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← O que vai acontecer quando descobrirmos uma vacina para a COVID-19?

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Showing Revision 7 created 11/21/2020 by Margarida Ferreira.

  1. O meu filho nasceu em janeiro de 2020,
  2. pouco antes do confinamento em Paris.
  3. Ele nunca se assustou
    com as pessoas de máscara,
  4. porque é só isso que conhece.
  5. A minha filha de três anos
    sabe dizer "gel hydro-alcoolique."
  6. É a tradução francesa
    de gel hidroalcoólico.
  7. Ela até a pronuncia melhor que eu.
  8. Mas ninguém quer usar uma máscara,

  9. ou higienizar as mãos
    com álcool gel a cada 20 segundos.
  10. Estamos todos à espera, desesperadamente,
  11. que os investigadores encontrem
    uma solução: uma vacina.
  12. É curioso que, na nossa cabeça,

  13. a descoberta da vacina
    seja como o Santo Graal.
  14. Mas há aqui uns atalhos
    que quero clarificar.
  15. Não sou médica, sou só uma consultora.
  16. Os meus clientes
    são do setor da saúde,
  17. biofarmacêuticas, prestadores de cuidados,
    instituições de saúde globais,
  18. e eles ensinaram-me muito.
  19. Precisamos das ferramentas
    para lutar contra a COVID,
  20. e precisamos de torná-las
    acessíveis a todos.
  21. Primeiro, uma só vacina
    não nos livrará disto.

  22. Precisamos de um arsenal de ferramentas.
  23. Precisamos de vacinas,
    terapêuticas, diagnósticos,
  24. para assegurar que conseguimos evitar,
    identificar e tratar os casos de COVID
  25. em várias populações.
  26. Segundo, não se trata só
    de encontrar uma ferramenta.

  27. O que acham que vai acontecer
    quando um dos ensaios clínicos
  28. demonstrar que a ferramenta é eficaz?
  29. Acham que vamos todos correr
    até à farmácia do lado,
  30. compramos o produto,
    tiramos as máscaras
  31. e vamos dar beijos uns aos outros?
  32. Não.
  33. Encontrar uma ferramenta eficaz
    é só um passo nesta grande batalha,
  34. porque há uma diferença
    entre a existência de um produto
  35. e o acesso a esse produto.
  36. E agora estão a pensar:

  37. "Ah, ela quer dizer que
    outros países terão de esperar."
  38. Bem, não. Não é nada disso.
  39. Não são só os outros
    que podem ter de esperar,
  40. mas também qualquer um de nós.
  41. A COVID fez-nos ficar humildes,
  42. porque, graças à sua rapidez e magnitude,
  43. está a expor-nos a todos
    aos mesmos desafios,
  44. aos quais não estamos habituados.
  45. Lembram-se de quando a China
    entrou em confinamento?
  46. Imaginavam que estariam
    na mesma situação,
  47. umas semanas depois?
  48. Garanto-vos que eu não pensei.
  49. Passemos para o momento hipotético
    em que tenhamos uma vacina.

  50. Neste caso, o problema seguinte
    será o abastecimento.
  51. A estimativa atual da comunidade global
  52. é que, no fim de 2021,
  53. mais de um ano depois
    da descoberta da vacina,
  54. teremos doses suficientes
    para um a dois mil milhões
  55. da nossa população global,
    de oito mil milhões.
  56. Então, quem terá de esperar?
  57. Como acham que será o acesso
    quando houver pouco abastecimento?
  58. Cenário número um:

  59. deixamos as forças de mercado atuar
  60. e os que pagarem mais,
    ou sejam os mais rápidos a negociar,
  61. serão os primeiros
    a ter acesso ao produto.
  62. Não é, de todo, igualitário,
  63. mas é muito provável que aconteça.
  64. Cenário número dois:

  65. com base nos fundamentos
    da saúde pública,
  66. acordamos quem primeiro
    recebe o produto.
  67. Acordamos que os primeiros
    serão os profissionais de saúde,
  68. depois os idosos
  69. e depois a população, no geral.
  70. Vou ser um pouco mais provocadora.

