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← Não estamos sozinhos na nossa solidão

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Showing Revision 9 created 07/23/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Olá!

  2. Gostava de vos apresentar a uma pessoa.
  3. Este é o Jomny.
  4. Igual a "Jonny" mas escrito
    acidentalmente com um "m",
  5. caso se sintam curiosos,
    porque não somos todos perfeitos.
  6. O Jomny é um extraterrestre

  7. que foi enviado à terra com a missão
    de estudar os seres humanos.
  8. O Jomny sente-se perdido,
    sozinho e longe de casa.
  9. Penso que já todos nos sentimos assim.
  10. Pelo menos eu já.
  11. Eu escrevi esta história
    sobre este extraterrestre
  12. num momento da minha vida
    em que me sentia como um deles.
  13. Tinha acabado de ir para Cambridge
    e começado o meu doutoramento no MIT.
  14. Estava a sentir-me intimidado e isolado,
    como se não pertencesse ali.
  15. Mas tinha uma espécie
    de tábua de salvação.

  16. Eu escrevia piadas há anos e anos
  17. e partilhava-as nas redes sociais.
  18. Percebi que estava a começar
    a fazê-lo cada vez mais.
  19. Para muitas pessoas, a Internet
    pode ser um sítio solitário.

  20. Pode parecer isto,
  21. um enorme vazio, interminável e expansivo
  22. em que estamos sempre a chamar alguém
    mas ninguém nos ouve.
  23. No entanto, encontrei algum conforto
    ao falar para o vazio.
  24. Descobri que, ao partilhar
    os meus sentimentos com o vazio,
  25. por fim, o vazio começou a responder.
  26. Afinal, o vazio não é de todo
    uma vastidão interminável e solitária,
  27. mas está cheio de todo o tipo
    de outras pessoas,
  28. que também o encaram
    e querem ser ouvidas.
  29. É verdade que muitas coisas más
    têm surgido das redes sociais.
  30. Não estou a tentar negar isso.
  31. Estar na Internet, a certa altura,
    é sentir muita tristeza,
  32. fúria e violência.
  33. Pode parecer-nos o fim do mundo.
  34. Mas, ao mesmo tempo,
    entro em conflito,
  35. porque não posso negar o facto de que
    muitos dos meus amigos mais próximos
  36. são pessoas que eu conheci
    inicialmente na Internet.
  37. Acho que, em parte, isso é
    porque há uma natureza de confissão
  38. nas redes sociais.
  39. Pode parecer que estamos a escrever
    um diário íntimo, pessoal,
  40. que é completamente privado,
  41. mas, ao mesmo tempo, queremos
    que toda a gente no mundo o leia.
  42. Acho que, em parte, a alegria disso
  43. é que podemos vivenciar as coisas
    na perspetiva de outras pessoas
  44. que são totalmente diferentes de nós
  45. e, por vezes, isso é uma coisa boa.
  46. Por exemplo, quando eu criei um "Twitter"

  47. percebi que muitas das pessoas
    que eu seguia
  48. falavam de saúde mental e de fazer terapia
  49. de uma forma que não tinha
    o estigma que normalmente há,
  50. quando falamos destes problemas
    cara a cara.
  51. Através deles, a conversa que rodeava
    a saúde mental era normalizada
  52. e ajudaram-me a perceber
    que ir ao psicólogo
  53. era uma coisa que também me iria ajudar.
  54. Para muitas pessoas,

  55. parece ser uma ideia assustadora
    falar sobre estes tópicos
  56. tão pública e abertamente na Internet.
  57. Sinto que muitas pessoas pensam
    que é algo grande e assustador,
  58. estar na Internet se não estivermos
    desde logo perfeitamente formados.
  59. Mas eu acho que a Internet pode ser
    um ótimo lugar para não se saber
  60. e acho que podemos ver isso
    com entusiasmo,
  61. porque, para mim, há algo importante
    na partilha das nossas imperfeições,
  62. das nossas inseguranças
    e das nossas vulnerabilidades
  63. com outras pessoas.
  64. (Risos)

