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← A beleza pode abrir nosso coração para conversas difíceis?

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Showing Revision 121 created 07/14/2020 by Maricene Crus.

  1. Acho que existe beleza
  2. no ato de escutar as vozes
    de pessoas que não têm sido ouvidas.
  3. ["Drawing the Blinds" - 2014]

  4. ["The Jerome Project
    (Asphalt and Chalk) III" - 2014]

  5. É complicado,

  6. pois as coisas que devem ser ditas
    nem sempre são bonitas.
  7. Mas se, de alguma maneira,
    elas forem reflexo da verdade,
  8. acho que, fundamentalmente,
    isso as torna bonitas.
  9. (Música)

  10. Existe a beleza estética do trabalho,

  11. que, em alguns casos,
    age mais como um cavalo de Troia.
  12. Ela nos permite abrir nosso coração
    para conversas difíceis.
  13. Pode ser que sejamos atraídos pela beleza,
  14. e, enquanto somos compelidos pela técnica,
  15. pelas cores, pela forma ou composição,
  16. talvez a conversa difícil
    acabe vindo à tona.
  17. ["Billy Lee and Ona Judge
    Portraits in Tar" - 2016]

  18. Aprendi a pintar, de verdade,

  19. porque passei muito tempo nos museus
  20. observando as obras dos grandes mestres.
  21. Após observar quadros de Rembrandt
    ["The Night Watch"],

  22. Renoir ["Luncheon of the Boating Party"],

  23. Manet ["Luncheon on the Grass"],

  24. ficou muito claro

  25. que se eu fosse aprender
    a pintar um autorretrato
  26. estudando essas pessoas,
  27. eu teria um grande desafio
  28. quando tivesse que misturar
    a cor da minha pele
  29. ou a cor da pele das pessoas
    da minha família.
  30. Há, literalmente, fórmulas registradas
    que mostram como se pinta a pele branca,
  31. quais cores usar na pintura de base
  32. e quais usar nos reflexos do "impasto",
  33. pois isso não existe para pele escura.
  34. Isso não existe.

  35. E isso acontece porque nossa pele
  36. não era considerada linda.
  37. As imagens e o mundo
    refletidos na história das pinturas
  38. não me representam.
  39. Não representam as coisas que eu valorizo,
  40. e esse é o conflito que sempre tenho,
  41. pois amo a técnica usada nessas pinturas,
  42. aprendi com elas,
  43. mas sei que elas não têm
    consideração por mim.
  44. Então muitos de nós
    estão alterando essa história

  45. simplesmente para mostrar
    que estávamos lá.
  46. Só porque você não pode nos ver,
    não significa que não estávamos lá.
  47. Estivemos lá.
  48. Estivemos aqui.
  49. Continuamos não sendo
    considerados bonitos,
  50. mas nós somos e estamos aqui.
  51. Muitas das coisas que eu crio
  52. acabam sendo tentativas fúteis
    de reforçar essa ideia.
  53. ["Drawing the Blinds" - 2014]

  54. ["Seeing Through Time" - 2018]

  55. Apesar de ter recebido
    aprendizado ocidental,

  56. meu olho ainda se concentra
    nas pessoas que se parecem comigo.
  57. Então no meu trabalho,
  58. muitas vezes uso técnicas como
    tinta branca sobre o resto da composição
  59. para dar destaque ao personagem
    que provavelmente passaria despercebido.
  60. Já recortei outras figuras das pinturas,
  61. tanto para enfatizar a ausência delas,
  62. como também para dar destaque
    às outras pessoas na composição.
  63. ["Intravenous (From
    a Tropical Space)" - 2020]

  64. O " Jerome Project"
    se baseia esteticamente

  65. em centenas de anos
    de pintura de ícones religiosos,
  66. um tipo de estrutura estética que era

  67. reservada para a igreja,

  68. reservada para os santos.
  69. ["Leaf from a Greek Psalter
    and New Testament"]

  70. ["Christ Pantocrator"]

  71. Esse projeto explora
    o sistema de justiça criminal.

  72. Não foi criado para julgar
    se as pessoas são culpadas ou inocentes,
  73. e sim para questionar se essa é
    a maneira de lidar com nossos cidadãos.
  74. Iniciei esse conjunto de obras
  75. porque, após ficar separado do meu pai
    durante quase 15 anos,
  76. entrei em contato com ele novamente,
  77. mas eu não sabia como
    encaixá-lo na minha vida.
  78. E muitas das coisas que não entendo
    acabam sendo trabalhadas no estúdio.
  79. Então comecei a fazer retratos
    de fotos de fichas criminais,
  80. porque procurei pelo meu pai no Google,
  81. imaginando o que havia acontecido
    durante esses 15 anos.
  82. Para onde ele tinha ido?
  83. E achei uma foto da ficha criminal dele,
    que, claro, não me surpreendeu.
  84. Mas nessa primeira busca,
    também achei outros 97 homens negros
  85. exatamente com o mesmo
    nome e sobrenome,
  86. e achei as fotos da ficha criminai deles
    e isso sim foi uma surpresa.
  87. Sem saber o que fazer,
    simplesmente comecei a pintá-los.
  88. Inicialmente o piche era um jeito de saber

  89. quanto tempo de vida
    esses homens perderam na cadeia.
  90. Mas desisti disso,
  91. e o piche tornou-se muito mais simbólico
    durante o andamento do processo,
  92. pois percebi que o tempo de encarceramento
  93. é só o início do resto da vida deles
    que será afetado por isso.
  94. Então, em termos de beleza nesse contexto,

