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← Por que as estatísticas são tão fascinantes: os números falam de nós mesmos | Alan Smith | TEDxExeter

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Showing Revision 43 created 03/26/2017 by Maricene Crus.

  1. Em 2003,
  2. o governo do Reino Unido
    realizou uma pesquisa.
  3. O objetivo era medir
    o nível de aptidão numérica
  4. da população.
  5. Ficaram chocados ao descobrir
  6. que para cada 100 adultos
    em idade ativa no país,
  7. 47 deles sequer possuíam
    uma base de aptidão numérica.
  8. Entendemos como nível básico,
  9. o mínimo requerido
    para se concluir o ensino médio.
  10. É a habilidade de lidar com frações,
    porcentagens e números decimais.
  11. Este número despertou uma grande
    preocupação nas autoridades do país.
  12. Políticas foram revistas,
  13. investimentos foram feitos,
  14. e então a mesma pesquisa
    foi realizada em 2011.
  15. Podem adivinhar o que aconteceu
    com aquele número?
  16. Subiu para 49.
  17. (Risos)

  18. Quando mostrei esse número
    no Financial Times,

  19. um dos leitores soltou uma piada:
  20. "Este número é chocante
    para apenas 51% da população".
  21. (Risos)

  22. Mas eu fico com a reação
    de um aluno ao qual também

  23. mostrei esta informação durante uma aula.
  24. Ele levantou a mão e disse:
  25. "Como sabemos que a pessoa
    que informou esse número
  26. não está também entre os 49%?"
  27. (Risos)

  28. Fica claro que há um problema
    de falta de aptidão numérica,

  29. pois essas aptidões
    são importantes para a vida,
  30. e muitas das mudanças que queremos
    introduzir neste século,
  31. envolve nos tornarmos
    mais familiarizados com números.
  32. Não se trata de um problema
    apenas na Inglaterra.
  33. Este ano, a OCDE apresentou
    alguns números relativos
  34. à aptidão numérica entre os jovens.
  35. Na liderança, os EUA,
  36. quase 40% dos jovens americanos
    têm baixo nível de aptidão numérica.
  37. A Inglaterra vem logo atrás,
  38. há, porém, sete países da OCDE
    abaixo da linha dos 20%.
  39. Temos um problema.
    As coisas não têm que ser desse jeito.
  40. Olhem para o finalzinho deste gráfico,
  41. podemos ver a Holanda e a Coreia
    abaixo da linha dos 10%.
  42. Definitivamente, há um problema
    aqui e queremos abordá-lo.
  43. Mesmo com esses estudos tão úteis,

  44. acredito que ainda corremos
    o risco de enquadrar,
  45. inadvertidamente, as pessoas
    em uma de duas categorias.
  46. Existem dois tipos de pessoas:
  47. as familiarizadas com os números,
    que sabem fazer contas,
  48. e as que não sabem.
  49. O que estou tentando dizer aqui,
  50. é que acredito que isso
    é uma falsa dicotomia.
  51. Não é uma coisa ou outra.
  52. Acredito que não precisamos ter um nível
    superelevado de aptidão numérica
  53. para que sejamos inspirados pelos números.
  54. Este é o ponto de partida
    da nossa jornada.
  55. E, para mim, uma das maneiras
    de começá-la é observando a estatística.

  56. Sou o primeiro a reconhecer
  57. que a estatística tem
    algum problema de imagem.
  58. (Risos)

  59. Esta é a parte da matemática
    que nem mesmo os matemáticos gostam

  60. porque, enquanto, em geral, a matemática
    está ligada à precisão e à certeza,
  61. a estatística é, praticamente,
    o oposto disso.
  62. Na verdade, posso dizer que demorei
    a me converter ao mundo da estatística.
  63. Se vocês perguntassem
    aos meus professores da graduação
  64. em quais matérias eu não teria um nível
    de excelência após a universidade,
  65. eles lhes diriam:
    estatística e programação,
  66. e mesmo assim, estou aqui para
    mostrar alguns gráficos estatísticos
  67. que eu mesmo programei.
  68. O que me inspirou a mudar?

