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← Como ultrapassar os nossos preconceitos? Enfrentando-os corajosamente.

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Showing Revision 6 created 01/11/2015 by Ana Caldeira.

  1. Este verão, fiz uma grande viagem
    por estrada
  2. e passei um tempo maravilhoso a ouvir
  3. o espantoso "The Warmth of Other Suns"
    de Isabel Wilkerson.
  4. Documenta a fuga
    de seis milhões de negros do sul
  5. entre 1915 e 1970,
  6. à procura de alívio de toda a brutalidade
  7. e a tentar arranjar
    melhores oportunidades no norte.
  8. Está cheio de histórias
    da resistência e do fulgor
  9. dos afro-americanos.
  10. Era difícil ouvir todas as histórias
  11. dos horrores, da humildade
    e das humilhações.
  12. Era difícil sobretudo ouvir falar
    dos espancamentos e incêndios
  13. e dos linchamentos dos negros.
  14. E eu disse:
  15. "Isto é muito profundo,
  16. "preciso de uma pausa,
    vou ligar a telefonia".
  17. Liguei-a e lá estava:
  18. Ferguson, no Missouri,
  19. Michael Brown,
  20. um negro de 18 anos,
  21. desarmado, baleado por um polícia branco,
    estendido morto no chão,
  22. a esvair-se em sangue durante quatro horas
  23. enquanto a avó, crianças e vizinhos
    observavam horrorizados.
  24. E eu pensei:
  25. "Voltamos ao mesmo".
  26. Esta violência, esta brutalidade
    contra os negros
  27. existe há séculos.
  28. É sempre a mesma história,
    só com nomes diferentes.
  29. Podia ter sido Amadou Diallo,
  30. podia ter sido Sean Bell,
  31. podia ter sido Oscar Grant,
  32. podia ter sido Trayvon Martin.
  33. Esta violência, esta brutalidade,

  34. é uma coisa que faz parte
    da nossa psique nacional.
  35. Faz parte da nossa história coletiva.
  36. Que vamos fazer quanto a isto?
  37. Vocês sabem que uma parte de nós mesmos
    ainda atravessa a rua,
  38. tranca as portas,
  39. corre as persianas,
  40. quando vemos jovens negros?
  41. Essa parte...
  42. Sei que não andamos
    a alvejar pessoas na rua,

  43. mas afirmo que os mesmos
    estereótipos e preconceitos
  44. que alimentam este tipo
    de incidentes trágicos
  45. estão dentro de nós.
  46. Também fomos criados com eles.
  47. Acredito que podemos acabar
    com este tipo de incidentes,
  48. impedir que aconteçam estes Fergusons,
  49. olhando para nós mesmos
    e estando dispostos a mudar.
  50. Por isso, faço-vos um apelo à ação.

  51. Há três coisas que gostava de vos propor
    hoje para refletirem
  52. como formas de impedir
    que voltem a acontecer Fergusons:
  53. três coisas que acho que nos podem ajudar
  54. a alterar a nossa imagem de jovens negros,
  55. três coisas que, espero, os protegerão
  56. mas também abrirão o mundo,
  57. para que eles possam prosperar.
  58. São capazes de imaginar isso?
  59. Conseguem imaginar o nosso país
    a aceitar os jovens negros
  60. considerando-os como
    uma parte do nosso futuro,
  61. dando-lhes a abertura, a graça
    que damos às pessoas que amamos?
  62. Como não seriam melhores as nossas vidas?
  63. Como não seria melhor o nosso país?
  64. Vou começar pelo número um.

  65. Temos que sair da negação.
  66. Precisamos de deixar
    de tentar ser boas pessoas.
  67. Precisamos de pessoas reais.
  68. Eu faço um trabalho muito diversificado,
  69. as pessoas vêm ter comigo
    no início da "workshop" e dizem:
  70. "Mrs. Diversity Lady,
    ainda bem que está aqui...
  71. (Risos)
  72. "... mas não temos um único osso
    preconceituoso no nosso corpo".
  73. E eu: "A sério?
  74. "Porque eu faço este trabalho
    todos os dias
  75. "e vejo todos os meus preconceitos".
  76. Ainda há pouco tempo, num avião,

