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← Os lugares fascinantes que os cientistas não estão a explorar

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Showing Revision 5 created 07/17/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Eu tenho algo que tenho
    um pouco de vergonha de confessar.
  2. Aos 17 anos,
  3. como criacionista,
  4. decidi ir para a universidade
    estudar a evolução
  5. para poder destruí-la.
  6. (Risos)

  7. Falhei.

  8. Falhei tão espetacularmente
    que agora sou uma bióloga da evolução.
  9. (Aplausos)

  10. Sou paleoantropóloga,
    sou exploradora da National Geographic,

  11. especializada na caça de fósseis em grutas
  12. em territórios instável,
    hostis e controversos.
  13. Todos nós sabemos que,
    se eu fosse um rapaz e não uma rapariga,
  14. transformaria esta descrição de trabalho
    num engate para uma miúda.
  15. (Risos)

  16. Agora, aqui está a coisa.
    Não morro de desejo.

  17. Não sou viciada em adrenalina.
  18. Apenas olhei para um mapa.
  19. A ciência exploratória da
    linha de frente não acontece muito

  20. em territórios politicamente instáveis.
  21. Este é um mapa de todos os lugares
    que o Foreign Office britânico
  22. declarou conter zonas vermelhas,
    zonas laranjas
  23. ou indicaram qualquer aviso de ameaça.
  24. Agora, eu vou atrever-me
    a dizer que é uma tragédia
  25. não estarmos a fazer ciência exploratória
    de primeira linha
  26. numa grande parte do planeta.
  27. Assim, a ciência
    tem um problema geográfico.
  28. Além disso, como paleoantropóloga,

  29. isto é basicamente um mapa
    de alguns dos lugares mais importantes
  30. no percurso humano.
  31. Quase de certeza, podemos
    encontrar aqui fósseis fascinantes.
  32. Mas estamos a procurá-los?
  33. Enquanto universitária,
    várias vezes me disseram
  34. que os seres humanos, sejamos nós mesmos,
    os homo sapiens, ou espécies anteriores,
  35. saímos de África, através
    do Sinai ou do Egito.
  36. Eu sou inglesa, como, provavelmente,
    podem perceber pelo meu sotaque,

  37. mas tenho ascendência árabe,
  38. e digo sempre que sou
    muito árabe por fora.
  39. Eu posso ser apaixonada, tipo:
  40. "Vocês são incríveis! Adoro-vos!"
  41. Mas por dentro, sou muito inglesa,
    por isso, toda a gente me irrita.
  42. (Risos)

  43. É verdade.

  44. A questão é que a minha família
    é árabe do Iémen,

  45. e eu sabia que aquele canal,
  46. Bab-el-Mandeb,
  47. não é muito bom para atravessar.
  48. Estava sempre a perguntar-me
    esta pergunta muito simples:
  49. Se os antepassados dos macacos
    do Novo Mundo
  50. puderam, de qualquer forma,
    atravessar o Oceano Atlântico
  51. porque é que os seres humanos
  52. não poderiam atravessar
    aquela pequena faixa de água?
  53. Mas a questão é que o Iémen,
  54. em comparação com a Europa,
    por exemplo,
  55. foi tão pouco estudada
  56. que era uma coisa semelhante
    a um território quase virgem.
  57. Mas isso, juntamente com a localização,
  58. tornou muito excitante
    o potencial para a descoberta
  59. e eu tinha imensas perguntas.
  60. Quando é que começámos
    a usar o Bab-el-Mandeb?
  61. Mas também, que espécies de seres humanos,
    além de nós, chegaram ao Iémen?
  62. Poderíamos encontrar uma espécie
    ainda desconhecida da ciência?
  63. Aconteceu que não fui a única
    que reparou no potencial do Iémen.
  64. Na verdade, havia
    outros académicos por ali.
  65. Mas infelizmente, devido
    à instabilidade política,
  66. eles foram-se embora, e eu fui para lá.
  67. Eu estava a procurar grutas:
  68. grutas, porque as grutas são
    as primeiras propriedades imobiliárias.
  69. Mas também porque, se estamos à procura
    de fósseis, com aquele calor,
  70. a melhor aposta para a preservação
    de fósseis será sempre em grutas.
  71. Mas depois, o Iémen deu
    uma reviravolta muito triste para pior.

