YouTube

Got a YouTube account?

New: enable viewer-created translations and captions on your YouTube channel!

Portuguese subtitles

← O que não sabemos sobre as crianças muçulmanas da Europa e porque é que nos devemos preocupar | Deeyah Khan | TEDxExeter

Get Embed Code
19 Languages

Showing Revision 5 created 01/29/2017 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Quando eu era criança,
    sabia que tinha superpoderes.
  2. É verdade.
  3. Pensava que era excecional
    porque percebia

  4. e sentia os sentimentos
    das pessoas de cor,
  5. como o meu avô,
    um muçulmano conservador.
  6. Também compreendia
    a minha mãe afegã,
  7. o meu pai paquistanês,
  8. não tão religiosos,
    mas descontraídos, bastante liberais.
  9. E, claro, compreendia
  10. e sentia os sentimentos
    dos brancos.
  11. Os noruegueses brancos do meu país.
  12. Estão a ver, brancos, escuros,
    fossem o que fossem...
  13. gostava deles todos.
  14. Compreendia-os a todos,
  15. mesmo que eles nem sempre
    se entendessem uns aos outro.
  16. Eram todos a minha gente.
  17. Mas o meu pai
    estava sempre preocupado.

  18. Andava sempre a dizer que,
    mesmo com a melhor educação,
  19. eu não ia ter um futuro justo.
  20. Eu Iria enfrentar a discriminação,
    segundo ele.
  21. E que a única forma
    de ser aceite pelos brancos
  22. seria ser famosa.
  23. Reparem, ele teve esta conversa comigo
    quando eu tinha sete anos.
  24. Quando eu tinha sete anos,
    ele disse:
  25. "Olha, tem que ser no desporto,
    ou na música".
  26. Ele não sabia nada de desporto
    — bendito seja — por isso, foi a música.
  27. Assim, quando eu tinha sete anos,
  28. juntou todos os meus brinquedos,
    todas as minhas bonecas
  29. e deitou tudo fora.
  30. Em troca, deu-me um teclado Casio
    meio velho...
  31. (Risos)

  32. ... e lições de canto.

  33. Obrigou-me a praticar
    durante horas, todos os dias.
  34. Cedo começou a pôr-me a atuar
    diante de audiências cada vez maiores.
  35. Bizarramente, tornei-me quase
    numa espécie de criança cartaz
  36. para o multiculturalismo norueguês.
  37. Claro, eu sentia-me muito vaidosa,
  38. porque, a certa altura, até os jornais
  39. estavam a escrever coisas bonitas
    sobre pessoas de cor.
  40. Eu sentia que o meu superpoder
    estava a aumentar.
  41. Então, quando eu tinha 12 anos,
    ao voltar da escola para casa,

  42. fiz um pequeno desvio,
  43. porque queria comprar "salty feet",
    os meus doces preferidos.
  44. Eu adorava-os.
  45. À entrada da loja,
  46. estava um homem branco
    a barrar-me o caminho.
  47. Tentei passar de lado
    mas, quando o fiz, ele deteve-me,
  48. olhou bem para mim,
  49. cuspiu-me na cara e disse:
  50. "Sai da minha frente,
  51. "sua vadiazinha preta,
    sua vadiazinha paquistanesa,
  52. "volta para a tua terra".
  53. Eu fiquei completamente horrorizada.
  54. Fiquei a olhar para ele.
  55. Estava demasiado assustada
    para limpar o cuspo da minha cara,
  56. mesmo quando ele começou a misturar-se
    com as minhas lágrimas.
  57. Lembro-me de olhar em volta,
    na esperança de que, de repente,
  58. aparecesse um adulto
    que detivesse aquele tipo.
  59. Em vez disso, as pessoas passavam por mim
    e fingiam não me ver.
  60. Eu estava muito confusa,
    porque comecei a pensar:
  61. "Meus amigos brancos, vá lá!
    Onde é que estão? O que se passa?
  62. "Porque é que não aparecem
    para me salvar?"
  63. Não é preciso dizer
    que não comprei os doces.
  64. Corri para casa o mais depressa que pude.
  65. Mas pensei que as coisas
    ainda corriam bem.

