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← Sete crenças que podem silenciar as mulheres — e como as contrariar

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Showing Revision 7 created 02/14/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Shah Rukh Khan: "Uma rapariga
    deve ser vista, não ouvida."
  2. "Cala-te," ou "chiu."
  3. Estas palavras são frequentemente
    usadas para silenciar as raparigas,
  4. desde a infância até à idade adulta
  5. e prolongam-se até à terceira idade.
  6. Apresento-vos a próxima oradora,

  7. uma paladina da voz feminina.
  8. conselheira sobre a pobreza, o sexo
  9. e o desenvolvimento para o Banco Mundial,
  10. as Nações Unidas e várias ONG
    na Índia e por todo o mundo.
  11. Intitula-se detetive cultural.
  12. Vamos dar as boas vindas à conhecida
    cientista social e autora,
  13. Deepa Narayan.
  14. (Aplausos)

  15. Deepa Narayan: O objetivo
    de todos os pais carinhosos

  16. é educar boas raparigas,
  17. mas o que os pais acabam por fazer
  18. é constranger, confinar
    e reprimir as suas filhas.
  19. Enquanto reprimem as suas filhas,
  20. preparam-nas para serem maltratadas.
  21. Isto é tão devastador
  22. que nenhum pai conseguiria suportá-lo,
  23. por isso, está disfarçado.
  24. Na Índia, chamamos a isto "adaptar."

  25. Estou certa que já ouviram a palavra
  26. "Querida, adapta-te um pouco.
  27. "Só um pouco.
  28. "Aconteça o que acontecer, adapta-te."
  29. "Adaptar" treina as raparigas
    para não terem poder,
  30. para não existirem, para não serem vistas,
  31. para não serem elas mesmas,
  32. e treina os rapazes a reivindicar poder
    e autoridade sobre o mundo.
  33. Entretanto, continuamos a falar
    da igualdade entre sexos
  34. e do poder das mulheres.
  35. Depois de 2012, depois da violação
    em grupo num autocarro em Deli,

  36. eu quis compreender as raízes do abuso.

  37. Comecei por fazer uma pergunta simples:
  38. O que significa para vocês ser hoje
    uma boa mulher ou um bom homem?
  39. Fiquei tão surpreendida com o que ouvi,
  40. em particular as respostas
    dos mais jovens,
  41. que o projeto tornou-se numa
    pesquisa que dominou a minha vida.
  42. Durante três anos, escutei mais
    de 600 mulheres, homens e crianças,

  43. instruídos, da classe média,
  44. e isso resultou em 1800 horas de gravação
  45. e 8000 páginas de anotações.
  46. Demorou mais um ano
    para organizar tudo.
  47. Hoje, vemos mulheres
    bem vestidas, instruídas,

  48. como muitas de vocês nesta sala,
  49. todas nesta sala, e eu própria,
  50. e pensamos que o mundo mudou.
  51. Mas estas mudanças exteriores
    são extremamente enganadoras,
  52. porque interiormente, nós não mudámos.
  53. Assim, não vou falar das pessoas pobres.

  54. Só vou falar das classes média e superior.
  55. porque somos as que mais negamos.
  56. Somos aquelas que têm dito
    vezes sem conta
  57. que, quando as mulheres
    tiverem acesso à instrução,
  58. quando tiverem um emprego
  59. e ganharem um ordenado,
  60. serão iguais, terão poder e serão livres.
  61. Mas não são.
  62. Porquê?
  63. Segundo a minha investigação,
    identifiquei sete hábitos

  64. que apagam as mulheres
  65. e as fazem desaparecer.
  66. Mas esses hábitos persistem
  67. porque são-nos muito familiares
  68. e tornámo-los bons e morais.
  69. Porque haveríamos de mudar ou abandonar
    uma coisa que é boa e moral?
  70. Por um lado, adoramos os nossos filhos,
  71. adoramos as nossas filhas
  72. e, por outro lado, reprimimo-las.
  73. Hábito um: Vocês não têm corpo.

  74. O primeiro passo para tornar
    uma rapariga num fantasma
  75. é fazer desaparecer-lhe o corpo,
  76. fingir que ela não tem corpo.
  77. Akangsha, que tem 23 anos, disse:
  78. "Na minha família, nunca falamos
    do corpo, nunca."
  79. E é neste silêncio
  80. que milhões e milhões de raparigas
    são molestadas sexualmente
  81. e nem sequer contam isso às mães.
  82. São os comentários negativos dos outros
  83. que levam 90% das mulheres
    a dizer que não gostam do seu corpo.
  84. Quando uma rapariga rejeita o seu corpo,
  85. rejeita a sua única casa,
  86. e a invisibilidade e a insegurança
  87. passam a ser a sua fundação instável.
  88. Hábito dois: Cala-te.