  65. Quando alguém partilha
    que se sente triste ou com medo

  66. ou sozinho, por exemplo,
  67. faz-me sentir menos sozinho,
  68. não por me livrar
    de qualquer solidão minha
  69. mas por me mostrar que não só eu
    que me sinto sozinho.
  70. Enquanto escritor e artista,
  71. é muito importante para mim
    ter este conforto de ser vulnerável,
  72. algo comum que podemos partilhar
    uns com os outros.
  73. Entusiasma-me exteriorizar o interior,
  74. pegar nos sentimentos invisíveis
    pessoais que não sei pôr em palavras,
  75. expô-los a uma outra luz,
    associar-lhes palavras
  76. e depois partilhá-los com outras pessoas,
  77. na esperança de poder ajudá-las
    a encontrar palavras para o que sentem.
  78. Eu sei que isto parece ser
    uma coisa importante,

  79. mas, no fundo, estou interessado
    em pôr tudo isto
  80. em caixas, pequenas e acessíveis,
  81. porque podemos escondê-lo
    nestas peças mais pequenas.
  82. Acho que são mais fáceis de aceder,
    são mais divertidas,
  83. podem ajudar-nos mais facilmente
    a ver a nossa humanidade comum
  84. Às vezes é através de uma pequena história
  85. outras vezes, é um livro
    com ilustrações giras, por exemplo.
  86. E, às vezes, vem sob a forma
  87. de uma piada parva que coloco na Internet.
  88. Por exemplo, há uns meses,
    publiquei uma ideia de uma aplicação
  89. para um serviço de passear o cão
  90. em que um cão aparece à nossa porta
    e temos de sair de casa
  91. e dar um passeio.
  92. (Risos)

  93. Se há por aqui programadores
    de aplicações no público,

  94. por favor venham ter comigo no final.
  95. Também gosto de partilhar sempre que
    me sinto ansioso ao mandar um "email"

  96. Quando o assino "o melhor",
  97. é como quem diz
    "estou a fazer o meu melhor"
  98. um resumo para "Por favor não me odeie,
    prometo que estou a fazer o meu melhor!"
  99. Ou a minha resposta
    ao clássico quebra-gelo,

  100. se pudesse jantar com alguém,
    vivo ou morto, eu jantava...
  101. sinto-me muito sozinho.
  102. (Risos)

  103. Chego à conclusão de que,
    quando publico estas coisas "online",

  104. a reação é muito semelhante.
  105. As pessoas juntam-se
    para partilhar uns risos,
  106. para partilhar esse sentimento
  107. e depois dispersam-se rapidamente.
  108. (Risos)

  109. Sim, deixando-me sozinho de novo.

  110. Mas acho que estas pequenas reuniões
    podem ser muito significativas.
  111. Por exemplo, quando me licenciei
    em arquitetura

  112. e me mudei para Cambridge
  113. publiquei esta pergunta:
  114. "Com quantas pessoas na vossa vida
  115. "já tiveram a vossa última conversa?"
  116. Eu estava a pensar nos meus amigos
    que se tinham mudado
  117. para cidades diferentes
    e até para diferentes países
  118. e o quão difícil me seria
    manter o contacto com eles.
  119. Mas outras pessoas começaram a responder
    e a partilhar as suas experiências.
  120. Houve uma pessoa que falou
    de um familiar com quem estava zangado.
  121. Outra pessoa falou sobre
    um ente querido que morrera,
  122. rápida e inesperadamente.
  123. Outra pessoa falou
    dos seus amigos da escola
  124. que também se tinham mudado.
  125. Mas depois algo de muito bom
    começou a acontecer.
  126. Em vez de simplesmente me responderem,
  127. começaram a responder-se uns aos outros,
  128. e a falarem e partilharem
    as suas experiências
  129. e a confortarem-se uns aos outros,
  130. a encorajarem-se uns aos outros
    a contactar esse amigo
  131. com quem já não falavam
    há algum tempo,
  132. ou aquele familiar
    com quem se tinha zangado .
  133. Por fim, criámos esta pequena
    microcomunidade.
  134. Foi como um grupo de apoio
  135. formado por todo o tipo
    de pessoas que se juntaram.
  136. Acho que, de cada vez
    que publicamos "online",
  137. sempre que o fazemos,
    há a hipótese de se formarem
  138. estas pequenas microcomunidades.
  139. Há a hipótese de todo o tipo
    de estas criaturas diferentes
  140. se juntarem e se unirem.
  141. Por vezes, no meio
    da confusão da Internet,
  142. conseguimos encontrar uma alma gémea.
  143. Às vezes é ao ler as respostas
    e as secções dos comentários
  144. que encontramos uma resposta
    que é particularmente gentil
  145. ou perspicaz ou engraçada.
  146. Por vezes, é ao seguir alguém
  147. e reparar que eles também já nos seguem.
  148. Ou às vezes é ao olhar para alguém
    que já conhecemos na vida real.
  149. ver as coisas que escrevemos
    e que eles escrevem
  150. e perceber que partilhamos
    muitos dos seus interesses,
  151. e isso aproxima-os de nós.
  152. Às vezes, se tivermos sorte,
  153. temos a oportunidade
    de conhecer outro extraterrestre.
  154. [Quando dois extraterrestres
    se encontram

