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← Histórias por trás do encarceramento em massa

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Showing Revision 26 created 06/09/2018 by Maricene Crus.

  1. Eu nunca fui presa,
  2. nunca passei uma noite na prisão,
  3. nunca tive um ente querido
    jogado num camburão
  4. ou atrás das grades,
  5. nem fiquei à mercê de um sistema
    assustador e confuso
  6. que na melhor das hipóteses
    vê essas pessoas com indiferença,
  7. e na pior, como um monstro.
  8. Os Estados Unidos prendem mais pessoas
    que qualquer outra nação no planeta,
  9. e Luisiana é nosso maior encarcerador.
  10. A maioria de vocês, provavelmente,
    seja como eu, tem sorte.
  11. O mais perto que chegamos do crime
    e punição, talvez seja o que vemos na TV.
  12. Enquanto fazia "Unpriosoned",
  13. conheci uma mulher
    que costumava ser como nós,
  14. Sheila Phipps.
  15. (Gravação) Sheila Phipps:
    Antes do meu filho ser preso,

  16. eu costumava ver as pessoas na TV,
  17. lutando, dizendo: "Oh, essa pessoa
    não fez isso, ela é inocente".
  18. E você acaba deixando pra lá,
    os desconsideramos e tipo "tanto faz".
  19. Não me leve a mal, muita gente
    merece estar na prisão.
  20. Há muitos criminosos por aqui.
  21. Mas, há muitas pessoas inocentes presas.
  22. Eve Abrams: O filho de Sheila,
    McKinley, é um desses inocentes.
  23. Ele cumpriu 17 anos de uma pena
    de 30 anos por homicídio culposo.

  24. Ele não tinha condenações anteriores,
    não havia evidência forense no caso.
  25. Ele foi condenado com base
    apenas em um testemunho ocular,
  26. mas décadas de pesquisa
    mostraram que testemunho ocular
  27. não é tão confiável
    como pensávamos que fosse.
  28. Os cientistas dizem
    que a memória não é precisa.
  29. Parece-se menos com assistir um vídeo,
  30. e mais com montar um quebra-cabeças.
  31. Desde 1989, quando o teste de DNA
    foi usado por primeira vez
  32. para libertar gente inocente,
  33. mais de 70% das condenações revertidas
  34. foram baseadas no testemunho ocular.
  35. Ano passado,
  36. o promotor de justiça, cujo escritório
    processou o caso de McKinley,
  37. foi condenado por acusações
    de corrupção não relacionadas.
  38. Quando este promotor
    há 30 anos no cargo saiu,
  39. as testemunhas oculares
    do caso McKinley se apresentaram
  40. e disseram terem sido pressionadas
    pelos promotores a testemunhar,
  41. pressão que incluiu ameaça de prisão.
  42. Apesar disso, McKinley ainda está preso.
  43. (Gravação) SP: Antes disso acontecer,
    eu nunca teria pensado nisso.
  44. Bem, é difícil imaginar
    que essas coisas aconteçam,

  45. até que aconteceu com o meu filho.
  46. Isso abriu os meus olhos,
  47. realmente abriu meus olhos,
    eu não vou mentir para você.
  48. Estimativas de quantas pessoas inocentes
    estão trancafiadas vão de 1 a 4%,
  49. o que pode não parecer muito,
    só que isso representa 87 mil pessoas:

  50. mães, pais, filhos, presos
    muitas vezes, por décadas,
  51. por crimes que eles não cometeram.
  52. E isso sem contar cerca de 500 mil
    pessoas condenadas por nada.
  53. Aqueles presumidamente inocentes,
    mas pobres demais para pagar fiança,
  54. e por isso ficam atrás das grades
    por semanas e até meses,
  55. esperando pelo julgamento de seus casos
  56. ou, mais provável ainda,
    esperando apelar para sair.
  57. Todas essas pessoas
    têm família do lado de fora.
  58. (Gravação) Kortney Williams: Meu irmão
    não foi a minha formatura do ensino médio
  59. porque foi preso na noite anterior.
  60. Ele faltou ao jantar do meu aniversário,
  61. porque nesse dia mesmo, ele foi preso.
  62. Meu irmão faltou ao seu próprio
    jantar de aniversário
  63. porque estava no lugar errado,
    na hora errada.

  64. (Gravação) EA: Então, todas
    essas vezes ele foi processado
  65. ou ele simplesmente
    foi levado para a cadeia?
  66. KW: Ele foi processado
    e haveria uma fiança paga,
  67. daí as acusações seriam desconsideradas,
    pois não havia provas.
  68. EA: Eu conheci a Kortney Williams
    na sala de aula da faculdade

  69. para falar do projeto "Unprisioned".

