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← Uma celebração ao cabelo natural

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Showing Revision 102 created 07/27/2017 by Maricene Crus.

  1. Sou da região sul de Chicago,
  2. e, na sétima série, tive
    uma melhor amiga chamada Jenny,
  3. que morava na região sudoeste de Chicago.
  4. Jenny era branca,
  5. e, se vocês sabem algo sobre os dados
    demográficos de segregação em Chicago,
  6. sabem que não há muitos negros
  7. que moram na região sudoeste,
    mas Jenny era minha amiga
  8. e, então, saíamos de vez em quando
    depois da escola e nos finais de semana.
  9. Assim, um dia estávamos
    na sala de estar dela,
  10. batendo papo sobre coisas de adolescentes,
  11. e a irmãzinha de Jenny,
    Rosie, estava na sala conosco,
  12. sentada atrás de mim
    brincando com meu cabelo,
  13. e eu não estava atenta
    ao que ela estava fazendo.
  14. Mas, numa pausa na conversa,
  15. Rosie bateu de leve no meu ombro.
  16. Ela disse: "Posso fazer uma pergunta?"
  17. Eu disse: "Sim, Rosie. Claro."

  18. "Você é negra?"

  19. (Risos)

  20. A sala parou.

  21. Silêncio.
  22. A mãe delas não estava muito longe.
  23. Estava na cozinha e ouviu a conversa,
  24. e ficou transtornada.
  25. Ela disse: "Rosie! Você não pode
    perguntar isso às pessoas".
  26. E Jenny era minha amiga, e sei
    que estava realmente envergonhada.
  27. Eu me senti meio mal por ela mas,
    na verdade, não fiquei ofendida.
  28. Achei que não era culpa de Rosie
    que, com seus 10 anos de idade,
  29. vivendo na região sudoeste de Chicago,
  30. não tinha tanta certeza
    de como era uma pessoa negra.
  31. É justo.
  32. Mas o que mais me surpreendeu foi:
  33. em todo esse tempo que tinha passado
    com a família delas,
  34. convivendo e brincando com elas,
  35. mesmo interagindo fisicamente com elas,
  36. foi só quando Rosie tocou o meu cabelo
  37. que pensou em me perguntar
    se eu era negra.
  38. Essa foi a primeira vez que percebi
  39. quão grande é o papel da textura do meu
    cabelo na confirmação da minha etnia,
  40. mas também havia um papel fundamental
    em como era vista na sociedade.
  41. Garrett A. Morgan e
    Madame C.J. Walker foram pioneiros

  42. na indústria de cuidados com cabelos
    crespos no início de 1900.
  43. São conhecidos como os inventores
    dos cremes de cabelo com base química
  44. e alisadores térmicos
  45. projetados para permanentemente,
    ou semipermanentemente,
  46. alterar a textura dos cabelos crespos.
  47. Muitas vezes, quando pensamos
    sobre a história dos negros nos EUA,
  48. pensamos nos atos hediondos
  49. e nas inúmeras injustiças
    que experimentamos como pessoas de cor
  50. por causa da cor da nossa pele,
  51. quando, na verdade,
    nos EUA do pós-Guerra Civil,
  52. era o cabelo de uma mulher
    ou homem afro-americano
  53. que era conhecido como a característica
    mais reveladora de ser negro,
  54. mais do que a cor da pele.
  55. E, então, antes de serem itens básicos
  56. da indústria multibilionária
    de cuidados com o cabelo,
  57. nossa dependência de aparelhos e produtos,
  58. como o relaxante e a prancha
    alisadora para o cabelo,
  59. foram mais sobre nossa sobrevivência
    e avanço como raça
  60. nos EUA da pós-escravidão.
  61. Ao longo dos anos,
    nos acostumamos com a ideia

  62. de que cabelo mais liso e longo
    significava ser melhor e mais bonito.
  63. Ficamos culturalmente obcecadas
  64. com essa ideia de ter
    o que gostamos de chamar de
  65. "cabelo bom".
  66. Isto significa essencialmente:
  67. quanto menor o padrão
    de ondulação, melhor o cabelo.
  68. E deixamos tais ideias institucionalizadas
    formarem um falso senso de hierarquia
  69. que determinaria o que era
    considerado um bom grau de cabelo
  70. e o que não era.
  71. O pior é que deixamos
    essas ideologias falsas
  72. invadirem nossa percepção de nós mesmas,
  73. e elas continuam a infectar
    a nossa identidade cultural
  74. como mulheres afro-americanas hoje.
  75. Então, o que fazíamos?

