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← A Grande Guerra de Tolkien

Um documentário de meia hora sobre as experiências de JRR Tolkien, durante a I Guerra Mundial, produzido para uma exposição no centenário da Escola King Edward, em Birmingham.

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Showing Revision 6 created 04/07/2015 by Margarida Ferreira.

  1. John Ronald Reuel Tolkien

  2. nasceu a 3 de janeiro de 1892.
  3. Ele e o seu irmão Hilary,
    viveram uma infância difícil.
  4. Quando Tolkien tinha apenas quatro anos,
  5. perdeu o pai, Arthur,
    com uma febre reumática.
  6. Mabel, a mãe, uma viúva
    de baixos rendimentos,
  7. ensinou os filhos em casa
  8. e desempenhou um papel vital
  9. na sua educação e desenvolvimento.
  10. Tolkien era um rapaz inteligente,
  11. com um grande fascínio pelas línguas.
  12. Tolkien candidatou-se
    à Escola de King Edward,
  13. em Birmingham e foi aceite.
  14. A partir do outono de 1900,
    por 12 libras por ano,
  15. Tolkien iria ser educado num ambiente
  16. que incentivaria o seu potencial académico
  17. John Garth: A ida para King Edward
  18. foi de importância vital para Tolkien.
  19. Ele era um rapaz
    excecionalmente talentoso.
  20. A escola de King Edward
    proporcionou-lhe uma ampla visão
  21. e a companhia de outros rapazes
  22. que eram igualmente talentosos
  23. e que, provavelmente,
  24. Tolkien dificilmente encontraria.
  25. Simon Stacey: Tolkien jogava râguebi
  26. e era uma voz importante
    na sociedade de debates
  27. e na sociedade literária.
  28. Era a vida e a alma e penso
    que sentiu muito a falta da escola
  29. quando, por fim, teve que se ir embora.
  30. VO: Com 11 anos,
    Tolkien e o irmão Hilary,
  31. perderam a mãe, Mabel, devido a diabetes.
  32. Destroçado, ele dedicou-se à escola
  33. ainda mais energicamente
    do que anteriormente.
  34. Academicamente, era excelente
  35. mas, em 1905, encontra
    o seu rival intelectual,

  36. Christopher Wiseman.
  37. JG: Tolkien conhece o seu maior amigo
  38. na escola King Edward, Christopher Wiseman,
    no campo do râguebi.
  39. Músico, matemático,
  40. muito diferente de Tolkien.
  41. Estabeleceram uma ligação
    tão forte no râguebi
  42. que se intitulavam
    "Os Grandes Irmãos Gémeos",
  43. que era uma frase de
    "Lays of Ancient Rome",
  44. de Lorde Macauley.
  45. SS: Também eram
    rivais amigáveis na escola,
  46. sendo ambos rapazes muito académicos.
  47. Wiseman tinha um intelecto formidável
  48. e interessava-se por muitas das coisas
  49. em que Tolkien também estava interessado:
  50. línguas, penso que
    ele estava a pensar no egípcio
  51. e estava a pensar nos hieróglifos.
  52. JG: Tolkien e Wiseman
    devem ter-se ajudado
  53. a definir-se um ao outro
    durante os anos de adolescência,
  54. porque discutiam muito
    sobre as suas crenças na vida.
  55. SS: Wiseman era um músico cheio de talento.
  56. Tolkien era duro de ouvido
  57. mas isso não os impedia de continuar!
  58. VO: Tolkien também se tornou amigo
    do filho do diretor, Rob Gilson.
  59. Tolkien, Wiseman e Gilson,
    estabeleceram uma ligação
  60. que duraria durante todos os anos da escola
    e para além dela.
  61. Fora da escola King Edward,
  62. a vida de Tolkien vai mudar de novo.
  63. JG: Tolkien vivia numa pensão,
    com o irmão, Hilary.
  64. Quando tinha 16 anos
  65. conheceu uma outra pensionista, Edith Batt
    que, na altura, tinha 19 anos.
  66. Era uma rapariga muito bela
  67. uma pianista talentosa e também era órfã.
  68. Os dois ligaram-se pela sua tristeza comum
  69. mas também pelas suas esperanças e sonhos.
  70. A dificuldade para Ronald
    — como ela lhe chamava —
  71. e para Edith, era que ele
    era católico romano
  72. e ela era anglicana.
