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← Um jogo que nos ajuda a entender a solidão

Entrem no jogo visualmente incrível "Sea of Solitude" da artista Cornelia Geppert, um videojogo que explora como a luta contra os "monstros" da solidão e da dúvida pode ajudar-nos a lidar melhor com a complexidade da saúde mental.

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30 Languages

Showing Revision 16 created 01/22/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Já se sentiram sozinhos?
  2. Uma ânsia de se interligar com pessoas,
  3. mas parece não haver ninguém
    com quem queiram comunicar?
  4. Ou, numa sexta-feira à noite,
    queiram estar com outras pessoas,
  5. mas não têm energia para saírem
    e ficam em casa a noite inteira
  6. a ver o Netflix
  7. e a sentirem-se
    mais sozinhos do que nunca?
  8. Sentem-se como um monstro
  9. no meio de seres humanos
    que sabem como fazer as coisas.
  10. A solidão, para mim, era assim.
  11. Eu sou artista

  12. e processo o meu mundo de emoções
    partilhando os meus sentimentos pela arte.
  13. Se partilharmos os sentimentos com alguém
  14. e elas entendem e também
    partilham os sentimentos delas,
  15. criamos uma ligação emocional e profunda.
  16. É por isso que podemos estar
    rodeados por centenas de pessoas,
  17. saltamos de uma pessoa para outra,
  18. mas continuamos a sentir-nos sozinhos.
  19. É porque não conseguimos fazer
    essas ligações mais profundas.
  20. Eu era uma criança sempre feliz.

  21. Acho que não há nenhuma foto minha
  22. sem um grande sorriso,
    a rir ou a brincar.
  23. E continuou assim até...
  24. Bem, ainda sou assim.
  25. Mas tinha muitos grupos de amigos
  26. até que, quando jovem,
    mudei para outra cidade
  27. para trabalhar como cartunista.
  28. Como a maioria das pessoas jovens
    e bem-sucedidas do planeta,
  29. concentrei todas as energias
    no meu trabalho.
  30. Mas, se gastarmos 90%
    da nossa capacidade diária
  31. tentando ter sucesso no trabalho,
  32. claro que não vai sobrar nada
  33. para cuidarmos de outros aspetos
    importantes da nossa vida,
  34. como as relações humanas.
  35. Alimentar amizades na vida adulta
    dá trabalho.
  36. Precisamos de contactar regularmente.
  37. Precisamos de ser abertos e honestos.
  38. E foi com isso que me debati,
  39. porque tendo a camuflar
    os meus sentimentos,
  40. tentando parecer estar sempre feliz
  41. e também fazer os outros felizes,
  42. tentando resolver os problemas deles.
  43. Sei que muitos de nós fazem o mesmo,
  44. porque é a forma mais fácil
    de não pensar nos nossos problemas.
  45. Não é?
  46. Hum? Hum? Hum?
  47. (Risos)

  48. Ok.

  49. O meu ponto de viragem

  50. foi quando tive uma relação
    emocional abusiva
  51. há uns anos.
  52. Ele isolou-me
  53. e deixou-me mais solitária que nunca.
  54. Eu estava no fundo do poço,
  55. mas isso também
    foi o que me fez acordar,
  56. porque foi a primeira vez
  57. que realmente senti a solidão.
  58. Muitas pessoas exprimem
    os seus sentimentos pela arte.

