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← Ser jovem e causar impacto

Aos 18 anos, o trabalho de Natalie Warne com o movimento "Crianças Invisíveis", fez dela uma heroína para jovens activistas. Ela usa a sua história inspiradora para nos recordar que ninguém é demasiado jovem para mudar o mundo.

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Showing Revision 3 created 09/14/2020 by Margarida Ferreira.

  1. A minha mãe é uma mulher negra forte,
  2. que criou os filhos para terem
    o mesmo sentido de força e orgulho.
  3. Este espírito foi representado
    por uma única parede
  4. no nosso pequeno apartamento,
    de dois quartos, no sul de Chicago.
  5. Havia duas fotografias
    penduradas com orgulho:
  6. uma grande e extravagante
    fotografia dos meus irmãos e eu,
  7. e a outra, uma foto da minha mãe,
    aos 12 anos de idade,
  8. a olhar, olhos nos olhos,
    para o Dr. Martin Luther King Jr.
  9. Quando eu era mais nova,
    costumava pôr-me em bicos dos pés,

  10. a olhar para aquela fotografia,
  11. fechava os olhos com força
    e fingir que aquela mulher era eu,
  12. a contemplar o homem que revolucionou
    o Movimento dos Direitos Civis,
  13. que marchou sobre Washington,
    e transformou uma geração
  14. com as suas palavras:
    "Eu tenho um sonho".
  15. Mas consegui conhecê-lo.

  16. Obviamente, não conheci o Dr. King,
  17. mas conheci um homem
    chamado Dr. Vincent Harding.
  18. Ele trabalhou com o Dr. King
    desde o primeiro dia,
  19. e até escreveu alguns dos
    seus discursos mais icónicos.
  20. Aquele foi um momento
    importantíssimo para mim,
  21. porque foi a primeira vez que percebi
  22. que não foi só o Dr. King
    que liderou esta revolução,
  23. mas estava rodeado de um movimento
    constituído por anónimos extraordinários.
  24. Anónimos extraordinários são pessoas
    que trabalham generosa e vigorosamente

  25. por aquilo que acreditam,
  26. pessoas que são motivadas
    pela convicção e não pelo reconhecimento.
  27. Levei muito tempo a perceber
    a importância deste momento,
  28. até ser muito mais velha.
  29. Como disse, cresci em Chicago.

  30. Cresci num bairro difícil e pobre,
  31. mas isso não me importava
    quando era miúda
  32. porque eu, literalmente, tenho
    a família mais incrível do mundo.
  33. Duas coisas com que lutei muito,
  34. enquanto miúda eram:
  35. uma, o meu pai foi sempre doente
    durante toda a minha vida.
  36. Ele sofre de doença de Parkinson
    e de pancreatite
  37. e, para uma criança, foi muito difícil
    para mim ver o meu herói sofrer tanto.
  38. O meu outro problema
    era comigo mesma.
  39. Acho que se pode dizer que
    tive uma crise de identidade.
  40. Tive de me mudar quatro vezes
    durante o ensino secundário,
  41. e no primeiro ano fui para
    uma escola extremamente racista.
  42. Os jovens eram muito cruéis.
  43. Davam-nos cartas de ódio,
  44. escreviam coisas horríveis nos cacifos,
  45. e, como eu sou mestiça, diziam-me:
  46. "Não podes ser as duas coisas.
    Tens de escolher, preta ou branca."
  47. Por fim, incomodava-me
    ser qualquer uma dessas coisas.
  48. De repente,chega 2008, o meu último ano,
  49. está na moda ser mestiça,
    ser racialmente ambíguo, tipo:
  50. "Natalie, agora podes gostar
    de ti própria. Agora, és bonita."
  51. Para mim, foi indiferente.
  52. Estava farta de me importar
    com a opinião dos outros,
  53. e só queria despachar-me,
  54. sobreviver às aulas, qualquer
    que fosse escola que frequentasse
  55. e acabar o curso.
  56. Só aos 17 anos,

  57. depois de ver o filme
    "Invisible Children",
  58. é que algo aconteceu.
  59. Crianças-soldados,
  60. crianças tão pequenas quanto
    os meus sobrinhos,
  61. raptadas, a receberem AK-47
    e forçadas a matar.
  62. Não só por qualquer pessoa mas,
    muitas vezes, pelos próprios pais,
  63. pelos próprios irmãos.
  64. Um exército rebelde a perpetrar
    assassínios em massa
  65. sem razões políticas ou religiosas,
    só porque sim.
  66. Durante 25 anos.
  67. Este conflito dura há 25 anos.
  68. Eu tenho 20 anos,
  69. o que faz com que este conflito
    seja cinco anos mais velho que eu.
  70. Um homem,
  71. um homem com uma voz carismática,
  72. começou tudo isto.
  73. O nome dele é Joseph Kony.
  74. Quando vi este filme, algo aconteceu.