  70. Ela acabou entrevistando a tia dela,
    Troylynn Robertson, para um episódio.
  71. (Gravação) KW: Com tudo
    o que você passou com seus filhos,

  72. que conselho me daria
    se eu tivesse filhos?
  73. (Gravação) Troylynn Roberston:
    Eu diria que, quando os temos,

  74. a primeira coisa que pensamos é o amor,
  75. e a proteção.
  76. Mas eu diria a você
  77. que mesmo com a grande proteção
    para criá-los com conhecimento

  78. do sistema judicial...
  79. Sempre falamos a eles sobre o bicho-papão,
  80. as pessoas más,
    com quem devem ter cuidado,
  81. mas não lhes ensinamos
    como ter cuidado com o sistema judiciário.
  82. EA: Pelo modo que o nosso
    sistema legal criminal
  83. discrimina pessoas de cor
    de modo desproporcional,
  84. é comum que jovens
    como a Kortney saibam sobre isso.
  85. Quando comecei a frequentar as escolas
    secundárias pra falar sobre "Unprisioned",

  86. descobri que aproximadamente
    um terço dos jovens
  87. tinha um ente querido atrás das grades.
  88. (Gravação) Garota: O mais difícil
    é descobrir onde ele está,
  89. ou a data do julgamento dele.
  90. Moça: Ele foi preso
    no meu primeiro aniversário.
  91. Moça: Meu pai trabalha como guarda.
    Ele viu o meu tio na cadeia.

  92. Ele pegou prisão perpétua.

  93. EA: Segundo a Fundação Annie E. Casey,

  94. o número de jovens com um pai encarcerado
  95. subiu 500% entre os anos 1980 e 2000.
  96. Mais de 5 milhões das crianças hoje

  97. verão o pai ou a mãe encarcerados
    em algum momento de sua infância.
  98. Esse número afeta de modo desproporcional
    as crianças afro-americanas.
  99. Quando atingirem os 14 anos de idade,
  100. uma em cada quatro crianças negras
    verá seu pai ir para a prisão.
  101. Para crianças brancas,
    a taxa é de uma para cada 30.
  102. Um fator-chave que determina o sucesso
    do futuro dos presos e seus filhos,
  103. é se podem manter laços durante a prisão.
  104. Mas ligações de prisioneiros pra casa
  105. podem custar de 20 a 30 vezes mais
    que as ligações normais,
  106. então, muitos familiares se comunicam
    por meio de cartas.
  107. (Gravação: carta sendo aberta)
  108. Anissa Christmas: "Querido irmãozão,
    esse ano completo os famosos 16 anos, LOL.
  109. Acho que não sou mais bebê.

  110. Você me leva pra formatura ainda?
    Sinto muitas saudades.
  111. Você é o único cara
    que se mantém na real comigo.
  112. Queria que estivesse aqui,
    pra desabafar com você.
  113. Muita coisa aconteceu,
    desde a última vez que te vi.
  114. (Voz cortada) Tenho boas notícias:
  115. ganhei o primeiro lugar
    na feira de ciências, sou uma geek.
  116. Vamos para as competições regionais,
    dá pra acreditar nisso?
  117. O ensino médio está indo super-rápido.
  118. Em menos de dois anos espero
    que possa me ver atravessando o palco.
  119. Pensei em te escrever
    porque sei como é chato aí dentro.
  120. Quero por um sorriso no teu rosto."
  121. EA: Anissa escreveu
    estas cartas pro irmão,
  122. quando estava no segundo ano
    do ensino médio.
  123. Ela guarda as cartas dele atrás
    na moldura do espelho do quarto

  124. e as lê repetidamente.
  125. Gostaria de pensar que há uma boa razão
    para que o irmão de Anissa esteja preso.
  126. Todos desejamos que as rodas
    da justiça girem perfeitamente,
  127. mas estamos nos dando conta
  128. que os elevados ideais que aprendemos
    na escola parecem ser bem diferentes
  129. nas prisões, cadeias
    e tribunais da nossa nação.
  130. (Gravação) Danny Engelberg:
    Você entra no tribunal e...
  131. faço isso já há um bom tempo
    e ainda me tira o fôlego.
  132. Você diz: "Há tantas pessoas de cor aqui!"
  133. Mesmo assim eu sei que a cidade
    não é feita de 90% de afro-americanos,
  134. então por que 90% das pessoas
    vestindo laranja, são afro-americanas?

  135. (Gravação) EA: O defensor público
    Danny Engelberg não foi o único a notar
  136. quantos negros estão
    no tribunal municipal,
  137. ou qualquer outro tribunal;
    difícil não notar!
  138. Quem está na corte pra ver o juiz?
    Qual é a aparência dessa pessoa?
  139. (Gravação)Homem: A maioria
    é de afro-americanos como eu.

  140. A maioria, eu diria, 85% negros.
  141. É tudo o que vemos vestidos de laranja,
    no cubículo lá trás, algemados.
  142. Homem: Quem está esperando?
    Negros, na maioria.

  143. Havia alguns brancos lá.
  144. Mulher: Acho que quase 85% eram
    africo-americanos sentados lá.

  145. EA: Como um jovem negro crescendo
    hoje nos EUA entende a justiça?

  146. Outra história de "Unprisoned"
    era sobre uma trupe de dançarinos,
  147. que coreografou a peça "Hoods Up",
    apresentada em frente à câmara municipal.
  148. Dawonta White estava no sétimo ano
    quando se apresentou.