  73. VO: O tutor de Tolkien,
    o Padre Francis Morgan,
  74. um padre católico, percebe
    que isso é uma barreira importante
  75. e também acha
    que Edith poderá afastar Tolkien
  76. da sua tentativa de entrar
    na Universidade de Oxford.
  77. JG: O Padre Francis Morgan
  78. proibiu-os de se encontrarem,
  79. ou sequer de comunicarem.
  80. Ele voltou para os seus amigos
    da escola King Edward
  81. e foi nessa fase final da sua época
  82. que ele começou a florescer
    e a conquistar o seu lugar.
  83. Ele e os amigos davam cartas.
  84. VO: Aproveitando ao máximo
    o seu ano de finalistas
  85. na escola King Edward
    e os amigos que tinham feito,
  86. Tolkien e os seus pares
    fundaram uma sociedade informal.
  87. Estes jovens intelectuais reuniam-se
    na biblioteca da escola
  88. faziam o que era proibido fazer:
    faziam chá.
  89. Fora das horas da escola,
  90. reuniam-se num café de Barrow's Store,
    em Birmingham.
  91. Troçando de si mesmos, intitulavam-se
  92. o "Clube do Chá e a Sociedade de Barrow"
  93. ou o CCSB, enquanto sigla.
  94. JG: O núcleo principal do CCBS
    era provavelmente Tolkien e Wiseman,
  95. e os outros gravitavam à volta deles.
  96. Havia Robert Quilter Gilson,
    filho do diretor.
  97. Rob era um rapaz culto e sociável,
  98. era talvez o elemento aglutinador do grupo.
  99. Recebia bem toda a gente
    e encontrava causas comuns com eles.
  100. Um tipo gentil e artístico
    que adorava desenhar.
  101. SS: Era um artista dotado
  102. e tinha a ambição de ser arquiteto.
  103. JG: Houve uma entrada tardia,
    Geoffrey Bache Smith,
  104. que era fascinado pela mitologia céltica.
  105. Isso deu-lhe um tema comum com Tolkien.
  106. Era outra das paixões de Tolkien.
  107. SS: Smith era um bom poeta, evoluído,
  108. que recomendava a Tolkien
    poesia contemporânea.
  109. Quando começou a escrever poesia,
  110. Tolkien, até certo ponto,
  111. foi inspirado por Smith
    e pelo grupo em geral.
  112. Foi esse o início de Tolkien
    enquanto escritor.
  113. JG: Desde o início,
    em que o importante era o divertimento
  114. até posteriormente,
    durante os anos da guerra,
  115. isso evoluiu para uma camaradagem
  116. em que todos eles beberam
    uma força tremenda e conforto.
  117. VO: No final desse ano,
    a época de Tolkien
  118. na escola King Edward chegou ao fim
  119. e ele começou
    o seu primeiro período em Oxford,
  120. depois de ter sido aceite com êxito.
  121. Na véspera do 21.º aniversário
  122. e da sua independência
    do Padre Francis Morgan,
  123. Tolkien escreve a Edith
  124. e, em menos duma semana,
    voltam a encontrar-se.
  125. Edith está noiva de outro homem,
  126. mas, apesar de um ridículo quase certo,
  127. concorda em quebrar o noivado
  128. para ficar com o seu Ronald.
  129. Nos meses seguintes,
    um sentimento crescente
  130. de problemas percorre a Europa
  131. e a 28 de junho de 1914, tudo muda.
  132. (som de disparos)
  133. Gavrillo Princip é preso
  134. pelo assassínio do arquiduque
    Franz Ferdinand.
  135. Segue-se uma crise diplomática
    e, em poucas semanas,
  136. as principais potências da Europa
    estão em guerra.
  137. A Alemanha invade a Bélgica
  138. e a Grã-Bretanha declara guerra à Alemanha.
  139. O Parlamento emite um apelo às armas
    para o público britânico.
  140. Paul Golightly: Não há uma corrida
    à bandeira imediatamente.
  141. Torna-se muito óbvio
  142. que as pessoas
    estão mais dispostas a aderir
  143. quando aparecem
    as histórias das atrocidades.
  144. Nessa altura sente-se
    um impulso muito maior para participar.
  145. JG: Havia um ambiente
    de excitação sobre a guerra.
