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← Como as emoções alteram o formato do seu coração

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Showing Revision 17 created 10/02/2019 by Maricene Crus.

  1. Nenhum outro órgão,
  2. talvez nenhum outro objeto na vida humana,
  3. está tão imbuído de metáforas
    e significados quanto o coração humano.
  4. Ao longo da história,
  5. o coração tem sido o símbolo
    da nossa vida emocional,
  6. considerado por muitos o centro da alma,
  7. o repositório das emoções.
  8. A própria palavra "emoção" se origina
    em parte do verbo francês "émouvoir",
  9. que significa "agitar".
  10. E talvez seja lógico que as emoções
    estejam ligadas a um órgão
  11. caracterizado por seu movimento agitado.
  12. Mas qual é essa ligação?

  13. É real ou meramente metafórica?
  14. Como cardiologista,
  15. estou aqui hoje para dizer a vocês
    que essa ligação é real.
  16. As emoções, como veremos,
  17. podem ter e têm um efeito físico
    direto no coração humano.
  18. Mas antes de entrar no assunto,

  19. vou falar um pouco
    sobre o coração metafórico.
  20. O simbolismo do coração emocional
    perdura até hoje.
  21. Se perguntarmos a uma pessoa
    que imagem ela mais associa ao amor,
  22. sem dúvida alguma o símbolo do coração
    estaria no topo da lista.
  23. A forma do coração, chamada de cardioide,
  24. é comum na natureza.
  25. Ela é encontrada nas folhas, flores
    e sementes de muitas plantas,
  26. inclusive do sílfio,
  27. que era usado como contraceptivo
    durante a Idade Média
  28. e talvez seja por isso
    que o coração ficou associado
  29. ao sexo e ao amor romântico.
  30. Qualquer que seja a razão,

  31. corações começaram a aparecer
    nas imagens de amantes no século 13.
  32. Ao longo do tempo, as figuras
    passaram a ser pintadas de vermelho,
  33. a cor do sangue,
  34. um símbolo da paixão.
  35. Na Igreja Católica romana,
  36. a figura do coração se tornou conhecida
    como Sagrado Coração de Jesus.
  37. Adornada com espinhos
    e emitindo uma luz etérea,
  38. se tornou uma insígnia do amor monástico.
  39. Essa associação entre o coração e o amor
    tem perdurado na modernidade.
  40. Quando Barney Clark, dentista aposentado
    com doença cardíaca em estágio final,
  41. recebeu o primeiro coração artificial
    permanente em Utah, em 1982,
  42. a esposa, com quem era casado há 39 anos,
    supostamente perguntou aos médicos:
  43. "Ele ainda será capaz de me amar?"
  44. Atualmente, sabemos que o coração
    não é a fonte do amor

  45. ou de outras emoções, necessariamente;
  46. os antigos estavam enganados.
  47. Entretanto, cada vez mais
    começamos a entender
  48. que a conexão entre o coração
    e as emoções é extremamente íntima.
  49. O coração pode não ser a fonte
    dos nossos sentimentos,
  50. mas é intensamente sensível a eles.
  51. De certo modo, um registro
    da nossa vida emocional
  52. está inscrito em nosso coração.
  53. O medo e a tristeza, por exemplo,
    podem causar profundo dano cardíaco.
  54. Os nervos que controlam processos
    inconscientes, como o batimento cardíaco,
  55. podem sentir a aflição
  56. e desencadear uma reação
    inadequada de fuga ou luta
  57. que faz os vasos sanguíneos se retraírem,
  58. o coração se acelerar
  59. e a pressão sanguínea subir,
  60. causando danos.
  61. Em outras palavras,
  62. está cada vez mais claro
  63. que nosso coração é extraordinariamente
    sensível ao nosso sistema emocional,
  64. ou, se preferirem,
    ao nosso coração metafórico.
  65. Há uma doença cardíaca reconhecida
    pela primeira vez há duas décadas