  75. Algo começou a agitar-se dentro de mim,
  76. e eu não sabia o que era.
  77. Não sabia se era raiva, se era pena,
  78. se me sentia culpada
    por ser a primeira vez
  79. que ouvia falar de uma guerra de 25 anos.
  80. Eu nem conseguia dar-lhe nome.
  81. Foi como um murro no estômago
    e comecei a fazer perguntas.
  82. "O que é que eu faço?
  83. "O que é que alguém de 17 anos pode fazer?
  84. "Vocês têm que me dar algo!"
  85. E eles deram-me algo.

  86. Os fundadores e cineastas
    de "Invisible Children"
  87. afirmaram que havia um projecto de lei,
  88. e que, se conseguíssemos aprová-lo
    isso faria duas coisas:
  89. Iria prender Joseph Kony
  90. e os principiais comandantes
    do exército rebelde;
  91. e iria proporcionar um fundo
    para a recuperação destas regiões,
  92. que tinham sido devastadas
    por 25 anos de guerra.
  93. E pensei: "Feito. Entro nessa.
  94. "Juro que farei o que puder
    para que isso aconteça".
  95. Então, eu e mais 99 idealistas
    entre os 18 e 20 anos de idade

  96. entrámos num avião para fazer um estágio
    em San Diego, com "Invisible Children".
  97. Eu adiei a faculdade.
    Não estávamos a ser pagos para aquilo.
  98. Podem dizer que foi
    irresponsabilidade ou loucura.
  99. Os meus pais disseram.
  100. Mas para nós, seria loucura não ir.
  101. Todos sentimos esta urgência
    e teríamos feito o que fosse preciso
  102. para aprovar este projecto de lei.
  103. Então, deram-nos a primeira tarefa.

  104. Íamos planear um evento chamado:
  105. "Resgate das Crianças-Soldados
    de Joseph Kony",
  106. onde os participantes chegariam
    de centenas de cidades mundiais,
  107. se reuniriam no centro da cidade,
  108. até chegar uma celebridade
    ou uma figura pública
  109. e usasse a sua voz
    em nome dessas crianças-soldados,
  110. e, nessa altura,
    cada cidade era "resgatada".
  111. Mas o truque era que não saíamos
    da cidade até sermos resgatados.
  112. Deram-me Chicago e outras nove cidades
  113. e eu disse aos meus chefes:
  114. "Se queremos nomes de peso,
    porque não a abelha-rainha? Certo?
  115. "Porque não tentamos a Oprah Winfrey?"
  116. Eles acharam que eu era muito idealista
  117. mas estávamos a sonhar alto.
  118. Estávamos a fazer algo impossível,
  119. assim porque não tentar alcançar
    mais coisas impossíveis?
  120. Tínhamos de Janeiro
    a Abril para fazer isto.
  121. Este é o número de horas
    que gastei em logística,

  122. a obter autorizações
    para reunir participantes
  123. e encontrar pontos de encontro.
  124. Este é o número de vezes que fui rejeitada
  125. por agentes de celebridades
    e secretários de políticos.
  126. Esse é o montante que gastei,
    do meu próprio bolso,
  127. em Red Bull e Diet Coke para me manter
    acordada durante este movimento.
  128. (Risos)

  129. Vocês podem julgar-me, se quiserem.

  130. Esta é a conta do hospital,
    da infecção que tive nos rins
  131. devido ao consumo exacerbado
    de cafeína, durante este evento.
  132. (Risos)

  133. Estas são só algumas
    das coisas ridículas que fizemos

  134. para tentar que este evento funcionasse.
  135. Portanto, chega o dia 21 de Abril
    e o evento começa.

  136. Cem cidades pelo mundo inteiro.
    Elas estavam lindas!
  137. Seis dias depois, todas as cidades
    foram resgatadas, menos uma:
  138. Chicago.
  139. Assim, estávamos à espera na cidade.