  72. Poucos dias antes
    do meu voo para o Iémen,
  73. a guerra civil transformou-se
    num conflito regional,
  74. o aeroporto da capital foi bombardeado
  75. e o Iémen passou a ser
    uma zona de exclusão aérea.
  76. Os meus pais tomaram esta decisão,
    antes de eu nascer:

  77. eu nasceria britânica.
  78. Eu não tive nada a ver
    com a melhor decisão da minha vida.
  79. E agora ...
  80. Agora os sortudos
    da minha família escaparam,
  81. e os outros estão a ser bombardeados
  82. e a enviar-nos mensagens WhatsApp
  83. que nos fazem detestar
    a própria existência.
  84. Esta guerra está a acontecer
    há quatro anos,
  85. está a acontecer há mais de quatro anos,
    e provocou uma crise humanitária.
  86. Há fome lá,
  87. uma fome provocada pelo homem.
  88. É uma fome provocada pelo homem,
    não é uma fome natural,
  89. uma fome inteiramente provocada pelo homem
    que, segundo a ONU alertou,
  90. pode ser a pior fome que o mundo
    já viu em cem anos.
  91. Esta guerra tornou claro para mim,
    mais do que nunca,
  92. que nenhum lugar, nenhum povo
    merece ficar para trás.
  93. Eu estava a juntar-me a outras equipas
    e estava a formar novas colaborações

  94. noutros lugares instáveis.
  95. Mas eu estava desesperada
    para voltar ao Iémen
  96. porque, para mim,
    o Iémen é muito pessoal.
  97. Por isso, continuei a tentar pensar
    num projeto que pudesse fazer no Iémen
  98. que ajudasse a esclarecer
    o que estava a acontecer ali.
  99. Todas as ideias que eu tinha
    continuavam a falhar,
  100. ou era muito arriscado,
    porque sejamos honestas,
  101. a maior parte do Iémen é muito perigosa
    para uma equipa ocidental.
  102. Mas depois disseram-me
    que Socotra, uma ilha do Iémen,,

  103. era segura depois de lá chegarmos.
  104. De facto, havia alguns
    académicos locais e internacionais
  105. que ainda estavam a trabalhar ali.
  106. Isso deixou-me muito animada,
  107. porque reparem na proximidade
    de Socotra com África.
  108. Contudo, não temos ideia de quando
    os seres humanos chegaram àquela ilha.
  109. Mas Socotra, para quem a conhece,
  110. digamos que provavelmente a conhecem
    por uma razão totalmente diferente.
  111. Vocês provavelmente conhecem-na
    como as Galápagos do Oceano Índico
  112. porque é um dos lugares
    com maior biodiversidade da Terra.
  113. Mas também estávamos
    a receber informações
  114. de que esse ambiente
    incrivelmente delicado e o seu povo
  115. estavam sob ameaça
  116. porque estavam na linha de frente
    da política do Médio Oriente
  117. e da alteração climática.
  118. Pouco a pouco, ocorreu-me
    que Socotra era o meu projeto no Iémen.
  119. Quis formar uma grande
    equipa multidisciplinar.

  120. Queríamos atravessar o arquipélago
    a pé, de camelo e de barco à vela "dhow"
  121. para fazer um controlo
    da saúde desse local.
  122. Isso só tinha sido tentado
    uma vez, em 1999.
  123. Mas a questão é que isso
    não é fácil de conseguir.
  124. Precisávamos desesperadamente
    de um reconhecimento.
  125. Para quem não conhece
    com o inglês britânico,
  126. um reconhecimento é como
    uma expedição de batedores,
  127. como uma exploração.
  128. Digo muitas vezes que uma expedição
    muito grande sem um reconhecimento,
  129. é um pouco como um primeiro encontro
    sem uma abordagem prévia no Facebook.
  130. (Risos)

  131. Podemos fazê-lo, mas será prudente?

  132. (Risos)

