YouTube

Got a YouTube account?

New: enable viewer-created translations and captions on your YouTube channel!

Portuguese, Brazilian subtitles

← Depois de bilhões de anos de monotonia, o Universo está acordando

Get Embed Code
21 Languages

Showing Revision 40 created 10/30/2019 by Claudia Sander.

  1. Estou emocionado por falar com vocês
    usando essa alta tecnologia.
  2. De todos os humanos que já viveram,
  3. a imensa maioria acharia
    o que estamos fazendo aqui
  4. incompreensível, inacreditável.
  5. Porque, por milhares de séculos,

  6. nos tempos das trevas antes
    da revolução científica e do Iluminismo,
  7. as pessoas tinham baixas expectativas.
  8. Para sua vida e para a vida
    de seus descendentes.
  9. Normalmente, elas não esperavam
  10. que nada significantemente novo
    ou melhor fosse alcançado, algum dia.
  11. Esse pessimismo aparece bem na Bíblia,
  12. em uma das poucas passagens bíblicas
    com o autor identificado.
  13. Ele se chama Eclesiastes
    e é um sujeito enigmático.
  14. Ele escreveu: "O que foi,
    isso é o que há de ser;
  15. e o que se fez, isso se fará;
  16. de modo que nada há
    de novo debaixo do Sol.
  17. Se é encontrada alguma coisa
    da qual se diz: 'Veja, isto é novo',
  18. ela já existia nos tempos passados".
  19. Eclesiastes descreveu
    um mundo sem inovação.

  20. Por inovação quero dizer algo novo
    no sentido de Eclesiastes,
  21. não apenas algo que tenha mudado,
  22. mas uma mudança significativa
    com efeitos duradouros,
  23. sobre a qual as pessoas realmente diriam:
  24. "Veja, isso é novo",
  25. e, de preferência, "bom".
  26. Então, mudanças puramente aleatórias
    não são inovações.
  27. Certo, Heráclito disse que um homem
    não se banha duas vezes no mesmo rio,
  28. porque o rio não é mais o mesmo,
    e o homem não é mais o mesmo.
  29. Mas, se o rio muda aleatoriamente,
  30. na realidade é o mesmo rio.
  31. Por outro lado,

  32. se uma ideia em uma mente
    se espalha para outras mentes,
  33. e muda vidas por gerações,
  34. isso é inovação.
  35. A vida humana sem inovação
  36. é vida sem criatividade, sem progresso.
  37. É uma sociedade estática,
    um jogo de soma zero.
  38. Esse é o inferno em vida
    no qual viveu Eclesiastes.
  39. Como todo mundo, até alguns séculos atrás.
  40. Era um inferno porque, para os humanos,
  41. sofrer está intimamente
    relacionado à estagnação.
  42. Porque a estagnação não é só frustrante.
  43. Todas as fontes de sofrimento,
  44. fome, pandemias,
    asteroides em rota de colisão,
  45. e coisas como guerra e escravidão
  46. fazem mal às pessoas somente até termos
    o conhecimento para preveni-las.
  47. No romance "Servidão Humana",
    de Somerset Maugham, há uma história

  48. sobre um antigo sábio
  49. que resume toda a história
    da humanidade em:
  50. "Ele nasceu,
  51. ele sofreu e ele morreu".
  52. E prossegue:
  53. "A vida foi insignificante,
    e a morte, sem consequências".
  54. E, sem dúvida, a grande maioria
    dos nossos antepassados
  55. tiveram vidas de sofrimento
    e trabalho extenuante,
  56. antes de morrerem jovens e em agonia.
  57. E, sim, na maior parte das gerações
  58. não houve nada com consequência inovadora
    para as gerações subsequentes.
  59. Porém, quando povos antigos
    tentaram explicar sua condição,

  60. eles normalmente fizeram isso
    em grandiosos termos cósmicos.
  61. O que era correto, no fim das contas,
  62. muito embora suas explicações, seus mitos,
  63. fossem em grande medida falsos.
  64. Alguns tentaram explicar
  65. a austeridade e monotonia de seu mundo
  66. em termos de uma guerra cósmica
    sem fim entre o bem e o mal,
  67. na qual os humanos
    eram o campo de batalha.
  68. O que habilmente explicava
  69. por que sua própria experiência
    era cheia de sofrimento,
  70. e por que o progresso nunca aconteceu.
  71. Mas isso não é verdade.
  72. Curiosamente,