  146. Havia um sentimento ingénuo
  147. de que ela iria permitir
    que os jovens cumprissem
  148. o seu potencial duma forma
    que não seria possível em tempo de paz.
  149. Havia um tremendo
    sentimento de patriotismo
  150. e um sentimento do dever
  151. para com o que quer que a Inglaterra
    ou a Grã-Bretanha defendesse.
  152. PG: Eram atraídos pela ideia
  153. de acertar as contas com os alemães
  154. ou, pelo menos, alguns deles eram.
  155. No todo, pensavam que iam
    pôr o nariz dos alemães a sangrar.
  156. JG: "Os alemães
    tinham sido uns cobardes"
  157. e precisavam de ser metidos na ordem
  158. PG: Os homens alistavam-se
    sem ser por necessidade económica,
  159. encontramos disso em qualquer guerra.
  160. A vida não é muito excitante
  161. e o romance e o colorido
    de se alistar no exército
  162. e de fazer parte duma coisa em grande,
  163. claro que tem um certo fascínio.
  164. Veem-se as coisas de modo romântico
  165. o que, obviamente,
    está condenado ao fracasso.
  166. Todos sabemos em que se tornou
    a I Guerra Mundial.
  167. Não é uma guerra de movimento,
    de choque, de entusiasmo.
  168. Não há cargas de cavalaria
    nem trombetas à distância.
  169. O que vai dominar
    é o matraquear das metralhadoras
  170. e as explosões da artilharia.
  171. Penso que eles têm expectativas
    sobre o que vai ser a guerra,
  172. e penso que a sua principal emoção era:
  173. "Será que vai acabar
    antes de eu chegar a França?"
  174. JG: Tolkien, cujas leituras englobavam
  175. a literatura de antigos heróis
    que, surpreendentemente,
  176. é muito franca sobre
    o que acontece na guerra,
  177. foi para a guerra
    de olhos muito mais abertos.
  178. Descreveu-se a si mesmo como
    um "jovem com demasiada imaginação"
  179. e portanto não se deliciava com a guerra
  180. fosse em que sentido fosse.
  181. PG: Penso que isso se aplicava,
  182. não apenas a homens
    como Tolkien, que lutou nela,
  183. mas também aos políticos e generais
    que a dirigiam.
  184. Penso que muita gente percebia
    que esta guerra ia ser terrível.
  185. SS: O que apanhamos nas cartas
  186. entre Gilson, Tolkien e Wiseman
  187. e depois na poesia de Smith,
  188. é uma forte determinação
    de cumprirem o dever
  189. e de estarem preparados para dar a vida,
  190. uma apreciação realista
    de que é uma época sombria
  191. e que eles têm que a atravessar.
  192. VO: G.B. Smith e Rob Gilson
  193. alistaram-se ambos no exército em 1914.
  194. Hilary, o irmão de Tolkien
    alista-se como corneteiro
  195. e Christopher Wiseman vai para a marinha.
  196. Mas Tolkien enfrenta um dilema.
  197. SS: Tolkien estava numa posição difícil
    quando a guerra rebentou.
  198. Faltava-lhe um ano
    para acabar o curso em Oxford
  199. e Tolkien precisava muito de o acabar
  200. porque queria continuar
    uma carreira académica.
  201. Não tinha dinheiro de família,
    ao contrário de Gilson
  202. e, portanto, depois de investir
    três anos no curso,
  203. era muito importante acabá-lo.
  204. Portanto, descobriu um esquema
  205. em que podia receber formação
  206. no Corpo de Formação de Oficiais,
  207. enquanto completava o curso,
    o que conseguiu triunfalmente
  208. com distinção, em Oxford.
  209. VO: Segue o seu grande amigo, G.B. Smith,
  210. nos Fuzileiros de Lancashire,
  211. na esperança de ser colocado
    no mesmo batalhão.

  212. JG: Tolkien procurou
    qualquer coisa no exército
  213. onde pudesse usar
    os seus talentos especiais,
  214. Os seus talentos epeciais eram as línguas
    e os sistemas de escrita.
  215. Tinha um fascínio pelos códigos
    e coisas dessas.
  216. Portanto, era mais que natural
    que ele arranjasse formação
  217. em transmissões.