  66. À medida que o tempo passava,
    eu ia tendo mais êxito.
  67. Por fim, comecei a atrair também
    a perseguição das pessoas de cor.
  68. Havia homens na comunidade dos meus pais
    que achavam que era inaceitável
  69. e desonroso para uma mulher
    estar envolvida em música
  70. e aparecer tantas vezes
    nos meios de comunicação.
  71. Portanto, cedo comecei a ser
    atacada nos meus concertos.
  72. Lembro-me que, num dos concertos,
  73. eu estava no palco,
    inclinei-me para o público
  74. e a ultima coisa que vi
    foi o rosto escuro de um jovem.
  75. A seguir, atiraram-me aos olhos
    um químico qualquer.
  76. Lembro-me de ter deixado de ver,
    os meus olhos começaram a chorar
  77. mas continuei a cantar.
  78. Nas ruas de Oslo, cuspiram-me na cara,
    desta vez, eram homens de cor.
  79. A certa altura, até tentaram raptar-me.
  80. As ameaças de morte não paravam.
  81. Lembro-me de um tipo mais velho,
    barbudo, ter-me detido na rua e dito:
  82. "Sabes porque é que te odeio tanto?
  83. "Porque fazes com que
    as nossas filhas pensem
  84. "que podem fazer tudo o que quiserem".
  85. Um tipo mais novo avisou-me
    para eu ter cuidado.
  86. Disse que a música não é islâmica,
    é trabalho para prostitutas.
  87. "Se continuares com isso,
    vais ser violada
  88. "e vão cortar-te a barriga
    para não nascer outra cabra como tu".
  89. Voltei a ficar confusa.

  90. Não percebia o que se estava a passar.
  91. A minha gente de cor estava a começar
    a tratar-me deste modo, como era possível?
  92. Em vez de estabelecer pontes
    entre os dois mundos,
  93. sentia-me a cair entre os meus dois mundos.
  94. Suponho que, para mim,
    o cuspo era a kriptonite.
  95. Quando eu tinha 17 anos,

  96. as ameaças de morte eram muitas
    e a perseguição era constante.
  97. As coisas estavam tão más
    que a minha mãe disse-me:
  98. "Já não conseguimos proteger-te,
    nem manter-te em segurança,
  99. "por isso, tens que te ir embora".
  100. Então, comprei um bilhete
    de ida para Londres,
  101. fiz as malas e parti.
  102. Naquela altura, o meu maior desgosto
    foi que ninguém disse nada.
  103. Saí da Noruega à vista de toda a gente.
  104. A minha gente de cor, a minha gente branca
    — ninguém disse nada.
  105. Ninguém disse: "Espera, isso não pode ser.
  106. "Apoiem esta rapariga, protejam-na,
    porque ela é uma de nós".
  107. Ninguém disse isso.
  108. Pelo contrário, senti-me...
  109. Sabem, no aeroporto,
    no tapete das malas
  110. temos todas aquelas malas
    a andar à roda
  111. e há sempre uma mala
    esquecida, no fim,
  112. aquela que ninguém quer,
    aquela que ninguém reclama.
  113. Eu sentia-me assim.
  114. Nunca me sentira tão só,
    nunca me sentira tão perdida.
  115. Depois de chegar a Londres,
    retomei a minha carreira na música.

  116. Um local diferente mas, infelizmente,
    a mesma história.
  117. Lembro-me de uma mensagem que recebi
    dizendo que eu ia ser morta
  118. e que iam correr rios de sangue
  119. e que eu ia ser violada
    muitas vezes, antes de morrer.
  120. Nessa altura, devo dizer,
  121. eu já estava habituada
    a mensagens destas,
  122. mas a diferença era que agora
    começaram a ameaçar a minha família.
  123. Mais uma vez, fiz as malas,
    larguei a música e fui para os EUA.

  124. Estava farta.
  125. Não queria ter mais nada
    a ver com tudo aquilo.
  126. E, certamente, não iria ser morta
    por uma coisa
  127. que nem sequer era o meu sonho,
    tinha sido a escolha do meu pai.
  128. Assim, de certa forma, desapareci.