  140. Começaram a aparecer pessoas
    de todo o mundo, de todo o país,
  141. para reforçarem e juntarem
    as vozes às nossas.
  142. E, finalmente, no dia 1 de Maio,
  143. juntámo-nos à volta
    do estúdio da Oprah,
  144. e chamámos a atenção dela.
  145. Este é um trecho do filme
    "Together We Are Free",

  146. que documenta o evento do resgate
    e a minha tentativa de chegar até à Oprah.
  147. (Vídeo) Quando cheguei ao estúdio,
    havia um gigante...

  148. quando vocês entraram,
    havia um grupo lá fora?
  149. Sim!

  150. A empunhar cartazes,
    a pedir para eu falar com eles

  151. só durante cinco minutos,
  152. então fiquei feliz de o fazer.
  153. Eles estão com um grupo
    chamado "Invisible Children",
  154. e eu disse ao grupo que está lá fora
  155. que lhes daria um minuto
    para explicarem do que se tratava..
  156. Oprah, muito obrigado
    por nos receber.

  157. Basicamente, estas pessoas aqui fora,
    viram a história de 30 000 crianças
  158. raptadas por um líder rebelde
    chamado Joseph Kony.
  159. E estão aqui, solidariamente,
  160. já estão aqui há seis dias.
  161. Isto começou com 100 000
    pessoas pelo mundo inteiro.
  162. Agora está reduzido a 500,
    que se mantêm firmes,
  163. para você poder atrair
    a atenção para este problema
  164. e nós podermos acabar
    com a guerra mais antiga de África
  165. e resgatar aquelas crianças que
    ainda são soldados, na África Oriental.
  166. Oprah, devo dizer que
    esta rapariga, a Natalie,
  167. tem 18 anos.
  168. Ela foi nossa estagiária este ano e disse:
  169. "O meu único objectivo
    é chegar até à Oprah."
  170. Ela fez 2000 pessoas saírem à rua
    no Sábado mas choveu.
  171. Ela ficou aqui à chuva com 50 pessoas.
  172. Quando ouviram dizer que ela
    estava aqui, apareceram centenas.
  173. Estão aqui pessoas do México,
    da Austrália...
  174. A Natalie tem 18 anos.
  175. Não pensem que são muito jovens.
  176. Podem mudar o mundo em qualquer dia.
  177. Comecem já. Comecem hoje.
  178. (Aplausos)

  179. Valeu a pena?

  180. Sim!

  181. Natalie! Natalie! Natalie!

  182. Natalie! Natalie! Natalie!

  183. Juntos somos livres!
    Juntos somos livres!

  184. (Fim do vídeo)
  185. (Aplausos)

  186. Vocês podem pensar que este
    é o momento da minha vida,

  187. aquele auge que me fez extraordinária.
  188. Foi um momento fantástico.
  189. Quer dizer, eu estava no topo do mundo.
  190. Dez milhões de pessoas
    assistiram ao "Oprah Winfrey Show".
  191. Mas olhando para trás, não foi.
  192. Não me interpretem mal.
    Foi um momento incrível.
  193. Deu uma foto de perfil fantástica
    no Facebook, durante uma semana.
  194. (Risos)

  195. Mas eu fui extraordinária o tempo todo

  196. e não estava sozinha.
  197. Apesar de a minha história
    ter sido destacada neste filme,

  198. eu era só uma de centenas de estagiários
  199. que trabalharam arduamente
    para fazer isto acontecer.
  200. Eu estou no ar mas o homem
    que me leva aos ombros,
  201. é o meu melhor amigo.
  202. O nome dele é Johannes Oberman
  203. e o Johannes trabalhou comigo
    desde o início, em Chicago.
  204. As mesmas longas horas,
    as mesmas noites mal dormidas que eu.
  205. A rapariga à direita
    chama-se Bethany Bylsma.
  206. A Bethany planeou Nova Iorque e Boston,
  207. e eles foram os eventos
    mais lindos que realizámos.
  208. A rapariga à esquerda é a Colleen.
  209. A Colleen mudou-se para o México.
  210. Mudou-se, durante três meses,
  211. para planear os cinco eventos de lá.
  212. Foi expulsa um dia antes dos eventos,
  213. por causa da gripe suína.
  214. E depois, havia esta família.
  215. Esta família não pôde assistir ao resgate.
  216. Não conseguiram sair
  217. mas pediram cem caixas
    de "pizza" para nós,
  218. entregaram-nas na esquina,
    entre a Michigan e a Randolph,
  219. onde nós estávamos,
    num protesto silencioso.
  220. Foram pessoas como estas
    que fizeram o que podiam,
  221. simultaneamente, obstinadamente,
  222. sem se importarem com quem estava a olhar,
  223. que tornaram isto possível.
  224. Não foi só chegarmos à Oprah
  225. porque, quando desci dos ombros deles,
  226. a guerra não tinha acabado.
  227. Era sobre aquele projecto.
  228. A Oprah foi apenas um ponto
    de passagem, para o projecto.
  229. Aquele projecto era o ponto final.
  230. Era o nosso foco desde o primeiro dia.
  231. Aquilo ia ajudar-nos a terminar
    a guerra mais longa da África.
  232. E foi aquilo que trouxe cem mil pessoas,
  233. de todo o mundo, até ao evento de resgate.
  234. E valeu a pena.

