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← A diferença entre amor saudável e amor doente

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Showing Revision 12 created 06/26/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Quando pensamos num filho,
    num amigo querido ou num par romântico,

  2. a palavra "amor" provavelmente vem à tona,
  3. e logo vêm também outras emoções:
  4. alegria e esperança,
  5. excitação, confiança e segurança,
  6. e, sim, às vezes, tristeza e deceção.
  7. Talvez não haja
    outra palavra no dicionário
  8. que interligue tantas pessoas
    quanto o amor.
  9. Mesmo assim, com tamanha importância
    na nossa vida,

  10. não é interessante que nunca
    tenhamos sido ensinados a amar?
  11. Construímos amizades,
  12. logo nos envolvemos em
    relações românticas,
  13. casamos e trazemos bebés
    da maternidade,
  14. esperando que vamos aprender.
  15. Mas a verdade é que, muitas vezes,
  16. prejudicamos e desrespeitamos quem amamos.
  17. Podem ser coisas subtis,
  18. como pressionar um amigo
    para nos fazer companhia,
  19. ou espiar as mensagens
    do nosso companheiro,
  20. ou humilhar um filho
    por não se esforçar na escola.
  21. 100% de nós está sujeito
  22. a comportamentos não saudáveis
  23. e 100% de nós realiza ações não saudáveis.
  24. Faz parte do ser humano.
  25. Na sua pior forma, o mal
    que causamos a entes queridos
  26. aparece como prepotência e violência,
  27. e prepotência na relação.
  28. É algo que uma em cada três mulheres
  29. e um em cada quatro homens
    vai experimentar na vida.
  30. Se somos uma pessoa comum,
    quando ouvimos essas estatísticas,
  31. dizemos: "Ah, não, não,
    isso nunca aconteceria comigo ".
  32. É instintivo rejeitar as palavras
    "prepotência" e "violência",
  33. pensar que isso só acontece
    com outras pessoas noutro lugar.
  34. Mas a verdade é que as más relações
    e a violência estão ao nosso redor.
  35. Nós só damos nomes diferentes
    e ignoramos a ligação.
  36. A violência toma conta de nós
    disfarçado em amor doentio.
  37. Eu trabalho para uma organização
    chamada One Love,

  38. fundada por uma família cuja filha
    Yeardley foi morta pelo ex-namorado.
  39. Foi uma tragédia que ninguém previu;
  40. mas quando olharam para trás,
    perceberam que os avisos estavam lá,
  41. só que ninguém tinha entendido o que via.
  42. Chamavam-lhe loucura,
    ou drama, ou bebedeira,
  43. mas as ações não foram lidas
    como o que realmente eram:
  44. sinais claros de perigo.
  45. A família dela percebeu que,
    se lhe tivessem ensinado esses sinais,
  46. a morte da filha podia sido evitada.
  47. A nossa missão é garantir
  48. que as pessoas tenham as informações
    que Yeardley e os amigos não tiveram.
  49. Temos três objetivos principais:
  50. dar a todos nós uma linguagem
    para falar sobre assuntos
  51. que sejam incómodos
    e desconfortáveis para analisar;
  52. capacitar toda uma equipa,
    ou seja, amigos, para ajudar;
  53. e, nesse processo, melhorar
    a nossa capacidade de amar melhor.
  54. Para fazer isso, é sempre importante
    começar por iluminar

  55. os sinais de aviso
    que geralmente ignoramos,
  56. e o nosso trabalho concentra-se
    na criação de conteúdos
  57. para abrir canais
    de conversa com os jovens.
  58. Obviamente, grande parte
    do conteúdo é muito sério,
  59. dado o assunto em questão,
  60. mas hoje eu vou usar
    um dos nossos temas mais leves,
  61. mas, mesmo assim, provocantes,
  62. "The Couplets",
  63. diálogos que apontam para cinco
    indicadores de amor doente.
  64. O primeiro é a intensidade.

  65. Não te vejo há uns dias.
    Estou com saudades.

  66. Também senti sua falta.

  67. [#istoéamor]
  68. Há cinco minutos que não te vejo.
    Parece uma vida inteira.

  69. O que fazes sem mim
    durante cinco minutos?
  70. Foram só três minutos.

  71. [#istonãoéamor]
  72. Alguém reconhece isso?
    Não sei... Eu reconheço.

