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← Os lugares fascinantes e perigosos que os cientistas deixam de explorar

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Showing Revision 84 created 07/28/2019 by Raissa Mendes.

  1. Tenho vergonha de admitir uma coisa.
  2. Aos 17 anos de idade,
  3. como criacionista,
  4. decidi ir para a universidade
    estudar a evolução,
  5. para poder destruí-la.
  6. (Risos)

  7. E fracassei.

  8. Falhei tão extraordinariamente que acabei
    me tornando bióloga evolucionista.
  9. (Aplausos)

  10. Então, sou paleoantropóloga,
    e sou uma National Geographic Explorer,

  11. especializada em descoberta
    de fósseis em cavernas
  12. em territórios instáveis,
    hostis e sob disputa.
  13. Sabemos que, se eu fosse
    homem, e não mulher,
  14. essa não seria a descrição de um trabalho,
    mas uma boa cantada.
  15. (Risos)

  16. E tem uma coisa: não tenho desejo morrer.

  17. Não sou viciada em adrenalina.
  18. Eu simplesmente olhei para um mapa.
  19. Vejam, ciência exploratória de ponta
    não acontece tanto

  20. em territórios politicamente instáveis.
  21. Este é o mapa dos lugares que o
    Ministério das Relações Exteriores inglês
  22. declarou conter zonas vermelhas e laranja
  23. ou zonas com algum sinal de alerta.
  24. Vou correr o risco de dar a cara a tapa
    e dizer que é uma tragédia
  25. se não estivermos fazendo
    exploração científica de ponta
  26. em uma grande parte do planeta.
  27. Portanto, a ciência tem
    um problema geográfico.
  28. Além disso, como paleoantropóloga,

  29. este é basicamente o mapa
    de alguns dos lugares mais importantes
  30. da jornada humana.
  31. Ali certamente existem fósseis
    fascinantes a serem descobertos.
  32. Mas estamos procurando por eles?
  33. Quando era estudante de graduação,
    ouvi repetidamente
  34. que os humanos, sejam nós mesmos,
    "homo sapiens", ou espécies anteriores,
  35. deixamos a África
    através do Sinai, no Egito.
  36. Sou inglesa, como provavelmente
    dá pra notar pelo sotaque,

  37. mas sou de descendência árabe,
  38. e sempre digo que, externamente,
    sou muitíssimo árabe.
  39. Posso ser muito passional.
  40. Tipo: "Você é incrível! Eu te amo!"
  41. Mas, por dentro, sou muito inglesa,
    então, tudo me irrita.
  42. (Risos)

  43. É verdade.

  44. Minha família é árabe do Iêmen,

  45. e eu sabia que atravessar aquele canal,
  46. o Bab-el-Mandeb,
  47. não era uma grande façanha.
  48. E eu ficava me perguntando
    uma coisa muito simples:
  49. se os ancestrais dos macacos do Novo Mundo
  50. conseguiram atravessar o Oceano Atlântico,
  51. por que os humanos não podiam cruzar
    aquele pequeno trecho de água?
  52. Mas o problema é que o Iêmen,
  53. em comparação com, digamos, a Europa,
  54. foi tão pouco estudado
  55. que parece quase um território virgem.
  56. Mas isso, junto com sua localização,
    tornava o enorme potencial de descoberta
  57. muito emocionante,
  58. e eu tinha tantas perguntas.
  59. Quando foi que começamos
    a usar Bab-el-Mandeb?
  60. Mas, também, quais espécies de humanos
    além de nós mesmos chegaram ao Iêmen?
  61. Será que havia uma espécie
    ainda desconhecida para a ciência?
  62. E ocorre que eu não era a única
    que tinha notado o potencial do Iêmen.
  63. Havia, na verdade, outros estudiosos.
  64. Mas, infelizmente, devido à instabilidade
    política, eles desistiram, e eu entrei.
  65. E eu estava procurando por cavernas,
  66. pois elas são o principal imóvel original.
  67. Mas também porque, se estamos
    procurando fósseis num lugar tão quente,
  68. a melhor chance de encontrar fósseis
    preservados é sempre nas cavernas.
  69. Mas, aí, o Iêmen sofreu uma virada
    realmente triste para o pior,