  95. eu sei, pela família dos meus amigos,
  96. que aqueles que foram presos
    ou estão presos no momento,
  97. querem ser lembrados.
  98. Querem ser vistos.
  99. Afastamos as pessoas por muito tempo,
  100. e em alguns casos,
    por aquela pior coisa que fizeram.
  101. Então, até certo ponto,
    é apenas uma maneira de dizer:
  102. "Nós vemos você".
  103. Acho que isso é um gesto bonito.
  104. Na obra "Behind the Myth of Benevolence",
    existe quase uma cortina

  105. com a pintura de Thomas Jefferson
    puxada para o lado,
  106. revelando uma mulher negra
    que está escondida.
  107. Essa mulher negra não é
    apenas Sally Hemings,
  108. mas ela também representa
    qualquer outra mulher negra
  109. naquela plantação de Monticello
    e em todas as outras.
  110. O que sabemos sobre Thomas Jefferson
    é que ele acreditava na liberdade,
  111. talvez mais do que qualquer um
    que já tenha escrito sobre ela.
  112. E se sabemos e acreditamos
    que isso seja verdade,
  113. então a única coisa benevolente
    a fazer nessa situação
  114. seria estender essa liberdade.
  115. Neste trabalho uso
    duas pinturas diferentes
  116. que são "forçadas" uma sobre a outra,
  117. para enfatizar a tumultuada relação
  118. entre os negros e brancos das composições.
  119. Assim, aquela contradição,
  120. essa realidade devastadora
    que está sempre atrás da cortina,
  121. coisas que estão acontecendo
    nas relações raciais desse país,
  122. são tratadas nesta pintura.
  123. Esta pintura é chamada
    "Another Fight for Remembrance".

  124. Esse título tem a ver com a repetição.
  125. Ele fala sobre a violência policial
    contra os negros,
  126. a qual nunca deixou de existir,
    e que agora está acontecendo novamente.
  127. A pintura é meio que apresentada
    como um reflexo dos tumultos de Ferguson.
  128. Não é que não seja sobre Ferguson,
  129. mas não é que não seja sobre Detroit,
  130. nem que não seja sobre Minneapolis.
  131. A pintura começou porque,

  132. em uma viagem a Nova York com meu irmão,
  133. para ver um pouco da minha própria arte,
  134. após passarmos horas
    entrando e saindo de galerias,
  135. terminamos o dia
  136. sendo parados por um carro
    da polícia disfarçado.
  137. Os dois policiais, com a mão na arma,
    nos mandaram parar,
  138. nos colocaram contra a parede,
    e me acusaram de furtar peças de arte
  139. da galeria onde eu, na verdade,
    estava exibindo o meu trabalho.
  140. E enquanto estavam em pé
    com a mão na arma,
  141. perguntei ao policial qual era a diferença
  142. entre a minha cidadania
    e a de todas as outras pessoas
  143. que não estavam sendo
    perturbadas naquele momento.
  144. Ele me informou que estavam
    nos seguindo por duas horas
  145. e que estavam recebendo reclamações
    sobre dois homens negros
  146. que estavam entrando e saindo de galerias.
  147. Essa pintura é sobre a realidade:
  148. a questão não é
  149. "se" acontecerá novamente,
  150. é sobre "quando" será a próxima vez.
  151. Esse trabalho mais recente
    se chama "From a Tropical Space".

  152. Essa série de pinturas
    é sobre mães negras.
  153. Ela se passa em um mundo supersaturado,
  154. talvez até surrealista,
  155. não muito longe daquele em que vivemos.
  156. Mas nesse mundo,
  157. os filhos dessas mulheres negras
  158. estão desaparecendo.
  159. Esse trabalho é na verdade sobre o trauma,
  160. as coisas pelas quais as mulheres negras
    e de cor da nossa comunidade
  161. têm que suportar para conseguir
    colocar seus filhos no caminho da vida.
  162. O que é encorajador para mim

  163. é que essa minha prática
  164. me deu a oportunidade
  165. de trabalhar com jovens
    da minha comunidade.
  166. Tenho certeza que as respostas
    não estão em mim,
  167. mas se tenho alguma esperança,
    é a de que elas possam estar neles.
  168. "NXTHVN" é um projeto que começou
    há cerca de cinco anos.

  169. É uma incubadora de artes de 12 mil m²
  170. no coração do bairro de Dixwell
    em New Haven, Connecticut.
  171. Esse é um bairro essencialmente
    composto por negros e pardos.
  172. E a história do jazz está
    por todos os cantos desse bairro.
  173. Nossa vizinhança, de diversas formas,
    tem sofrido com a falta de investimento.
  174. As escolas estão lutando
    para preparar bem nossa população
  175. para o futuro delas.
  176. Eu sei que a criatividade
    é um recurso essencial.
  177. É preciso ter criatividade
  178. para conseguir imaginar um futuro
  179. tão diferente do que está diante de nós.
  180. Todo artista do nosso programa
  181. tem um assistente de estúdio
    na escola secundária:
  182. um aluno do ensino médio
    vem da cidade de New Haven,
  183. trabalha com eles e aprende
    o ofício e a prática deles.
  184. Então conseguimos ver as diversas maneiras
  185. com as quais o encaminhamento
    dessas pessoas ao poder da criatividade
  186. pode mudá-las.
  187. A beleza é complicada,

  188. por causa de como a definimos.
  189. Acho que a beleza e a verdade
  190. estão, de alguma forma, entrelaçadas.
  191. Acho que existe algo
  192. lindo
  193. ao falar a verdade.
  194. Ou seja:
  195. existe beleza no ato de falar a verdade
  196. e nas diversas maneiras
    em que ela se manifesta.
  197. Existe beleza nisso.