  149. (Gravação) Dawonta White: Vestíamos
    moletons preto com capuz,

  150. porque Trayvon Martin estava usando
    moleton com capuz quando foi assassinado.
  151. Então vimos isso e dissemos: "Vamos usar
    moletons como o Trayvon Martin.
  152. (Gravação) EA: Quem teve a ideia?
    DW: O grupo, todos concordaram.
  153. Estava um pouco nervoso,
    mas eu tinha topado.

  154. Senti que era uma coisa boa,
    para perceberem o que fazemos.
  155. (Gravação) EA: Shraivell Brown foi outro
    coreógrafo e dançarino em "Hoods Up".
  156. Ele diz que a polícia critica
    pessoas que se parecem com ele.
  157. Ele se sente julgado por coisas que outras
    pessoas negras possam ter feito.
  158. EA: Como gostaria que a polícia te visse?
    O queria que pensassem?

  159. SB: Que não sou uma ameaça.

  160. EA: Por que pensariam isso?
    Você disse que tem 14 anos?
  161. SB: Sim, tenho 14, mas como eles dizem,
    muitos homens negros,

  162. são bandidos e gangsteres e tudo mais,
  163. mas não quero que pensem isso de mim.
  164. EA: Para pessoas com a minha aparência,
  165. o mais fácil e confortável
    é não prestar atenção.
  166. Assumir que nosso sistema
    legal criminal funciona.

  167. Mas se não é nossa responsabilidade

  168. questionar essas suposições, de quem é?
  169. Há uma sinagoga aqui que aprendeu
    sobre o encarceramento em massa,
  170. e muitos fiéis concluíram que,

  171. como o encarceramento joga
    tantas vidas no caos,
  172. na verdade isso resulta em mais crimes,
    tornando as pessoas menos seguras.
  173. A congregante Teri Hunter disse
    que o primeiro passo para a ação

  174. tem que ser o entendimento.
  175. Ela disse ser crucial para todos nós
  176. entender nossas conexões
    com esse problema,
  177. mesmo que não seja óbvio de imediato.
  178. (Gravação) Teri Hunter:
    É nossa responsabilidade
  179. garantir que não estamos simplesmente
    fechando a porta e dizendo:
  180. "Bem, não somos nós".
  181. E acho que, como judeus, já vivemos
    essa história: "Não somos nós".
  182. Então, se uma sociedade
    dá as costas a uma parcela dela,
  183. vimos o que acontece.
  184. É nossa responsabilidade como judeus
  185. e como membros da comunidade,

  186. educar nossa comunidade,
    ao menos nossa congregação,
  187. o máximo possível.

  188. Tenho usado "nós" porque esse
    é o nosso sistema legal criminal,
  189. e são nossas crianças.
  190. Nós elegemos os promotores de justiça,
  191. os juízes e os legisladores,
    que operam o sistema para nós, o povo.
  192. Como sociedade estamos
    mais dispostos a arriscar,
  193. a prender pessoas inocentes,
    do que deixar livres os culpados.
  194. Elegemos políticos que temem
    ser chamados de "morosos contra o crime",
  195. encorajando-os a aprovar legislação severa

  196. e a alocar enormes recursos
    para prender pessoas.
  197. Quando um crime é cometido,
  198. nossa gana por retaliação imediata
    tem alimentado uma cultura policial
  199. inclinada a encontrar logo os culpados,
  200. frequentemente sem recursos adequados
  201. para conduzir investigações exaustivas
    ou controlá-las rigorosamente.
  202. Nós não checamos os promotores.
  203. Em todo o país, nas últimas décadas,
  204. com a queda de crimes violentos
    e contra a propriedade,
  205. o número de promotores empregados
    e casos apresentados subiram.
  206. Promotores decidem se devem
    ou não tomar medidas legais
  207. contra as pessoas que policiais prendem,
  208. e decidem o que arquivar,
  209. com impacto direto no tempo que o réu
    ficará atrás das grades.
  210. Sobre promotores,
    verificamos sempre a defesa.

  211. Imagine Deusa Iustitia:
  212. a mulher vendada segurando a balança,
  213. simbolizando o equilíbrio
    de nosso sistema judiciário.
  214. Infelizmente a balança está inclinada.
  215. Em nosso país, a maioria dos réus
  216. é representada por advogados
    nomeados pelo governo.
  217. Esses defensores públicos recebem
  218. quase 30% menos de recursos
    que os distritais,
  219. e eles constantemente têm casos
    que superam de longe
  220. o número recomendado pela
    American Bar Association.
  221. Como disse Sheila Phipps:
  222. há pessoas que pertencem na prisão,
  223. mas é difícil diferenciar
    o culpado do inocente,
  224. quando o resultado de todos
    são tão parecidos.
  225. Todos queremos justiça,
  226. mas com processos pesando
    tão fortemente contra os réus,
  227. a justiça tarda a vir.

  228. Nosso sistema criminal legal
    opera para nós, o povo.
  229. Se não gostamos do que está aí,
    depende de nós mudá-lo.

  230. Muito obrigada.
  231. (Aplausos)