  218. PG: Significava que Tolkien
    tinha que tomar contacto
  219. com a tecnologia disponível na época
  220. e deve ter ficado interessado.
  221. Daí o uso da rádio,
    o uso dos sinais, dos semáforos.
  222. SS: Aprendeu código Morse,
  223. aprendeu a usar lâmpadas de sinalização,
  224. telefones de campo, que, claro,
    acabaram em grande parte
  225. por serem ineficazes ou não funcionarem.
  226. JG: Veio a ser oficial do Batalhão
    de Transmissões no seu batalhão.
  227. Tolkien tinha que controlar
    as comunicações dum batalhão
  228. de cerca de 600 a 1000 homens,
  229. consoante a quantidade
    de força humana na altura.
  230. PG: Claro que o seu trabalho base
  231. era agir como ligação entre
    os diversos estratos de comando,
  232. e era responsável pela receção das ordens
  233. e por assegurar que eram entregues
    às pessoas certas
  234. e, claro, era responsável
    por transmitir ao comando superior
  235. a situação do seu setor.
  236. JG: Portanto, era uma peça crucial
  237. numa guerra que dependia totalmente
  238. da quantidade de informações que se tinham
  239. sobre a posição do inimigo.
  240. VO: Em março de 1916,
  241. quando a sua formação se aproxima do fim,
  242. Tolkien e Edith tomam consciência
  243. de que, em breve,
    ele será enviado para a Frente.
  244. Casam-se e dois meses depois,
    Tolkien embarca para França.
  245. Os dois despedem-se, sem saberem
    se alguma vez se voltarão a ver.
  246. (Som de canhões a disparar)
  247. VO: Quando Tolkien chega à Frente,
  248. a guerra já se desenrolava há dois anos.
  249. O custo da guerra é evidente:
  250. o campo está cheio de cicatrizes
  251. e as baixas são elevadas.
  252. Depois de um empate virtual
    de guerra das trincheiras,
  253. durante 1915,
  254. e com uma nova vaga
    de milhares de recrutas recém-treinados,
  255. torna-se claro que está iminente
    um Grande Empurrão.
  256. O Batalhão de Tolkien mantém-se na reserva,
  257. mas ele teme pela vida
    dos seus antigos colegas
  258. que estão na Frente.
  259. Um mês depois da sua chegada a França,
  260. os Aliados lançam a Ofensiva Somme.
  261. Às 7:30 da manhã, num sábado, dia 1 de julho,
  262. as tropas na linha da frente britânica,
  263. passam ao ataque.
  264. Só no primeiro dia da Ofensiva,
  265. morreram 20 000 homens,
    ficaram feridos 35 000
  266. e mais de 2000 foram dados
    como desaparecidos.
  267. PG: A primeira baixa foi o plano.
  268. Começou a desmoronar-se muito rapidamente.
  269. Tragicamente para os homens
    apanhados em campo aberto,
  270. foi uma sentença de morte.
  271. Morreu um em cada cinco dos homens
  272. que entraram em combate no dia 1 de Julho.
  273. JG: Foi o dia mais desastroso
  274. da história do exército britânico
  275. e uma tragédia para todo o país.
  276. Houve aldeias que perderam
    todos os seus jovens.
  277. PG: Ficou marcado
    como uma perda de inocência.
  278. Os 20 000 que foram mortos
  279. representam um ponto de viragem
    na consciência britânica
  280. e talvez nas relações
    entre os que tomam as decisões
  281. e os que são forçados a cumpri-las.
  282. VO: Entre os muitos homens
    que se perderam naquele dia,
  283. estava o querido membro do CCSB,
  284. Robert Gilson.
  285. JG: Ele chefiou o pelotão no ataque,
  286. era o responsável pela sua companhia,
  287. mas foi baleado
    a meio da Terra de Ninguém.
  288. PG: Estava na quarta vaga.
  289. Viu a primeira vaga avançar e fracassar,
  290. a segunda vaga avançar e fracassar,
  291. a terceira vaga avançar e fracassar.
  292. E ele, que fazia parte da quarta vaga,
    teve que avançar e avançou.
  293. Penso que isso é a coisa mais comovente
    e provavelmente mais trágica
  294. naquele 1 de julho de 1916.
  295. Aquela geração tinha tanta fé
    nos seus superiores,
  296. provavelmente tinha tanta lealdade
    para com os seus colegas
  297. que estava preparada para avançar
  298. mesmo que significasse uma morte certa.
