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← O direito fundamental de buscar exílio

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Showing Revision 21 created 08/14/2019 by Maricene Crus.

  1. No verão passado, recebi um telefonema
    de uma mulher chamada Ellie.
  2. Ela tinha ouvido falar sobre
    a separação de famílias na fronteira sul
  3. e queria saber como poderia ajudar.
  4. Ela me contou a história
    do seu avô e do irmão dele.
  5. Quando eles eram crianças na Polônia,
  6. o pai deles,
  7. temendo pela segurança do filho,
  8. deu a eles algum dinheiro
    e disse pra seguirem pro Oeste,
  9. que continuassem caminhando
    pela Europa Ocidental.
  10. E foi o que fizeram.
  11. Seguiram por toda a Europa
    rumo ao Ocidente,
  12. pegaram um navio
    e chegaram aos Estados Unidos.
  13. Ellie disse que quando ouviu
    as histórias dos adolescentes
  14. atravessando o México,
  15. tudo que ela conseguia pensar
    era em seu avô e no irmão dele.
  16. Ela disse que, para ela, as histórias
    eram exatamente as mesmas.
  17. Aqueles eram os irmãos Hassenfeld,

  18. os "Has" "bros",
  19. a empresa de brinquedos Hasbro,
  20. a qual, é claro, nos trouxe
    o Sr. Cabeça de Batata.
  21. Não é por isso que estou
    contando essa história a vocês,

  22. mas porque ela me fez pensar
  23. se eu teria a fé
  24. e a coragem
  25. para enviar meus filhos adolescentes,
    e eu tenho três deles,
  26. numa jornada como essa.
  27. Sabendo que eles não estariam
    seguros onde estávamos,
  28. eu conseguiria vê-los partir?
  29. Iniciei minha carreira décadas atrás
    na fronteira sul dos EUA,

  30. trabalhando com pedidos de asilo
    vindos da América Central.
  31. E nos últimos 16 anos, trabalho na HIAS,
  32. a organização judaica que luta pelos
    direitos dos refugiados no mundo todo,
  33. como advogada e defensora.
  34. E aprendi que, às vezes,
  35. coisas que dizem nos tornar
    mais seguros e mais fortes,
  36. na verdade não nos tornam.
  37. E, de fato, algumas dessas políticas
    têm resultados opostos aos pretendidos
  38. e acabam causando um sofrimento
    tremendo e desnecessário.
  39. Então, por que as pessoas
    têm vindo pra nossa fronteira sul?

  40. A maioria dos imigrantes e refugiados
    chegando à nossa fronteira sul
  41. está fugindo de três países:
    Guatemala, Honduras e El Salvador,
  42. países consistentemente classificados
  43. entre os mais violentos do mundo.
  44. É muito difícil sentir-se seguro
    nesses países,
  45. que dirá construir um futuro
    para você e sua família.
  46. E violência contra mulheres
    e meninas é difundida.
  47. As pessoas vêm fugindo da América Central
  48. há gerações.
  49. Gerações de refugiados
    têm chegado às nossas costas,
  50. fugindo das guerras civis dos anos 1980,
  51. nas quais os Estados Unidos
    tiveram um profundo envolvimento.
  52. Isso não é novidade.
  53. A novidade é que recentemente
    tem havido um aumento nas famílias,
  54. crianças e famílias, aparecendo
    nos pontos de controle fronteiriços
  55. na busca de asilo.
  56. Temos visto isso
    nos noticiários ultimamente,

  57. então quero que se lembrem de alguns fatos
    enquanto veem essas imagens.
  58. Um: esse não é um nível de interceptações
    historicamente alto na fronteira sul,
  59. e, de fato, as pessoas têm se apresentado
    em pontos de controle fronteiriço.
  60. Dois: as pessoas aparecem ali
    com nada além da roupa do corpo;
  61. algumas calçando chinelos.
  62. E três: somos o país
    mais poderoso do mundo.
  63. Não é hora de entrarmos em pânico.
  64. Fica fácil a partir da segurança
    do país de destino
  65. pensar em termos absolutos:
  66. É legal ou é ilegal?
  67. Mas pessoas que enfrentam essas questões
    e tomam as decisões sobre a família delas
  68. têm questões muito diferentes:
  69. "Como mantenho minha filha segura?"
  70. "Como protejo meu filho?"
  71. E se você quiser termos absolutos,
  72. é absolutamente legal buscar asilo.
  73. É um direito fundamental em nossas
    próprias leis e nas leis internacionais.
  74. E, na verdade,
  75. (Aplausos)

  76. isso é proveniente da Convenção
    sobre Refugiados de 1951,

  77. que foi a resposta do mundo ao Holocausto
  78. e um modo de os países dizerem
    que nunca mais mandariam de volta
  79. pessoas a países onde elas seriam
    prejudicadas ou mortas.
  80. Refugiados chegam a este país
    de várias maneiras.

  81. Uma é através do Programa
    de Admissão de Refugiados nos EUA,
  82. com o qual os EUA identificam
    e selecionam refugiados no exterior
  83. e os trazem para cá.
  84. No ano passado, os EUA
    reassentaram menos refugiados
  85. do que em qualquer momento
    desde o início do programa em 1980.
  86. E este ano, provavelmente serão menos.
  87. E isso num momento em que temos
    mais refugiados no mundo
  88. que em qualquer outro momento
    registrado na História,
  89. mesmo desde a Segunda Guerra Mundial.
  90. Outra maneira para refugiados
    virem para cá é buscando asilo.