  73. todo o conflito e sofrimento deles
  74. se dava apenas pela forma
    como processavam as ideias.
  75. Satisfazer-se com dogmas e especulações,
  76. em vez de ter um olhar crítico sobre eles
  77. e tentar encontrar explicações melhores
    para o mundo e para sua própria condição.
  78. A física do século 20
    criou explicações melhores,
  79. mas ainda em termos de uma guerra cósmica.
  80. Dessa vez, os combatentes
    eram a ordem e o caos, ou a entropia.
  81. Essa história permite
    ter esperança para o futuro.
  82. Mas, por outro lado,
  83. é até mais desanimadora
    do que os mitos antigos,
  84. porque a vilã, a entropia,
  85. está predestinada à vitória final,
  86. quando as inexoráveis
    leis da termodinâmica
  87. acabarem com toda a inovação
  88. com a chamada "morte térmica do Universo".
  89. Atualmente, há a história
    de uma batalha local dentro dessa guerra,

  90. entre a sustentabilidade, que é a ordem,
  91. e o desperdício, que é o caos;
  92. essa é a representação
    contemporânea do bem e do mal,
  93. normalmente com o toque adicional
    de que os humanos são o mal,
  94. então nem deveríamos tentar vencer.
  95. E, recentemente,
  96. tem-se falado sobre outra guerra cósmica,
  97. entre a gravidade, que levaria
    o Universo a um colapso,
  98. e a energia escura,
    que finalmente o destruiria.
  99. Então, desta vez,
  100. qualquer força cósmica que ganhe,
  101. nós perdemos.
  102. Todos esses cálculos pessimistas
    da condição humana

  103. contêm alguma verdade,
  104. mas, como as profecias,
  105. são enganosos, e todos pela mesma razão.
  106. Nenhum deles retrata os humanos
    como realmente somos.
  107. Como disse Jacob Bronowski:
  108. "O homem não é uma figura na paisagem;
  109. é ele que dá forma à paisagem".
  110. Em outras palavras,
  111. os humanos não são joguetes
    de forças cósmicas;
  112. nós somos aqueles que usufruem
    das forças cósmicas.
  113. Em seguida falo mais sobre isso,
  114. mas, primeiro, que tipo de coisa
    cria a inovação?
  115. Bem, o princípio do Universo
    certamente criou inovação.
  116. O Big Bang, há cerca
    de 14 bilhões de anos,

  117. criou o espaço, o tempo e a energia,
  118. tudo que é físico.
  119. E então, imediatamente,
  120. o que chamo de "primeira era da inovação",
  121. com o primeiro átomo, a primeira estrela,
  122. o primeiro buraco negro,
  123. a primeira galáxia.
  124. Mas então, em algum momento,
  125. a inovação desapareceu do Universo.
  126. Talvez desde 12 ou 13 bilhões de anos
  127. até os dias de hoje,
  128. não tenha surgido nenhum tipo novo
    de objeto astronômico.
  129. Houve apenas o que chamo
    de "a grande monotonia".
  130. Então, acidentalmente,
  131. Eclesiastes tinha mais razão
    sobre o Universo além do Sol
  132. do que abaixo do Sol.
  133. Enquanto a grande monotonia durar,
  134. o que há lá fora
  135. é o que realmente vai haver.
  136. E não há nada lá que possamos
    verdadeiramente dizer:
  137. "Veja, isso é novo".
  138. No entanto,

  139. em algum momento
    durante a grande monotonia,
  140. houve um evento, inconsequente na época,
  141. e que, mesmo bilhões de anos depois,
  142. não afetou nada
    além de seu próprio planeta,
  143. ainda que, por fim, ele possa causar
    uma inovação cósmica muito importante.
  144. Esse evento foi o surgimento da vida:
  145. a criação do primeiro
    conhecimento genético,
  146. a codificação de adaptações biológicas,
  147. a codificação de inovação.
  148. Isso transformou completamente
    a superfície da Terra.
  149. Os genes no DNA de organismos unicelulares
  150. colocaram oxigênio no ar,
  151. extraíram CO2,
  152. colocaram calcário e ferro no solo;
  153. dificilmente restou um centímetro cúbico
    da superfície até uma certa profundidade
  154. que não tenha sido afetado
    por esses genes.
  155. A Terra se tornou,
  156. se não um lugar novo na escala cósmica,
  157. certamente um lugar estranho.
  158. Só como exemplo, fora da Terra,

  159. apenas algumas centenas de substâncias
    químicas diferentes foram detectadas.
  160. Presume-se que haja
    mais algumas em lugares sem vida,
  161. mas, na Terra,
  162. a evolução criou bilhões
    de compostos químicos diferentes.
  163. E depois as primeiras plantas, animais,
  164. e então, em alguma espécie
    ancestral à nossa,
  165. o conhecimento explicativo.
  166. Pela primeira vez
    no Universo, que se saiba.
  167. O conhecimento explicativo é a adaptação
    mais marcante da nossa espécie.