  70. e apenas alguns dias
    antes de eu voar para lá,
  71. a guerra civil se alastrou
    para um conflito regional,
  72. o aeroporto da capital foi bombardeado
  73. e o Iêmen se tornou
    uma zona de exclusão aérea.
  74. Bem, meus pais tomaram
    esta decisão antes de eu nascer:

  75. que eu nasceria britânica.
  76. Eu não tenho nada a ver
    com a melhor decisão da minha vida.
  77. E agora...
  78. os sortudos na minha família escaparam,
  79. e os outros estão sendo bombardeados
  80. e enviam mensagens de WhatsApp
    que nos fazem odiar a própria existência.
  81. Essa guerra acontece há quatro anos.
  82. Vem acontecendo há mais de quatro anos,
    e isso levou a uma crise humanitária.
  83. Há fome lá,
  84. uma fome provocada pelo homem
  85. e não por causas naturais,
  86. uma fome inteiramente provocada
    pelo homem, que a ONU avisou
  87. que poderia ser a pior fome
    jamais vista em 100 anos.
  88. Essa guerra deixou claro
    pra mim, mais do que nunca,
  89. que nenhum lugar e nenhum povo
    merecem ser abandonados.
  90. Então eu estava participando
    de outras equipes, de novas colaborações,

  91. em outros lugares instáveis.
  92. Mas eu estava desesperada
    para voltar ao Iêmen,
  93. porque, pra mim, o país
    tinha um significado pessoal.
  94. Então continuei a pensar
    num projeto para fazer lá
  95. que poderia ajudar a divulgar
    a situação do lugar.
  96. E toda ideia que eu tinha acabava falhando
  97. ou envolvia alto risco,
    porque, vamos ser honestos,
  98. a maior parte do Iêmen é muito perigosa
    para uma equipe ocidental.
  99. Mas então me disseram
    que Socotra, uma ilha iemenita,

  100. era segura uma vez que se chegasse lá.
  101. Na verdade, havia alguns estudiosos
    locais e internacionais
  102. que ainda estavam trabalhando lá.
  103. E isso me deixou muito animada,
  104. porque vejam a proximidade
    de Socotra com a África.
  105. E ainda não temos ideia
    de quando os humanos chegaram àquela ilha.
  106. Mas Socotra, para aqueles
    que já ouviram falar,
  107. digamos que provavelmente a conheçam
    por um motivo completamente diferente.
  108. Provavelmente a conheçam
    como as Galápagos do Oceano Índico,
  109. porque é um dos lugares
    mais biodiversos na Terra.
  110. Mas nós também estávamos
    recebendo informações
  111. de que esse ambiente incrivelmente
    delicado e seu povo estavam ameaçados,
  112. por estarem na linha de frente
    tanto da política do Oriente Médio
  113. quanto da mudança climática.
  114. E lentamente despertou em mim
    que Socotra era meu projeto no Iêmen.
  115. Assim, eu queria montar
    uma enorme equipe multidisciplinar.

  116. Queríamos atravessar o arquipélago
    a pé, de camelo e de veleiro dhow
  117. para checar a saúde do local.
  118. Isso só tinha sido tentado
    uma vez antes, em 1999.
  119. Mas o problema é que isso não é fácil.
  120. E daí precisávamos
    desesperadamente de um "recce".
  121. Para quem não está
    acostumado com o inglês britânico,
  122. "recce" é uma expedição.
  123. É um reconhecimento.
  124. Costumo dizer que uma expedição
    grande sem reconhecimento
  125. é um pouco como ir ao primeiro encontro
    sem espiar o Facebook da pessoa.
  126. (Risos)

  127. Tipo, é possível, mas é sensato?

  128. (Risos)

