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← O que teme o CFM? Opinião de uma brasileira que cursa medicina em Cuba

Cintia Santos Cunha, é estudante da Universidad de Ciencias Médicas de la Habana (Cuba), fala de seu sonho de estudar medicina, da concepção humanitária da medicina cubana, e da importância que os cursinhos populares tiveram na sua vida.

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Showing Revision 1 created 09/05/2013 by Paula Góes.

  1. Eu já desde muito nova, eu queria fazer Medicina,
  2. acho que com 16 anos já queria fazer Medicina,
  3. só que Medicina é um curso que é impensável para as pessoas de onde eu venho,
  4. para pessoas como eu sou. Negra, mulher, pobre,
  5. no Capão Redondo ninguém sonhou em ser médico lá...
  6. Enfim, eu insisti que queria fazer Medicina,
  7. conheci uma amiga que já tinha feito Medicina em Cuba,
  8. ela me explicou como era o processo de fazer Medicina lá em Cuba,
  9. e eu me apaixonei, eu quis muito fazer Medicina em Cuba,
  10. já nem tentei fazer Medicina aqui, já quis diretamente fazer em Cuba,
  11. pelo caráter da Medicina cubana, que é mais humanitária.
  12. e essa era a formação que eu queria receber.
  13. A formação que eu recebi em Cuba é de que eu tenho que saber trabalhar
  14. com a maior tecnologia, com os meios diagnósticos de maior tecnologia,
  15. só que eu tenho que saber também trabalhar num meio de guerra,
  16. que como eles, nossos professores falavam,
  17. numa montanha onde não se conte com esses meios diagnósticos,
  18. e eles insistem bastante para a gente saber escutar, examinar o paciente,
  19. que é a parte da clínica médica,
  20. e que assim eu tenho que ter uma hipótese diagnóstica,
  21. que os exames, que lá em Cuba a gente chama de exames complementários,
  22. servem apenas para complementar o meu pensamento, o meu diagnostico médico,
  23. não me servem para diagnosticar.
  24. Qual a sua opinião sobre a crítica do Conselho Federal de Medicina à vinda de médicos estrangeiros ao Brasil? De que eles têm medo?
  25. Eu acho que o medo deles é vir um outro tipo de Medicina.
  26. Porque, o primeiro é ocupar vagas, que se estão desocupadas,
  27. dá poder para eles tanto manusear os salários, que ao contrário do que se falam
  28. nesses municípios onde não tem médico
  29. as prefeituras colocam o salário para o médico super alto
  30. mas mesmo assim eles não querem ir,
  31. E, o medo de que comece a mudar a mentalidade da população
  32. em relação ao que deve ser o médico,
  33. a como deve ser o tratamento médico,
  34. porque o que eu vejo tanto no atendimento que eu recebi aqui no Brasil,
  35. que minha família recebe no Brasil,
  36. é que o paciente chega no consultório médico,
  37. e o médico não olha para ele... o paciente diz o que está sentindo,
  38. e o médico sem olhar para a cara dele, muito menos tocar no paciente,
  39. dá alguma receita de medicamento ou manda fazer alguma análise diagnóstica,
  40. algum complementário, que não deveria ser mandado para o paciente,
  41. ou às vezes até poderia ser mandado,
  42. mas do qual o médico nem sabe porque está mandando.
  43. E a partir do momento que eu dou saúde para a população,
  44. ensino a essa população a cuidar da saúde,
  45. que é o papel fundamental que a gente aprende lá em Cuba,
  46. que a gente deve além de examinar, tocar o paciente, a gente deve ensinar
  47. ao paciente diabético, hipertenso, por exemplo, a cuidar da própria saúde.
  48. Ou seja, eu ensino o paciente a cuidar da própria saúde,
  49. a manter equilibrada a sua diabete, a sua hipertensão,
  50. ele não precisa mais voltar mais comigo.
  51. E isso não é interessante para quem faz da Medicina um comércio.
  52. Para quem chama o paciente, um enfermo, um doente, de cliente.
  53. Não de doente, não de enfermo.
  54. Eu acho que isso não é interessante, que o paciente não necessite mais da minha...
  55. que ele possa cuidar da própria saúde.
  56. Não necessite mais da figura médica para cuidar da sua saúde.
  57. E eu acho que o medo é esse na verdade.
  58. O medo é do preenchimento da vaga, da vaga que está em aberto,
  59. e medo de que comece a mudar o pensamento da população de forma geral,
  60. em relação à sua saúde.
  61. Você participa da UNEAFRO BRASIL. Qual a importância dos cursinhos populares para a juventude da periferia?
  62. A gente na periferia cresce escutando que o nosso futuro vai ser...
  63. a nossa possibilidade de vôo é muito baixa.
  64. Que a gente vai ser mãe,
  65. que a gente vai conseguir um sub-emprego para sub-existir
  66. E esse é o pensamento que gira na comunidade onde eu nasci.
  67. E o papel do cursinho foi de também,
  68. junto com o apoio que minha mãe me dava,
  69. o cursinho me abriu a mente para novas possibilidades
  70. de eu pensar "sim, é possível",
  71. "sim, eu tô vendo alguém aqui na frente que conseguiu",
  72. outras mulheres negras,
  73. e além do papel fundamental de você começar a enxergar a sua figura como bonita.
  74. Porque também, a outra coisa que acontece com a gente,
  75. a gente cresce escutando que só o que é branco, que o branco é bonito.
  76. Isso é massacrante para um ser humano,
  77. e para a mulher, nós mulheres negras somos bonitas,
  78. somos feitas para mais, ainda que a sociedade diga que não,
  79. somos feitas para muito mais, somos fortes.
  80. A nossa história diz que a gente é um povo forte,
  81. que resistiu a muitas coisas,
  82. e o momento histórico que a gente está vivendo agora
  83. ainda assim a conjuntura trata de nos massacrar,
  84. enquanto mulheres, enquanto negras, mas sim, somos bonitas, capazes,
  85. tão capazes quanto qualquer um.
  86. Sim meninas, busquem seus sonhos. Sonhem primeiro.
  87. Vamos sonhar e lutar por um Brasil melhor.