  71. Cenário número três:
  72. os países que mostraram
    gerir bem a pandemia,
  73. serão os primeiros
    a ter acesso ao produto.
  74. É um bocado exagerado,
  75. mas não é de todo ficção científica.
  76. Quando os sofisticados medicamentos
    de segunda linha contra a tuberculose
  77. se tornaram raros,
    foi criada uma comissão especial,
  78. para determinar quais os países
    que tinham sistemas de saúde adequados
  79. para garantir que os produtos
    seriam devidamente distribuídos
  80. e que os pacientes seguiriam
    devidamente os seus planos de tratamento.
  81. Os países selecionados
    foram os primeiros a ter acesso.
  82. Ou, cenário número quatro:

  83. estabelecemos uma regra aleatória,
  84. por exemplo, que as pessoas
    sejam vacinadas no seu aniversário.
  85. Agora, pergunto-vos:

  86. Como é pensar num futuro
    em que a vacina existe,
  87. mas continuaremos a ter de usar máscara
    e a ficar com os filhos em casa,
  88. e a não ser possível ir para o trabalho
    como gostaríamos,
  89. porque não teremos acesso a esse produto?
  90. Todos os dias que passassem
    parecer-nos-iam frustrantes, certo?
  91. Mas, sabem que mais?
  92. Há muitas doenças para as quais
    temos tratamentos, e até cura,
  93. e, ainda assim, há pessoas a ficar
    infetadas e a morrer todos os anos.
  94. O exemplo da tuberculose:

  95. 10 milhões de infetados por ano,
  96. 1,5 milhões de mortes,
  97. apesar de termos uma cura há anos.
  98. Isso porque ainda
    não descodificámos, totalmente,
  99. os fatores que
    mais influenciam o acesso.
  100. O acesso igualitário
    é a coisa certa a fazer,

  101. mas, para além do argumento humanitário,
  102. ao qual espero que
    estejamos mais sensíveis,
  103. agora que o sofremos na pele,
  104. há um argumento económico e de saúde
  105. para o acesso igualitário.
  106. O argumento de saúde é que,
    enquanto o vírus estiver ativo
  107. em qualquer lugar,
    há o risco de casos reimportados.
  108. O argumento económico é que,
  109. dada a interdependência
    das nossas economias,
  110. não há nenhuma economia
    nacional capaz de recomeçar,
  111. quando as outras
    ainda não estão capazes de o fazer.
  112. Pensem nos setores
    dependentes da mobilidade global,
  113. como o aeroespacial ou o turismo.
  114. Pensem nas cadeias de abastecimento
    que cruzam fronteiras,
  115. como os têxteis e os automóveis.
  116. Pensem na parte do crescimento económico
    proveniente dos mercados emergentes.
  117. Precisamos que todos os países
    combatam a pandemia em simultâneo.
  118. Então, o acesso igualitário
    não é só a coisa certa a fazer,
  119. é a coisa mais inteligente a fazer.
  120. Mas como é que fazemos isso?
  121. Vamos assegurar que estamos claros
    em relação ao significado de "acesso".

  122. Significa que o produto existe;
  123. que funciona suficientemente bem;
  124. que foi aprovado pelas autoridades locais;
  125. que é economicamente acessível;
  126. mas, também, que está provado
    que funciona em todas as populações
  127. que precisem dele,
  128. e isso pode incluir grávidas, crianças,
    e pessoas com deficiências imunitárias;
  129. que pode ser distribuído
    nas mais variadas situações,
  130. seja em hospitais ou centros de saúde,
  131. nos climas quentes ou frios;
  132. e que podemos produzi-lo
    na escala adequada.
  133. É uma lista longa, eu sei
  134. e, numa situação que não uma crise,
  135. será possível resolvermos estes problemas
    uns atrás dos outros, em sequência,
  136. o que demora muito.
  137. Então, o que fazemos?
  138. O acesso está longe de ser
    um problema recente

