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Showing Revision 7 created 07/08/2017 by Margarida Ferreira.

  1. Eu sou do sul de Chicago,
  2. e no sétimo ano, tinha
    uma melhor amiga chamada Jenny
  3. que vivia no sudoeste de Chicago.
  4. A Jenny era branca,
  5. e se sabem alguma coisa sobre
    a demografia segregada de Chicago
  6. sabem que não há muitos negros
  7. a viver no sudoeste de Chicago.
  8. Mas ela era minha amiga
  9. e por isso convivíamos muitas vezes
    depois das aulas e aos fins de semana.
  10. Um dia estávamos a passar o tempo
    na sala de estar dela,
  11. a falar de coisas de pré-adolescentes,
  12. e a Rosie, a irmã mais nova da Jenny,
    estava na sala connosco,
  13. estava sentada atrás de mim,
    a brincar com o meu cabelo,
  14. e eu não estava a pensar muito
    naquilo que ela estava a fazer.
  15. Mas numa pausa no meio da conversa,
  16. a Rosie tocou-me no ombro e disse:
  17. "Posso fazer-te uma pergunta?"
  18. Eu respondi: "Sim, Rosie. Claro."

  19. "És negra?"

  20. (Risos)

  21. A sala congelou.

  22. Silêncio.
  23. A mãe da Jenny e da Rosie
    não estava muito longe,
  24. estava na cozinha, ouviu a conversa,
  25. ficou em estado de choque e disse:
  26. "Rosie! Não podes perguntar
    coisas dessas às pessoas".
  27. Jenny era minha amiga, e eu sei
    que ela ficou muito constrangida.
  28. Senti-me mal por ela,
    mas na verdade não estava ofendida.
  29. Percebi que não era culpa da Rosie que,
    nos seus curtos 10 anos de vida na terra,
  30. a viver no sudoeste de Chicago,
  31. não tivesse 100% de certeza
    de como era uma pessoa negra.
  32. É natural.
  33. Mas o mais surpreendente para mim
  34. foi que, depois do tempo todo que passei
    com a família da Jenny e da Rosie,
  35. a conviver com elas,
  36. a brincar com elas,
  37. até a interagir fisicamente com elas,
  38. só quando a Rosie pôs as mãos
    no meu cabelo
  39. é que pensou em perguntar-me
    se eu era negra.
  40. Foi a primeira vez que percebi
  41. quão grande era o papel
    da textura do meu cabelo
  42. na confirmação da minha etnia,
  43. mas também que tinha
    um papel fundamental
  44. na forma como sou vista pela sociedade.
  45. Garrett A. Morgan e Madame CJ Walker
    foram pioneiros

  46. da indústria de tratamento e beleza
    do cabelo negro no início do século XX.
  47. Ficaram conhecidos como os inventores
    dos cremes à base de substâncias químicas
  48. e dos aparelhos para alisar o cabelo,
  49. concebidos para alterar
    a textura do cabelo negro
  50. de forma permanente ou semipermanente.

  51. Muitas vezes quando pensamos
    na história dos negros nos EUA,
  52. pensamos nos atos hediondos
  53. e nas várias injustiças
    que sofremos como pessoas de cor
  54. por causa da cor da nossa pele,
  55. quando, de facto, após
    a Guerra Civil Americana,
  56. era o cabelo de um afro-americano,
    homem ou mulher,
  57. que era a maior "característica de
    identificação" do estatuto social do negro
  58. mais do que a cor da pele.
  59. Portanto, antes de se tornarem parte
  60. da indústria multimilionária
    dos cuidados do cabelo,
  61. a nossa dependência
    dos aparelhos e produtos,
  62. como o creme relaxante
    ou o pente quente,
  63. era mais sobre a nossa sobrevivência
    e progresso como raça
  64. nos EUA pós-escravatura.
  65. Com o passar dos anos,
    acostumámo-nos a esta ideia

  66. de que quanto mais longo e esticado
    é o cabelo, melhor e mais bonito é.
  67. Tornámo-nos obcecados culturalmente
  68. com esta ideia de ter aquilo
    a que costumamos chamar...
  69. "um bonito cabelo."
  70. Isto basicamente quer dizer:
  71. quanto menos encaracolado,
    melhor é o cabelo.
  72. E deixámos que esta institucionalização
    de ideias formasse uma falsa hierarquia
  73. que determina o que era considerado
    um bom tipo de cabelo
  74. e o que não era.
  75. O pior é que deixámos
    que estas falsas ideologias
  76. invadissem a nossa perceção de nós mesmos,
  77. e elas continuam a infetar
    a nossa identidade cultural
  78. como mulheres afro-americanas de hoje.
  79. Então, o que fazíamos?

