YouTube

Got a YouTube account?

New: enable viewer-created translations and captions on your YouTube channel!

Portuguese, Brazilian subtitles

← Reforma da justiça penal liderada pela comunidade

Get Embed Code
17 Languages

Showing Revision 27 created 10/09/2019 by Maricene Crus.

  1. Esta é minha camiseta
    de protesto favorita.
  2. diz: "Proteja sua gente".
  3. Nós a fizemos no porão
    do nosso centro comunitário.
  4. Já a vesti durante comícios,
  5. em passeatas, protestos,
  6. vigílias à luz de velas,
  7. com famílias que perderam parentes
    para a violência policial.
  8. Testemunhei como essa prática
    de organização social
  9. tem sido capaz de modificar
    práticas prisionais,
  10. exigir responsabilidade
    dos policiais por seus atos,
  11. fortalecer e acolher famílias
  12. em momentos difíceis da vida.
  13. Mas quando uma família ia ao nosso centro

  14. e dizia: "Um dos nossos foi preso.
    O que devemos fazer?"
  15. não sabíamos como traduzir
  16. o poder organizacional de comunidades
  17. que víamos nas ruas e levá-lo
    para dentro dos tribunais.
  18. Pensávamos que, por não sermos advogados,
  19. essa não era uma área
    em que poderíamos causar mudanças.
  20. Assim, apesar de nossa fé
    na ação coletiva,
  21. permitíamos que pessoas
    importantes para nós
  22. enfrentassem o tribunal sozinhas.
  23. Em nove de cada dez casos,
    e isso são dados nacionais,
  24. elas não conseguiam pagar um advogado.
  25. Então tinham um defensor público,
    que faz um trabalho heroico,
  26. mas que geralmente
    não tem recursos suficientes
  27. e precisa cuidar
    de muitos casos diferentes.
  28. Enfrentavam promotores mirando
    as altas taxas de condenação,
  29. sentenças mínimas obrigatórias
  30. e preconceitos raciais
    em todas as fases do processo.
  31. E assim, enfrentando essas probabilidades,

  32. longe do poder da comunidade
  33. e sem saber como agir nos tribunais,
  34. cerca de 90% das pessoas que enfrentam
    uma acusação criminal neste país
  35. aceitarão um acordo.
  36. Ou seja, nunca terão
    seu grande dia no tribunal
  37. como vemos em seriados de TV e nos filmes.
  38. E essa é a parte oculta da história
    do encarceramento em massa nos EUA,
  39. e como nos tornamos
    o maior sistema carcerário do mundo.
  40. Atualmente, mais de 2 milhões
    de pessoas estão presas nos EUA.
  41. E projeções mostram que
  42. um em cada três homens negros
    conhecerá o interior de uma prisão
  43. em algum momento de sua vida,
    se continuarmos assim.
  44. Mas nós temos uma solução.

  45. Decidimos questionar essa ideia
  46. de que apenas advogados
    podem impactar tribunais.
  47. E invadir o sistema judiciário
  48. com a força, inteligência e genialidade
    de uma comunidade organizada.
  49. Chamamos isso de "defesa participativa".
  50. É uma metodologia
    para famílias e comunidades
  51. em que um deles
    está enfrentando acusações,
  52. e como é possível impactar
    o desfecho desses casos
  53. mudando o cenário
    do poder nos tribunais.
  54. Funciona assim:

  55. a família cujo familiar
    enfrenta acusações criminais
  56. frequenta reuniões semanais,
  57. que são metade grupo de apoio
  58. e metade planejamento estratégico,
  59. construindo uma comunidade em torno
    do que seria uma experiência isolada
  60. e solitária.
  61. Eles se sentam em círculo,
  62. e escrevem o nome
    da pessoa acusada em uma lousa,
  63. a pessoa pela qual estão lá.
  64. E coletivamente,
  65. o grupo procura soluções para,
    de forma tangível e respeitosa,
  66. impactar o desfecho daquele caso.
  67. Eles analisam relatórios policiais
    em busca de inconsistências,
  68. encontram fatos que requerem
  69. melhor investigação do advogado de defesa
  70. e comparecem juntos ao tribunal,
  71. para dar suporte emocional,
  72. mas também para que o juiz saiba
    que a pessoa que está sendo julgada
  73. faz parte de uma grande comunidade
  74. que investe no bem-estar e sucesso dela.
  75. E os resultados têm sido impressionantes.