  129. Ouvi muitas risadas cúmplices na plateia.

  130. Nossa equipe de reconhecimento felizmente
    não era novata em lugares instáveis,

  131. o que, sejamos honestos,
    é algo importante,
  132. pois estávamos tentando chegar
    a um lugar entre o Iêmen e a Somália.
  133. E depois de pedir o que parecia
    ser um milhão de favores,
  134. inclusive ao vice-governador,
  135. finalmente começamos a nos movimentar,
  136. mesmo que num navio de madeira
    de carga de cimento,
  137. navegando por águas piratas
    no Oceano Índico,
  138. tendo isso como banheiro.
  139. (Risos)

  140. Vocês conseguem ver?

  141. Todo mundo tem sua pior
    história com banheiros.
  142. Bem, eu nunca tinha nadado
    com golfinhos antes.
  143. Eu já fui logo fazendo cocô neles.
  144. (Risos)

  145. E descobri que navegar em águas piratas

  146. me deixam menos estressada
  147. do que estar no meio
    de uma infestação de baratas,
  148. que era tão grande
  149. que, num dado momento, debaixo do convés,
  150. o chão estava preto, e se movia.
  151. (Audiência geme)

  152. Sim, e à noite havia três plataformas
    suspensas para dormir,

  153. mas havia quatro membros na equipe,
  154. e quem dormia na plataforma elevada
  155. tinha de competir apenas
    com algumas baratas durante a noite,
  156. enquanto que, para quem dormisse
    no chão, "boa sorte".
  157. E eu era única mulher na equipe
    e no navio inteiro,
  158. então escapei de dormir no chão.
  159. Daí, na quarta ou quinta noite,
  160. Martin Edström vira pra mim e diz:
    "Ella, acredito realmente em igualdade".
  161. (Risos)

  162. Então, estávamos navegando naquele
    navio de carga de cimento havia três dias,

  163. e lentamente começamos a ver a terra.
  164. E depois de três anos de fracasso,
  165. finalmente eu estava vendo o Iêmen.
  166. E não há sentimento melhor no mundo
    do que o começo de uma expedição.

  167. É aquele momento
    em que você pula de um jipe
  168. ou você procura um barco
  169. e sabe que existe essa possibilidade.
  170. É pequena, mas está lá,
  171. que você está prestes a encontrar algo
  172. que poderia alterar nosso conhecimento
    sobre quem somos e de onde viemos.
  173. É algo que não tem preço,
  174. e é um sentimento
    que tantos cientistas têm,
  175. mas raramente em lugares
    politicamente instáveis.
  176. Porque os cientistas ocidentais
    são desencorajados ou barrados
  177. de trabalhar em lugares instáveis.
  178. Mas é o seguinte:

  179. os cientistas se especializam na selva.
  180. Eles trabalham em sistemas
    de cavernas profundas,
  181. se amarram a foguetes
    e se lançam no espaço sideral.
  182. Mas, aparentemente,
    trabalhar num lugar instável
  183. é considerado arriscado demais.
  184. É completamente arbitrário.
  185. Quem aqui não cresceu
    com histórias de aventura?
  186. E a maioria dos nossos heróis
    eram na verdade cientistas e acadêmicos.
  187. A ciência tinha a ver com o desconhecido.
  188. Tinha a ver com exploração realmente
    global, mesmo que houvesse riscos.
  189. Quando se tornou aceitável dificultar
    fazer ciência em lugares instáveis?
  190. Não estou dizendo que todos
    cientistas devam se aventurar

  191. a trabalhar em lugares instáveis.
  192. Este não é um convite sedutor.
  193. Mas é o seguinte:
  194. aqueles que fazem pesquisa,
    entendem o protocolo de segurança
  195. e são treinados,
  196. parem de deter aqueles que querem.
  197. Mais ainda:
  198. só porque uma parte de um país
    é uma zona ativa de guerra
  199. não significa que o país inteiro seja.
  200. Não estou dizendo que devemos ir
    a zonas de guerra ativas.
  201. Mas o Curdistão iraquiano
    parece muito diferente de Faluja.
  202. E, na verdade, alguns meses
    depois de não conseguir entrar no Iêmen,