  77. ouvi a voz duma mulher piloto
    no sistema de audiocomunicação
  78. e fiquei tão excitada,
    tão entusiasmada, do tipo:
  79. "Mulheres! Estamos a progredir!
  80. "Já chegámos à estratosfera!"
  81. (Risos)
  82. Estava bom tempo, depois começou
    a haver turbulência e sobressaltos
  83. e eu:
  84. "Espero bem que ela saiba guiar".
  85. (Risos)
  86. Eu sei. Esperem!
  87. Eu só percebi que era um preconceito
  88. quando regressei e havia um tipo a guiar,
  89. turbulento e desajeitado
  90. e eu nunca pus em causa
    a confiança no condutor masculino.
  91. O piloto é sempre bom.
  92. É este o problema.
  93. Se me perguntassem explicitamente,
    eu diria:
  94. "Mulher a conduzir? Fantástico!"
  95. Mas parece que,
    quando as coisas se complicam,
  96. e há problemas, algum risco,
  97. entro num preconceito
    que nem sabia que tinha.
  98. Aviões a jato a acelerar no céu,
  99. quero um homem.
  100. É a minha predefinição.
  101. Os homens são a minha predefinição.
  102. Quem é a vossa predefinição?
  103. Em quem confiam?
  104. De quem têm medo?
  105. Com quem implicitamente
    nos sentimos ligados?
  106. De quem fugimos?
  107. Vou contar-vos o nós aprendemos.

  108. O teste da associação implícita,
    que mede os preconceitos inconscientes
  109. — vão à Internet e façam-no "online" —
  110. já foi feito por cinco milhões de pessoas.
  111. Acontece que
    a nossa predefinição é "branco".
  112. Gostamos de pessoas brancas.
  113. Preferimos os brancos.
    O que é que eu quero dizer com isso?
  114. Quando mostramos às pessoas imagens
    de homens negros e homens brancos,
  115. associamos mais rapidamente
  116. essa imagem com uma palavra positiva,
    esse branco com uma palavra positiva,
  117. do que quando tentamos associar
  118. uma palavra positiva
    com um rosto negro e vice-versa.
  119. Quando vemos um rosto negro,
  120. é-nos mais fácil ligar o negro à negativa
  121. do que o branco à negativa.
  122. Uns 70% das pessoas brancas
    que fazem o teste preferem os brancos.
  123. Uns 50% das pessoas negras
    que fazem o teste preferem os brancos.
  124. Nós estávamos todos de fora
    quando chegou a contaminação.
  125. O que fazer quanto ao facto de
    o nosso cérebro associar automaticamente?

  126. Uma das coisas em que provavelmente
    estão a pensar
  127. e de que provavelmente gostam,
    sabem o que é?
  128. "Eu vou redobrar
    a minha cegueira quanto à cor.
  129. "Vou empenhar-me nisso".
  130. Vou sugerir-vos; Não!
  131. Fomos o mais longe que pudemos
    a tentar fazer a diferença,
  132. a tentar não reparar na cor.
  133. O problema nunca foi repararmos na cor,
  134. Foi o que fazíamos
    quando reparávamos na cor.
  135. É um falso ideal.
  136. Enquanto estivermos preocupados,
    fingindo que não reparamos,
  137. não temos consciência das formas
    em que a diferença étnica
  138. está a alterar
    as possibilidades das pessoas,
  139. o que as impede de se esforçarem
  140. e, por vezes, lhes provoca
    uma morte precoce.
  141. Na verdade, os cientistas
    estão a dizer-nos:

  142. "Não vale a pena. Nem sequer
    pensem na cegueira quanto à cor".
  143. O que eles nos sugerem
  144. é que olhemos para negros espantosos.
  145. (Risos)
  146. Olhemos para eles cara a cara
    e os memorizemos,
  147. porque, quando olhamos
    para pessoas negras espantosas
  148. isso ajuda-nos a dissociar
  149. a associação que ocorre
    automaticamente no nosso cérebro.
  150. Porque é que julgam
    que eu estou a mostrar
  151. estes homens negros lindíssimos
    por detrás de mim?
  152. (Risos)
  153. Há tantos, que tive que eliminar muitos.
  154. Ok, a resposta é esta:
  155. Estou a tentar mudar
    as vossas associações automáticas
  156. sobre quem são os homens negros.
  157. Estou a tentar lembrar-vos
  158. que os jovens negros se transformam
    em seres humanos espantosos
  159. que mudaram a nossa vida
    e a tornou melhor.
  160. Portanto, é esta a resposta.