  69. O que me fez pensar que estatística
    era, na verdade, uma coisa interessante?
  70. Porque ela trata de nós.
  71. Olhemos para a etimologia
    da palavra estatística:
  72. é a ciência que lida com dados
  73. relativos à região ou à comunidade
    em que vivemos.
  74. Ela trata de nós mesmos como um grupo
  75. e não como indivíduos.
  76. E, como animais sociais,
  77. penso que compartilhamos o fascínio
    pela maneira em que nós, como indivíduos,
  78. nos relacionamos com nossos grupos,
    com nossos colegas.
  79. Neste sentido, a estatística
    tem sua maior força
  80. quando ela nos surpreende.
  81. Algumas pesquisas formidáveis
    vem sendo realizadas

  82. nos últimos anos, pela Ipsos MORI.
  83. Eles fizeram coisas bem interessantes.
  84. Realizaram uma pesquisa
    com mais de mil adultos no Reino Unido
  85. que perguntava, para cada 100 pessoas
    na Inglaterra e no País de Gales,
  86. quantas eram muçulmanas?
  87. A resposta normal para esta pergunta,
  88. que deveria ser uma parte
    representativa da população...
  89. foi 24.
  90. Isso é o que as pessoas pensavam.
  91. Os britânicos pensam que 24 em cada
    100 pessoas no país são muçulmanas.
  92. No entanto, os números oficiais
    revelam algo em torno de cinco.
  93. Há uma grande discrepância
    entre o que nós pensamos, nossa percepção,
  94. e a realidade mostrada pelas estatísticas.
  95. E isso é interessante.
  96. Qual poderia ser a causa
    desse erro de percepção?
  97. Fiquei empolgado com esse estudo.

  98. Comecei a anotar perguntas
    de outras palestras e fazer referências.
  99. Fiz a minha apresentação na St. Paul,
    escola para meninas, em Hammersmith
  100. e havia uma plateia
    bem parecida com essa,
  101. exceto que era composta apenas
    por garotas do ensino médio.
  102. Então, eu disse: "Garotas,
  103. quantas adolescentes vocês acham
    que ficam grávidas a cada ano,
  104. segundo a opinião dos britânicos?"
  105. Elas ficaram indignadas quando eu disse
  106. que o britânico médio acha
    que 15 em cada 100 adolescentes
  107. engravidam a cada ano.
  108. Elas tinham o direito de ficarem bravas
  109. porque precisaríamos
    de cerca de 200 pontos aqui,
  110. para que eu pudesse colorir apenas um,
    segundo o que os números oficiais dizem.
  111. Assim como a falta de aptidão numérica,

  112. este também não é um problema
    exclusivamente nosso.
  113. A Ipsos MORI expandiu a pesquisa
    recentemente para o mundo todo.
  114. Eles perguntaram aos sauditas:
  115. para cada 100 pessoas em seu país,
  116. quantas entre elas estão
    acima do peso ou obesas?
  117. E, na média, a reposta dos sauditas
    foi um pouco mais de um quarto.
  118. É o que eles pensavam:
  119. que um quarto dos adultos
    estão acima do peso ou obesos.
  120. Os número oficiais mostram que a resposta
    está próxima de três quartos.
  121. (Risos)

  122. Novamente, uma variação grande.

  123. Adoro esta aqui: perguntaram
    no Japão aos japoneses,

  124. quantos em cada 100 japoneses
    vivem em áreas rurais?
  125. Ficou um pouco acima dos 50%.
  126. Disseram que 56 em cada 100 japoneses
    vivem em áreas rurais.
  127. O número oficial é sete.
  128. São variações extraordinárias
    e surpreendentes para alguns,

