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← Piratear as bactérias para lutar contra o cancro — Tal Danino

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Showing Revision 4 created 01/12/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Em 1884, o destino de um doente
    parecia ir de mal a pior.
  2. Esse doente tinha um cancro
    de rápida evolução no pescoço
  3. e apanhou uma infeção bacteriana da pele
    sem relação com o cancro.
  4. Em breve, aconteceu uma coisa inesperada:
  5. À medida que recuperava dessa infeção,
    o cancro também começou a regredir.
  6. Quando um médico, William Coley,
    observou o doente sete anos depois,
  7. não havia vestígios visíveis do cancro.
  8. Coley percebeu que tinha acontecido
    uma coisa espantosa.
  9. A infeção bacteriana tinha estimulado
    o sistema imunitário do doente
  10. que combatera o cancro.
  11. A feliz descoberta de Coley
    levou-o a inventar

  12. a injeção intencional de bactérias
    para tratar o cancro com êxito.
  13. Mais de cem anos depois,
    os biólogos sintéticos
  14. descobriram uma forma melhor
    de usar esses aliados improváveis
  15. programando bactérias para administrar
    diretamente as drogas em tumores.
  16. O cancro ocorre quando se alteram
    as funções normais das células,

  17. levando-as a multiplicarem-se
    rapidamente
  18. e a formarem massas chamadas tumores.
  19. Os tratamentos como as radiações,
    a quimioterapia e a imunoterapia
  20. tentam matar as células malignas,
    mas podem afetar todo o corpo
  21. e prejudicar os tecidos sãos.
  22. Mas algumas bactérias,
    como a E.coli

  23. têm a vantagem única de conseguirem
    crescer seletivamente dentro dos tumores.
  24. Com efeito, o núcleo de um tumor
    forma um ambiente ideal
  25. onde se podem multiplicar,
    ocultas das células imunitárias.
  26. Em vez de causarem uma infeção,
  27. as bactérias podem ser reprogramadas
  28. para transportar drogas
    de combate ao cancro,
  29. que agem como Cavalos de Troia
    que visam o tumor, por dentro.
  30. Esta ideia de programar as bactérias
    para reagirem de formas novas
  31. é o principal foco de um campo
    chamado Biologia Sintética.
  32. Como é que as bactérias
    podem ser programadas?

  33. O segredo está na manipulação do ADN.
  34. Inserindo determinadas
    sequências genéticas nas bactérias,
  35. elas podem ser instruídas
    para sintetizar diversas moléculas,
  36. incluindo as que interrompem
    o crescimento do cancro.
  37. Também podem ser instruídas
    para se comportarem de formas específicas
  38. com a ajuda de circuitos biológicos.
  39. Estes programam diferentes comportamentos
  40. consoante a presença, a ausência
    ou a combinação de determinados fatores.
  41. Por exemplo, os tumores têm níveis
    baixos de oxigénio e de pH
  42. e produzem em demasia
    moléculas especificas.
  43. Os biólogos sintéticos podem programar
    as bactérias para detetarem essa situação
  44. e, quando o fazem, reagem aos tumores
    evitando tecidos sãos.
  45. Um tipo de circuito biológico, conhecido
    por circuito de lise sincronizado, ou CLS,

  46. permite que as bactérias administrem
    os medicamentos, segundo um horário.
  47. Primeiro, para evitar
    prejudicar tecidos sãos,
  48. a produção de drogas anti cancro
    começa quando as bactérias crescem
  49. o que só acontece dentro do tumor.
  50. A seguir, depois de terem
    produzido as drogas,
  51. um interruptor provoca
    o rebentamento das bactérias
  52. quando elas atingem
    um limiar crítico de população.
  53. Isto liberta o medicamento
    e reduz a população das bactérias.
  54. Porém, uma certa percentagem
    de bactérias mantém-se viva
  55. para repovoar a colónia.
  56. Por fim, o número cresce
    até acionar de novo o interruptor
  57. e o ciclo continua.
  58. Este circuito pode ser afinado
    para administrar drogas
  59. segundo o calendário periódico
    que melhor combata o cancro.
  60. Esta abordagem mostrou-se promissora
    nos testes científicos com ratos.

  61. Não só os cientistas conseguiram
    eliminar linfomas injetados com bactérias,
  62. mas a injeção também estimulou
    o sistema imunitário,
  63. preparando as células imunitárias
    a identificar e atacar
  64. os linfomas não tratados, nos ratos.
  65. Ao contrário de outras terapias,

  66. as bactérias não visam
    um tipo específico de cancro
  67. mas as características gerais
    partilhadas pelos tumores sólidos.
  68. As bactérias programáveis
    não se limitam a combater o cancro.
  69. Também servem como
    sofisticados sensores
  70. que vigiam zonas potenciais de doenças.
  71. As bactérias seguras probióticas
  72. poderão manter-se
    adormecidas nos intestinos
  73. onde detetam, impedem
    e tratam perturbações
  74. antes de elas terem hipótese
    de provocar sintomas.
  75. Os progressos na tecnologia
    têm criado entusiasmo

  76. quanto a um futuro
    de medicamentos personalizados
  77. orientados por nanorobôs mecânicos.
  78. Mas, graças a milhares de milhões
    de anos de evolução,
  79. podemos ter agora um ponto de partida
  80. sob a forma biológica
    inesperada de bactérias.
  81. Juntem a biologia sintética
    à mistura
  82. e quem sabe o que poderá
    ser possível, dentro em breve.