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← Porque é que as estatísticas são fascinantes: os números somos nós

Quanto sabemos, de verdade, sobre o local onde vivemos? Alan mostra-nos como os dados podem confundir as nossas expetativas. Pelo caminho, desmonta o mito que há dois tipos de pessoas: os que "fazem contas" e os que "não fazem".

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Showing Revision 5 created 09/28/2017 by Margarida Ferreira.

  1. No ano de 2003,
  2. o governo do Reino Unido
    realizou um estudo.
  3. Foi um estudo que media
    os níveis de aptidão numérica
  4. da população.
  5. Ficaram chocados ao descobrir
  6. que, por cada 100 adultos
    em idade ativa, no país,
  7. 47 não dispunham de aptidão
    numérica do Nível 1.
  8. A aptidão numérica de Nível 1
  9. — ou seja, a pontuação mais baixa
    a nível do secundário —
  10. é a capacidade de resolver frações,
    percentagens e decimais.
  11. Este número fez correr
    muita tinta em Whitehal.
  12. Mudaram-se as políticas,
  13. fizeram-se investimentos,
  14. e voltaram a fazer o estudo
    em 2011.
  15. Calculam o que aconteceu
    àquele número?
  16. Subiu para 49.
  17. (Risos)

  18. Quando eu relatei este número
    no Financial Times,

  19. um dos nossos leitores
    comentou, a gozar:
  20. "Este número só é chocante
    para 51% da população".
  21. (Risos)

  22. Mas eu prefiro a reação
    duma criança da escola

  23. quando apresentei
    esta informação na escola.
  24. Levantou a mão e disse:
  25. "Como é que sabem que a pessoa
    que apresentou esse número
  26. "não é uma dos 49%?"
  27. (Risos)

  28. Nitidamente, há um problema
    quanto às aptidões numéricas,

  29. porque são aptidões importantes
    para a vida.
  30. Muitas das mudanças que queremos
    introduzir, neste século,
  31. exigem que nos sintamos
    à vontade com os números.
  32. Mas não é apenas um problema dos ingleses.
  33. Este ano, a OCDE divulgou alguns números
  34. relacionados com
    a aptidão numérica em jovens.
  35. Os EUA vêm à cabeça,
  36. Quase 40% dos jovens, nos EUA,
    têm uma baixa aptidão numérica.
  37. A Inglaterra também lá figura
  38. mas há sete países da OCDE
    com números acima dos 20%.
  39. Isto é um problema,
    porque não tem que ser assim.
  40. Se olharmos para a ponta final
    deste gráfico,
  41. vemos que a Holanda e a Coreia
    apresentam números com um só dígito.
  42. Portanto, há realmente um problema
    de aptidão numérica que temos que abordar.
  43. Mas, por mais úteis
    que sejam estes estudos,

  44. penso que corremos
    inadvertidamente o risco
  45. de classificar as pessoas
    numa de duas categorias:
  46. que só haja dois tipos de pessoas,
  47. as pessoas que têm à vontade
    com números, que sabem fazer contas
  48. e as pessoas que não têm.
  49. O que quero dizer
    na palestra de hoje,
  50. é que acho que isso
    é uma falsa dicotomia.
  51. Não é uma divisão imutável.
  52. Penso que não precisamos de ter
    níveis de aptidão numérica muito altos
  53. para sermos inspirados pelos números.
  54. Isso deve ser o ponto de partida
    para o percurso à nossa frente.
  55. Para mim, uma das formas
    de podermos iniciar esse percurso

  56. é olhando para a estatística.
  57. Sou o primeiro a reconhecer
    que a estatística
  58. tem um problema de imagem.
  59. (Risos)

  60. É a parte da matemática

  61. de que nem os matemáticos
    gostam muito.
  62. porque, enquanto o resto da matemática
    é tudo precisão e certeza,
  63. a estatística é quase o inverso disso.
  64. Na verdade, sou um convertido tardio
    ao mundo da estatística.
  65. Se perguntassem
    aos meus professores da faculdade
  66. quais eram os dois temas
    em que eu dificilmente seria bom,
  67. quando saísse da universidade,
  68. eles teriam dito que eram
    a estatística e a programação informática.
  69. Contudo, aqui estou eu, prestes a mostrar
    uns gráficos estatísticos que programei.
  70. O que foi que inspirou a minha mudança?

