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← O que acontece quando biologia se torna tecnologia?

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Showing Revision 25 created 08/14/2020 by Maricene Crus.

  1. Uma maleta cheia de fezes
    mudou minha vida.
  2. Há dez anos eu era
    aluna de pós-graduação
  3. e ia ajudar a julgar um concurso
    de engenharia genética
  4. de alunos da graduação.
  5. Lá conheci a artista e designer britânica
    Alexandra Daisy Ginsberg.
  6. Ela usava a camisa polo branca bordada
    do time da Universidade de Cambridge
  7. e segurava uma maleta prateada
  8. do tipo que você imaginaria
    estar algemada a seu pulso.
  9. Ela acenou de um canto afastado
  10. e me perguntou se eu queria ver uma coisa.
  11. Com um olhar sorrateiro,
    ela abriu a maleta
  12. e dentro havia seis amostras de fezes
    magníficas e multicoloridas.
  13. Ela explicou que o time de Cambridge

  14. tinha passado o verão
    sintetizando a bactéria E. coli
  15. pra detectar coisas diferentes no ambiente
  16. e produzir um arco-íris
    de diferentes cores em resposta.
  17. Arsênico na sua água potável?
  18. Essa cepa ficava verde.
  19. Ela e seu colaborador,
    o designer James King,
  20. trabalharam com os estudantes
    e traçaram diferentes previsões
  21. de como essas bactérias
    poderiam ser usadas.
  22. E se você pudesse usá-las
  23. como uma bebida probiótica viva
    e monitora de saúde ao mesmo tempo?
  24. Poderíamos beber a bactéria,
    que viveria no nosso intestino
  25. detectando o que acontece
  26. e, como resposta a algo,
    ela poderia emitir uma cor.
  27. Caramba!
  28. O time de Cambridge venceu o concurso

  29. International Genetically
    Engineered Machine,
  30. ou iGEM.
  31. E, no meu caso, aquelas amostras
    de fezes foram decisivas.
  32. Sou bióloga sintética,

  33. um termo provavelmente esquisito
    para a maioria das pessoas.
  34. Sem dúvida soa como um paradoxo.
  35. Como pode a biologia, algo natural,
  36. ser algo sintético?
  37. Como pode algo artificial estar vivo?
  38. Biólogos sintéticos fazem críticas
  39. à linha divisória que traçamos
    entre o natural e o tecnológico.
  40. E todo ano, alunos do mundo todo
    participantes do iGEM
  41. passam as férias de verão tentando
    transformar a biologia em tecnologia.
  42. Eles ensinam bactérias a jogar sudoku,
  43. criam seda de aranha multicolorida,
  44. criam concreto "autocurativo"
  45. e impressoras de tecido
    e bactérias que comem plástico.
  46. Mas até aquele dia,

  47. eu estava mais preocupada
    com um tipo diferente de paradoxo.
  48. A boa e velha engenharia genética.
  49. O humorista Simon Munnery escreveu uma vez
  50. que engenharia genética é, na verdade,
    um insulto à verdadeira engenharia.
  51. Engenharia genética é como jogar
    um monte de concreto e aço num rio
  52. e, se alguém conseguir andar por cima,
    vamos chamar isso de ponte.
  53. Os biólogos sintéticos estavam
    bem preocupados com isso
  54. e com a questão de a engenharia genética
    ser mais arte do que ciência.
  55. Queriam transformar a engenharia genética
    numa disciplina real de engenharia,
  56. em que poderíamos
    programar células e escrever DNA
  57. do mesmo jeito que engenheiros escrevem
    softwares para computador.
  58. Aquele dia, dez anos atrás,
    me trouxe a minha carreira atual.

  59. Hoje, sou a diretora criativa
  60. da empresa de biologia sintética
    Ginkgo Bioworks.
  61. "Diretora criativa" soa esquisito
  62. pra uma firma biotecnológica
    que quer programar vida
  63. do jeito que programamos computadores.
  64. Mas aquele dia em que conheci a Daisy
  65. aprendi uma coisa sobre engenharia:
  66. que ela não se resume
    a equações e aço e circuitos,
  67. mas na verdade diz respeito a pessoas,
    e ao que elas fazem e nos impacta.
  68. Então em meu trabalho,

  69. eu tento abrir novos espaços
    para diferentes tipos de engenharia.
  70. Como podemos fazer melhores perguntas
    e realizar melhores discussões
  71. a respeito do que desejamos
    para o futuro da tecnologia?
  72. Como podemos entender
  73. as razões tecnológicas, sociais,
    políticas e econômicas
  74. que provocam tanta controvérsia
    quando o assunto são os transgênicos?
  75. Podemos criar transgênicos
    que as pessoas gostem?
  76. Podemos usar a biologia para tecnologias
    mais expansivas e regenerativas?
  77. Eu acho que o passo inicial é reconhecer
    que nós, enquanto biólogos sintéticos,