  89. Se, supostamente, não existimos,
  90. e não temos um corpo,
  91. como é que podemos ter uma voz?
  92. Assim, quase todas as mulheres disseram:
  93. "Quando eu era pequena,
    a minha mãe repreendia-me e dizia:
  94. " 'Não digas nada, está calada,
  95. " 'fala baixinho, não discutas
    e nunca respondas.
  96. " 'Jawab nahi Dena'."
  97. Certamente, todas vocês ouviram isto.
  98. As raparigas ficam
    medrosas e não intervêm.
  99. Ficam caladas e depois dizem:
  100. "Paciência. O Jeane faz."
  101. "Não vale a pena. Ninguém ouve".
  102. As mulheres instruídas disseram
  103. que o problema número um
  104. era a sua incapacidade
    de falar em público,
  105. como se tivessem um nó na garganta,
  106. quase a sufocá-las.
  107. O silêncio inibe as mulheres.
  108. Hábito três: Agrada às pessoas.
  109. Agrada aos outros.

  110. Todos gostam de uma mulher simpática
    que está sempre a sorrir,
  111. que nunca diz não,
    que nunca está irritada,
  112. mesmo quando está a ser explorada.
  113. Amisha, que tem 18 anos, disse:
  114. "O meu pai dizia:
  115. "Se não te vejo a sorrir,
    não me sinto bem."
  116. Por isso, ela sorri.
  117. O pai dela está a ensinar-lhe
  118. que a felicidade dele
    é mais importante que a felicidade dela.
  119. Nesta situação de tentar
    fazer toda a gente feliz,
  120. as raparigas ficam com medo
    de tomar decisões.
  121. Quando lhes perguntamos, elas dizem:
  122. "Qualquer coisa, tanto faz! Kuch bhi!"
  123. "É indiferente, Chalta hai."
  124. Darsha, que tem 25 anos,
    disse, orgulhosamente:
  125. "Sou muito flexível.
  126. "Torno-me naquilo
    que os outros querem que eu seja."
  127. Essas raparigas abdicam dos seus sonhos,
  128. dos seus desejos
  129. e ninguém repara,
  130. exceto quando se manifesta uma depressão.
  131. Mais uma fatia duma rapariga
    que é eliminada.
  132. Hábito quatro: Não tens sexualidade.

  133. Penso que todas concordam
  134. que, com uma população
    de mais 1300 milhões,
  135. o sexo não é uma coisa nova na Índia.
  136. O que é novo é que, hoje,
    há mais pessoas que reconhecem
  137. que as mulheres também têm direito
    ao desejo sexual.
  138. Mas como é que uma mulher,
    a quem não foi permitido ter corpo,
  139. que não foi educada quanto ao seu corpo,
  140. que pode ter sido molestada sexualmente,
  141. que não sabe dizer que não,
  142. e que está cheia de vergonha,
  143. como é que pode reclamar
    o seu desejo sexual?
  144. A sexualidade da mulher é suprimida.
  145. Hábito cinco: Não confies nas mulheres.

  146. Imaginem como o mundo mudaria
  147. se as mulheres se juntassem
    solidariamente.
  148. Mas para garantir que isso não acontece,
  149. a nossa cultura confere
    um elevado valor moral
  150. à lealdade dos homens
    e ao segredo da família.
  151. Mulher após mulher disse:
  152. "Só conheço uma mulher de confiança,
  153. "que sou eu."
  154. Até Ruch, de 30 anos, que trabalha
  155. para dar poder às mulheres,
    na Universidade de Deli, disse:
  156. "Não confio nas mulheres.
    São invejosas e más-línguas."
  157. Obviamente, nas cidades,
  158. as mulheres não se juntam
    a grupos de mulheres
  159. e, quando lhes perguntamos porquê, dizem:
    "Não temos tempo para mexericos",
  160. É muito mais fácil deitar abaixo
    uma mulher que está sozinha.
  161. Hábito seis: O dever acima do desejo.

  162. Muskan deu uma definição comprida
    de uma boa rapariga, e só tem 15 anos:
  163. "É amável, gentil,
    bem-educada, carinhosa,
  164. "preocupada, honesta, obediente,
    respeita os mais velhos,
  165. "ajuda todos incondicionalmente
    e é boa para os outros
  166. "e cumpre os seus deveres."

  167. Cansativo, não é?
  168. Depois de cumprir todos os deveres
  169. qualquer desejo que se tenha tido
    já se perdeu.
  170. Quando as mães sacrificadas
    já não têm nada a dizer,
  171. exceto falar de comida:
  172. "Já comeste? Khana kha liya?
    O que é que vais comer?"
  173. homens como Saurabh, que tem 24 anos,
    chamam-lhes "chatas".
  174. Uma mulher torna-se um resíduo.
  175. Hábito sete: Ser totalmente dependente.
  176. Todos estes hábitos,
    em conjunto, reprimem as mulheres,

  177. enchem-na de medos
  178. e tornam-na totalmente dependente
    dos homens para sobreviverem,
  179. Isto permite que o sistema
    do poder masculino continue.
  180. Assim, todos estes sete hábitos
    que julgávamos serem bons e morais
  181. roubam a vida às raparigas

  182. e permitem que os homens abusem.
  183. Temos de mudar.
  184. Como é que mudamos?