  80. Íamos ao cabeleireiro
    a cada seis ou oito semanas,
  81. sem falta,
  82. e submetíamos o nosso couro cabeludo
    a químicos de alisamento agressivos
  83. desde tenra idade
  84. — às vezes com 8, 10 anos —
  85. o que resultava em perda de cabelo,
  86. peladas,
  87. às vezes até queimaduras
    no couro cabeludo
  88. Fritamos o nosso cabelo a temperaturas
    de 200 e tal graus Celsius ou mais,
  89. quase diariamente,
  90. para manter o alisamento.
  91. Ou simplesmente tapamos o cabelo
    com perucas e extensões,
  92. só para deixarmos as raízes em paz
  93. onde ninguém sabe
    o que realmente se passa.
  94. Adotámos estas práticas
    nas nossas comunidades,

  95. e por isso não é novidade
    que hoje o aspeto típico ideal
  96. de uma mulher negra profissional,
  97. especialmente no mundo
    empresarial americano,
  98. tenha tendência para ter este aspeto,
  99. em vez deste.
  100. E certamente não terá este aspeto.
  101. Em setembro deste ano.

  102. um tribunal federal tornou legal
  103. que uma empresa se recuse
    a contratar um trabalhador
  104. baseando-se no facto
    de ele ou ela usar rastas.
  105. No processo,
  106. a gestora de contratação
    em Mobile, Alabama
  107. diz, conforme está registado:
  108. "Não digo que o seu é desleixado,
  109. "mas...
  110. "sabe do que estou a falar."
  111. Bem, do que é que ela estava a falar?
  112. Ela achou que eram feias?
  113. Ou talvez que fossem
    demasiado afrocêntricas
  114. com um aspeto demasiado à negro,
    para o seu gosto.
  115. Ou talvez não seja pela afrocentricidade
  116. mas sim por serem um pouco
    "urbanas" demais
  117. para o ambiente profissional.
  118. Talvez ela tivesse uma preocupação genuína
    de que parecessem "assustadoras"
  119. e que intimidassem os fregueses
    e a sua carteira de clientes.
  120. Todas estas palavras são
    demasiadas vezes associadas
  121. com o estigma atribuído
    ao nosso penteado natural.
  122. E isto...
  123. Isto tem de mudar.
  124. Em 2013,

  125. um livro branco publicado
    pelo Deloitte Center,
  126. para a liderança e a inclusão,
  127. estudou 3 mil indivíduos
    em cargos de liderança
  128. sobre o conceito de encobrimento
    no local de trabalho
  129. com base na aparência,
    na defesa, na afiliação e na associação.
  130. No que toca ao encobrimento
    baseado na aparência
  131. o estudo mostrou
  132. que 67% das mulheres de cor
    encobrem a sua aparência
  133. no local de trabalho.
  134. Do total de inquiridos que confessaram
    esconder a sua aparência,
  135. 82% disseram que era algo
    extremamente importante
  136. para elas, para a sua
    evolução profissional.
  137. Esta é Ursula Burns.

  138. É a primeira afro-americana diretora
    executiva de uma empresa Fortune 500
  139. — da Xerox.
  140. É conhecida pelo seu visual,
  141. que podem ver aqui.
  142. Uma africana baixa, com um bom corte,
    de unhas bem cuidadas.
  143. Ms. Burns é uma pessoa a que gostamos
    de chamar uma "rapariga natural."
  144. Ela está a preparar o caminho
    e a mostrar-nos que é possível
  145. uma mulher afro-americana
    avançar na carreira
  146. e usar penteados naturais.
  147. Mas hoje em dia, a maioria
    das mulheres afro-americanas

  148. que continuamos a ver como líderes,
    ícones e modelos a seguir,
  149. continuam a optar por ter cabelos lisos.
  150. Ora bem,
  151. talvez seja porque querem
  152. — porque é assim que se sentem bem —
  153. mas talvez
  154. — e aposto —
  155. algumas delas se tenham sentido
    obrigadas a fazê-lo
  156. de modo a ter o sucesso
    que alcançaram presentemente.
  157. Há um movimento de cabelo natural
    que está a ganhar força no país