  71. O que é que me fez pensar que a estatística
    era uma coisa interessante?
  72. É que, na verdade,
    a estatística somos nós.
  73. Se olharmos para a etimologia
    da palavra "estatística",
  74. é a ciência de lidar com informações
  75. sobre o estado ou a comunidade
    em que vivemos.
  76. Portanto, a estatística
    é sobre nós, enquanto grupo,
  77. não enquanto indivíduos.
  78. Penso que, enquanto animais sociais,
  79. partilhamos deste fascínio sobre como
    nos relacionamos com os nossos grupos,
  80. com os nossos pares.
  81. A estatística, desta forma,
    tem o seu maior poder
  82. quando nos surpreende.
  83. Há estudos muito interessantes
    realizados recentemente

  84. por Ipsos MORI, nos últimos anos.
  85. Têm feito coisas muito interessantes.
  86. Fizeram um estudo com
    mais de 100 adultos, no Reino Unido
  87. e perguntaram:
  88. "Em cada 100 pessoas,
    em Inglaterra e no País de Gales
  89. "quantas são muçulmanas?"
  90. A resposta média para este inquérito
  91. que, supostamente, era representativa
    da população total,
  92. foi de 24.
  93. Era o que as pessoas pensavam.
  94. A população britânica pensa
    que há 24% de muçulmanos no país.
  95. Ora bem, os números oficiais revelam
    que esse número é de cerca de cinco.
  96. Portanto, há uma grande diferença
    entre o que pensamos, a nossa perceção,
  97. e a realidade, dada pela estatística.
  98. Penso que é interessante.
  99. O que é que poderá causar
    este equívoco?
  100. Fiquei tão interessado neste estudo

  101. que comecei a levantar questões
    em palestras, referia-me a isso.
  102. Fiz uma palestra
  103. na Escola Feminina de St. Paul,
    em Hammersmith,
  104. onde tive uma audiência parecida com esta,
  105. só que era composta inteiramente
    por raparigas do secundário.
  106. E disse:
  107. "Sabem quantas adolescentes
    é que o público britânico julga
  108. "que ficam grávidas, todos os anos?"
  109. As raparigas ficaram apopléticas
    quando eu disse
  110. que o público britânico julga
    que há 15% de adolescentes
  111. que ficam grávidas, todos os anos.
  112. E tinham toda a razão para
    se zangarem,
  113. porque eu teria que chegar
    perto dos 200 pontos,
  114. antes de poder colorir um deles,
  115. segundo o que os números oficiais
    nos dizem.
  116. Tal como a aptidão numérica,
    isto não é um problema dos ingleses.

  117. A Ipsos MORI alargou o estudo
    nos últimos anos, pelo mundo fora.
  118. Perguntaram aos árabes sauditas:
  119. "Em cada 100 adultos, no vosso país,
  120. "quantos têm peso a mais ou são obesos?"
  121. A resposta média dos sauditas
    foi "mais de um quarto".
  122. Era o que eles pensavam.
  123. Mais de um quarto dos adultos
    têm peso a mais ou são obesos.
  124. Os números oficiais mostram
    que anda mais perto dos três quartos.
  125. (Risos)

  126. Mais uma vez, uma grande diferença.

  127. Adoro este: perguntaram, no Japão,
    perguntaram aos japoneses:

  128. "Por cada 100 japoneses,
  129. "quantos vivem em áreas rurais?"
  130. A média foi quase de 50-50,
    metade para cada lado.
  131. Pensavam que 56% dos japoneses
    viviam em áreas rurais.
  132. Mas o número oficial é de 7%.
  133. Diferenças extraordinárias,
    e surpreendentes para alguns,