  66. chamada "cardiomiopatia de takotsubo",
    ou "síndrome do coração partido",
  67. na qual o coração se enfraquece gravemente
    em reação a forte estresse ou sofrimento,
  68. como o fim de um relacionamento
    ou a morte de um ente querido.
  69. Como mostram essas fotos,
    o coração que sofre, no meio,
  70. parece bastante diferente
    do coração normal, à esquerda.
  71. Ele parece atordoado
  72. e frequentemente infla até se parecer
    distintamente com um takotsubo,
  73. mostrado à direita,
  74. um vaso japonês com base larga
    e gargalo estreito.
  75. Não sabemos exatamente
    por que isso acontece
  76. e a síndrome costuma se corrigir
    em algumas semanas.
  77. Entretanto, no período agudo,
  78. ela pode causar insuficiência cardíaca,
  79. arritmias fatais,
  80. até mesmo morte.
  81. Por exemplo, o marido
    de minha paciente idosa

  82. morreu recentemente.
  83. Ela estava triste, claro, mas conformada.
  84. Talvez até um pouco aliviada.
  85. Havia sido uma doença muito longa;
    ele tinha demência.
  86. Mas, uma semana após o funeral,
    ela olhou para uma foto
  87. e se sentiu triste.
  88. E então ela desenvolveu dor no peito,
    acompanhada de falta de ar,
  89. veias do pescoço dilatadas e suor na testa
  90. e ofegava de forma perceptível
    ao se sentar em uma cadeira;
  91. todos eles sinais
    de insuficiência cardíaca.
  92. Ela deu entrada no hospital,
  93. onde uma ultrassonografia
    confirmou o que já suspeitávamos:
  94. o coração dela havia enfraquecido
    para menos da metade da capacidade normal
  95. e inflado até se parecer
    distintamente com um takotsubo.
  96. Mas nenhum outro exame
    apresentou problemas;
  97. não havia nenhum sinal
    de artérias entupidas.
  98. Duas semanas depois, o estado emocional
    dela havia voltado ao normal
  99. e, como uma ultrassonografia confirmou,
  100. o coração dela também.
  101. A cardiomiopatia de takotsubo tem sido
    associada a muitas situações estressantes,

  102. incluindo falar em público,
  103. (Risos)

  104. (Aplausos)

  105. conflitos domésticos,
    perdas em jogos de azar,

  106. até uma festa surpresa de aniversário.
  107. (Risos)

  108. Também tem sido associada
    a transtornos sociais generalizados,

  109. como após um desastre natural.
  110. Por exemplo, em 2004,
  111. um forte terremoto devastou
    um distrito na maior ilha do Japão.
  112. Mais de 60 pessoas morreram
    e milhares ficaram feridas.
  113. Pouco após a catástrofe,
  114. pesquisadores descobriram que a incidência
    de cardiomiopatia de takotsubo
  115. aumentou 24 vezes na região
    um mês após o terremoto,
  116. comparada ao mesmo período
    do ano anterior.
  117. As residências dos afetados nesses casos
  118. estavam estreitamente relacionadas
    à intensidade do tremor.
  119. Em quase todos os casos,
    os pacientes viviam perto do epicentro.
  120. Curiosamente, essa síndrome também
    já foi observada após eventos felizes,

  121. mas o coração parece
    reagir de forma diferente,
  122. inflando na porção do meio,
    por exemplo, não no ápice.
  123. Por que causas emocionais diferentes
    resultam em mudanças cardíacas diferentes
  124. permanece um mistério.
  125. Mas, atualmente, talvez
    em tributo aos antigos filósofos,
  126. podemos dizer que, mesmo que as emoções
    não estejam contidas no coração,
  127. o coração emocional coincide em parte
  128. com seu equivalente biológico,
  129. de formas surpreendentes e misteriosas.
  130. Síndromes cardíacas,
    incluindo a morte súbita,