  129. De certa forma, estava feita em pedaços.
  130. Mas decidi que o que eu queria fazer
  131. era passar os anos que me restavam na vida
  132. a apoiar os jovens
  133. e a tentar estar presente,
    por pouco que fosse,
  134. do modo que eu pudesse.
  135. Comecei a trabalhar como voluntária
    em diversas organizações
  136. que estavam a trabalhar
    com jovens muçulmanos na Europa.
  137. Para minha surpresa, descobri
  138. que muitos daqueles jovens
    estavam a sofrer e a debater-se.
  139. Estavam a enfrentar muitos problemas
    com as famílias e as comunidades
  140. que pareciam preocupar-se mais
    com a honra e a reputação
  141. do que com a felicidade
    e a vida dos seus filhos.
  142. Comecei a sentir que, talvez,
    eu não estivesse tão só,
  143. talvez eu não fosse tão diferente.
  144. Talvez houvesse mais da minha gente.
  145. O que acontece, o que a maior parte
    das pessoas não percebe

  146. é que há muitas de nós a crescer na Europa
  147. que não temos a liberdade
    de sermos nós mesmas.
  148. Não nos permitem ser o que somos.
  149. Não temos liberdade para casar
  150. nem para convivermos
    com as pessoas que escolhemos.
  151. Nem sequer podemos
    escolher a nossa carreira,
  152. É esta a norma nas comunidades
    muçulmanas da Europa.
  153. Mesmo nas sociedades mais livres
    do mundo, nós não temos liberdade.
  154. A nossa vida, os nossos sonhos,
    o nosso futuro não nos pertencem,
  155. pertencem aos nossos pais
    e à comunidade.
  156. Encontrei inúmeras histórias de jovens
  157. que estão perdidas para todos nós,
  158. que nos são invisíveis
  159. mas que estão a sofrer
    e estão a sofrer sozinhas.
  160. Crianças que perdemos
    para casamentos forçados,
  161. para a violência com base na honra.
  162. Ao fim de vários anos
    a trabalhar com aquelas jovens,

  163. acabei por perceber
    que não podia continuar a fugir,
  164. não podia passar o resto da vida
    com medo e a esconder-me
  165. e que tinha que fazer qualquer coisa.
  166. Também percebi
    que o meu silêncio, o nosso silêncio,
  167. permite que estes abusos continuem.
  168. Por isso, decidi que queria fazer uso
    do meu superpoder infantil
  169. para tentar que as pessoas
    dos diferentes lados destas questões
  170. percebam o que é ser uma jovem presa
    entre a família e o país.
  171. Por isso, comecei a fazer filmes,
    e comecei a contar essas histórias.

  172. Também queria que as pessoas
    percebessem as consequências mortais
  173. de não levarem a sério
    estes problemas.
  174. O primeiro filme que eu fiz foi sobre Banaz.

  175. Era uma rapariga curda de 17 anos
    em Londres.
  176. Era obediente,
    fazia tudo o que os pais queriam.
  177. Tentava fazer tudo certinho.
  178. Casou com um tipo
    que os pais escolheram.
  179. Apesar de ele lhe bater
    e a violar constantemente,
  180. quando ela tentou que
    a família a ajudasse, disseram-lhe:
  181. "Tens que voltar para casa
    e tentar ser uma mulher melhor".
  182. Isto porque não queriam
    uma filha divorciada nas mãos,
  183. porque, claro, isso traria
    a desonra para a família.
  184. Ele batia-lhe tanto
    que sangrava pelas orelhas.
  185. Quando, por fim, o deixou,
    encontrou um jovem que escolheu
  186. e por quem se apaixonou,
  187. a comunidade e a família
    descobriram
  188. e ela desapareceu.
  189. Foi encontrada três meses depois.
  190. Tinha sido metida dentro de uma mala
    e enterrada por baixo da casa.
  191. Tinha sido estrangulada,
    tinha sido morta à pancada
  192. por três homens, três primos,
    por ordem do pai e do tio dela.
  193. O cúmulo da tragédia da história de Banaz
  194. é que ela tinha ido à polícia
    em Inglaterra, cinco vezes, a pedir ajuda,
  195. dizendo-lhes que ia
    ser morta pela família.
  196. A polícia não acreditou nela,
    por isso não fizeram nada.
  197. O problema é que

  198. não só há muitas crianças
    que enfrentam estes problemas
  199. no seio das suas famílias
    e no seio das suas comunidades,
  200. mas também encontram falta de compreensão
  201. e apatia nos países em que crescem.
  202. Quando a família os atraiçoa,
    viram-se para nós
  203. e, quando não os compreendemos,
  204. perdemo-los.
  205. Enquanto eu estava a fazer este filme,
    várias pessoas disseram-me:

  206. "Deeyah, sabes, é outra cultura,
  207. "é isso que esta gente faz às filhas.
  208. "Não podemos interferir".
  209. Posso garantir-vos,
    ser assassinada não é a minha cultura.
  210. Sabem uma coisa?
  211. As pessoas como eu,
  212. as raparigas que têm
    as mesmas origens que eu
  213. deviam gozar dos mesmos direitos,
    da mesma proteção
  214. que todos os outros no nosso país,
    não acham?
  215. Para o meu filme seguinte,
    queria tentar compreender