  73. Relações prepotentes
    não começam prepotentes.
  74. Começam excitantes e entusiasmadas.
  75. Há uma intensidade
    de carinho e emoção, uma ânsia.
  76. E isso é muito bom.
  77. Sentimo-nos com sorte,
    como se tivéssemos ganho o "jackpot".
  78. Mas, no amor doentio,
    esses sentimentos mudam com o tempo,
  79. passam de emocionante a esmagador,
    e talvez um pouco sufocante.
  80. Sentimos isso no íntimo.
  81. Talvez quando o nosso
    novo namorado ou namorada
  82. diz "amo-te",
    antes de estarmos preparados,
  83. ou começa a aparecer em toda a parte,
    ligando e mandando imensas mensagens.
  84. Talvez fique impacientes
    quando demoramos a responder
  85. mesmo sabendo que tínhamos
    outras coisas naquele dia.
  86. É importante lembrar que o que interessa
    não é como começa uma relação,
  87. mas como ela evolui.
  88. Nos primeiros dias de uma relação,
  89. é importante prestar atenção
    aos nossos sentimentos.
  90. Estamos confortáveis
    com o ritmo da intimidade?
  91. Sentimos que temos espaço para respirar?
  92. Também é muito importante
    começar a praticar a nossa voz
  93. e falar sobre as nossas necessidades.
  94. Os nossos pedidos são respeitados?
  95. Um segundo marcador é o isolamento.

  96. Queres sair?

  97. Eu e o meu namorado
    saímos à segunda-feira.
  98. ["istoéamor]
  99. Queres sair?

  100. Nós saímos sempre à segunda-feira.

  101. - Amanhã?
    - À terça descansamos.

  102. - Na quarta?
    - Não é dia dos amigos!

  103. [#istonãoéamor]
  104. Se me perguntarem,
    o isolamento é um dos sinais

  105. mais ignorados e incompreendidos
    do amor doentio.
  106. Porquê?
  107. Porque toda a nova relação
    começa com esse desejo intenso
  108. de passarmos o tempo juntos,
  109. e é fácil não perceber quando algo muda.
  110. O isolamento instala-se quando
    um novo namorado ou namorada
  111. começa a afastar-nos
    dos amigos e familiares,
  112. do nosso sistema de apoio,
  113. e nos mantém mais presos a eles.
  114. Eles podem dizer algo como:
  115. "Porque é que sais com eles?
    São uns patós"
  116. sobre os nossos melhores amigos,
  117. ou "Eles querem que nos separemos.
    São contra nós "
  118. referindo-se à nossa família.
  119. O isolamento semeia a dúvida
  120. sobre as pessoas que faziam parte
    da nossa vida anterior.
  121. O amor saudável inclui a independência,
  122. duas pessoas que gostam de estar juntas,
  123. mas que se mantêm ligadas às pessoas
    e às atividades de que gostávamos antes.
  124. Enquanto, no começo, podemos
    passar cada minuto juntos,
  125. com o passar do tempo,
    ter independência é fundamental.
  126. É quando fazemos planos com amigos
    e nos mantemos ligados a eles
  127. e encorajamos o parceiro
    a fazer o mesmo.
  128. Um terceiro marcador de amor doentio
    é o ciúme exagerado.

  129. Porque é que estás tão feliz?

  130. Ela começou
    a seguir-me no Instagram!

  131. ["istoéamor]
  132. Porque é que estás tão nervoso?

  133. Ela persegue-me por toda a parte.

  134. [#istonãoéamor]

  135. À medida que a fase da lua-de-mel
    vai passando,

  136. pode ir surgindo um ciúme exagerado
  137. e o nosso parceiro pode começar
    a ficar mais exigente,
  138. a querer saber o tempo todo
    onde estamos, e com quem,

  139. ou pode até começar a perseguir-nos
    na vida real ou digital.
  140. Ciúmes exagerados são acompanhados
    de posse e desconfiança,
  141. acusações frequentes de que estamos
    a namoriscar com outros ou até a trair,
  142. e a recusa em nos ouvir, quando dizemos
  143. que não há nada com que se preocupar,
    e só o amamos.
  144. Os ciúmes fazem parte
    de qualquer relação humana,
  145. mas o ciúme exagerado é diferente.
  146. Tem uma faceta ameaçadora,
    desesperada e raivosa.
  147. O amor não deve ser assim.
  148. Um quarto indicador é o menosprezo.

  149. - Queres sair?
    - Tenho de estudar.

  150. Vais ter A de qualquer modo.
    A de "Excelente"!

  151. (#istoéamor)
  152. - Queres sair?
    - Tenho de estudar.

  153. Vais tirar um F na mesma.

  154. F de... Estúpida!
  155. (#istonãoéamor)

  156. No amor doentio, as palavras
    são usadas como armas.
  157. As conversas que antes
    eram divertidas e leves
  158. tornam-se maldosas e constrangedoras.
  159. Às vezes o nosso parceiro ironiza,
    de uma forma que magoa
  160. ou conta histórias e piadas
    engraçadas à nossa custa.
  161. Quando tentamos explicar
    que ficámos magoadas,
  162. ele acusa-nos de reagir mal,
    de sermos exageradas.
  163. "Mas porque é que és tão sensível?"
    Qual é o problema? Poupa-me."
  164. E somos silenciadas com estas palavras.
  165. Parece óbvio, mas o nosso parceiro
    é quem devia apoiar-nos.
  166. As palavras dele deveriam animar-nos,
    e não nos destruir.
  167. Deviam respeitar os nossos segredos
    e ser leal.
  168. Deviam fazer-nos sentir mais confiantes,
  169. em vez de menos.
  170. E por fim, um último indicador:
    a volatilidade.