  299. JG: Tolkien soube disso
  300. depois da sua primeira ação no Somme,
  301. umas semanas mais tarde, e ficou devastado.
  302. Ficou abalado até aos alicerces
    das suas crenças.
  303. Tal como todos os membros do CCSB,
  304. tinha formado o seu grupo
    com camaradagem, com ideais
  305. e no espírito de que tinham
    alguma coisa a dar ao mundo,
  306. em que todos os quatro eram partes vitais,
  307. e agora um deles estava morto.
  308. O que é que aquilo significava
    quanto aos seus objetivos gerais?
  309. E também ao seu objetivo.
  310. SS: Geoffrey Smith escreveu-lhe uma carta
  311. em que, claramente, Smith transmite
    sentimentos de devastação
  312. e um sentimento de que
    a camaradagem tinha sido violada.
  313. Rob nunca viria a ser arquiteto,
  314. nunca cumpriria o seu papel
    naquilo com que tinham sonhado.
  315. JG: Penso que ele levou
    muito tempo a recuperar.
  316. Os outros dois membros, Wiseman e Smith,
  317. teimaram em convencê-lo de que, não,
  318. os propósitos do CCSB continuavam
  319. e penso que, por fim, Tolkien
    se sentiu encorajado.
  320. VO: Tolkien escreve ao pai de Rob,
  321. o diretor da escola King Edward,
    a dar-lhe os pêsames.
  322. "O CCSB perdeu um jovem brilhante,
  323. "um artista de talento e,
    o mais doloroso de tudo,
  324. "um querido amigo".
  325. A guerra de Tolkien
    tinha começado verdadeiramente
  326. e nos meses seguintes é sujeito
    às muitas provações
  327. da guerra das trincheiras.
  328. JG: Estava sempre a entrar
    e a sair das trincheiras.
  329. Os batalhões eram rodados
  330. da linha da Frente
    para as trincheiras de reserva
  331. para descansarem,
    como eles diziam na galhofa,
  332. mas não havia qualquer descanso,
    era treino.
  333. Tolkien falava do desgaste universal
    de toda aquela guerra.
  334. Mas, durante este período,
    esteve envolvido em três ataques.
  335. Teve muita sorte por não ter participado
    no primeiro dia do Somme.
  336. Estava uns quilómetros atrás
    da linha da Frente, nessa altura.
  337. O seu batalhão avançou
    para uma segunda vaga de ataques.
  338. Foram enviados
    contra uma aldeia chamada Ovier,
  339. que tinha sido a linha da Frente alemã.
  340. Uma das primeiras coisas que encontrou
  341. foi um caos no sistema de comunicações
    do campo de batalha.
  342. Era muito primitivo.
  343. Só estava parcialmente montado
    e danificado pelos acasos da batalha.
  344. Tinha sinalizadores a atravessar
    a Terra de Ninguém
  345. a transportar luzes para dizer:
  346. "Chegámos".
  347. Mais luzes: "Fizemos prisioneiros".
  348. Tinham pombos que eram
    o método de comunicação mais fiável.
  349. Um dos sinalizadores de Tolkien
    ganhou uma medalha
  350. por conseguir que os pombos atravessassem
  351. a Terra de Ninguém
  352. e fizessem o trabalho corretamente.
  353. VO: O ataque é um êxito
    e foram feitos muitos prisioneiros.
  354. De todo o combate que Tolkien relata,
  355. uma das batalhas mais significativas
  356. é também uma das suas últimas:
  357. um ataque à Trincheira Regina.
  358. JG: Isso foi em outubro,
  359. altura em que o campo de batalha
    estava reduzido a lama.
  360. O ataque tinha sido adiado
    por causa da chuva pesada
  361. mas a 21 de outubro,
    houve uma vaga de frio,
  362. o solo ficou duro com o gelo
  363. e o ataque pôde ser concretizado.
  364. (Disparos de canhão)
  365. (Tiros de metralhadora)
  366. JG: Presenciou mortes violentas,
  367. também viu e sentiu um terror enorme.
  368. Tanto quanto sabemos,
    ele nunca descreveu em pormenor
  369. como foi aquela guerra das trincheiras
  370. mas resumiu-o em duas palavras,
  371. numa das suas cartas: "horror animal".