  216. porque é que algumas das nossas
    crianças muçulmanas na Europa
  217. são levadas ao extremismo e à violência.
  218. Mas, com este tópico
  219. também reconheci que ia ter
    que enfrentar o meu pior medo:
  220. os homens escuros, barbudos.
  221. Homens semelhantes àqueles
    que me perseguiram durante toda a vida.
  222. Homens de quem tenho tido medo
    quase toda a minha vida.
  223. Homens que eu detestei profundamente
  224. durante muitos anos.
  225. Assim, passei os dois anos seguintes
    a entrevistar terroristas condenados,

  226. jiadistas e antigos extremistas.
  227. O que eu já sabia,
    o que já era muito óbvio,
  228. era que a religião, a política,
    a bagagem colonialista da Europa,
  229. e também os fracassos
    da política externa ocidental
  230. dos últimos anos,
  231. faziam parte do quadro.
  232. Mas eu estava mais interessada
    em descobrir quais são as razões humanas,
  233. quais são as razões pessoais,
  234. porque é que as nossas jovens
    são suscetíveis a grupos como estes.
  235. O que me surpreendeu
    foi que encontrei seres humanos feridos.
  236. Em vez dos monstros
    de que eu andava à procura,
  237. que eu estava à espera de encontrar
  238. — sinceramente, porque
    teria sido muito satisfatório —
  239. encontrei pessoas desfeitas,
  240. tal como Banaz,
  241. Descobri que estes jovens
    estavam dilacerados
  242. por tentarem estabelecer pontes
  243. entre as suas famílias
    e os países em que tinham nascido.
  244. Também aprendi que os grupos
    extremistas, os grupos terroristas,
  245. estão a tirar partido
    desses sentimentos dos nossos jovens
  246. e a canalizá-los — cinicamente —
    para a violência.
  247. "Venham ter connosco"— dizem eles.
  248. "Rejeitem os dois lados,
    a vossa família e o vosso país,
  249. "porque eles rejeitaram-vos.
  250. "Para a vossa família,
    a honra é mais importante do que vocês
  251. "e para o vosso país,
  252. "um verdadeiro norueguês,
    britânico ou francês
  253. "será sempre branco,
    nunca será um de vocês."
  254. Também prometem aos jovens
    as coisas que eles desejam:
  255. significado, heroísmo,
    sentido de pertença e de objetivo,
  256. uma comunidade
    que os ame e os aceite.
  257. Fazem com que os impotentes
    se sintam poderosos.
  258. Os invisíveis e os silenciosos
    são finalmente vistos e ouvidos.
  259. É isto o que eles estão a fazer
    aos nossos jovens.
  260. Porque é que estes grupos
    estão a fazer isto aos jovens e nós não?
  261. A questão é:

  262. eu não estou a tentar justificar
  263. ou a desculpar qualquer tipo de violência.
  264. O que estou a tentar dizer
    é que temos que perceber
  265. porque é que alguns dos nossos jovens
    se sentem atraídos por isso.
  266. Também gostava de vos mostrar
  267. estas fotos de infância
    de alguns dos tipos no filme.
  268. O que realmente me impressionou
    é que muitos deles
  269. — eu nunca teria imaginado —
  270. mas muitos deles
    têm pais ausentes ou violentos.
  271. Vários destes jovens
  272. acabaram por encontrar
    figuras paternais atentas e solidárias
  273. nestes grupos extremistas.
  274. Também encontrei homens
    brutalizados pela violência racista,
  275. mas que encontraram forma
    de deixarem de se sentir vítimas
  276. tornando-se eles próprios violentos.
  277. Na verdade, para meu horror,
    encontrei uma coisa que reconheci.
  278. Encontrei os mesmos sentimentos
    que eu senti
  279. quando fugi da Noruega, aos 17 anos.
  280. A mesma confusão, o mesmo desgosto,
  281. o mesmo sentimento de ter sido traída
  282. e de não pertencer a ninguém.
  283. O mesmo sentimento de estar perdida
    e dividida entre culturas.
  284. Dito isto, eu não escolhi a destruição,