  158. e também nalgumas partes da Europa.
  159. Milhões de mulheres estão a explorar
    o que significa ter o cabelo natural,
  160. e estão a cortar anos e anos
    de pontas secas e estragadas
  161. para restaurar o padrão
    encaracolado e natural.
  162. Eu sei porque tenho sido uma defensora
    e embaixadora deste movimento
  163. há quase três anos.
  164. Depois de 27 anos de calor excessivo
    e produtos químicos agressivos,
  165. o meu cabelo começou a mostrar
    sinais extremos de desgaste.
  166. Partia-se,
  167. estava fininho,
  168. tinha um aspeto seco e quebradiço.
  169. Todos estes anos a tentar alcançar
    aquela imagem convencional de beleza
  170. que vimos há pouco
  171. começaram a fazer-se sentir.
  172. Queria fazer alguma coisa quanto a isso,
  173. por isso comecei aquilo a que chamei
    "O Desafio contra o Calor,"
  174. no qual me abstive de usar aparelhos
    de aquecimento no meu cabelo
  175. durante seis meses.
  176. E como um bom membro
    da geração da Internet,
  177. documentei isso nas redes sociais.
  178. (Risos)

  179. Documentei como eu,
    relutantemente,

  180. cortara oito a dez centímetros
    do meu querido cabelo.
  181. Documentei a minha dificuldade
    em dominar estes penteados naturais,
  182. e também a minha dificuldade
    em aceitá-los
  183. e em achar que eram realmente bonitos.
  184. E documentei como a textura do meu cabelo
    começou a mudar aos poucos.
  185. Ao partilhar abertamente o meu percurso,

  186. aprendi que não era a única mulher
    a passar por isto
  187. e que de facto existiam milhares
    e milhares de outras mulheres
  188. que ansiavam por fazer o mesmo.
  189. Por isso vinham falar comigo e diziam:
  190. "Cheyenne, como fizeste
    aquele penteado natural
  191. "que eu vi no outro dia?
  192. "Que produtos é que começaste a usar
  193. "que sejam melhores
    para a textura do meu cabelo
  194. "agora que ele está a mudar?"
  195. Ou: "Quais são alguns dos teus hábitos
    de tratamento do cabelo natural
  196. "que eu devia adotar para restaurar
    a saúde do meu cabelo?"
  197. Mas também descobri que havia
    um grande número de mulheres
  198. que estavam extremamente hesitantes
    em dar o primeiro passo
  199. porque estavam paralisadas pelo medo.
  200. O medo do desconhecido
  201. — qual seria o seu aspeto depois?
  202. Como é que se iam sentir-se consigo mesmas
    com estes penteados naturais?
  203. E acima de tudo,
  204. como é que os outros iam olhar para elas?
  205. Nos últimos três anos

  206. depois de inúmeras conversas com amigas
  207. e também com estranhas de todo o mundo
  208. aprendi algumas coisas muito importantes
  209. sobre a relação entre a identidade das
    mulheres afro-americanas e o seu cabelo.
  210. E, por isso, quando penso
  211. naquela gerente de contratação
    em Mobile, Alabama, eu diria:
  212. "Honestamente, não.
  213. "Não sabemos do que você está a falar."
  214. Mas estas são algumas
    das coisas que sabemos.
  215. Sabemos que, quando as mulheres negras
    gostam do seu cabelo natural,
  216. isso ajuda a inverter
    a ideia que nos ensinam

  217. de que o cabelo negro
    natural não é bonito,
  218. ou que é algo para se esconder ou tapar.
  219. Sabemos que as mulheres negras
    expressam a sua individualidade
  220. e sentem-se mais poderosas
  221. ao experimentar diferentes
    penteados regularmente.
  222. Também sabemos
  223. que, quando somos convidadas a usar
    o cabelo natural no local de trabalho,
  224. isso reforça que somos
    excecionalmente valorizadas
  225. e, consequentemente, isso ajuda-nos
    a crescer e avançar profissionalmente.
  226. Deixo-vos com isto.

  227. Numa época de tensão racial e social,
  228. abraçar este movimento
  229. e outros deste género
  230. ajuda-nos a erguermo-nos
    de entre as limitações do status quo.
  231. Por isso, quando virem uma mulher
    com tranças ou rastas pelas costas abaixo,
  232. ou repararem na vossa colega
  233. que deixou de alisar o cabelo
    para ir trabalhar,
  234. não se limitem a abordá-la, a admirá-la
  235. e a pedirem para lhe mexer no cabelo.
  236. (Risos)

  237. Valorizem-na de verdade.

  238. Aplaudam-na.
  239. Caramba, deem-lhe mesmo mais cinco
    se for isso que desejam fazer.
  240. Porque isto
  241. é mais do que um penteado.
  242. É amor próprio e autoestima.
  243. É ser suficientemente corajosa
  244. para não se deixar pressionar
    pelas expetativas dos outros.
  245. E saber que decidir afastar-se da norma
  246. não define quem somos
  247. mas sim revela quem somos.
  248. E por fim,

  249. ser corajosa é mais fácil
  250. quando podemos contar
    com a empatia dos outros.
  251. Por isso, a partir de hoje,
  252. espero poder contar com todos vocês.
  253. Obrigada.

  254. (Aplausos)