  76. Íamos ao salão de beleza
    a cada seis a oito semanas,
  77. sem falta,
  78. sujeitar nossos couros cabeludos
    a produtos de alisamento agressivos
  79. começando muito jovens,
  80. às vezes aos oito, dez anos,
  81. o que resultaria em perda de cabelo,
  82. áreas calvas,
  83. até queimaduras no couro cabeludo.
  84. Fritávamos nossos cabelos
    a temperaturas de 230 °C ou mais
  85. quase diariamente,
  86. para manter o cabelo liso.
  87. Ou simplesmente cobríamos nossos
    cabelos com perucas e tecidos,
  88. só para deixar nossas raízes respirarem
  89. onde ninguém sabe o que está acontecendo.
  90. Adotamos essas práticas
    em nossas próprias comunidades,

  91. e não é de se admirar porque
    hoje a visão ideal típica
  92. da mulher negra profissional,
  93. especialmente nos EUA corporativo,
  94. tende a parecer assim,
  95. em vez de assim.
  96. E, certamente, não parece assim.
  97. Em setembro deste ano,

  98. um tribunal federal decidiu legalizar
  99. a discriminação por uma empresa
    na contratação de uma pessoa
  100. caso ela use dreadlocks.
  101. No caso, a gerente de contratação
    em Mobile, Alabama,
  102. está na gravação, dizendo:
  103. "Não estou dizendo que é sujo,
  104. mas...
  105. você sabe do que estou falando".
  106. Bem, do que ela estava falando?
  107. Achou que eram feios?
  108. Ou talvez fossem muito africanos
  109. e a favor do visual negro
    para o gosto dela.
  110. Talvez não tenha a ver com afrocentrismo,
  111. mas é muito urbano para
    o ambiente profissional.
  112. Talvez tivesse a preocupação genuína
    de que pareciam assustadores
  113. e que intimidariam a base de clientes.
  114. Todas essas palavras são
    muitas vezes associadas
  115. ao estigma ligado
    aos penteados naturais.
  116. E isso...
  117. tem que mudar.
  118. Em 2013, um relatório branco da Deloitte
    Center for Leadership and Inclusion,

  119. estudou 3 mil indivíduos
    em cargos de liderança executiva
  120. sobre o conceito de vestuário
    no local de trabalho
  121. com base na aparência, defesa,
    afiliação e associação.
  122. Ao pensar em vestuário
    baseado em aparência,
  123. o estudo mostrou
  124. que 67% das mulheres de cor
    se vestem no local de trabalho
  125. com base na aparência.
  126. Do total de inquiridas que admitiram
    o vestuário baseadas em aparência,
  127. 82% disseram que era algo
    extremamente importante
  128. elas fazerem para o avanço profissional.
  129. Esta é Ursula Burns.

  130. É a primeira CEO afro-americana
    a chefiar uma empresa Fortune 500,
  131. a Xerox.
  132. Ela é conhecida pelo visual típico,
    o que vocês veem aqui.
  133. Um afro curto, bem cortado e bem cuidado.
  134. A Sra. Burns é o que gostamos
    de chamar de "garota natural".
  135. E ela está preparando o caminho
    e mostrando o que é possível
  136. para as mulheres afro-americanas
    que procuram escalar a escada corporativa,
  137. mas ainda desejam usar penteados naturais.
  138. Mas, hoje, a maioria das afro-americanas

  139. que vemos como líderes, ícones e modelos,
  140. ainda opta pelo visual de cabelo liso.
  141. Agora,
  142. talvez seja porque elas queiram;
  143. é genuinamente como
    elas se sentem melhor;
  144. mas, talvez,
  145. e aposto,
  146. algumas delas sentiram
    como se precisassem disso
  147. para atingir o nível de sucesso
    que elas alcançaram hoje.
  148. Existe um movimento pelo cabelo
    natural que está varrendo o país

  149. e também alguns lugares da Europa.
  150. Milhões de mulheres estão explorando
    a transição para o cabelo natural,
  151. e elas estão cortando anos
    de pontas secas e danificadas
  152. para restaurar o padrão
    de ondulação natural.
  153. Sei, porque tenho sido defensora
    e embaixadora desse movimento
  154. nos últimos três anos.
  155. Após 27 anos de calor excessivo
    e produtos químicos agressivos,
  156. meu cabelo estava começando a mostrar
    sinais extremos de desgaste.
  157. Estava quebradiço, diminuindo,
  158. parecendo extremamente seco e frágil.
  159. Todos esses anos perseguindo
    essa imagem convencional de beleza
  160. que vimos anteriormente
  161. estavam começando a cobrar seu preço.
  162. Eu queria fazer algo sobre isso,
  163. e, então, comecei o que chamei
    de "No Heat Challenge",
  164. no qual me absteria de usar
    aparelhos térmicos no cabelo
  165. por seis meses.
  166. E, como uma boa representante
    da geração Y,
  167. documentei nas redes sociais.
  168. (Risos)