  76. Já vimos acusações serem retiradas,
  77. reduções significativas de sentenças,
  78. absolvições recebidas no julgamento.
  79. Em algumas ocasiões,
    vidas sendo salvas, literalmente.
  80. Como no caso de Ramon Vasquez.
  81. Pai de duas crianças, homem de família,
    motorista de caminhão
  82. e injustamente acusado de envolvimento
    com uma gangue em um assassinato
  83. do qual era completamente inocente,
  84. mas pegaria prisão perpétua.
  85. A família do Ramon foi às reuniões
  86. logo após sua prisão e encarceramento,
  87. e seguiu o modelo.
  88. E com muito trabalho duro,
  89. encontraram grandes contradições no caso
  90. e buracos na investigação.
  91. E conseguiram desmentir perigosas
    suposições feitas pelos detetives.
  92. Como a de que o boné vermelho
    que encontraram ao invadir a casa dele
  93. de alguma forma o ligava
    a uma vida de gangster.
  94. Usando fotos e vídeos,
  95. puderam provar que o boné vermelho
    era do time da liga infantil do filho dele
  96. e que Ramon os treinava
    aos fins de semana.
  97. Eles produziram informação independente
  98. que provavam que Ramon
    estava do outro lado da cidade
  99. na hora alegada do crime,
  100. com seu registro de chamadas telefônicas
    e recibos de loja que eles frequentavam.
  101. Depois de sete meses
    de muito trabalho da família,

  102. com Ramon mantendo-se firme na prisão,
  103. conseguiram o cancelamento da acusação.
  104. E levaram Ramon para casa
  105. para a vida da qual
    nunca deveria ter saído.
  106. E a cada novo caso,

  107. a família encontrava novas maneiras
    de usar o conhecimento da comunidade
  108. para impactar os tribunais.
  109. Fomos a muitas audiências de julgamento.
  110. E ao sairmos da audiência,
  111. voltando para o estacionamento,
  112. após alguns dos acusados
    serem condenados à prisão,
  113. a coisa que mais ouvíamos
  114. não era algo do tipo: "Odeio aquele juiz"
  115. ou "Queria arranjar outro advogado".
  116. O que as pessoas mais diziam era:
  117. "Queria que eles o conhecessem
    como nós o conhecemos".
  118. Então desenvolvemos meios e ferramentas

  119. para que a família contasse
    toda a história daquela pessoa
  120. para que fossem considerados
    mais do que apenas "mais um caso".
  121. Foi dado início ao que chamamos
    de "pacotes de biografia social",
  122. que são compilações de fotos, certificados
    e cartas reunidas pela família
  123. que mostram desafios do passado,
    dificuldades e realizações,
  124. planos e oportunidades para o futuro.
  125. E os pacotes de biografia social
    funcionaram tão bem nos tribunais,
  126. que evoluímos para vídeos
    de biografia social.
  127. Mini-documentários de dez minutos,
  128. com entrevistas das pessoas na casa delas,
  129. ou em sua igreja, ou local de trabalho,
  130. explicando o que aquela pessoa
    significa no contexto da vida delas.
  131. Foi uma forma que encontramos para quebrar
    as paredes do tribunal, temporariamente.
  132. E através do poder dos vídeos,
  133. levar o juiz para fora do tribunal
    e para dentro da comunidade,
  134. para que pudesse entender
    todo o contexto da vida da pessoa
  135. cujo destino está prestes a definir.
  136. Um dos primeiros projetos
    de biografia social realizado

  137. foi feito pelo Carnell.
  138. Ele começou a ir às reuniões
    por ter sido acusado de porte de drogas.
  139. E após anos de sobriedade,
  140. foi preso por causa desta única acusação.
  141. Mas estava enfrentando
    uma sentença de cinco anos
  142. devido ao padrão
    de sentenças na Califórnia.
  143. Nós o conhecíamos primeiro como pai.
  144. Ele levava as filhas para as reuniões
  145. e brincava com elas
    no parque do outro lado da rua.
  146. Ele nos disse: "Olha, eu aguento
    cumprir essa pena,
  147. mas se eu for preso,
    vão tirar as meninas de mim".
  148. Então demos uma câmera pra ele

  149. e pedimos: "Tire algumas fotos
    da sua vida de pai".
  150. Ele tirou fotos preparando
    o café da manhã para as filhas
  151. levando as meninas para a escola,
  152. para atividades extracurriculares
    e as ajudando na lição de casa.
  153. E aquilo virou um ensaio fotográfico
  154. que ele entregou para o advogado
    que as usou na audiência do julgamento.
  155. E o juiz, que originalmente havia indicado
    uma sentença de cinco anos,
  156. viu Carnell por um novo ângulo.
  157. E converteu a sentença de cinco anos
  158. para seis meses de tratamento médico,
  159. para que Carnell pudesse
    ficar com as filhas.
  160. As meninas teriam o pai na vida delas.
  161. E Carnell conseguiu o tratamento
    pelo qual estava procurando.
  162. Existe uma espécie de cerimônia