  168. Ele difere do conhecimento não explicativo
  169. no DNA, por exemplo,
  170. por ser universal.
  171. Ou seja, tudo que pode ser entendido
  172. pode ser entendido através
    de conhecimento explicativo.
  173. E mais, qualquer processo físico
  174. pode ser controlado por esse conhecimento,
  175. limitado apenas pelas leis da física.
  176. Assim, também o conhecimento explicativo
  177. começou a transformar
    a superfície da Terra.
  178. E logo a Terra será o único
    objeto conhecido no Universo
  179. que afasta asteroides em rota de colisão
  180. em vez de atraí-los.
  181. Eclesiastes, compreensivelmente,
    foi induzido ao erro

  182. pela dolorosa lentidão
    do progresso na época dele.
  183. A inovação na vida humana
    ainda era muito rara, muito gradual
  184. para ser percebida em uma geração.
  185. E, na biosfera,
  186. a evolução de novas espécies
    era ainda mais lenta.
  187. Mas as duas coisas estavam acontecendo.
  188. Agora, por que há uma grande monotonia
    no Universo como um todo,

  189. e o que faz nosso planeta
    ir contra essa tendência?
  190. Bem, o Universo como um todo
    é relativamente simples.
  191. As estrelas são tão simples
  192. que podemos prever seu comportamento
    bilhões de anos no futuro,
  193. e deduzir como elas se formaram
    bilhões de anos atrás.
  194. Então, por que o Universo é simples?
  195. Basicamente, porque coisas
    grandes, massivas e poderosas
  196. afetam fortemente coisas menores,
    mas não vice-versa.
  197. Chamo isso de "regra hierárquica".
  198. Por exemplo, quando
    um cometa atinge o Sol,
  199. o Sol segue como antes,
  200. mas o cometa é vaporizado.
  201. Pela mesma razão,
  202. coisas grandes não são muito afetadas
    por pequenas partes delas mesmas,
  203. ou seja, por detalhes.
  204. Isso significa que seu comportamento geral
  205. é simples.
  206. E já que nada muito novo pode acontecer
    às coisas que permanecem simples,
  207. a regra da hierarquia, ao causar
    simplicidade em grande escala,
  208. causou a grande monotonia.
  209. Mas a salvação
  210. é que a regra da hierarquia
    não é uma lei da natureza.
  211. Ela se manteve em todo o Universo,
  212. menos aqui.
  213. Na nossa biosfera, os genes,
    objetos do tamanho de uma molécula,

  214. controlam recursos
    imensamente desproporcionais.
  215. Os primeiros genes para a fotossíntese,
  216. ao causar sua própria proliferação
  217. e então transformar
    a superfície do planeta,
  218. violaram ou reverteram
    a regra da hierarquia
  219. pelo impressionante fator
    de 10 elevado a 40.
  220. O conhecimento explicativo
    é potencialmente mais poderoso ainda
  221. por causa da universalidade,
  222. e criado mais rapidamente.
  223. Quando o conhecimento humano
    atingir o fator de 10 elevado a 40,
  224. ele vai controlar a galáxia inteira
  225. e olhar além.
  226. Então, os humanos,

  227. e qualquer outro criador que possa haver,
  228. são os principais agentes
    de inovação do Universo.
  229. Nós somos a razão e os meios
  230. pelos quais a inovação, a criatividade,
    o conhecimento e o progresso
  231. podem ter efeitos físicos
    objetivos em grande escala.
  232. Pela perspectiva humana,
  233. a única alternativa ao inferno em vida
    das sociedades estáticas
  234. é a criação contínua de novas ideias,
  235. comportamentos, novos tipos de objetos.
  236. Logo esse robô estará obsoleto,
  237. por causa de novos conhecimentos
    explicativos, progresso.
  238. Mas, pela perspectiva cósmica,

  239. o conhecimento explicativo
    é a nêmesis da regra da hierarquia.
  240. É o destruidor da grande monotonia.
  241. Então, é o criador
    da próxima era cosmológica,
  242. o Antropoceno.
  243. Se podemos falar de uma guerra cósmica,
  244. não é aquela retratada
    nessas histórias pessimistas.
  245. É uma guerra entre monotonia e inovação,
  246. entre inércia e criatividade.
  247. E, nessa guerra,
  248. nosso lado não está destinado a perder.
  249. Se escolhermos aplicar
  250. nossa capacidade única de criar
    conhecimento explicativo,
  251. nós podemos vencer.
  252. Obrigado.

  253. (Aplausos)