  133. Há poucos risos nesta sala.

  134. Felizmente, a equipa de reconhecimento
    não era estranha a lugares instáveis,

  135. o que, sejamos honestas,
    é muito importante
  136. porque estávamos a tentar chegar
    a um locar entre o Iémen e a Somália.
  137. Depois de ligarmos para o que
    parecia ser um milhão de favores,
  138. incluindo o vice-governador,
  139. finalmente encontrámo-nos em movimento,
  140. embora num cargueiro
    de cimento e madeira
  141. navegando pelas águas de piratas
    no Oceano Índico
  142. com isto como latrina.
  143. (Risos)

  144. Estão a ver isso?

  145. Sabem como toda a gente
    tem a sua pior história de casa de banho?
  146. Eu nunca tinha nadado com golfinhos.
  147. Fui diretamente fazer cocó em cima deles.
  148. (Risos)

  149. E também descobri que tenho
    muito menos medo

  150. dos piratas dos mares
  151. do que de uma infestação de baratas
  152. que foi tão intensa
  153. que, a certa altura, desci do convés,
  154. e o chão estava preto e a mover-se.
  155. Audiência: Oh!

  156. Pois foi, e à noite havia
    três plataformas elevadas para dormir,

  157. mas éramos quatro membros da equipa.
  158. E, quem tinha uma plataforma
    elevada para dormir,
  159. só tinha que lidar com algumas baratas
    durante a noite,
  160. mas quem ficava no chão,
    estava tramado.
  161. Eu era a única rapariga da equipa
    e do navio inteiro,
  162. por isso, safei-me de dormir no chão.
  163. Mas, na quarta ou quinta noite,
    Martin Edström olha para mim e diz:
  164. "Ella, eu acredito na igualdade".
  165. (Risos)

  166. Já estávamos a navegar naquele
    cargueiro de cimento há três dias,

  167. quando começámos a ver terra.
  168. Ao fim de três anos
    de tentativas falhadas,
  169. eu estava finalmente a ver o Iémen.
  170. Não há sentimento na Terra
    como aquele começo de uma expedição.

  171. É aquele momento em que
    saltamos de um jipe
  172. ou olhamos de um barco
  173. e sabemos que existe essa possibilidade,
  174. é pequena, mas continua ali,
  175. em que estamos prestes a encontrar algo
  176. que pode aumentar ou mudar o conhecimento
    de quem somos e de onde viemos.
  177. Não há sentimento assim na Terra,
  178. e é um sentimento
    que muitos cientistas têm
  179. mas raramente em locais
    politicamente instáveis.
  180. Porque os cientistas ocidentais
    são desencorajados ou proibidos,
  181. de trabalhar em locais instáveis.
  182. Mas a questão é esta:

  183. os cientistas especializam-se na selva.
  184. Os cientistas trabalham
    em sistemas de grutas profundas.
  185. Os cientistas ligam-se a foguetes
    e lançam-se no espaço sideral.
  186. Mas, segundo parece,
    trabalhar num local instável
  187. é considerado demasiado perigoso.
  188. É completamente arbitrário.
  189. Quem aqui nesta sala
    não foi criado com histórias de aventuras?
  190. A maioria dos nossos heróis
    eram cientistas e académicos.
  191. A ciência estava prestes a sair
    para o desconhecido.
  192. Tratava-se de uma exploração realmente
    global, mesmo que houvesse riscos.
  193. Então, quando é que se tornou aceitável
    dificultar que a ciência aconteça
  194. em locais instáveis?
  195. Não estou a dizer
    que todos os cientistas devem sair

  196. e começar a trabalhar em locais instáveis.
  197. Isto não é um apelo
    para todos trabalharem assim.
  198. Mas a questão é esta:
  199. os que fizeram a pesquisa,
    compreendem o protocolo de segurança
  200. e recebem formação,
  201. deixem de impedir
    os que querem trabalhar assim.
  202. Além disso,
  203. só porque uma parte de um país
    é uma zona de guerra ativa
  204. não significa que todo o país seja.
  205. Não estou a dizer que devemos entrar
    em zonas de guerra ativa.
  206. Mas o Curdistão iraquiano
    é muito diferente de Fallujah.
  207. Na verdade, meses depois
    de eu não conseguir entrar no Iémen,