  163. que realizamos na defesa participativa.
  164. Contei que quando a família
    comparece às reuniões,
  165. ela escreve o nome do familiar na lousa.
  166. São nomes com os quais convivemos,
  167. a cada semana, através
    das histórias que a família conta
  168. e torcemos, rezamos, e esperamos por eles.
  169. E quando vencemos um caso,
  170. quando conseguimos a redução
    de uma sentença
  171. ou uma acusação é retirada,
    ou ganhamos uma absolvição,
  172. aquela pessoa, que era um nome na lousa,
  173. aparece na reunião.
  174. E quando citamos seu nome,
  175. essa pessoa recebe um apagador
  176. e vai em direção à lousa
  177. para apagar seu nome.
  178. Parece muito simples,
    mas é uma experiência espiritual.
  179. E as pessoas aplaudem e choram.
  180. E para a família começando essa jornada
  181. e que se senta no fundo da sala,
  182. a prova de que existe um ponto final,
  183. que um dia, eles poderão levar
    seu familiar de volta pra casa,
  184. e ele poderá apagar seu nome,
  185. é algo muito inspirador.
  186. Estamos treinando
    organizações de todo o país

  187. sobre como fazer a defesa participativa.
  188. Temos uma rede nacional de 20 cidades.
  189. Uma igreja na Pensilvânia,
  190. uma associação de pais no Tenessi,
  191. um Centro de Jovens em Los Angeles.
  192. E a cidade adicionada recentemente à rede
    para fomentar e desenvolver esta prática
  193. é a Filadélfia.
  194. Eles acabaram de realizar a primeira
    reunião semanal de defesa participativa,
  195. na semana passada.
  196. E a pessoa que trouxemos
    da Califórnia para a Filadélfia
  197. para compartilhar sua história
    e inspirá-los a acreditar que é possível,
  198. foi Ramon Vasquez,
  199. que saiu de uma prisão
    no condado de Santa Clara, Califórnia,
  200. para inspirar uma comunidade
    sobre o que é possível
  201. realizar através da perseverança
    das comunidades por todo o país.
  202. E em todos os polos, ainda usamos
    uma métrica que inventamos.

  203. Chama-se tempo poupado.
  204. É algo que falamos
    em todas as reuniões semanais.
  205. E sempre que uma família vai a uma reunião
    pela primeira vez dizemos:
  206. "Se vocês não fizerem nada,
  207. o sistema quer dar ao seu familiar
    um tempo de pena a cumprir.
  208. Esse é o termo que usam pra se referir
    a períodos de encarceramento.
  209. Mas se vocês se engajarem, participarem,
  210. podem transformar tempo de pena
    em tempo poupado.
  211. Com todos em casa, vivendo
    a vida que escolheram viver".
  212. Então, Carnell, por exemplo,
    pegaria uma pena de cinco anos.
  213. Quando somamos o tempo poupado
  214. de todos os centros
    de defesa participativa,
  215. através do trabalho
    nas reuniões e nos tribunais
  216. e com os vídeos e pacotes
    de biografias sociais
  217. alcançamos 4,218 mil anos
    de tempo poupado de encarceramento.
  218. Isso representa a vida de pais e filhos.
  219. Jovens que vão para a faculdade
    em vez de ir para a prisão.
  220. Estamos acabando com ciclos
    geracionais de sofrimento.
  221. E pensando no estado em que moro,

  222. a Califórnia,
  223. custa US$ 60 mil para manter
    um preso no seu sistema prisional.
  224. Isso quer dizer que essas famílias
    estão economizando para o estado
  225. muito dinheiro público.
  226. Não sou matemático, não fiz as contas,
  227. mas estamos falando de dinheiro
    e recursos que poderiam ser realocados
  228. para serviços de saúde mental,
  229. para programas de reabilitação
    de usuários de drogas e para a educação.
  230. E agora estamos vestindo esta camiseta
    em tribunais por todo o país.

  231. E as pessoas vestem esta camiseta
  232. porque elas têm urgência em proteger
    a sua gente nos tribunais.
  233. Mas lhes dizemos que, como participantes,
    estão construindo um novo campo,
  234. um novo movimento
  235. que mudará para sempre o modo
    como se entende a justiça neste país.
  236. Obrigado.

  237. (Aplausos)