
    uma mulher negra escondida.
  126. Esta mulher negra é,
    simultaneamente, Sally Hemings,
  127. mas também todas as outras mulheres negras
  128. na plantação de Monticello
  129. e todas as demais.
  130. Aquilo que sabemos sobre Thomas Jefferson
  131. é que ele acreditava na liberdade,
  132. talvez com mais força do que todos
    os outros que escreveram sobre isso.
  133. E se sabemos que isso é verdade,
    se acreditarmos nisso,
  134. então a única coisa benevolente
    para fazer nesse contexto
  135. seria estender essa liberdade.
  136. E então, neste trabalho,
  137. uso duas pinturas diferentes
  138. que são forçadas a conviver
    uma sobre a outra
  139. para realçar a relação tumultuosa
    entre negros e brancos
  140. nestas composições.
  141. E então, essa contradição,
  142. essa realidade devastadora
    que está sempre por trás da cortina,
  143. o que sucede nas relações raciais
    neste país —
  144. esta pintura é sobre isso.
  145. Este quadro chama-se
    Outra luta pela memória.

  146. O título fala de repetição.
  147. O título fala dum tipo
    de violência contra negros
  148. pela polícia
  149. que já aconteceu
    e continua a acontecer,
  150. e agora temo-la visto acontecer outra vez.
  151. O quadro é mais ou menos editado
    como um quadro sobre Ferguson.
  152. Não deixa de ser sobre Ferguson,
  153. mas também não deixa de ser sobre Detroit,
  154. nem deixa de ser sobre Minneapolis.
  155. Comecei o quadro porque,

  156. durante uma viagem a Nova Iorque,
  157. em que tinha ido ver a minha arte
    com o meu irmão,
  158. passámos horas e horas
    a entrar e a sair de galerias,
  159. o dia culminou com
    um carro de polícia à paisana
  160. a mandar-nos parar no meio da rua.
  161. Estes dois polícias
    com as mãos nas armas
  162. mandaram-nos parar.
  163. Puseram-nos contra a parede.
  164. Acusaram-me de roubar obras de arte
  165. duma galeria onde, na verdade,
    eu estava a exibir as minhas obras.
  166. E enquanto eles estavam ali
    com as mãos nas armas,
  167. perguntei ao polícia
    o que era diferente da minha cidadania
  168. da de todas as outras pessoas
  169. que não estavam a ser incomodadas
    naquele momento.
  170. Ele informou-me que nos andavam
    a seguir há duas horas
  171. e que tinham recebido queixas
    acerca de dois homens negros
  172. dois homens negros
    a entrar e a sair de galerias.
  173. O quadro é sobre a realidade,
  174. que nem sequer é uma questão
  175. de se isto vai acontecer outra vez,
  176. é uma questão de quando.
  177. Este trabalho mais recente
    chama-se De um espaço tropical.

  178. Esta série de quadros
    é sobre mães negras.
  179. Esta série de quadros tem lugar
    no mundo super saturado,
  180. talvez surrealista,
  181. não distante daquele em que vivemos.
  182. Mas neste mundo,
  183. os filhos destas mulheres negras
  184. estão a desaparecer.
  185. O tema deste trabalho é o trauma,
  186. aquilo que as mulheres negras
    e de cor, em particular,
  187. na nossa comunidade
  188. têm de enfrentar
    para encaminharem os filhos
  189. para o caminho da vida.
  190. O mais encorajador para mim

  191. é que esta prática
  192. deu-me a oportunidade
  193. de trabalhar com os jovens
    da minha comunidade.
  194. Tenho a certeza
    de que as respostas não estão em mim,
  195. mas se tenho esperança,
  196. é de que essas respostas
    estejam neles.
  197. O NXTHVN é um projecto
    que começou há cerca de cinco anos.

  198. O NXTHVN é uma incubadora de arte
    com uns 3700 metros quadrados
  199. no centro do bairro de Dixwell
  200. em New Haven, Connecticut.
  201. Este bairro é predominantemente negro.
  202. É um bairro com a história do "jazz"
    em cada esquina.
  203. O nosso bairro tem sido
    privado de investimento.
  204. As escolas têm tido dificuldades
    na preparação da nossa população
  205. para o futuro.
  206. Eu sei que a criatividade
    é uma competência essencial.
  207. É preciso criatividade
  208. para conseguirmos imaginar
    um futuro muito diferente
  209. do que aquele
    que temos à nossa frente.
  210. Por isso, todos os artistas do programa
    têm um assistente estudante do secundário
  211. um estudante do ensino secundário
    que vem da cidade de New Haven
  212. para trabalhar e aprender
    com eles o ofício,
  213. a prática deles.
  214. E temos visto as formas
  215. como mostrando às pessoas
    o poder da criatividade
  216. isso as pode mudar.
  217. A beleza é complicada,

  218. por causa da forma como a definimos.
  219. Eu acredito que a beleza e a verdade
  220. de certa forma estão ligadas.
  221. Há algo
  222. belo
  223. em dizer a verdade.
  224. Ou seja:
  225. esse acto de dizer a verdade
  226. e a miríade de formas
    como isso se manifesta ,
  227. há beleza nisso.