  131. são relatadas há muito tempo em indivíduos
    vivenciando problemas emocionais intensos
  132. ou perturbações em seu coração metafórico.
  133. Em 1942,
  134. o fisiologista de Harvard Walter Cannon
    publicou um estudo chamado "Morte Vudu",
  135. no qual descreveu casos de morte por pavor
  136. em pessoas que acreditavam
    estar amaldiçoadas,
  137. como por um feiticeiro ou por consequência
    da ingestão de uma fruta tabu.
  138. Em muitos casos, a vítima, após perder
    toda a esperança, morria na hora.
  139. O que esses casos tinham em comum
    era a crença absoluta da vítima
  140. de que havia uma força externa
    que causaria sua morte
  141. e contra a qual não tinha como lutar.
  142. Essa aparente falta de controle,
    afirmava Cannon,
  143. resultava em uma resposta
    fisiológica intensa,
  144. na qual os vasos sanguíneos
    se contraíam a tal ponto
  145. que o volume sanguíneo
    caía de forma aguda,
  146. a pressão sanguínea despencava,
  147. o coração se extenuava
  148. e a falta de transporte de oxigênio
    resultava em danos fulminantes aos órgãos.
  149. Cannon acreditava que as mortes vudu

  150. estavam limitadas a populações
    autóctones ou "primitivas".
  151. Mas, ao longo dos anos, mostrou-se
    que esse tipo de morte também ocorre
  152. em todo tipo de pessoas modernas.
  153. Atualmente, a morte por luto
    tem sido observada em cônjuges e irmãos.
  154. Corações partidos são mortais
    literal e figurativamente.
  155. Essas associações são válidas
    até para animais.

  156. Em um estudo fascinante em 1980,
    publicado no periódico "Science",
  157. pesquisadores alimentaram coelhos em
    gaiolas com uma dieta rica em colesterol
  158. para estudar seu efeito
    em doenças cardiovasculares.
  159. Descobriram com espanto que alguns coelhos
    desenvolviam mais doenças do que outros,
  160. mas não sabiam explicar por quê.
  161. Os coelhos tinham dieta, ambiente
    e composição genética semelhantes.
  162. Os pesquisadores acharam
    que podia ter algo a ver
  163. com a frequência com que o técnico
    interagia com os coelhos.
  164. Então repetiram o estudo,
  165. dividindo os coelhos em dois grupos.
  166. Os dois grupos recebiam
    uma dieta rica em colesterol.
  167. Mas, em um grupo, os coelhos
    eram tirados de suas gaiolas
  168. e lhes davam colo e carinho,
    além de conversarem e brincarem com eles,
  169. enquanto, no outro grupo, os coelhos
    permaneciam nas gaiolas
  170. e eram deixados sozinhos.
  171. Após um ano, na autópsia,
  172. os pesquisadores descobriram
    que os coelhos do primeiro grupo,
  173. que receberam interação humana,
  174. tinham 60% menos doenças da aorta
    do que os coelhos do outro grupo,
  175. apesar dos níveis de colesterol, pressão
    arterial e frequência cardíaca similares.
  176. Atualmente, os cuidados com o coração
    deixaram de ser uma área dos filósofos,

  177. que refletem sobre o significado
    metafórico do coração,
  178. e se tornaram a esfera de médicos como eu,
  179. empregando tecnologias que,
    até mesmo um século atrás,
  180. devido ao status elevado do coração
    na cultura humana,
  181. eram consideradas tabu.
  182. Nesse processo, o coração foi transformado
  183. de objeto quase sobrenatural
    impregnado de metáforas e significados
  184. a uma máquina que pode ser
    manipulada e controlada.
  185. Mas esse é o elemento crucial:
  186. percebemos agora que essas manipulações
  187. devem ser acompanhadas
    pela atenção à vida emocional
  188. que, por milhares de anos,
    acreditou-se que o coração controlava.
  189. Considerem, por exemplo,
    o artigo "Lifestyle Heart Trial",