  59. Há uma infinidade de livros,
    filmes, pinturas, músicas,
  60. impregnadas com as emoções de um artista.
  61. Então, como artista, eu fiz o mesmo.
  62. Partilhei os meus sentimentos.
  63. Eu queria ajudar as pessoas
    a lidar com a solidão.
  64. Eu queria que elas a entendessem,
  65. que a experimentassem,
    a partir da minha arte,
  66. na forma de uma história interativa,
  67. de um videojogo.
  68. Então, no nosso jogo

  69. — a que chamámos "Sea of Solitude" —
  70. somos uma personagem chamada Kay
  71. que sofre de uma solidão tão profunda
  72. que os seus sentimentos interiores

  73. — a raiva,
  74. a falta de esperança, de inutilidade —
  75. se viram para o exterior
  76. e ela transforma-se num monstro.
  77. O jogo — ou melhor, a Kay —
  78. é uma representação da minha pessoa
  79. e do caminho que percorri
    para superar as minhas lutas.
  80. Na verdade, o jogo acontece
    na mente da Kay
  81. ou seja, estamos num mundo
    inundado pelas lágrimas dela,
  82. e o tempo transforma-se
    consoante o humor dela,
  83. conforme o humor dela muda.
  84. A única coisa que Kay transporta,
  85. a única coisa,
  86. é uma mochila.
  87. É a bagagem que todos nós transportamos
    durante a nossa vida.
  88. Como Kay não sabe lidar corretamente
    com as suas emoções,
  89. a mochila vai aumentando cada vez mais,
  90. até que explode
  91. e ela acaba por ser forçada
    a superar os seus conflitos.
  92. Na nossa história, apresentamos
    muitas formas diferentes de solidão.

  93. A solidão causada pela exclusão social
    é muito comum.
  94. No jogo, o irmão da Kay
    sofre "bullying" na escola
  95. e só quer esconder-se e desaparecer.
  96. Retratámo-lo como um enorme pássaro,
    um monstro cercado por uma névoa espessa.
  97. O jogador precisa de passar
    pela escola dele
  98. e sentir na pele o s abusos
  99. que o irmão sofreu,
  100. porque, durante muito tempo,
    ninguém lhe dava ouvidos.
  101. Mas no momento em que
    a família e os amigos começam a ouvir,
  102. dá-se o primeiro passo
    para superar esta forma de solidão.
  103. Também mostramos a solidão nas relações,

  104. quando os pais ficam juntos
    por causa dos filhos,
  105. mas acabam magoando a família inteira.
  106. Colocamos o jogador entre os dois pais
    enquanto eles estão a discutir
  107. e ele acaba por ser magoado.
  108. Eles não são capazes de ver
    que a filha, a Kay está ali
  109. senão quando ela se vai abaixo.
  110. Também mostramos a solidão
    através das doenças mentais,

  111. com o namorado de Kay
    que sofre de depressão
  112. e mostra que, às vezes,
  113. é mais importante concentrar-se
    primeiro no seu próprio bem-estar.
  114. O namorado também tende
    a camuflar os seus sentimentos,
  115. e, por isso, é representado
    por um solitário lobo branco.
  116. Mas quando ele começa
    a interagir com a namorada, Kay,
  117. a sua máscara cai,
  118. e vemos o cão preto por detrás dela:
  119. a depressão.
  120. Às vezes, esboçamos um sorriso

  121. em vez de lidar com
    os problemas presentes.
  122. e isso pode piorar tudo,
  123. afetando as pessoas à nossa volta
  124. e estragando as nossas relações.
  125. Então, retratamos Kay

  126. dilacerada pelas suas emoções básicas.
  127. Há quem nos ajude,
  128. há quem tente deter-nos.
  129. A Dúvida é um monstro gigante,
  130. sempre a dizer a Kay quão inútil ela é
  131. e que ela deve desistir.
  132. Como na vida real,
  133. a Dúvida boqueia o caminho
  134. e parece impossível superá-la.
  135. Destruir a omnipresença da
    Dúvida é um processo lento.
  136. Mas, no jogo, podemos reduzi-la,
    pouco a pouco,
  137. Até ela deixar de ser a Dúvida
  138. e passar a ser uma dúvida saudável.
  139. Finalmente podemos
    confiar nos conselhos dela.
  140. Também mostramos a Autodestruição.
  141. É um monstro assustador
  142. sempre à espreita, por perto,
    sob a superfície da água.
  143. A Autodestruição é
    a principal adversária do jogo
  144. e está sempre a tentar
    afogar-nos no oceano de lágrimas.
  145. Mas, quando consegue afogar-nos,
  146. despertamos, uns momentos antes,
  147. e temos a hipótese de recomeçar.
  148. Queríamos mostrar
  149. que todos nós passamos
    por momentos difíceis.
  150. Mas se, pelo menos, nos levantarmos
    e tentarmos seguir em frente,
  151. é bem provável que o consigamos
    pelo nosso próprio esforço,
  152. um passo de cada vez.
  153. A Felicidade é uma coisa
    que Kay não consegue sentir nem tocar.

