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← Porque é que eu vivo com o pânico mortal de falar em público

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Showing Revision 12 created 02/24/2017 by Margarida Ferreira.

  1. Quando concordei f-f-fazer isto,
  2. não sabia se queriam
    que falasse ou cantasse.
  3. Mas quando me disseram
    que o tópico era a linguagem,
  4. senti que havia algo que tinha de dizer.
  5. Eu tenho um... problema.

  6. Não é a pior coisa do mundo.
  7. Estou bem.
  8. Não estou a arder.
  9. Eu sei que outras pessoas no mundo
  10. têm que lidar com coisas b-b-bem piores,
  11. mas para mim... a linguagem e a m-m-música
  12. estão intrinsecamente
    ligadas por uma coisa.
  13. Essa coisa é a minha g-g-gaguez.

  14. Pode parecer curioso,
  15. dado que eu passo muito tempo
    da minha vida no p-p-palco.
  16. Talvez achem que me sinto à vontade
  17. a falar em público
  18. e à vontade aqui, a falar com vocês.
  19. Mas a verdade é que
    passei a minha vida até agora
  20. — e incluindo agora —
  21. no pânico mortal
    de falar em público.
  22. Cantar em público,
    é completamente diferente.
  23. (Risos)
  24. Mas já vamos falar disso.
  25. Nunca falei sobre isto tão explicitamente.
  26. Acho que é porque
    sempre tive a esperança
  27. de que, quando fosse adulta,
  28. já não gaguejasse.
  29. Sempre vivi com a ideia
    de que, quando fosse crescida,
  30. teria aprendido a falar f-f-francês,
  31. e que, quando crescesse,
    teria aprendido a gerir o meu dinheiro,
  32. e, que quando crescesse,
    não gaguejaria,
  33. e conseguiria falar em público
    e talvez ser primeira-ministra,
  34. e tudo seria possível e... vocês sabem.
  35. (Risos)
  36. Eu consigo falar disto agora
  37. porque cheguei a um ponto em que
  38. — quer dizer, tenho 28 anos.
  39. Tenho a certeza de que já sou adulta.
  40. (Risos)
  41. E sou uma mulher adulta,
  42. que vive a sua vida como artista,
  43. com problemas de fala.
  44. Por isso, mais vale ser sincera.
  45. Há lados interessantes
    no que toca à gaguez.

  46. Para mim, o pior que pode acontecer
  47. é conhecer outro g-g-gago.
  48. (Risos)
  49. Isto aconteceu-me em Hamburgo,
  50. quando um rapaz que conheci disse:
  51. "Olá, o m-m-m-meu nome é Joe."
  52. e eu disse:
    "Ah, olá, o m-m-m-meu nome é Meg."
  53. Imaginem o meu pânico
    quando me apercebi
  54. de que ele pensou
    que eu estava a gozar com ele.
  55. (Risos)
  56. As pessoas pensam
    que eu estou sempre embriagada.

  57. (Risos)
  58. Pensam que eu me esqueci do nome delas

  59. quando hesito antes de o dizer.
  60. E é algo muito estranho,
  61. porque os nomes próprios são a coisa pior.
  62. Se vou usar a palavra
    "quarta-feira" numa frase,
  63. quando estou quase a dizê-la
  64. e sinto que vou gaguejar,
  65. consigo mudar a palavra para "amanhã",
  66. ou "o dia depois de terça-feira",
  67. ou outra coisa qualquer.
  68. É desajeitado, mas dá para me safar,
  69. porque, ao longo do tempo,
  70. desenvolvi um método alternativo de fala
  71. em que, mesmo no último minuto,
  72. mudo a palavra e engano o cérebro.
  73. Mas não posso mudar o nome das pessoas.
  74. (Risos)
  75. Quando cantava muito "jazz",
  76. trabalhava muito com um pianista
    que se chamava S-s-steve.
  77. Como já se devem ter apercebido,
  78. os "s" e os "t", juntos ou separados,
  79. são o meu ponto fraco.
  80. Mas eu tinha de apresentar a banda
  81. enquanto eles improvisavam,
  82. e quando chegava ao S-s-steve,
  83. muitas vezes bloqueava no "st".
  84. Era um pouco constrangedor
    e acabava com a energia.
  85. Então, depois de alguns
    incidentes como este,
  86. o Steve tornou-se no "Seve",
  87. (Risos)
  88. e ultrapassámos assim a situação.
  89. Já fiz muita terapia,