  171. - Eu ficava triste, se acabássemos.

  172. - Eu também ficava.

  173. [#istoéamor]
  174. Eu ficava tão deprimida
    se acabássemos

  175. que me atirava desta escada abaixo.
  176. Juro! Nem tentes impedir-me.
  177. [#istonãoéamor]

  178. Separações e regressos frequentes,
    altos e baixos:

  179. quanto mais aumenta a tensão,
    mais aumenta a volatilidade.
  180. Brigas cheias de lágrimas, frustrações,
    seguidas de retornos esfuziantes,
  181. comentários odiosos e pungentes, como:
  182. "Não vales nada,
    nem sei porque estou contigo!"
  183. rapidamente seguidos de desculpas
    e promessas de nunca mais repetir.
  184. Nesta altura, já estamos tão condicionadas
    nessa relação de montanha russa
  185. que talvez não percebamos
    quão doentia, e talvez perigosa,
  186. a relação está a tornar-se.
  187. Pode ser muito difícil perceber

  188. quando o amor doentio
    se transforma em violência,
  189. mas é justo dizer que,
    quanto mais destes indicadores
  190. apresentar a nossa relação,
  191. mais doentia, e talvez perigosa,
    ela pode estar a tornar-se.
  192. Se o nosso instinto é terminar,
  193. que é o conselho que
    damos aos amigos
  194. que estão em relações doentias,
  195. nem sempre é o melhor conselho.
  196. Os rompimentos podem ser
    um gatilho para a violência.
  197. Se recearmos estar a caminhar
    para a violência, ou ela já existe,
  198. é preciso consultar um especialista
    para saber como acabar com segurança.
  199. Mas não se trata somente
    de relações românticas,

  200. nem apenas de violência.
  201. Compreender os sinais de um amor doentio
  202. pode ajudar-nos a avaliar e compreender
    quase todas as nossas relações.
  203. Pela primeira vez, podemos entender
  204. porque estamos insatisfeitas
    com uma amizade,
  205. ou porque cada interação
    com determinado familiar
  206. nos torna desanimadas e ansiosas.
  207. Podemos começar a perceber
    quanto a nossa intensidade e ciúme
  208. causa problemas com colegas no trabalho.
  209. Compreender é o primeiro passo
    para melhorar,
  210. e, já que não conseguimos sanar
    todas as relações doentias
  211. - vamos ter de deixar para trás
    algumas delas -
  212. podemos fazer a nossa parte diariamente,
    melhorando cada relação.
  213. E aqui vai a boa notícia:
  214. não é uma ciência de ponta.
  215. A comunicação aberta, o respeito mútuo,
  216. a generosidade, a paciência

  217. - podemos praticar essas coisas
    diariamente.
  218. Mas, por mais que a prática
    nos vá fazer bem,

  219. é preciso dizer também
    que não vai fazer milagres.
  220. Eu faço isso profissionalmente:
  221. todos os dias penso e falo
    de relações saudáveis,
  222. e ainda faço coisas pouco saudáveis.
  223. Noutro dia, estava a tentar correr
    com os meus quatro filhos da cozinha
  224. no meio de brigas, discussões
    e reclamações sobre o café da manhã,
  225. Perdi totalmente a paciência.
  226. Com uma atitude
    intencionalmente furiosa, gritei:
  227. "Calem-se todos e façam o que eu digo!
  228. "Vocês são terríveis!
  229. "Vão ficar sem televisão
    e sem sobremesa,
  230. "e tudo mais que vocês
    gostem nesta vida!"
  231. (Risos)

  232. Alguém já passou por isso?

  233. (Aplausos)

  234. Volatilidade, menosprezo.

  235. O meu filho mais velho virou-se,
    olhou para mim e disse:
  236. "Mãe, isso não é amor."
  237. (Risos)

  238. Por instantes, eu queria matá-lo
    por me chamar a atenção.

  239. Acreditem.
  240. Mas depois recompus-me
    e senti-me orgulhosa.
  241. Senti orgulho por ele ter tido
    uma linguagem que me fez parar.
  242. Eu quero que os meus filhos
    entendam qual deve ser o limite
  243. para a forma como são tratados,
  244. e ter voz para usar quando
    esse limite é ultrapassado
  245. em vez de o aceitar.
  246. Por muito tempo, tratámos
    as relações como um tema suave,
  247. quando sabermos lidar com relações
    é uma das coisas
  248. mais importantes e difíceis
    para construir coisas na vida.
  249. Entender os sinais doentios
    não só pode ajudar-nos
  250. a evitar cair na armadilha
    que leva ao amor doentio,
  251. como também compreender
    e praticar a arte de ser saudável
  252. pode melhorar quase
    todos os aspetos da nossa vida.
  253. Estou plenamente convencida
  254. de que, embora o amor seja
    um instinto e uma emoção,
  255. a capacidade de amar melhor
    pode ser construída por qualquer um,
  256. e melhorada ao longo do tempo
  257. Obrigada.

  258. (Aplausos)