  372. Retirava-lhes toda a humanidade
  373. e transformava-os em bestas desesperadas
  374. que só pensavam em fugir e sobreviver.
  375. É muito interessante,
    se procurarmos no Senhor dos Anéis,
  376. sempre que as personagens
    estão numa situação de terror extremo,
  377. são sempre descritas
    como paralisadas e estupidificadas,
  378. desumanizadas pelo terror.
  379. PG: Muitas das trincheiras britânicas
  380. eram propositadamente desconfortáveis
  381. porque os generais queriam
    que os homens acreditassem
  382. que eram apenas temporárias.
  383. que iam sair dali,
  384. que aquilo não era a casa deles.
  385. VO: Na Frente Ocidental, Tolkien
    sente-se isolado de casa
  386. e as cartas para Edith e as cartas dela
  387. são um cabo de salvamento.
  388. Por razões de importância estratégica,
  389. Tolkien está impedido de informar
    nas cartas a sua localização
  390. portanto inventa um código de pontos
  391. para manter Edith informada
    do local onde está.
  392. JG: Escolhe as letras do alfabeto
  393. no texto do que lhe escreve
  394. e põe um ponto por cima das relevantes
  395. para escrever o nome do local
    onde estava nessa altura.
  396. Edith tinha um mapa na parede
  397. e assinala com um alfinete
    o local onde ele estava na altura.
  398. VO: Depois do ataque com êxito
    à Trincheira Regina,
  399. o batalhão retira-se da Frente
    e estaciona em frente das altas patentes.
  400. Mas Tolkien adoece.
  401. JG: Era a febre das trincheiras.
  402. Era uma doença provocada pelos piolhos
  403. devido à falta de higiene nas trincheiras.
  404. PG: Espalha-se
    pelo contacto com os piolhos
  405. e os sintomas não são nada agradáveis.
  406. Provocam dores de cabeça,
    pode-se ter dores de estômago,
  407. dores nas articulações e nos ossos,
  408. lesões na pele.
  409. Não é fatal mas pode ser muito debilitante.
  410. Tão debilitante que não se pode ser
    um soldado eficaz.
  411. Tolkien teve um ataque muito grave,
  412. tão grave que teve que ser evacuado
  413. "de volta a Blighty", como escreveram.
  414. De facto, foi o fim da sua guerra.
  415. JG: Salvou a vida de Tolkien.
  416. Tirou-o do campo de batalha
    e ele voltou à Grã-Bretanha.
  417. Foi enviado para Birmingham,
  418. para o Hospital Geral First Southern,
  419. como se chamava na época,
  420. que estava instalado nos terrenos
    da Universidade de Birmingham.
  421. Foi ali que Tolkien se reencontrou
    com a mulher, Edith
  422. e onde ele começou a escrever
    as primeiras histórias
  423. da "Terra-Média".
  424. A sua reunião com Edith
    foi duplamente emotiva
  425. e foi uma inspiração
    para diversas partes da escrita
  426. na sua mitologia,
  427. nomeadamente
    a história de Luthien e Beren,
  428. que aparecem no Silmarillion
  429. e estão referidas no Senhor dos Anéis.
  430. Uma história de amor entre um homem mortal
  431. e um duende imortal.
  432. VO: Mas o descanso de Tolkien
    é de curta duração.
  433. Pouco depois de regressar a Birmingham,
  434. Tolkien vem a saber
    por Christopher Wiseman,
  435. que o seu grande amigo G.B. Smith
    tinha sido morto.
  436. JG: A Batalha do Somme acabara
  437. e Smith estava a organizar
    um desafio de futebol para os seus homens
  438. a cerca de 6 km da Linha da Frente,
  439. quando uma bomba perdida
    explodiu perto dele.
  440. Foi atingido pelos estilhaços
  441. e contraiu uma gangrena gasosa,
  442. que o matou em poucos dias.
  443. No início de 1916, ainda Tolkien
    estava em formação,
  444. tinha recebido uma carta de G.B. Smith
  445. que, na altura,
    estava nas trincheiras, em França.
  446. VO: Smith ia sair na patrulha da noite.
  447. O oficial que chefiara a patrulha
    na noite anterior
  448. tinha sido capturado
    e muito provavelmente morto.