  129. mas não para aqueles
    que leram, por exemplo,
  130. o trabalho de Daniel Kahneman,
    ganhador do Nobel em Economia.
  131. Ele e seu parceiro, Amos Tversky, passaram
    anos pesquisando este tipo de discrepância
  132. entre o que as pessoas
    percebem e a realidade,
  133. o fato de que a intuição estatística
    das pessoas é, na realidade, muito pobre.
  134. Existem muitas razões para isso.
  135. Experiências individuais certamente
    influenciam nossas percepções,
  136. mas, também, coisas como a mídia
    que mostra muito mais as exceções
  137. do que o normal.
  138. Kahneman tinha uma maneira
    especial de se referir a isso, dizendo:
  139. "Podemos ficar cegos para o óbvio,
    então não entendemos os números,
  140. mas podemos ficar cegos
    para nossa própria cegueira",
  141. e isto tem uma enorme repercussão
    na tomada de decisões.
  142. No escritório de estatística
    enquanto tudo isso acontecia,

  143. achei tudo muito interessante.
  144. Claramente, isto é um problema global,
    mas talvez a geografia seja o problema.
  145. Estas questões eram exatamente sobre
    saber se você conhece bem o seu país.
  146. Neste caso, você conhece bem
    64 milhões de pessoas?
  147. Parece que não tão bem;
    não consigo fazer isso.
  148. Então, tive uma ideia: pensar
    sobre esse mesmo tipo de abordagem,
  149. mas com um sentido bem mais local.
  150. Isto é local?
  151. Se nós reestruturamos as perguntas para:
  152. "Você conhece bem a sua área local?",
    suas respostas seriam mais precisas?
  153. Então, elaborei um teste:
    "Você conhece bem a sua área?"

  154. É um aplicativo web simples.
  155. Você digita um código postal
  156. e ele fará perguntas baseadas em dados
    de censos realizados em sua área local.
  157. Eu sabia exatamente
    o que queria quando o projetei.
  158. Queria torná-lo disponível para
    a maior quantidade de pessoas possível,
  159. não apenas os 49% que sabem fazer contas.
  160. Queria engajar todos.
  161. Para criar o projeto do teste,
    fui inspirado pelos isótopos,
  162. de Otto Neurath, dos anos 20 e 30.
  163. Tratam-se de métodos
    de representação numérica
  164. que usam símbolos que se repetem.
  165. Os números ainda estão lá,
    mas ficam em segundo plano.
  166. É uma excelente maneira
    de representar quantidades
  167. sem recorrer a termos como
    porcentagens, frações ou proporções.
  168. Bem... aqui está o teste.

  169. O leiaute dele é: os símbolos
    que se repetem ficam à esquerda,
  170. e um mapa à direita mostra a área
    para a qual as perguntas são feitas.
  171. São sete perguntas.
  172. Para cada pergunta, há uma possível
    resposta que varia de 0 a 100,
  173. e no final do teste,
  174. você obtém uma pontuação geral,
    também entre 0 e 100.
  175. Como estamos no TEDxExeter,
  176. achei legal observarmos rapidamente
    as primeiras perguntas
  177. para esta região, Exeter.
  178. A primeira pergunta é:
  179. para cada 100 pessoas,
    quantas têm menos de 16 anos?
  180. Bem, não conheço Exeter muito bem,
    então chutei a resposta.
  181. No entanto, isso nos dá uma
    ideia de como o teste funciona:
  182. você arrasta o cursor
    para colorir seus símbolos,
  183. e depois clica em "enviar" para responder,
  184. e nós realçamos a diferença
    entre sua resposta e a realidade.
  185. E vocês podem ver que meu chute
    foi terrível: apenas cinco.
  186. Do que se trata a próxima pergunta?

