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← Como o som pode piratear a nossa memória enquanto dormimos

Podemos marrar para um teste enquanto dormimos? Os nossos intrépidos neurocientistas tentaram otimizar a memória através da realização de experiências com sujeitos experimentais, enquanto os mesmos dormiam. Os resultados vão surpreender-vos.

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Showing Revision 7 created 09/29/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Greg Gage: Quem não adoraria
    ter 20 num teste de geografia,
  2. lembrar-se de todas as localizações
    dos países num mapa
  3. ou evitar a embaraçosa situação
    de se esquecer de repente
  4. do nome da pessoa
    que tem à sua frente.
  5. Sucede que a memória,
    como outros músculos no corpo,
  6. pode ser fortalecida e otimizada.
  7. Mas em vez de praticar
    com cartões didáticos,
  8. pode haver uma forma interessante
  9. de piratear a memória
    enquanto dormimos.
  10. [Neurociência]

  11. Porque é que dormimos?

  12. Fazemos esta pergunta
    desde o início da civilização.
  13. E embora possamos não saber
    a resposta exata,
  14. há uma série de ótimas teorias
    sobre esta necessidade.
  15. É durante o sono que o cérebro
    transfere as memórias de curto prazo
  16. vividas durante o dia
  17. para as memórias de longo prazo.
  18. Chama-se a este processo
    consolidação da memória,
  19. e é a teoria homónima
    que tem feito os cientistas indagar
  20. se podemos otimizar
    certas memórias em vez de outras.
  21. Um artigo publicado recentemente
    na revista "Science",
  22. por Ken Paller e colegas em Northwestern
  23. parece demonstrar
    que isto pode ser verdade
  24. e isto deixou-nos curiosos.
  25. Joud desenvolveu
    uma sua versão deste teste
  26. para ver se é possível melhorar a memória
    através do uso do som durante o sono.
  27. Joud, como testa se é possível
    melhorar a memória com o sono?
  28. Joud Mar’i: É necessário
    um sujeito experimental humano.

  29. [Passo 1: Jogar um jogo]

  30. Temos um jogo de memória num iPad,
  31. pedimos ao nosso sujeito
    que jogue o jogo
  32. e que memorize as figuras
    e a parte do ecrã em que aparecem.
  33. GG: É como os jogos de memória
    que jogávamos em crianças,

  34. dizer onde estava o quê.
  35. E associamos cada figura
    ao som que a representa.
  36. JM: Se, por exemplo,
    virmos a imagem de um carro

  37. ouviremos o som do motor do carro.
  38. (Arranque de motor de carro)

  39. GG: Mesmo antes de ir dormir,
    vamos testá-lo.

  40. Vamos ver quão bem se lembra
    de onde estão as imagens.
  41. Sempre que vir a figura,
    ouvirá o som.
  42. E agora vem a experiência.
  43. Ele vai fazer uma sesta.
  44. [Passo 2: Fazer uma sesta]
  45. Enquanto dorme,
    registamos o seu EEG.
  46. JM: Depois, esperamos que entre
    no chamado sono de onda lenta,

  47. que é a fase mais profunda do sono,
    em que é muito difícil acordar.
  48. GG: OK, uma pausa.

  49. Eis umas informações sobre o sono.
  50. Há quatro fases:
    temos fases de sono mais leve e o REM,
  51. mas estamos interessados
    no chamado sono de onda lenta.
  52. Este recebe o seu nome
    dos sinais elétricos
  53. chamados ondas Delta,
    registados a partir do cérebro.
  54. É nesta parte do sono
    que os cientistas acham
  55. que se pode dar a consolidação da memória.
  56. Nesta fase profunda do sono,
  57. faremos algo que ele não sabe
    que vamos fazer.
  58. JM: É aqui que entra a parte complicada,
    em que reproduzimos os estímulos.

  59. (Arranque de motor de carro)

  60. GG: A Joud reproduz todos os estímulos?

  61. JM: Não. Só metade,
    para ver se há diferença.

  62. GG: Então, a sua hipótese é

  63. que o estímulo que ouviram
    enquanto dormiram
  64. é aquele em que se vão sair melhor.
  65. JM: Sim, exatamente.

  66. GG: Quando acordar
    e jogar o jogo outra vez,

  67. sair-se-á melhor ou pior
    do que antes de uma sesta?
  68. Concluímos que, ao reproduzir
    um estímulo durante o sono,
  69. por exemplo, um carro —
  70. lembrar-se-á da posição do carro
  71. quando voltar a acordar.
  72. Mas se o estímulo não for reproduzido
    enquanto dorme,
  73. por exemplo, uma guitarra —
  74. é menos provável que se lembre
    da guitarra quando acordar.
  75. Lembramo-nos melhor
    das memórias que foram estimuladas
  76. do que as que não foram,
  77. mesmo que não nos lembremos
    de ouvir os sons?
  78. JM: Sim, perguntámos-lhes.

  79. GG: Sabemos que estão a dormir,
    não ouvem nada, acordam,

  80. e saem-se melhor nestes
    do que nos não foram reproduzidos.
  81. - Isso é incrível.
    - É como magia.

  82. GG: Joud fez esta experiência
    com 12 pessoas

  83. e os resultados foram significativos.
  84. Não é só lembrar-nos melhor das coisas:
    esquecemo-nos menos delas.
  85. Fiquei cético ao saber que nos podíamos
    sair melhor num teste de memória
  86. só reproduzindo sons durante o sono.
  87. Mas replicámos estas experiências.
  88. Os factos e memórias que recolhemos
    durante o dia são muito frágeis.
  89. e são fáceis de perder e de esquecer.
  90. Mas, ao reativá-los durante o sono,
    mesmo sem estarmos conscientes,
  91. parece que podemos torná-los
    mais estáveis
  92. e menos suscetíveis ao esquecimento.
  93. Isto é mesmo incrível.
  94. O cérebro mantém-se ativo
    mesmo quando estamos inativos.
  95. Portanto, se é esquecido como eu,
  96. talvez a solução seja
    um par de auscultadores
  97. e um sofá confortável.