  91. Solicitantes de asilo são pessoas
    que se apresentam numa fronteira
  92. e dizem que serão perseguidas
    se forem enviadas de volta pra casa.
  93. É simplesmente alguém que está
    passando pelo processo nos EUA
  94. para provar que se enquadra
    na definição de refugiado.
  95. E nunca foi tão difícil buscar asilo.
  96. Os guardas dizem às pessoas quando
    elas chegam aos pontos de controle
  97. que o país está cheio
    e que elas não podem se candidatar.
  98. Isso é sem precedentes e ilegal.
  99. Sob um novo programa,
  100. com um tipo de título orwelliano
    "Protocolos de Proteção aos Migrantes"
  101. os refugiados são informados
    que devem esperar no México
  102. enquanto o caso deles segue o processo
    nos tribunais norte-americanos,
  103. e isso pode levar meses ou anos.
  104. Enquanto isso, eles não estão seguros
  105. e não têm acesso a advogados.
  106. Nosso país, nosso governo,
    já deteve mais de 3 mil crianças,

  107. separando-as dos braços de seus pais,
  108. como intimidação
    para evitar pedidos de asilo.
  109. Muitas eram crianças pequenas,
  110. e pelo menos uma era
    uma menina cega de seis anos.
  111. E isso ainda está acontecendo.
  112. Gastamos bilhões com o que se pode
    chamar de prisões para deter pessoas
  113. que não cometeram crime algum.
  114. A separação familiar tornou-se a marca
    do nosso sistema de imigração.
  115. Isso está longe de ser uma cidade linda,
    numa colina ou um farol de esperança
  116. ou qualquer outra coisa que gostamos
    de dizer sobre nós e nossos valores.
  117. A migração sempre esteve conosco
    e sempre estará.

  118. As pessoas estão fugindo da guerra,
    da perseguição, da violência,
  119. das mudanças climáticas,
  120. e agora podem ver no celular delas
    como é a vida em outros lugares,
  121. e essas pressões estão apenas aumentando.
  122. Mas existem maneiras de ter políticas
    que refletem nossos valores
  123. e, na verdade, faz sentido,
    considerando-se a realidade mundial.
  124. Primeiramente, precisamos reduzir
    a retórica tóxica que tem sido a base

  125. do nosso debate nacional
    sobre esta questão há muito tempo.
  126. (Aplausos)

  127. Eu não sou imigrante ou refugiada,

  128. mas me sinto atacada pessoalmente,
    porque meus avós eram.
  129. Minha bisavó Rose
    não viu seus filhos por sete anos,
  130. enquanto ela tentava trazê-los
    da Polônia para Nova York.
  131. Ela deixou meu avô quando ele tinha 7 anos
    e só o viu novamente quando ele tinha 14.
  132. Do outro lado da minha família
  133. minha avó Aliza deixou
    a Polônia na década de 1930
  134. e procurou o que era então chamado
    de Mandato Britânico da Palestina,
  135. e nunca viu os familiares
    e amigos dela novamente.
  136. Cooperação global como resposta
    à migração global e ao deslocamento
  137. percorria um longo caminho para fazer
    da migração algo que não era uma crise
  138. mas algo que acontece,
  139. e com a qual lidamos
    como uma comunidade global.
  140. A ajuda humanitária também é crítica.
  141. O suporte que fornecemos
    a países da América Central
  142. que enviam refugiados e migrantes
  143. é uma pequena fração daquilo
    que gastamos com fiscalização e detenção.
  144. E nós podemos certamente ter
    um sistema de asilo que funcione.
  145. Por uma pequena fração
    do custo de um muro,
  146. poderíamos contratar mais juízes,
  147. garantir que os solicitantes
    de asilo tenham advogados
  148. e poderíamos nos comprometer
    com um sistema de asilo humanitário.
  149. (Aplausos)

  150. E poderíamos reassentar mais refugiados.

  151. Para lhes dar uma ideia do declínio
    no programa de apoio aos refugiados:
  152. há três anos, os EUA reassentaram
    15 mil refugiados sírios
  153. em resposta a maior crise
    de refugiados do mundo.
  154. Um ano depois, esse número era de 3 mil.
  155. E no ano passado, foram 62 pessoas.
  156. Sessenta e duas pessoas.
  157. Apesar da dura retórica e dos esforços
    para bloquear a imigração

  158. e manter os refugiados fora do país,
  159. o apoio a refugiados e imigrantes
    neste país, de acordo com pesquisas,
  160. nunca foi tão grande.
  161. Organizações como a HIAS, onde trabalho,
  162. e outras organizações
    humanitárias e baseadas na fé,
  163. facilitam para que tomemos uma posição
  164. quando há uma lei
    à qual vale a pena se opor,
  165. uma que merece apoio ou uma política
    que precisa ser supervisionada.
  166. Se você tem um telefone, pode fazer algo,
  167. e se quiser fazer mais, você pode.
  168. Se você vir um desses centros de detenção
  169. ao longo da fronteira com crianças neles,
  170. que são prisões, na verdade,
    você jamais será o mesmo.
  171. O que gostei muito sobre
    a minha conversa telefônica com Ellie

  172. foi que ela sabia em seu âmago
    que as histórias dos avós dela
  173. não eram diferentes das histórias atuais,
  174. e ela queria fazer algo a respeito.
  175. Se eu puder deixar vocês com uma coisa,

  176. além da história de fundo
    do Sr. Cabeça de Batata,
  177. que é, claro, uma boa história pra deixar,
  178. é que um país mostra força
  179. através da compaixão e do pragmatismo,
  180. não através da força e do medo.
  181. (Aplausos)

  182. Essas histórias dos Hassenfelds,
    dos meus familiares e dos de vocês

  183. ainda estão acontecendo hoje;
    e elas são todas iguais.
  184. Um país é forte não quando
    diz ao refugiado: "Vá embora",
  185. mas quando diz: "Tudo bem,
    cuidaremos de você. Está seguro aqui".
  186. Obrigada.

  187. (Aplausos)