  90. e uma forma comum de tratamento
  91. é utilizar a técnica chamada "fala suave",
  92. que é quando quase cantamos
    tudo o que dizemos.
  93. Quase juntamos tudo
  94. nesta maneira cantante
    de professora do pré-escolar,
  95. que nos faz soar muito serenos,
    como se tivéssemos tomado Valium,
  96. (Risos)
  97. e tudo estivesse calmo.
  98. Eu não sou nada assim.
  99. E uso bastante isto. Uso realmente.
  100. Uso quando tenho que estar
    em tertúlias na TV
  101. ou quando tenho que dar
    entrevistas na rádio,
  102. quando é primordial
    a economia de tempo no ar .
  103. (Risos)
  104. Passo por isto desta forma
    no meu trabalho.
  105. Mas como uma artista
    que sente que o seu trabalho
  106. é somente baseado
    numa plataforma de honestidade
  107. e de ser real,
  108. parece que isto é batota.
  109. É por isso que, antes de cantar,
    gostaria de vos dizer

  110. o que cantar significa para mim.
  111. É mais do que emitir sons bonitos,
  112. é mais do que criar c-c-canções bonitas.
  113. É mais do que se sentir
    conhec-c-cido ou entendido.
  114. É mais do que fazer-vos sentir
    o que estou a sentir.
  115. Não se trata de mitologia,
  116. ou de me mitificar para vocês.
  117. De alguma maneira,
  118. através de uma função sináptica
    milagrosa do cérebro humano,
  119. é impossível gaguejar quando cantamos.
  120. Quando eu era mais nova,
    este era um método de tratamento
  121. que funcionava muito bem para mim:
  122. cantar, então eu cantava muito.
  123. É por isso que aqui estou hoje.
  124. (Aplausos)

  125. Obrigada.

  126. Cantar, para mim, é um alívio.

  127. É o único momento
    em que me s-s-sinto fluente.
  128. É o único momento em que
    o que sai da minha boca
  129. é exatamente o que eu queria dizer.
  130. (Risos)
  131. Então, eu sei que esta é uma palestra TED,
  132. mas agora vou fazer um musical TED.
  133. Esta é uma canção
    que compus no ano passado.
  134. Muito obrigada. Obrigada.

  135. (Aplausos)

  136. (Piano)

  137. ♪ Eu seria linda ♪

  138. ♪ mas o meu nariz ♪

  139. ♪ é ligeiramente grande demais ♪

  140. ♪ para a minha cara ♪

  141. ♪ E eu seria uma sonhadora ♪

  142. ♪ mas o meu sonho ♪

  143. ♪ é ligeiramente grande demais ♪

  144. ♪ para este espaço ♪

  145. ♪ Eu seria um anjo ♪

  146. ♪ mas a minha auréola ♪

  147. ♪ fica pálida com o brilho ♪

  148. ♪ da tua graça ♪

  149. ♪ Eu seria um "joker" ♪

  150. ♪ mas essa carta ♪

  151. ♪ parece tola
    quando jogamos ♪
  152. ♪ o nosso ás ♪

  153. ♪ Eu gostaria de saber ♪

  154. ♪ Há estrelas no inferno? ♪

  155. ♪ E gostaria de saber ♪

  156. ♪ saber se percebes ♪

  157. ♪ que me fazes perder
    tudo o que conheço ♪

  158. ♪ Que não posso escolher ♪

  159. ♪ deixar ou não ♪
  160. ♪ E eu ficaria aqui para sempre ♪

  161. ♪ mas a minha casa ♪

  162. ♪ é ligeiramente longe demais ♪

  163. ♪ deste lugar ♪

  164. ♪ Eu juro que tentei ♪

  165. ♪ abrandar♪

  166. ♪ quando estou a seguir o teu ritmo ♪

  167. ♪ Mas tudo o que eu podia pensar ♪

  168. ♪ vagueando pela cidade ♪

  169. ♪ era se eu fico bonita à chuva. ♪

  170. ♪ Eu não sei como alguém ♪

  171. ♪ assim tão encantador ♪

  172. ♪ me faz sentir feia ♪

  173. ♪ Tanta vergonha ♪

  174. ♪ Gostaria de saber ♪

  175. ♪ Há estrelas no inferno? ♪

  176. ♪ Eu gostaria de saber ♪

  177. ♪ saber se tu percebes ♪

  178. ♪ que me fazes perder
    tudo que conheço ♪

  179. ♪ que eu não posso escolher ♪

  180. ♪ deixar ou não ♪
  181. Muito obrigada.

  182. (Aplausos)