  78. também somos influenciados por uma cultura
    que coloca "engenharia real"
  79. acima de coisas mais intangíveis.
  80. Nós ficamos tão presos em circuitos
    e no que acontece dentro de computadores,
  81. que às vezes perdemos de vista a magia
    que está acontecendo dentro de nós.
  82. Há um bocado de tecnologias
    insignificantes por aí,
  83. mas essa foi a primeira vez que considerei
    usar amostras de fezes como tecnologia.
  84. Eu comecei a perceber
    que a biologia sintética era incrível
  85. não porque poderíamos transformar
    células em computadores,
  86. mas porque poderíamos
    dar vida à tecnologia.
  87. Isso era uma tecnologia visceral,
  88. uma visão inesquecível
    do que o futuro poderia nos reservar.
  89. Mas friso que isso também
    levou à seguinte questão:
  90. "É esse o tipo de futuro
    que realmente queremos?"
  91. Prometeram-nos um futuro de cromo,
  92. mas e se o futuro
    for feito de carne e osso?
  93. A ciência e a ficção científica

  94. nos ajudam a lembrar que somos
    feitos de poeira estelar.
  95. Mas será que podem nos lembrar
    também da maravilha e estranheza
  96. de sermos feitos de carne e osso?
  97. A biologia somos nós,
  98. são o nosso corpo, é o que comemos.
  99. O que acontece quando biologia
    torna-se tecnologia?
  100. Essas imagens são perguntas,
  101. e elas desafiam nossos conceitos
    do que é normal e do que é desejável.
  102. E elas também nos mostram
    que o futuro tem muitas escolhas
  103. e que podemos escolher de forma diferente.
  104. Qual é o futuro do corpo, da beleza?
  105. Se mudarmos o corpo,
    teremos novos tipos de consciência?
  106. E irão novos tipos de consciência
    sobre o mundo microbial
  107. mudar os nossos hábitos alimentares?
  108. O último capítulo da minha dissertação
    foi todo sobre o queijo que eu fiz

  109. com bactérias que obtive esfregando
    entre os dedos do meu pé.
  110. Eu disse que o cocô mudou minha vida.
  111. Trabalhei com a artista e pesquisadora
    do cheiro S. Tolaas,
  112. explorando as formas em que nosso corpo
    e o queijo estão conectados
  113. através do cheiro
    e, portanto, de micróbios.
  114. E criamos este queijo para desafiar
    nossa forma de pensar sobre as bactérias
  115. que são parte de nossa vida
    e sobre as que trabalhamos no laboratório.
  116. Nós somos, de fato, o que comemos.
  117. A intersecção de biologia e tecnologia

  118. é geralmente contada como uma história
    de transcendência da realidade física.
  119. Se pudesse fazer upload do seu cérebro,
    você não precisaria mais fazer cocô.
  120. E isso é geralmente visto
    como uma coisa boa, né?
  121. Porque computadores são limpos,
    e a biologia é uma bagunça.
  122. Computadores interpretam e são racionais,
  123. e a biologia é um emaranhado imprevisível.
  124. Consequentemente,
  125. supõe-se que a ciência
    e a tecnologia sejam racionais,
  126. objetivas
  127. e puras.
  128. E os seres humanos é que seriam
    uma verdadeira bagunça.
  129. Mas assim como biólogos sintéticos
    fazem críticas à linha traçada

  130. entre natureza e tecnologia,
  131. artistas, designers e cientistas sociais
  132. me mostraram que as linhas que traçamos
    entre natureza, tecnologia e sociedade
  133. são um pouco mais suaves
    do que poderíamos pensar.
  134. Eles nos desafiam a reconsiderar
    nossas visões do futuro
  135. e nossas fantasias
    de controlar a natureza.
  136. Eles nos mostram como nossos preconceitos,
    nossas esperanças e valores
  137. estão enraizados
    na ciência e na tecnologia
  138. através das perguntas
    e escolhas que fazemos.
  139. Eles tornam visível de que modo
    a ciência e a tecnologia são humanas
  140. e, portanto, políticas.
  141. O que significa pra nós
    o fato de podermos controlar
  142. a vida para os nossos próprios fins?
  143. Os artistas Oron Catts e Ionat Zurr

  144. criaram o projeto "Victimless Leather",
  145. em que eles criaram
    uma minúscula jaqueta de couro
  146. a partir de células de ratos.
  147. Essa jaqueta tem vida?
  148. O que é necessário para fazê-la crescer
    e mantê-la desse jeito?
  149. Isso de fato não envolve vítimas?
  150. E o que significa
    algo não envolver vítimas?
  151. As escolhas que fazemos