  134. mas não eram surpreendentes
    para quem leu a obra de Daniel Kahneman,
  135. o economista que conquistou
    um Prémio Nobel.
  136. Ele e o seu colega, Amos Tversky,
    passaram anos a investigar este desajuste
  137. entre o que as pessoas julgam
    e a realidade,
  138. o facto de as pessoas serem muito pobres
    nas estatísticas intuitivas.
  139. Há muitas razões para isso.
  140. Claro, as experiências individuais
    podem influenciar as nossas perceções,
  141. mas o mesmo acontece quando os "media"
    noticiam coisas fora do comum
  142. em vez do que é normal.
  143. Kahneman disse isso
    de uma forma simpática:
  144. "Podemos ser cegos para o óbvio
  145. — assim, ficamos com números errados —
  146. "e também somos cegos à nossa cegueira".
  147. Isso tem enormes repercussões
    na tomada de decisões.
  148. No gabinete de estatística,
    enquanto tudo isto se passava,

  149. eu pensava que era tudo
    muito interessante.
  150. Pensava que era um problema global,
  151. mas talvez a geografia
    fosse aqui um óbice.
  152. Eram tudo perguntas sobre
    até que ponto conheciam bem o seu país.
  153. Neste caso, era até que ponto
    conheciam 64 milhões de pessoas.
  154. Acontece que nem por isso,
    era impossível.
  155. Então, tive uma ideia.
  156. Foi pensar nesse mesmo tipo de abordagem
  157. mas pensar nisso
    num sentido muito local.
  158. Isto é um local?
  159. Se refizermos a pergunta
    e dissermos:
  160. "Conhece bem a sua área local?"
  161. as respostas seriam mais rigorosas?
  162. Então, concebi um questionário:

  163. "Conhece bem a sua área?"
  164. É uma aplicação simples na Internet.
  165. Introduzem um código postal
  166. e depois ela faz perguntas
    com base no recenseamento
  167. da vossa área local.
  168. Fui muito consciencioso
    ao fazer isto.
  169. Queria fazê-lo aberto
    à maior gama possível de pessoas,
  170. não apenas aos 49%
    que sabem lidar com números.
  171. Queria que toda a gente
    se envolvesse naquilo.
  172. Para a conceção do questionário,
  173. inspirei-me nos isótopos
  174. de Otto Neurath, dos anos 20 e 30.
  175. São métodos de representar números
  176. usando ícones que se repetem.
  177. Os números estão lá,
    mas escondidos nos bastidores.
  178. É uma ótima forma
    de representar quantidades
  179. sem recorrer ao uso de termos
    como "percentagem",
  180. "frações" e "rácios".
  181. O questionário é este.

  182. A disposição do questionário é esta.
  183. Temos os ícones que se repetem
    do lado esquerdo
  184. e um mapa que nos mostra a área
    a que as perguntas se referem,
  185. do lado direito.
  186. Há sete perguntas.
  187. Para cada pergunta,
    há uma resposta possível,
  188. entre zero e cem.
  189. No final do questionário
  190. recebem uma pontuação geral,
    entre zero e cem.
  191. Como estamos no TEDxExeter,
  192. podíamos dar uma vista de olhos
    ao questionário
  193. para as primeiras perguntas de Exeter.
  194. A primeira pergunta é:
  195. "Por cada 100 pessoas,
    quantas têm menos de 16 anos?"
  196. Eu não conheço Exeter nada bem,
    por isso aqui tenho que inventar,
  197. mas isto dá-vos uma ideia
    de como funciona o questionário.
  198. Fazem deslizar o cursor
    para iluminar os ícones
  199. e depois clicam em "Aplicar"
    para responder,
  200. e nós eliminamos a diferença
    entre a resposta e a realidade.
  201. Acontece que o meu palpite
    foi horrível: cinco.
  202. Vamos ver a pergunta seguinte.