  187. Da média de idade de uma população.
  188. Metade da população
    está abaixo desta idade
  189. e, consequentemente, metade está acima.
  190. Eu chutei 35, o que pra mim
    parece ser a meia-idade.
  191. (Risos)

  192. Na verdade, Exeter tem
    uma população muito jovem.

  193. Eu subestimei o impacto
    da universidade nesta área.
  194. As questões ficam mais difíceis
    à medida que você avança.
  195. Esta aqui é a respeito da casa própria.
  196. Em cada 100 domicílios,
    quantos foram adquiridos
  197. por meio de hipotecas ou empréstimos?
  198. Fui bem cauteloso ao responder
  199. porque não queria errar
    por mais de 50 pontos.
  200. (Risos)

  201. Este tipo de pergunta fica mais difícil.

  202. Quando estamos em um local ou comunidade,
  203. podemos simplesmente olhar
    em volta e colher algumas pistas
  204. que nos dizem se a população
    é jovem ou velha.
  205. No entanto, algo como ter a casa
    própria é muito mais difícil de notar.
  206. Então nos voltamos para
    nossa própria heurística,
  207. nossos preconceitos acerca da quantidade
  208. de pessoas que achamos
    possuir a casa própria.
  209. A verdade é que quando publicamos o teste,

  210. os dados dos censos nos quais
    nos baseamos já tinham alguns anos.
  211. Tínhamos algumas aplicações on-line
    que recebiam os códigos postais
  212. dos quais obtivemos
    as estatísticas por anos.
  213. De certa forma,
  214. tudo era um pouco antigo
    ou não necessariamente novo.
  215. No entanto, eu estava interessado
    em ver o resultado que poderíamos obter
  216. ao "gamificar" os dados
    da maneira como fizemos,
  217. usando animação
  218. e jogando com o fato de que as pessoas
    têm seus próprios preconceitos.
  219. E acontece que o resultado foi...

  220. muito melhor do que eu esperava.
  221. A minha ambição de longa data
    era derrubar um site de estastística
  222. em razão da grande quantidade acessos.
  223. (Risos)

  224. Esta URL contém as palavras
    "estatística", "gov" e "RU",

  225. que são três das palavras menos
    populares entre as pessoas no URL.
  226. E o mais incrível é que o site caiu
  227. às 21h45,
  228. o que significa que as pessoas
    se interessaram por esses dados
  229. por livre e espontânea vontade
    durante seu tempo livre.
  230. Fiquei muito interessado em ver
  231. que cerca de 250 mil pessoas
  232. fizeram o teste nas 48 horas
    que se seguiram ao seu lançamento.
  233. Isso gerou uma intensa discussão
    on-line, nas redes sociais,
  234. acerca principalmente de como
    as pessoas estavam se divertindo
  235. com os erros em suas próprias concepções.
  236. De certa forma, eu não poderia
    esperar algo melhor que isso.
  237. Também gostei quando as pessoas
    começaram a enviar isso aos políticos.
  238. "Você conhece bem a área
    que você diz representar?"
  239. (Risos)

  240. E para finalizar,

  241. voltando aos dois tipos de pessoas,
    achei que seria interessante ver
  242. como as pessoas que se dão bem
    com os números se sairiam no teste.
  243. O estatístico nacional da Inglaterra
    e do País de Gales, John Pullinger,
  244. cuja pontuação esperada seria bem alta,
  245. atingiu apenas 44% para sua própria área.
  246. (Risos)

  247. Jeremy Paxman,

  248. que admitiu ter tomado
    uma taça de vinho antes do teste.
  249. Trinta e seis.
  250. Ainda pior.
  251. Isto simplesmente mostra que os números
    podem inspirar e surpreender a todos nós.
  252. Dizemos com frequência que a estatística
    é a ciência da incerteza.

  253. Despeço-me com o seguinte pensamento:
  254. a estatística é uma ciência
    que trata de nós mesmos.
  255. E é por isso que devemos
    ser fascinados pelos números.
  256. Muito obrigado.

  257. (Aplausos)