  285. escolhi agarrar numa câmara
    em vez de numa metralhadora.
  286. A razão para isso foi o meu superpoder.
  287. Consegui ver que a resposta
    é a compreensão, e não a violência.
  288. Ver seres humanos
  289. com todas as suas virtudes
    e todos os seus defeitos,
  290. em vez de continuar com caricaturas:
  291. nós e eles, os vilões e as vítimas.
  292. Por fim, tinha chegado
    à conclusão
  293. de que as minhas duas culturas
    não tinham que estar numa rota de colisão.
  294. Pelo contrário, eram um espaço
    em que eu encontrara a minha voz.
  295. Deixei de sentir
    que tinha que escolher um lado,
  296. mas isso levou-me muitos anos.
  297. Hoje, muitos dos nossos jovens
  298. debatem-se com estas mesmas questões.
  299. e debatem-se com isso, sozinhos.
  300. Isso deixa-os abertos,
    como as feridas.
  301. Para alguns, a visão do mundo
    do Islão radical
  302. torna-se na infeção que lavra
    nessas feridas abetas.
  303. Há um provérbio africano que diz:

  304. "Se os jovens não se inserirem na aldeia,
  305. "reduzi-la-ão a cinzas
    só para sentirem o seu calor".
  306. Gostava de perguntar
  307. aos pais e às comunidades
    muçulmanas:
  308. São capazes de amar
    e cuidar dos vossos filhos
  309. sem os forçar a cumprir
    as vossas expetativas?
  310. Podem optar por eles
    em vez de pela vossa honra?
  311. Podem perceber porque é que eles
    se sentem tão zangados e alienados
  312. quando vocês põem a honra
    acima da felicidade deles?
  313. Podem tentar ser um amigo
    para o vosso filho
  314. para ele poder confiar em vocês
  315. e querer partilhar convosco
    as suas experiências,
  316. em vez de as ter de procurar
    em qualquer outro lugar?
  317. E perguntar aos nossos jovens
    tentados pelo extremismo:

  318. Conseguem reconhecer
    que a vossa raiva é alimentada pela dor?
  319. Têm força suficiente
    para resistir a esses homens cínicos
  320. que querem usar o vosso sangue
    para seu próprio proveito?
  321. Conseguem encontrar uma forma de viver?
  322. Conseguem ver que a vingança mais doce
  323. é viver uma vida feliz, plena e livre?
  324. Uma vida definida por vocês
    e por mais ninguém.
  325. Porque é que querem ser
    mais um miúdo muçulmano morto?
  326. E para todos nós:
  327. Quando é que vamos começar
    a ouvir os nossos jovens?
  328. Como podemos apoiá-los
  329. para dirigirem o seu sofrimento
    para uma coisa mais construtiva?
  330. Eles pensam que não gostamos deles.
  331. Pensam que não nos importamos
    com o que lhes acontece.
  332. Pensam que não os aceitamos.
  333. Poderemos encontrar uma forma
    de eles pensarem de modo diferente?
  334. O que nos custa vê-los e reparar neles
  335. antes de eles se tornarem vítimas
    ou perpetradores de violência?
  336. Conseguiremos preocupar-nos com eles
    e considerá-los como nossos?
  337. E não ficarmos escandalizados
  338. só quando as vítimas da violência
    são parecidas connosco?
  339. Conseguiremos encontrar forma de rejeitar
    o ódio e curar as divisões entre nós?
  340. A questão é que não podemos
    desistir uns dos outros nem das crianças,
  341. mesmo que eles desistam de nós.
  342. Estamos nisto todos juntos.

  343. A longo prazo, a vingança e a violência
    não funcionarão contra os extremistas.
  344. Os terroristas querem que
    nos enfiemos em casa, com medo,
  345. de portas trancadas
    e de corações fechados.
  346. Querem que abramos mais feridas
    na sociedade,
  347. para poderem usá-las
    para espalhar ainda mais a infeção.
  348. Querem que nos tornemos como eles:
  349. intolerantes, cheios de ódio e cruéis.
  350. Um dia depois dos ataques em Paris,

  351. uma amiga minha
    enviou-me esta foto da filha.
  352. É uma rapariga branca
    e uma rapariga árabe.
  353. São as melhores amigas.
  354. Esta imagem é a kriptonite
    para os extremistas.
  355. Estas duas raparigas
    com os seus superpoderes
  356. estão a mostrar o caminho
  357. para uma sociedade
    que precisamos de construir em conjunto,
  358. uma sociedade que inclua e apoie,
  359. em vez de rejeitar as nossas crianças.
  360. Obrigada por me ouvirem.

  361. (Aplausos)