  203. Pergunta qual é a idade mediana,
  204. i.e., a idade em que
    metade da população é mais jovem
  205. e metade da população é mais velha.
  206. Eu pensei em 35 anos
    — para mim, soa-me a uma idade média.
  207. Na verdade, Exeter
    é incrivelmente jovem.

  208. e eu subestimei o impacto
    da universidade nesta área.
  209. As perguntas tornam-se mais difíceis
    à medida que avançamos.
  210. Esta pergunta é sobre quem possui casa:
  211. Por cada 100 residências, quantas
    dependem de uma hipoteca ou empréstimo?
  212. Eu aqui fui mais prudente
  213. porque não queria errar
    em mais de 50.
  214. (Risos)

  215. De facto, são cada vez mais difíceis.

  216. porque, quando vivemos numa área,
    quando vivemos numa comunidade,
  217. coisas como a idade — há pistas para ver
    se uma população é jovem ou velha.
  218. Basta olhar à nossa volta,
    é uma coisa que se vê.
  219. Uma coisa como a posse
    é muito mais difícil de ver,
  220. por isso recorremos à nossa intuição,
  221. às nossas ideias feitas
    sobre quantas pessoas
  222. pensamos que possuem as suas casas.
  223. A verdade é que,
    quando publicámos este questionário,

  224. os dados do recenseamento em que ele
    se baseia já tinham alguns anos.
  225. Arranjámos aplicações "online"
    que permitem introduzir um código postal
  226. e obter estatísticas de anos antecedentes.
  227. Assim, em certo sentido,
  228. isto era tudo um pouco antiquado
    e pouca coisa era nova.
  229. mas eu estava interessado em ver
    qual a reação que podíamos ter
  230. ao brincarmos com os dados
    da forma como o fizemos,
  231. usando a animação
  232. e brincando com o facto de as pessoas
    terem pré-conceitos estabelecidos.
  233. Acontece que a reação

  234. foi maior do que o que eu podia esperar.
  235. Há muito que eu tinha a ambição
    de deitar abaixo um "site" de estatísticas
  236. devido à afluência de público.
  237. (Risos)

  238. Este URL contém as palavras
    "estatística", "governo" e "UK",

  239. que são três das palavras menos
    apreciadas pelas pessoas num URL.
  240. O espantoso é que o "site" foi abaixo
  241. a um quarto para as dez da noite,
  242. porque as pessoas estavam
    interessadas nestes dados,
  243. de espontânea vontade,
  244. a usar o seu tempo pessoal.
  245. Fiquei muito interessado em ver
  246. que tivemos cerca de 250 mil pessoas
  247. a fazer o questionário, no espaço
    de 48 horas depois de o publicarmos.
  248. Desencadeou uma enorme discussão
    "online", nas redes sociais,
  249. que foi sobretudo dominada
  250. por pessoas divertidas
    com os seus equívocos,
  251. coisa que eu não podia esperar ser melhor,
  252. em certos aspetos.
  253. Também gostei do facto de as pessoas
    começarem a enviá-lo para políticos.
  254. "Até que ponto conhece a área
    que afirma representar?"
  255. (Risos)

  256. Depois, só para terminar,

  257. voltando aos dois tipos de pessoas,
  258. pensei que seria interessante ver
  259. como as pessoas que são boas com números
    se comportariam neste questionário.
  260. John Pullinger, o estatístico nacional
    de Inglaterra e do País de Gales,
  261. seria de esperar que fosse muito bom.
  262. Obteve 44 na sua própria área.
  263. (Risos)

  264. Jeremy Paxman — segundo confessou,
    depois de um copo de vinho —

  265. obteve 36.
  266. Pior ainda.
  267. Mostra que os números
    podem inspirar-nos a todos.
  268. Podem surpreender-nos a todos.
  269. Muitas vezes, falamos de estatísticas

  270. como sendo a ciência da incerteza.
  271. O meu pensamento de despedida
    para hoje é:
  272. a ciência é a ciência sobre nós.
  273. É por isso que devemos sentir-nos
    fascinados pelos números.
  274. Muito obrigado.

  275. (Aplausos)