  152. no que revelamos e no que ocultamos
    em nossas histórias de progresso,
  153. são muitas vezes escolhas políticas
    que têm reais consequências.
  154. Como irão as tecnologias genéticas moldar
    a forma como nos compreendemos
  155. e definimos nosso corpo?
  156. A artista Heather Dewey-Hagborg
    fez esses rostos

  157. a partir de sequências de DNA
    que extraiu do lixo de calçadas,
  158. incitando-nos questionamentos
    sobre privacidade genética,
  159. mas também sobre como e se o DNA
    pode mesmo nos definir.
  160. Como vamos combater e lidar
    com a mudança climática?
  161. Será que mudaremos o modo
    como fazemos tudo,
  162. usando materiais biológicos que podem
    crescer e se deteriorar junto conosco?
  163. Mudaremos nosso corpo?
  164. Ou a própria natureza?
  165. Ou podemos mudar o sistema
    que reforça essas demarcações
  166. entre ciência, sociedade,
    natureza e tecnologia?
  167. Relacionamentos que hoje nos deixam
    presos a esses padrões insustentáveis.
  168. O modo como entendemos
    e respondemos a crises

  169. de caráter natural, técnico
    e social ao mesmo tempo,
  170. do coronavírus à mudança climática,
  171. é profundamente político,
  172. e a ciência nunca ocorre num vácuo.
  173. Vamos voltar no tempo

  174. para quando os colonos europeus
    chegaram ao Havaí.
  175. Eles posteriormente trouxeram consigo
    seu gado e seus cientistas.
  176. O gado percorria as encostas,
  177. pisoteando e alterando os ecossistemas
    conforme caminhavam.
  178. Os cientistas catalogaram as espécies
    que lá encontraram,
  179. muitas vezes resgatando o último espécime
    antes de ele tornar-se extinto.
  180. Esta é a Maui hau kuahiwi,
  181. ou a Hibiscadelphus wilderianus,
  182. assim nomeada por Gerrit Wilder em 1910.
  183. Em 1912, estava extinta.
  184. Encontrei esse espécime
    no herbário da Universidade de Harvard,

  185. onde é guardado junto com 5 milhões
    de outros espécimes do mundo inteiro.
  186. Eu quis levar um pedaço
    do passado da ciência,
  187. já que estava vinculado ao colonialismo,
  188. e todas as ideias arraigadas
  189. sobre a forma como a natureza, a ciência
    e a sociedade deveriam se relacionar,
  190. e fazer questionamentos
    sobre o futuro da ciência.
  191. Trabalhando com uma equipe incrível
    na Gingko, e outras em Santa Cruz,

  192. conseguimos extrair um pouquinho do DNA
  193. a partir de uma lasquinha
    desse espécime vegetal
  194. e sequenciar o DNA dentro dele.
  195. Então, ressintetizamos uma versão possível
  196. dos genes responsáveis
    pelo cheiro da planta.
  197. Inserindo esses genes numa levedura,
  198. poderíamos produzir um quê daquele cheiro
    e, talvez, sentir um pouquinho dele,
  199. algo que foi perdido para sempre.
  200. Trabalhando de novo
    com Daisy e S. Tolaas,
  201. minha colaboradora no projeto do queijo,
  202. reconstruímos e compusemos
    um novo cheiro para aquela flor,
  203. e criamos uma instalação
    na qual as pessoas podem experimentá-lo,
  204. para serem parte dessa história natural
    e desse futuro sintético.
  205. Dez anos atrás, eu era
    uma bióloga sintética receosa

  206. de que a engenharia genética
    era mais arte que ciência,
  207. e as pessoas complicadas demais,
    assim como a biologia.
  208. Hoje uso a engenharia genética como arte
  209. para explorar todas as formas
    em que estamos emaranhados juntos
  210. e imaginar diferentes futuros possíveis.
  211. Um futuro de carne e osso
  212. é um futuro que reconhece de fato
    todas aquelas interconexões
  213. e as realidades humanas da tecnologia.
  214. Mas ele também reconhece
    o incrível poder da biologia,
  215. sua resiliência e sustentabilidade,
  216. sua capacidade de curar,
    crescer e se adaptar.
  217. Valores tão necessários
  218. para as visões dos futuros
    que podemos ter hoje.
  219. A tecnologia moldará esse futuro,
  220. mas seres humanos criam a tecnologia.
  221. A decisão de como será o futuro
  222. cabe a todos nós.
  223. Obrigada.