  155. [um sítio estranho torna-se um lar]
  156. Mas preocupa-me, porque a Internet
    no geral, não se parece com isto.

  157. Todos sabemos que, na maior parte,
  158. a Internet parece um lugar
    onde nos compreendemos mal,
  159. onde entramos em conflito
    uns com os outros,
  160. [- Não roubes os meus ramos.
    - São para minha casa.]
  161. onde há todo o tipo
    de confusões, ee gritos e berros
  162. e parece que há demasiado de tudo.
  163. Parece um caos
  164. e não sei como substituir
    as partes más pelas boas,
  165. porque todos nós sabemos e vimos,
  166. que as partes más podem-nos
    magoar mesmo muito.
  167. Parece-me que as plataformas que usamos
    para habitar estes espaços "online"
  168. foram construídas de forma ignorante
    ou intencionalmente
  169. para permitir o assédio e o abuso,
    para propagar a desinformação,
  170. para permitir o ódio e discurso de ódio
    e a violência que isso gera.
  171. Parece que nenhuma das plataformas
    que usamos atualmente
  172. faz o suficiente para abordar
    ou resolver isso.
  173. Mas mesmo assim, e talvez infelizmente,

  174. continuo a ser atraído a estes espaços
    "online", tal como muitos outros
  175. porque, por vezes, parece
    que é aí que está toda a gente.
  176. Eu sinto-me idiota
  177. e estúpido, às vezes,
  178. por valorizar estes pequenos momentos
    de conexão humana em tempos como estes.
  179. Mas sempre funcionei
    de acordo com a ideia
  180. de que estes pequenos momentos
    de humanidade não são supérfluos.
  181. Nunca são retiros do mundo,
  182. mas sim as razões pelas quais
    vamos a estes espaços.
  183. São importantes e vitais,
    afirmam e dão-nos vida.
  184. São santuários pequenos e temporários
  185. que nos mostram que não estamos
    tão sozinhos como achamos.
  186. Então, apesar de a vida ser má
    e de todos estarem tristes
  187. e um dia irmos todos morrer
  188. [É assim. a vida é má.
    todos estão tristes.

  189. [Vamos todos morrer, mas eu
    já comprei um castelo insuflável.
  190. [Portanto, tiras os sapatos ou não?]
  191. Acho que o castelo insuflável,
    metafórico neste caso,

  192. é as nossas relações
    e a conexão com outras pessoas.
  193. Então, numa noite
    em que me estava a sentir

  194. particularmente triste
    e desesperado neste mundo,
  195. gritei para o vazio,
  196. para a escuridão solitária.
  197. E disse: "Neste momento,
    ir às redes sociais
  198. "é como dar a mão a alguém
    durante o fim do mundo."
  199. Desta vez, em vez de o vazio responder,
  200. foram pessoas que apareceram,
  201. que começaram a responder-me
    e a falar uns com os outros.
  202. Devagar, formou-se
    esta pequena comunidade.
  203. Toda a gente se juntou para dar as mãos.
  204. E nestes tempos perigosos e de incerteza,

  205. no meio de tudo isso,
  206. acho que tudo o que temos
    como apoio são as pessoas.
  207. Sei que é uma pequena coisa
    feita de pequenos momentos,
  208. mas acho que é um feixe de luz,
    pequeno e minúsculo
  209. em toda a escuridão.
  210. Obrigado.

  211. (Aplausos)

  212. Obrigado.

  213. (Aplausos)