  169. Documentei quando cortei relutantemente

  170. oito a nove centímetros
    do meu cabelo amado.
  171. Documentei enquanto lutava
    para dominar esses penteados naturais,
  172. e também enquanto lutava para aceitá-los
  173. e acho que realmente pareciam bons.
  174. E documentei como minha textura
    de cabelo lentamente começou a mudar.
  175. Ao compartilhar esta jornada abertamente,

  176. aprendi que não era a única
    mulher a passar por isso
  177. e que, na verdade, havia
    milhares de outras mulheres
  178. que desejavam fazer o mesmo.
  179. Então, elas me escreviam:
  180. "Cheyenne, como você fez
    aquele penteado natural
  181. que a vi usando outro dia?"
  182. "Que novos produtos começou a usar
  183. que podem ser melhores
    para a textura do cabelo
  184. quando ele começar a mudar?"
  185. Ou: "Quais são algumas
    das rotinas de cabelo natural
  186. que devo adotar para restaurar
    lentamente a saúde do cabelo?"
  187. Mas também descobri que havia
    um grande número de mulheres
  188. que estavam extremamente
    hesitantes em dar o primeiro passo
  189. porque estavam paralisadas pelo medo.
  190. Medo do desconhecido: qual seria
    a aparência delas agora?
  191. Como elas se sentiriam sobre si mesmas
    com esses penteados naturais?
  192. E, o mais importante para elas:
    como os outros as veriam?
  193. Nos últimos três anos,

  194. tendo várias conversas com minhas amigas
  195. e também com desconhecidas
    de todo o mundo,
  196. aprendi algumas coisas muito importantes
  197. sobre como as mulheres afro-americanas
    se identificam com os cabelos.
  198. E, então, quando me lembro
  199. daquela gerente de contratação
    em Mobile, Alabama,
  200. eu diria: "Na verdade, não.
  201. Não sabemos do que está falando".
  202. Mas eis algumas coisas que sabemos.
  203. Sabemos que quando as mulheres negras
    aceitam o amor pelos cabelos naturais,
  204. isso ajuda a desfazer
    ensinamentos de gerações
  205. de que o cabelo do negro
    no estado natural não é lindo,
  206. ou que é algo a ser escondido ou coberto.
  207. Sabemos que as mulheres negras
    expressam sua individualidade
  208. e conhecem sentimentos de empoderamento
  209. experimentando diferentes
    penteados com regularidade.
  210. E, também sabemos
  211. que quando somos convidadas a usar nossos
    cabelos naturais no local de trabalho,
  212. isso reforça que temos um valor único
  213. nos ajudando a florescer
    e avançar profissionalmente.
  214. Deixo vocês com isso.

  215. Num momento de tensão racial e social,
  216. abraçar esse movimento
  217. e outros assim
  218. nos ajuda a superar
    os limites do status quo.
  219. Quando virem uma mulher com tranças
    ou dreadlocks cobrindo as costas,
  220. ou repararem numa colega
  221. que parou de alisar
    os cabelos para o trabalho,
  222. não se aproximem dela apenas e admirem,
  223. e perguntem se podem tocá-lo.
  224. (Risos)

  225. Realmente a apreciem.

  226. Aplaudam-na.
  227. Cumprimentem-na, se é o que
    se sentem mais inclinados a fazer.
  228. Porque isso
  229. é sobre mais do que um penteado.
  230. Trata-se de amor-próprio e autoestima.
  231. É sobre ser corajosa o suficiente
  232. para não se dobrar à pressão
    das expectativas dos outros.
  233. E sobre saber que tomar
    a decisão de fugir do padrão
  234. não define quem somos,
  235. mas simplesmente revela quem somos.
  236. E, finalmente,

  237. ser corajosa é mais fácil
  238. quando podemos contar
    com a compaixão dos outros.
  239. Então, depois de hoje,
  240. espero que possamos contar com vocês.
  241. Obrigada.

  242. (Aplausos)