  208. outra equipa adotou-me.
  209. A equipa do professor Graeme Barker
    estava a trabalhar no Curdistão iraquiano.
  210. Estavam a escavar a gruta de Shanidar.
  211. A gruta de Shanidar, umas décadas antes
  212. tinha revelado um Neandertal
    conhecido como Shanidar 1.
  213. Para uma série de TV da BBC/PBS
    demos vida a Shanidar 1
  214. e eu quero que conheçam Ned,
    Ned, o Neandertal.
  215. Esta é a coisa mais interessante
    sobre Ned.
  216. Ned, este sujeito,
  217. vocês estão a conhecê-lo
    antes dos ferimentos.
  218. Reparem que Ned ficou
    gravemente incapacitado.
  219. Ele estava tão incapacitado
    que não podia ter sobrevivido
  220. sem a ajuda de outros Neandertais.
  221. Isso prova que,
  222. pelo menos para esta população
    de neandertais, naquela época,
  223. os Neandertais eram como nós,
  224. por vezes, cuidavam daqueles
    que não podiam cuidar de si mesmos.
  225. Ned é um Neandertal iraquiano.

  226. Então, o que mais estamos a perder?
  227. Que incríveis descobertas científicas
  228. não estamos a fazer
    porque não estamos a procurar?
  229. A propósito, esses lugares
    merecem narrativas de esperança,
  230. e a ciência e a exploração
    podem fazer parte disso.
  231. Na verdade, eu diria que isso
    pode ajudar o desenvolvimento,
  232. e essas descobertas tornam-se
    uma grande fonte de orgulho local.
  233. Isso leva-me à segunda razão pela qual
    a ciência tem um problema geográfico.

  234. Nós não capacitamos
    académicos locais, pois não?
  235. Quanto a mim,
  236. no meu campo particular
    de paleoantropologia
  237. continuamos a estudar as origens humanas,
  238. mas nós temos muito poucos
    cientistas diversificados.
  239. Esses locais estão cheios
    de estudantes e académicos
  240. que estão desesperados para colaborar,
  241. e a verdade é que
  242. eles têm menos
    problemas de segurança que nós.
  243. Acho que sempre nos esquecemos
    que, para eles, não é um ambiente hostil;
  244. eles sentem-se em casa.
  245. Estou a dizer-vos:
  246. as pesquisas feitas em locais instáveis,
    com colaboradores locais,
  247. podem levar a descobertas incríveis.
  248. É o que esperamos fazer em Socotra.
  249. Eles chamam a Socotra

  250. o local de aspeto
    mais alienígeno da Terra,
  251. e eu, Leon McCarron, Martin Edström
    e Rhys Thwaites-Jones
  252. pudemos perceber porquê.
  253. Quero dizer, olhem para este local.
  254. Estes locais não são infernos,
    não são locais abandonados,,
  255. são a linha da frente
    da ciência e da exploração.
  256. 90% dos répteis nesta ilha,
  257. 37% das espécies de plantas
  258. só existem aqui
    e em nenhum outro lugar na Terra.
  259. Isso inclui esta espécie de dragoeiro,
  260. que sangra uma resina vermelha.
  261. E há outra coisa.

  262. Algumas pessoas em Socotra
    ainda vivem em grutas,
  263. e isso é muito emocionante,
  264. porque significa que, se uma gruta
    é um bem imobiliário neste século,
  265. talvez também tenha sido
    há milhares de anos.
  266. Mas precisamos de dados para provar isso,
    os fósseis, os instrumentos de pedra.
  267. A nossa equipa de escuteiros
    uniu-se a outros cientistas,
  268. a antropólogos e contadores de histórias,
  269. internacionais e locais,
    como Ahmed Alarqbi.
  270. Estamos desesperados
    para lançar uma luz sobre este local
  271. antes que seja tarde demais.
  272. E agora, de alguma forma,
    precisamos de voltar

  273. àquela expedição muito grande,
  274. porque a ciência, a ciência
    tem um problema geográfico.
  275. Vocês foram um público adorável.

  276. Obrigada.
  277. (Aplausos)