  161. A outra possibilidade na ciência,
  162. — e é apenas uma mudança temporária
    nas nossas deduções automáticas —
  163. mas uma coisa que sabemos
  164. é que, se arranjarmos uma pessoa branca,
    odiosa, que conhecermos,
  165. e a colarmos ao pé duma pessoa de cor,
  166. um negro, que seja fabuloso,
  167. por vezes, isso também
    pode levar-nos a dissociar.
  168. Pensem no assassino Jeffrey Dahmer
    e em Colin Powell.
  169. Basta olhar para eles, não é?
  170. (Risos)
  171. Portanto, procurem os vossos preconceitos.
  172. Por favor, saiam da vossa negação
    e procurem dados que a desmintam,
  173. que provem que os vossos
    velhos estereótipos são incorretos.
  174. Este é o número um. Número dois:

  175. O que vou dizer é: aproximem-se
    dos jovens negros em vez de fugirem deles.
  176. Não é o mais difícil de fazer,
  177. mas também é uma das coisas
  178. em que temos que estar conscientes
    e ter uma intenção.
  179. Eu estava na área de Wall Street,
    já há uns anos.
  180. Estava com uma colega minha,
    que é maravilhosa.
  181. Ela faz comigo trabalho sobre diversidade
    e é de cor, é coreana.
  182. Estávamos na rua, a noite ia adiantada.
  183. Estávamos perdidas, a pensar
    para onde é que devíamos de ir.
  184. Vi uma pessoa do outro
    lado da rua e pensei:
  185. "Ótimo, um negro".
  186. Dirigi-me a ele, sem sequer pensar.
  187. E ela: "Oh, é interessante".
  188. O tipo era negro.
  189. Eu acho que os negros geralmente
    sabem para onde vão.
  190. Não sei porque é que penso assim,
    mas é o que penso.
  191. (Risos)
  192. E ela: "Oh, estás a dizer:
    'Ah, um negro!'?
  193. "Eu ia dizer, 'Uh, um negro'".
  194. Outra direção. A mesma necessidade,
    o mesmo tipo, as mesmas roupas,
  195. a mesma hora, a mesma rua,
    uma reação diferente.
  196. E ela: "Sinto-me tão mal.
    Sou uma conselheira de diversidade.
  197. "Caí nessa do negro.
    Eu sou uma mulher de cor. Oh, meu Deus!"
  198. E eu: "Sabes que mais? Por favor.
    Temos que descontrair".
  199. É preciso perceberem
    que eu tenho antepassados negros".
  200. (Risos)
  201. O meu pai é negro.
    Percebem o que estou a dizer?
  202. Tenho um filho negro com 1,96 m.
    Sou casada com um negro.
  203. A minha componente negra
    é tão ampla e tão profunda
  204. que podia imaginar muito bem
    quem era aquele negro,
  205. e era o meu tipo de negro.
  206. Ele disse: "Minhas senhoras,
    sei onde querem ir, Eu levo-as lá".
  207. Os preconceitos são as histórias
    que nós inventamos sobre as pessoas

  208. antes de sabermos
    quem elas são na realidade.
  209. Mas como vamos saber quem elas são
  210. quando nos disseram para as evitarmos
    e termos medo delas?
  211. Vou pedir-vos para avançarem
    de encontro ao vosso desconforto.
  212. Não estou a pedir-vos
    que corram riscos perigosos.
  213. Estou a dizer, ao menos
    façam um inventário,
  214. alarguem os vossos círculos
    sociais e profissionais.
  215. Quem está no vosso círculo?
  216. Quem falta?
  217. Quantas relações autênticas têm
  218. com jovens negros, pessoas,
    homens e mulheres?
  219. Ou de qualquer outra importante diferença
    em relação a quem vocês são
  220. e a como vocês vivem, por assim dizer?
  221. Sabem que mais? Olhem à vossa volta.
  222. Pode haver alguém a trabalhar
    na vossa sala de aulas,
  223. na vossa igreja, algures,
    há aí algum jovem negro
  224. Vocês são amáveis, Dizem olá.
  225. Eu estou a dizer,
    vão mais fundo, mais perto,
  226. e construam um tipo de relação
  227. um tipo de amizade que faça
    com que vejam a pessoa no seu todo
  228. e combatam realmente os estereótipos.
  229. Conheço alguns que andam por aí.
  230. porque tenho amigos brancos que dirão:

  231. "Não fazes ideia de
    como eu sou desajeitado.
  232. "Acho que isso comigo não vai funcionar.
  233. "De certeza que vou estragar tudo".
  234. Pode ser, mas não se trata de perfeição.
  235. Trata-se de ligação.
  236. Não vão sentir-se confortáveis
    antes de se sentirem desconfortáveis.
  237. Ou seja, é preciso fazê-lo.
  238. Jovens negros, o que eu estou a dizer
  239. é que, se aparecer alguém, de modo genuino
    e autêntico, aceitem o convite.
  240. Nem toda a gente está para vos tramar.
  241. Procurem as pessoas
    que vos veem como seres humanos.
  242. É a empatia e a solidariedade
  243. que resulta de relações
    com pessoas diferentes de nós.
  244. Acontece uma coisa
    deveras poderosa e bela:
  245. começamos a perceber
    que elas somos nós,
  246. que elas fazem parte de nós,
    que elas somos nós na nossa família,
  247. e deixamos de ser espetadores
  248. e passamos a ser atores,
    passamos a ser defensores
  249. e tornamo-nos aliados.
  250. Saiam do vosso conforto
    para uma coisa maior, mais brilhante,
  251. porque é assim que impedimos
    que aconteça outro Ferguson.
  252. É assim que criamos uma comunidade
  253. em que todos, em especial
    os jovens negros, podem prosperar.
  254. A última coisa vai ser mais difícil,
    bem sei,

  255. mas vou expô-la na mesma.
  256. Quando vemos qualquer coisa, temos
    que ter a coragem de dizer qualquer coisa,
  257. mesmo às pessoas que amamos.
  258. Ora vejam, é feriado
  259. e estamos sentados à mesa,
    a passar um bom bocado.
  260. Aliás, é o que acontece
    com muitos de nós, num feriado.
  261. Temos que ouvir as conversas
    em volta da mesa.
  262. Começamos por dizer coisas como:
  263. "Avó! Que fanática!".
  264. (Risos)
  265. "O tio Joe é racista!?".
  266. Estão a ver, adoramos
    a avó e o tio Joe. A sério.
  267. Sabemos que são boas pessoas,
    mas o que eles dizem é incorreto.
  268. Precisamos de ser capazes
    de dizer qualquer coisa
  269. porque sabem quem mais está à mesa?
  270. As crianças também estão à mesa.
  271. E nós admiramo-nos
    por estes preconceitos não morrerem
  272. e passarem de geração em geração?
  273. É porque nós não dizemos nada.
  274. Temos que estar preparados para dizer:
  275. "Avó, já não chamamos isso às pessoas".
  276. "Tio Joe, não é verdade
    que ele merecesse isso.
  277. "Ninguém merece isso".
  278. Temos que estar preparados
  279. para não isolar as crianças
    da fealdade do racismo
  280. quando os pais negros
    não se podem dar ao luxo de o fazer,
  281. principalmente os que têm
    filhos negros jovens.
  282. Temos que encarar
    os nossos queridos, o nosso futuro,
  283. e temos que lhes dizer
    que temos um país espantoso
  284. com ideais incríveis,
  285. que trabalhámos de modo incrível
    e fizemos algum progresso
  286. mas ainda não terminámos.
  287. Ainda temos dentro de nós esta coisa velha
  288. sobre a superioridade
  289. e isso leva-nos a interiorizá-la
    ainda mais
  290. nas nossas instituições,
    na nossa sociedade e gerações,
  291. e provoca o desespero,
  292. as disparidades e uma desvalorização
    devastadora dos jovens negros.
  293. "Continuamos a lutar",
    é o que temos que lhes dizer,
  294. reparando tanto na cor como no carácter
  295. dos jovens negros,
  296. mas que nós, e esperamos
    que eles também,
  297. fazemos parte das forças de mudança
    desta sociedade
  298. que se levantarão contra a injustiça
    e estamos dispostos, acima de tudo,
  299. a construir uma sociedade
    em que os jovens negros
  300. possam ser vistos por tudo aquilo que são
  301. Tantos negros espantosos,

  302. os que são os estadistas mais espantosos
    que jamais houve,
  303. soldados corajosos,
  304. trabalhadores incríveis, esforçados.
  305. São pessoas que são poderosos pregadores.
  306. São cientistas incríveis,
    artistas e escritores.
  307. São atores dinâmicos.
  308. São avós babados,
  309. filhos carinhosos.
  310. São pais muito fortes
  311. e são jovens com os seus próprios sonhos.
  312. Obrigada.

  313. (Aplausos)