  185. Um hábito é apenas um hábito.
  186. Todos os hábitos são hábitos adquiridos,
  187. por isso, podemos ver-nos livres deles
  188. e essa mudança pessoal
    é extremamente importante.
  189. Eu também tive de mudar.
  190. Mas isso não altera o sistema
  191. que reprime milhões de outras mulheres.
  192. Por isso, temos de ir às origens.
  193. Temos de mudar o que significa
    ser uma boa mulher e um bom homem,
  194. porque essa é a base
    de todas as sociedades.
  195. Não precisamos de mulheres flexíveis,
    precisamos de definições flexíveis,
  196. para os homens também,
  197. e esta grande mudança da sociedade
  198. não pode acontecer
    sem o envolvimento dos homens.
  199. Precisamos de vocês.
  200. Precisamos que os homens
    se tornem paladinos da mudança,
  201. para desenvolver músculos
    fortes de mudança.
  202. De outro modo, passar-se-ão mais 200 anos
  203. antes de as nossas raparigas,
    e os nossos rapazes,
  204. estarem seguros e livres.
  205. Imaginem 500 milhões
    de mulheres reunidas,

  206. com o apoio dos homens,
  207. a falarem umas com as outras
    para conversarem, para mudarem,
  208. tanto a nível pessoal, como político.
  209. Imaginem os homens nos seus círculos.
  210. Imaginem mulheres e homens a reunirem-se
    apenas para se ouvirem uns aos outros
  211. sem julgamentos, sem culpas,
  212. sem acusações e sem vergonha.
  213. Imaginem até que ponto
    iríamos mudar.
  214. Podemos fazer isso juntos.
  215. Mulheres, não se adaptem.
  216. Homens, adaptem-se.
  217. Chegou a altura.
  218. Obrigada.

  219. (Aplausos)

  220. SRK: Muito bem dito, uma maravilha.

  221. Connosco, Deepa,
  222. Ao ouvi-la, dei-me conta
  223. que, mesmo nas conversas mais simples
    que temos com mulheres,
  224. estamos a ser agressivos.
  225. Por exemplo, por vezes digo à minha filha:
  226. "Yaar Tu hasti hai to mujhe
    accha lagta hai varna bura lagta hai".
  227. Lamento. Nunca devia fazer isso.
  228. Aaj Se main meri beti ko yahi bolunga.
  229. O que quer que faças
  230. mujhe accha hi lagta hai,
    aur accha nahi bhi lagta hai
  231. Toh mera kya, tum wohi karo jo
    tumhare ko lagta hai, certo?
  232. (Aplausos)
  233. Como se sentiu

  234. quando ouviu tantas histórias
    e desejos por satisfazer,

  235. a falta de independência,
  236. de raparigas que, normalmente,
    acharíamos que vivem felizes e contentes?
  237. DN: Muito deprimida.
  238. Para mim, foi chocante,
    foi por isso que não pude parar,

  239. porque não planeava fazer nenhum estudo
    nem escrever nenhum livro.
  240. Eu já tinha escrito 17 livros
    e pensava: "Acabou-se."
  241. Mas, quando fui ao Colégio de St. Stephen,
  242. e ouvi, em muitos colégios de elite
  243. bem conhecidos em Deli,
  244. e o que raparigas e homens disseram
  245. sobre o que achavam ser
    uma mulher e um homem,
  246. não me soou como da minha geração
    mas como a geração da minha mãe.
  247. Assim, fui a outro colégio
    e a outro colégio ainda.
  248. O que me surpreendeu
  249. é que todas as mulheres
    sentiam-se sozinhas,
  250. escondiam os seus receios
    escondiam o seu comportamento,
  251. porque pensavam que era uma falha pessoal.
  252. Não é uma falha pessoal, é a formação.
  253. E penso que a maior revelação.
  254. é que, se deixarmos de fingir,
  255. o mundo muda.
  256. SKR: As raparigas concordam
    com o que Deepa está a dizer?

  257. (Aplausos)

  258. Já vejo aquela rapariga a dizer:

  259. "Ouviram, ouviram o que ela disse?
    Disse-me a mim."
  260. Sim, é assim que deve ser.
  261. Rapazes, vocês têm de se adaptar.
    Nós deixámos de nos ajustar. Ok?
  262. (Aplausos)

  263. Muito obrigado.
    Tenham uma boa noite. Obrigado.

  264. (Aplausos)