  235. Dez dias depois de termos
    estado no programa da Oprah,
  236. o projecto foi apresentado no Congresso.
  237. Um ano depois, reuniu, unanimemente
  238. 267 co-patrocinadores no Congresso.
  239. E uma semana depois,
  240. o Presidente Obama assinou a lei.
  241. (Aplausos)

  242. Nenhum de nós,
    os estagiários, pôde estar lá.

  243. Não pudemos estar lá nesse momento.
  244. Os nossos fundadores estavam.
  245. Eles são os sorridentes, ao fundo.
  246. Mas, aquele momento foi
    o que fez tudo valer a pena.
  247. Foi aquilo por que cem mil
    extraordinários anónimos
  248. trabalharam duramente para conquistar.
  249. Vocês sabem, os momentos Oprah

  250. provam que o suposto
    impossível pode ser feito.
  251. Eles inspiram.nos,
    aumentam a nossa confiança.
  252. Mas o momento não é um movimento.
  253. Mesmo muitos dos momentos,
    juntos, não alimentam um movimento.
  254. O que alimenta um movimento são
    os anónimos extraordinários por trás dele.
  255. Para mim, o que me fez
    persistir durante o resgate,

  256. foi pensar naquelas crianças-soldados.
  257. Tornou-se pessoal. Eu tive a hipótese
    de ir a África, a certa altura.
  258. Conheci pessoas incríveis.
  259. Tenho amigos que têm vivido
    neste conflito a vida inteira,
  260. e. para mim, era pessoal.
  261. Mas não tem que ser isso que vos motiva.

  262. Talvez vocês queiram ser
    o próximo Shepard Fairey,
  263. ou a próxima J. K. Rowling,
  264. ou o próximo quem quer que seja.
  265. Não importa, mas o que quer
    que seja que vocês queiram,
  266. persigam com tudo o que têm.
  267. Não pela fama ou pela fortuna,
  268. mas unicamente porque é
    aquilo em que acreditam,
  269. porque é aquilo que faz
    cantar o vosso coração.
  270. Esta é a vossa dança!
  271. Isto é o que vai definir a nossa geração,

  272. quando começamos a perseguir
    e a lutar pelas coisas que amamos
  273. e pelas quais queremos lutar.
  274. Eu importava-me demais com
    o que pensavam de mim na escola.

  275. É isso que é tão incrível
    nesta conferência.
  276. Tantos de vocês são tão jovens!
  277. Encontrem aquilo que vos inspira,
    que amam e simplesmente persigam-no.
  278. Lutem por isso,
  279. porque é isso que vai mudar este mundo,
  280. e é isso que nos define.
  281. Apesar do que os outros pensam,

  282. os meus momentos Oprah,
    eu estar aqui no TED, não me definem.
  283. Porque, se regressassem
    comigo a casa, em Los Angeles,
  284. ver-me-iam a servir mesas e a cuidar
    de crianças para pagar as contas,
  285. enquanto persisto no meu sonho
    de me tornar cineasta.
  286. Nos actos pequenos, anónimos,
    monótonos e diários,
  287. eu tenho de me lembrar
    de ser extraordinária.
  288. E acreditem em mim, quando as portas
    se fecham e as câmaras se desligam,
  289. é duro.
  290. Mas, se há uma coisa que quero
    passar-vos, uma coisa que posso dizer,
  291. não só a vocês mas a mim própria,
  292. é que são os actos que
    nos fazem extraordinários,
  293. não são os momentos Oprah.