  190. publicado no periódico britânico
    "The Lancet" em 1990.
  191. Nele, 48 pacientes com doença
    coronária moderada ou grave
  192. receberam aleatoriamente
    cuidados médicos tradicionais
  193. ou um estilo de vida intensivo que incluía
    uma dieta vegetariana pobre em gorduras,
  194. exercícios aeróbicos moderados,
  195. apoio psicossocial em grupo
  196. e orientação para controle do estresse.
  197. Os pesquisadores descobriram que os
    pacientes submetidos àquele estilo de vida
  198. tiveram redução de quase 5%
    das placas coronarianas.
  199. Os pacientes do grupo de controle, porém,
  200. apresentaram 5% a mais
    de placa coronariana após 1 ano
  201. e 28% a mais após 5 anos.
  202. Também apresentaram quase o dobro
    de eventos cardíacos,
  203. como infartos, cirurgias
    de revascularização do miocárdio
  204. e mortes por causas cardíacas.
  205. E aqui temos um fato interessante:

  206. alguns pacientes no grupo de controle
    adotaram planos de dietas e exercícios
  207. que eram quase tão intensos
    quanto os do outro grupo.
  208. Ainda assim, a doença cardíaca progrediu.
  209. Só dieta e exercícios físicos não foram
    o suficiente para o recuo da doença.
  210. No acompanhamento
    após um ano e após cinco anos,
  211. o controle do estresse estava
    mais estreitamente ligado
  212. com o recuo da doença coronariana
  213. do que o exercício físico.
  214. Sem dúvida alguma, esse e outros estudos
    semelhantes são pequenos

  215. e, é claro, correlação
    não prova causalidade.
  216. Certamente, é possível que o estresse
    leve a hábitos pouco saudáveis
  217. e que essa seja a verdadeira razão
    para o maior risco cardiovascular.
  218. Mas, assim como na associação
    entre o fumo e o câncer de pulmão,
  219. quando tantos estudos
    mostram a mesma coisa,
  220. e quando há mecanismos para explicar
    uma relação de causalidade,
  221. parece arbitrário negar
    que ela provavelmente exista.
  222. O que muitos médicos concluíram
    é o que eu, também, descobri
  223. em quase duas décadas
    de trabalho como cardiologista:
  224. há uma intersecção do coração emocional
    com sua contraparte biológica
  225. de formas surpreendentes e misteriosas.
  226. Não obstante, a medicina atual continua
    conceitualizando o coração como máquina.

  227. Essa definição já gerou
    grandes benefícios.
  228. A cardiologia, meu campo,
  229. é sem dúvida uma das maiores histórias
    de sucesso científico
  230. dos últimos 100 anos.
  231. Stents, marca-passos, desfibriladores,
    revascularização do miocárdio,
  232. transplantes cardíacos,
  233. tudo isso foi desenvolvido ou inventado
    após a Segunda Guerra Mundial.
  234. Entretanto, é possível

  235. que estejamos nos aproximando dos limites
    do que a medicina científica possa fazer
  236. para combater as doenças cardíacas.
  237. De fato, a taxa de queda
    da mortalidade cardiovascular
  238. diminuiu consideravelmente
    na última década.
  239. Precisaremos adotar um novo paradigma
  240. para continuarmos a fazer o tipo
    de progresso ao qual nos acostumamos.
  241. Nesse paradigma, fatores psicossociais
    precisarão ser centrais
  242. no modo de pensarmos
    sobre problemas cardíacos.
  243. Isso será uma tarefa difícil

  244. e ainda é uma esfera pouco explorada.
  245. A Associação Americana do Coração
    continua não listando o estresse emocional
  246. como um fator modificável de risco
    decisivo para doenças cardíacas,
  247. talvez em parte porque seja muito mais
    fácil diminuir o colesterol no sangue
  248. do que as interferências
    emocionais ou sociais.
  249. Talvez seja melhor

  250. reconhecermos que, quando falamos
    em "coração partido",
  251. às vezes nos referimos
    a um coração partido de verdade.
  252. Precisamos, sim, prestar mais atenção
    ao poder e à importância das emoções
  253. ao cuidarmos do nosso coração.
  254. Eu descobri que o estresse emocional

  255. é muitas vezes questão de vida ou morte.
  256. Obrigado.

  257. (Aplausos)