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← O que é violência?

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Showing Revision 12 created 07/24/2019 by Gabriel Bizzotto.

  1. Dizem que anarquistas são violentos.
  2. Há muita prova histórica
    e contemporânea disso.
  3. Mas a tendência para a violência não é a
    característica principal dos anarquistas.
  4. Assim como não define o que é
    ser liberal, conservador ou cristão...
  5. apesar da violência bem maior
    causada por membros desses grupos
  6. e suas instituições.
  7. Há um motivo para nossos inimigos
    terem taxado os anarquistas de violentos
  8. por mais de um século.
  9. Nossas ideias são uma ameaça para
    aqueles no poder, e o adjetivo "violento"
  10. é usado para nos ostracizar.
  11. Para nos mostrar, e por extensão nossas
    ações e crenças, como indesejáveis,
  12. antissociais e perigosas.
  13. Uma aversão à violência é algo bom.
  14. Deveríamos todos almejar a redução
    da violência pelas nossas ações...
  15. é inclusive o ethos pro trás
    da maioria da prática anarquista.
  16. Isso dito, a violência é parte intrínseca
    da vida.
  17. Sempre foi e sempre será.
  18. Os seres humanos têm uma capacidade
    para a violência gravada em seu DNA.
  19. É justamente essa capacidade, aliada à
    nossa habilidade de resolver problemas complexos
  20. e à ajuda mútua, que nos dá acesso à
    nossa posição no topo do reino animal,
  21. e à redução da dura e incrivelmente
    violenta realidade do mundo natural.
  22. E apesar de todos os avanços ao longo
    dos milênios de civilização, nossas
    sociedades
  23. e economias complexas ainda são muito
    dependentes do uso maciço e sistemático
  24. da violência para funcionarem.
  25. Compreender e aceitar essa realidade
    é o primeiro passo para mudá-la.
  26. Então... O que é violência?
  27. E o que isso tem a ver com anarquia?
  28. Por ser um termo muito comum e muito
    carregado, há diferentes definições
  29. para violência,
    dependendo de quem responder.
  30. E vale apena notar que o que é considerado
    violento para um pode
  31. não ser para outro.
    Isso dito,
  32. a violência é geralmente definida
    como uma ação que cause choque ou dor
  33. para outro ser senciente.
  34. Muita vezes descreve um ato ou força
    que garanta controle sobre outra pessoa,
  35. mas pode ser indireto também,
    via hierarquias
  36. e codificada em regras arbitrárias.
  37. A violência pode ser física ou psicológica.
    Na maioria das vezes é ambos.
  38. Quando ouvem a palavra violência,
    a maioria das pessoas pensa
  39. no uso de ameaça por força física.
  40. Seja com um soco, um tiroteio em massa,
    violência doméstica,
  41. uma ameaça de morte, um estupro, uma
    notícia sensacionalista sobre um assalto,
  42. ou um debate sobre tática, este é o leque
    de violência que todos entendem.
  43. Talvez tenhamos vivido algo específico,
    ou sido testemunha.
  44. Talvez não.
  45. De qualquer maneira, sabemos
    o que é sentir dor.
  46. Podemos nos identificar com o choque
    repentino de um perigo inesperado.
  47. Este tipo de violência vibra com nossas
    próprias experiências passadas de trauma.
  48. Esta empatia é o núcleo para usar
    discursos sobre violência para isolar,
  49. criminalizar, desumanizar e oprimir
    indivíduos específicos, ideias
  50. e grupos inteiros de pessoas.
  51. Narrativas seletivas e o uso de imagens
    violentas se tornam armas para manipular
  52. a opinião pública, polarizar, e justificar
    várias medidas em nome da segurança.
  53. Será hora
  54. de classificar antifa como
    grupo terrorista?
  55. Burnie carrick foi chefe de polícia
    de nova iorque, ajudou a criar uma
  56. força-tarefa.
  57. Delegado, como classifica esse grupo?
  58. O espectro do terrorismo é o exemplo
    mais claro, mas há outros jeitos
  59. e estereótipos que moldam nosso
    entendimento do mundo,
  60. amplificando ameaças além da realidade,
    ou forjando-as onde não existem.
  61. A percepção popular da violência é
    moldada pela elite, pelo seu controle
  62. sobre as grandes mídias, a educação
    pública e o sistema judiciário.
  63. O esquema específico varia de acordo com
    aspectos da política local, a demografia,
  64. a cultura... mas a constante é o
    enquadramento de quem denunciar
  65. a autoridade como criminalmente violenta,
    de um lado, e a glorificação da violência
  66. estatal como contrapeso necessário,
    do outro lado.