  449. JG: Era uma das atividades mais perigosas
  450. que se podiam ter na Frente Ocidental
  451. e Smith ia fazê-la.
  452. Aproveitou a oportunidade
    para escrever a Tolkien e dizer-lhe:
  453. "Vou sair na patrulha da noite.
  454. "Sou um ardente e apaixonado admirador
  455. "daquilo que escreveste
    e daquilo que hás de escrever".
  456. Dissera a Tolkien:
    "Tenho a certeza que és um eleito,
  457. "e tens que publicar".
  458. Smith foi essencialmente
    o primeiro fã da Terra-Média.
  459. SS: Smith diz na carta
  460. que a morte não podia pôr fim ao CCSB,
  461. aos "quatro imortais", nas suas palavras,
  462. que Tolkien podia dizer
    as coisas que quisesse dizer,
  463. muito depois de deixar de as poder dizer.
  464. É muito comovente porque penso que Tolkien,
  465. apesar do seu "eu" artístico individual,
  466. viu a sua carreira posterior
  467. como uma tentativa
    de cumprir os sonhos artísticos
  468. que tinham partilhado.
  469. JG: Ele conseguiu reunir as suas forças
  470. e ver talvez em Smith um ideal
  471. digno de viver.
  472. VO: No verão de 1918,
  473. Tolkien e Wiseman reúnem
    alguns dos poemas de Smith
  474. e publicaram-nos num pequeno volume,
    intitulado:
  475. "Uma Colheita da Primavera".
  476. A guerra de Tolkien acabara,
  477. mas o impacto das suas experiências
    ficará sempre nele
  478. e influenciará a sua escrita futura.
  479. JG: Toda a experiência da guerra
  480. teve um efeito permanente
    na mitologia de Tolkien.
  481. Logo que Tolkien regressou do Somme
  482. começou a escrever uma história
    chamada "A Queda de Gondolin",
  483. que foi o primeiro elemento
    da sua mitologia
  484. que tratava de batalhas.
  485. A coisa fascinante nisso foi que
    as forças atacantes
  486. usavam coisas que Tolkien designava
  487. por "dragões", "bestas" ou "monstros"
  488. mas eram descritas como metálicas
    e a rolar e a cuspir fogo.
  489. Algumas delas tinham tropas lá dentro.

  490. É muito claro que é uma espécie
    de mitificar o tanque
  491. que era a arma secreta dos britânicos,
  492. que tinha sido lançada no Somme
  493. quando Tolkien lá estava.
  494. O Senhor dos Anéis
    concentra-se numa irmandade,
  495. em que os membros estão separados
    em diversas frentes de batalha,
  496. tal como estavam os do CCSB.
  497. SS: É quase impensável
  498. que, ao escrever sobre
    a dispersão da irmandade,
  499. no Senhor dos Anéis,
  500. Tolkien não tenha sido influenciado
    pela sua perda
  501. durante a I Guerra Mundial
  502. e pelo fim da irmandade do CCSB.
  503. Há uma carta posterior em que ele refere
  504. que os pântanos mortos,
  505. que Frodo, Sam e Gollum atravessam,
  506. se devem ao norte da França,
    na área do Somme,
  507. onde ele combateu.
  508. JG: Frodo e Sam são o equivalente
  509. a um oficial e à sua ordenança,
    o seu impedido.
  510. Tolkien diz mesmo:
  511. "O meu Sam Gamgee é inspirado
    nos impedidos e ordenanças
  512. "que conheci na I Guerra Mundial".
  513. Frodo representa os sentimentos dum jovem,
  514. como o próprio Tolkien,
    atirado para uma guerra
  515. involuntariamente e tendo que suportar
    uma carga terrível, a carga do dever.
  516. Podemos ver que Frodo exibe sintomas
  517. daquilo a que hoje se chama
    Perturbação Pós-Traumática
  518. ou Trauma da Guerra ou,
    como lhe chamavam na época,
  519. Psicose de Obus.
  520. Começa a afastar-se do mundo,
    cada vez mais encerrado em si mesmo.
  521. Diz que não consegue recordar
    como era a relva,
  522. como era a luz do sol.
  523. Quando a guerra acaba
    em O Senhor dos Anéis,
  524. Frodo não se pavoneia como um herói,
  525. está visivelmente traumatizado
    por aquela experiência.