  154. Está sempre fora de alcance.
  155. A Felicidade é como
    uma versão infantil de Kay
  156. com um impermeável amarelo.
  157. É invulnerável ao oceano de lágrimas.
  158. Mas a Felicidade pode tornar-se
    uma obsessão
  159. e tornar-se perigosa para Kay,
  160. como quando começa a ficar
    obcecada com o namorado.
  161. A Felicidade só volta ao normal
    quando Kay percebe
  162. que a sua felicidade não deve
    depender de ninguém
  163. a não ser dela.
  164. Os nossos monstros parecem
    enormes e assustadores

  165. mas se superarmos a nossa relutância
    e nos aproximarmos deles,
  166. veremos que não são monstros de verdade
  167. mas almas frágeis sobrecarregadas
    pela carga que a vida lhes impôs.
  168. E todas essas emoções,

  169. seja a dúvida ou a autodestruição,
  170. não desaparecem totalmente do jogo,
  171. A mensagem central é
    não apenas perseguir a felicidade
  172. mas aceitar todas as emoções
  173. a levá-las ao ponto do equilíbrio,
  174. sentir-se bem com o facto
    de nem sempre estar bem.
  175. Todos têm a sua história de solidão.

  176. Essa perceção mudou tudo para mim.
  177. Ser mais aberta com as minhas emoções
  178. e prestar mais atenção
    à minha vida pessoal,
  179. aos meus amigos, à minha família.
  180. Quando lançámos este jogo,
  181. milhares de fãs escreveram-nos
  182. partilhando as suas histórias
  183. e dizendo que já não se sentiam
    tão sozinhos,
  184. só por terem jogado o nosso jogo.
  185. Muitos disseram que sentiram
    esperança de um futuro melhor,
  186. pela primeira vez em décadas.
  187. Muitos disseram que estão
    a procurar terapia,
  188. só por terem jogado o nosso jogo
  189. e esperam superar os seus conflitos.
  190. O nosso jogo não é uma terapia.
  191. Não foi feito para ser uma terapia.
  192. É apenas eu e os meus amigos
    a partilhar as nossas histórias
  193. através da nossa arte, de videojogos.
  194. Mas sentimo-nos profundamente gratos
    por cada mensagem
  195. daqueles que se sentem melhor
  196. apenas porque partilhámos
    as nossas histórias com eles.
  197. Então...

  198. eu ainda não superei totalmente
    a minha necessidade de ajudar os outros.
  199. Mas já não a quero superar.
  200. Eu adoro-a.
  201. Só preciso de reduzi-la
    a uma dimensão saudável,
  202. para não atrapalhar
    as minhas relações mais profundas,
  203. mas ajudar-me a relacionar-me
    com as pessoas.
  204. Por isso, caso tenham um monstro interior,

  205. nascido das emoções negativas,
  206. a única saída não é matar esse monstro,
  207. mas entender que nós humanos
    somos seres complexos.
  208. Procurem qual a parte da vossa vida
    que se sobrepõe às demais.
  209. Procurem quais as emoções
    que quase não sentem
  210. ou talvez sentem demais
  211. e comecem a diminuir esses picos.
  212. Sobretudo, trata-se de entender
  213. que a vasta gama de emoções e lutas
  214. é o que faz de nós o que somos:
  215. seres humanos.
  216. Obrigada.

  217. (Aplausos)