  67. O objetivo dessa ótica enviesada é esconder
    o fato de que estados são responsáveis
  68. pela maioria imensa da violência no mundo.
  69. Na verdade, quando se descascam as
    camadas de burocracia e de mitologia
  70. apologética, é isso que o estado
    realmente é: um sistema altamente
    estruturado de violência organizada.
  71. Nas linhas de frente dessa violência,
    a polícia, os soldados e paramilitares
  72. cometem atrocidades numa escala
    além do escopo e da capacidade
  73. até do mais sádico individual ou conjunto
    de terroristas, muito menos dos atos
  74. escandalosos reivindicados
    por anarquistas.
  75. Como poderia uma janela quebrada e um
    soco num nazi serem comparados
  76. com o bombardeio de uma cidade, ou
    o "interrogatório avançado" de um inimigo?
  77. O que é o assassinato de um rei ou um
    policial particularmente brutal, comparado
  78. com a colonização ou a ameaça
    de guerra nuclear?
  79. A violência de um estado é legitimada
    pelas suas instituições,
  80. sejam elas fantasiadas de democracia
    ou a autoridade inquestionável do poder
  81. de uma dinastia.
  82. As mesmas instituições mantêm
    a violência do mercado dito "livro",
  83. destruindo ecossistemas e condenando
    as massas à escolha
  84. entre trabalho ou fome.
  85. Para proteger a lógica infalível desse
    mercado, os estados aprisionam e regulam
  86. o fluxo de seres humanos
    na travessia de linhas imaginárias.
  87. Com a desculpa de proteção das fronteiras,
    milhares de pessoas desesperadas são
  88. sacrificadas todo ano no deserto de sonora
    e nas profundezas do mediterrâneo,
  89. enquanto outras centenas de milhares
    são amontoadas na relativa segurança
  90. da sujeira de campos de concentração.
  91. Então, o que devemos fazer diante
    desse nível de violência?
  92. Quando alguém está sendo atacado, todos,
    a não ser os mais extremistas pacifistas,
  93. geralmente concordam que é moralmente
    aceitável o uso da violência para defesa.
  94. Porque então isso não se aplica
    à imensa violência do estado?
  95. Fomentar a legitimidade da violência
    defensiva é chave
    numa estratégia revolucionária.
  96. Mesmo quando a violência defensiva
    é um ataque a uma pessoa
  97. ou contra uma instituição
    que nos oprime.
  98. O anarquista italiano errico malatesta
    deixou clara sua postura nessa questão,
  99. declarando que "o escravo está sempre
    num estado de legítima defesa, assim
  100. sua violência contra o patrão, o opressor,
    é sempre moralmente justificada...
  101. e deveria ser ajustada apenas pelo critério
    de utilidade e economia de esforços e sofrimento."
  102. O revolucionário pan-africano frantz fanon
    foi adiante, observando que a violência
  103. de povos colonizados contra seus mestres
    oferecia um caminho para a realização
  104. de seu valor como indivíduos, notando que
    "no momento em que os colonizados
  105. descobrem sua humanidade, começam a
    afiar suar armas para assegurar a vitória."
  106. A verdade histórica permeia a herança
    das resistências armadas dos mohawks
  107. de kanesatake, e dos zapatistas na selva
    de chiapas, lutas que ajudaram
  108. a consolidar a resistência indígena em
    territórios dominados pelos estados
    canadense e mexicano.
  109. Permeia toda vez que o oprimido e
    o explorado deste mundo põem um limite
  110. e se preparam a defendê-lo
    por qualquer meio necessário.
  111. Vale ressaltar que a violência muitas vezes
    tem consequências reais devastadoras,
  112. e deveria ser evitada sempre que possível.
  113. Não é algo que pode ser romantizado,
    celebrado, considerado bonito,
  114. ou se tornar uma atividade fim.
  115. Especialistas estatais em contrainsurgência
    há muito reconhecem que para analisar
  116. o potencial de uma rebelião, fatores como
    a força da relações sociais, os métodos
  117. de organização e a habilidade de espalhar
    o conflito são mais decisivos do que
  118. o resultado de qualquer batalha específica.
  119. Edificar essas qualidades e características
    não requer apelo para a violência
  120. nenhum.
  121. Mas se nada funcionar, a capacidade para
    a violência é um componente essencial
  122. para defender a autonomia.
  123. E mesmo que autonomia real não seja
    algo que os chamados "progressistas",
  124. que têm fetiche por não violência, tenham
    interesse, forma a base da anarquia,
  125. e de toda revolução que mereça esse nome.