  526. Isso era o que acontecia
    com muitos dos soldados
  527. que regressavam da Frente Ocidental,
  528. incapazes de falar sobre as experiências
  529. que os tinham afetado tão profundamente.
  530. PG: A geração que luta na I Guerra Mundial
  531. devia ser considerada corajosa.
  532. SS: O sacrifício dessa geração
    foi extraordinário.
  533. JG: Foi uma perda trágica,
  534. não só para as famílias, para os amigos,
  535. mas para a civilização no seu todo.
  536. Abalou crenças antigas e preconceitos
  537. sobre a honra e a glória.
  538. SS: É a primeira guerra
    a sério das máquinas.
  539. Foram eliminados tantos milhares,
  540. tantos milhões de homens,
    que foram destruídos
  541. sem terem enfrentado o inimigo individualmente.
  542. PG: Esses homens não tiveram o privilégio
  543. de morrer um a um, morreram em massa.
  544. Penso que é esse número
    que nos traumatiza tanto.
  545. É por isso que temos os memoriais
    em Thiepval e Menin Gate.
  546. São apenas uma longa lista de nomes.
  547. Os corpos desapareceram,
    pura e simplesmente.
  548. Todos tinham vidas separadas
  549. mas todos desapareceram ao mesmo tempo.
  550. JG: Quando lemos a crónica
    da escola King Edward,
  551. como eu fiz quando investiguei
    a vida de Tolkien,
  552. ficamos a conhecer os rapazes
    com quem ele cresceu
  553. e vemos as suas realizações,
  554. vemos o que andavam a estudar,
  555. vemos como eram
    maravilhosamente inteligentes
  556. potencialmente criativos e brilhantes.
  557. Depois veio a I Guerra Mundial
  558. e vemos que era para isso
    que eles estavam destinados.
  559. PG: Aqueles jovens,
    com a vida inteira à sua frente,
  560. foram — sim, é uma frase
    que todos conhecemos —
  561. foram ceifados na sua juventude.
  562. Tinham um grande potencial,
  563. cheio de vida,
    cheio de vigor, cheio de planos,
  564. cheio de ambições.
  565. Queriam fazer montes de coisas
    na sua vida profissional e pessoal
  566. e essa oportunidade foi-lhes negada.
  567. JG: Quando olhamos
    para os acasos da guerra,
  568. é espantoso como Tolkien sobreviveu
  569. e conseguiu produzir
    as grandes obras de literatura
  570. que escreveu.
  571. Obras que moldaram a nossa cultura.
  572. Ficamos a pensar
    quantos outros não sobreviveram
  573. que potencial tinham dentro deles
  574. que nunca tiveram tempo de revelar.
  575. É uma perda irreparável.
  576. SS: G.B. Smith dá um breve lampejo
  577. duma vida jovem aniquilada
  578. que só comunicou os seus sonhos
    de forma muito incompleta.
  579. PG: É uma geração que não falou
    sobre o que sentia.
  580. Nesse sentido, penso que
    o efeito psicológico foi de longa duração.
  581. Muitos veteranos sobreviveram à guerra
  582. mas descobriram
    que não conseguiam sobreviver à paz.
  583. VO: Na capela da escola King Edward
  584. há oito placas de latão que têm
    os nomes de 245 antigos alunos
  585. que perderam a vida
    durante a I Guerra Mundial.
  586. Tolkien e os seus amigos do CCSB,
  587. são apenas quatro
    dos quase 1500 antigos alunos
  588. que responderam à chamada do seu país
    e combateram na Grande Guerra.
  589. Cada uma das suas histórias
    devia ser contada.
  590. PG: Os cemitérios que podemos visitar
  591. no norte da França tornaram-se
    quase nas catedrais do século XXI.
  592. É preciso fazer algumas
    perguntas muito importantes
  593. sobre a natureza da guerra
    e a natureza do sacrifício.
  594. E, no caso da I Guerra Mundial,
  595. a escala desse sacrifício,
  596. e se qualquer guerra é digna disso.
  597. [1403 antigos alunos da escola King Edward
  598. [prestaram serviço ao país
    durante o conflito.
  599. [Foram mortos quase um em cada cinco]
  600. [Calcula-se que houve mais
    de 16 milhões de mortos
  601. [e 20 milhões de feridos
    durante a I Guerra Mundial]