  203. outra equipe me adotou.
  204. A equipe do professor Graeme Barker
    estava trabalhando no Curdistão iraquiano,
  205. cavando a caverna de Shanidar.
  206. A caverna de Shanidar,
    algumas décadas antes,
  207. tinha revelado um neandertal
    conhecido como Shanidar 1.
  208. E apresentamos Shanidar 1
    numa série de TV da BBC/PBS,
  209. e quero que conheçam o Ned, o neandertal.
  210. E eis a coisa mais legal sobre o Ned:
  211. Ned, este cara,
  212. este é ele antes dos ferimentos.
  213. Acontece que Ned estava
    gravemente incapacitado,
  214. tanto que não poderia ter sobrevivido
    sem ajuda de outros neandertais.
  215. E essa foi a prova
  216. de que, pelo menos para essa população
    dos neandertais naquele momento,
  217. neandertais eram como nós,
  218. e às vezes cuidavam daqueles
    que não podiam cuidar de si mesmos.
  219. Ned é um neandertal iraquiano.

  220. Então, o que mais estamos perdendo?
  221. Que incríveis descobertas científicas
  222. estamos deixando de fazer
    porque não estamos pesquisando?
  223. E a propósito, esses lugares
    merecem narrativas de esperança,
  224. e a ciência e a exploração
    podem colaborar para isso.
  225. Eu diria que podem ajudar
    de forma tangível o desenvolvimento,
  226. e essas descobertas se tornam
    uma enorme fonte de orgulho local.
  227. E isso me leva ao segundo motivo por que
    a ciência tem um problema geográfico.

  228. Vejam, nós não empoderamos
    estudiosos locais, não é mesmo?
  229. Não sou insensível
  230. ao fato de que, no meu campo
    específico da paleoantropologia,
  231. estudamos as origens humanas,
  232. mas temos tão poucos cientistas diversos.
  233. E esses lugares estão cheios
    de estudantes e estudiosos
  234. desesperados para colaborar.
  235. E a verdade é
  236. que, para eles,
  237. há menos problemas de segurança
    do que para nós.
  238. Acho que esquecemos constantemente
    que para eles não é um ambiente hostil;
  239. é o lar deles.
  240. Estou dizendo
  241. que pesquisa feita em lugares instáveis
    com colaboradores locais
  242. pode levar a descobertas incríveis,
  243. e isso é o que esperamos fazer em Socotra.
  244. Eles chamam Socotra

  245. o lugar com a aparência
    mais alienígena da Terra,
  246. e eu, Leon McCarron, Martin Edström
    e Rhys Thwaites-Jones vimos por quê.
  247. Vejam só esse lugar.
  248. Esses lugares não são infernos,
    não estão liquidados,
  249. eles são a futura linha de frente
    da ciência e da exploração.
  250. Vejam, 90% dos répteis nesta ilha
  251. e 37% das espécies vegetais só existem
    ali, e em nenhum outro lugar do planeta,
  252. e isso inclui esta espécie
    da árvore sangue de dragão,
  253. que "sangra" uma resina vermelha.
  254. E tem outra coisa.

  255. Algumas das pessoas em Socotra
    ainda vivem em cavernas,
  256. e isso é empolgante,
  257. pois significa que, se uma caverna
    é o imóvel principal deste século,
  258. talvez tenha sido
    há alguns milhares de anos.
  259. Mas precisamos dos dados para provar isso,
    os fósseis, as ferramentas de pedra.
  260. Então nossa equipe de escoteiros
    se uniu a outros cientistas,
  261. antropólogos e contadores de histórias,
  262. tanto internacionais quanto locais,
    como Ahmed Alarqbi,
  263. e estamos desesperados
    para mostrar ao mundo este lugar
  264. antes que seja tarde demais.
  265. E, agora, nós temos de voltar

  266. para aquela expedição realmente grande,
  267. porque a ciência tem
    um problema geográfico.
  268. Vocês são uma plateia realmente adorável.

  269. Obrigada.
  270. (Aplausos) (Vivas)