  139. e, no caso da COVID,
  140. tenho de assinalar que temos assistido
    a uma colaboração admirável
  141. entre as organizações internacionais,
    a sociedade, a indústria e outros
  142. para acelerar o acesso:
  143. o trabalho em paralelo,
  144. o acelerar de processos regulamentares,
  145. a criação de mecanismos de abastecimento
  146. o assegurar das aquisições,
    a mobilização de recursos, etc.
  147. Ainda assim, é possível que enfrentemos
    uma situação em que, por exemplo,
  148. a vacina precisará de ser conservada
  149. a, digamos, menos de 80 graus Celsius;
  150. ou o tratamento precisará
    de ser administrado
  151. por um profissional de saúde
    altamente especializado;
  152. ou em que o diagnóstico
    precisará de ser analisado
  153. por um laboratório sofisticado.
  154. Então, que mais podemos fazer?
  155. Abordando a lógica que
    a comunidade de saúde global

  156. tem defendido durante anos,
  157. há mais uma coisa
    que penso que pode ajudar.
  158. Há um conceito no desenvolvimento
    e produção de produtos
  159. chamado "design to cost."
  160. A ideia base é que
    as análises da gestão de custos
  161. acontecem ao mesmo tempo que
    o produto está a ser concebido,
  162. em vez de o produto ser concebido primeiro
  163. e, depois, retrabalhado,
    para diminuir o seu custo.
  164. É um método simples
    que ajuda a garantir
  165. que, quando o custo é identificado
    como um fator prioritário para um produto,
  166. torna-se um objetivo desde o início.
  167. No contexto da saúde e do acesso,

  168. creio que a P&D
    ainda não explorou o acesso,
  169. da forma que os produtores
    fazem com o "design to cost".
  170. Isto significa que,
    em vez de desenvolverem um produto
  171. e, depois, trabalharem para o adaptar
    de forma a assegurar o acesso igualitário,
  172. todos os itens da lista que mencionei
  173. seriam incluídos, desde o início,
    no processo da P&D,
  174. o que nos beneficiaria a todos.
  175. Um exemplo:

  176. Se desenvolvermos um produto
    tendo em vista o acesso igualitário,
  177. podemos conseguir otimizá-lo,
    para que aconteça mais rápido.
  178. Pela minha experiência,
    os desenvolvedores de fármacos,
  179. focam-se em encontrar
    uma dose que funcione
  180. e só depois é que otimizam
    a dosagem, ou fazem ajustes.
  181. Imaginem que estamos a falar
    de um possível produto
  182. cujo ingrediente ativo
    seja um recurso escasso.
  183. Não deveríamos concentrar-nos
    em desenvolver um tratamento
  184. com a quantidade mínima possível
    desse ingrediente ativo?
  185. Podia ajudar-nos a produzir mais doses.
  186. Outro exemplo:

  187. Se desenvolvermos um produto
    tendo em vista o acesso igualitário
  188. talvez consigamos otimizá-lo
    para a distribuição em massa mais rápida,
  189. Nos países ricos,
  190. temos sistemas de saúde
    com grandes capacidades.
  191. Podemos distribuir os produtos
    como quisermos.
  192. Tomamos como garantido
    que os produtos sejam guardados
  193. em ambientes de temperatura controlada,
  194. ou que exijam ser administrados
    por um profissional de saúde qualificado.
  195. É óbvio que os ambientes
    de temperatura controlada
  196. e os profissionais de saúde qualificados
    não estão disponíveis em qualquer lugar.
  197. Se abordarmos
    a pesquisa e desenvolvimento
  198. tendo em mente as restrições
    dos sistemas de saúde mais fracos,
  199. podemos ficar criativos e
    desenvolver, mais depressa,
  200. produtos que não sejam guardados
    a temperaturas especificas,
  201. ou produtos que sejam tomados facilmente,
  202. ou cuja fórmula seja de longa duração,
    em vez de ser em pequenas doses repetidas.
  203. Produzir e desenvolver
    estas ferramentas simples,
  204. teria a vantagem de pôr menos barreiras
    nos hospitais e sistemas de saúde,
  205. tanto para países ricos, como pobres.
  206. Dada a rapidez do vírus e a magnitude
    das consequências que enfrentamos,

  207. penso que temos de continuar
    a tentar encontrar
  208. a forma mais rápida de fabricar produtos
    que sejam acessíveis a todos,
  209. para combater a COVID
    e futuras pandemias.
  210. Na minha perspetiva,
    a não ser que o vírus desapareça,

  211. há dois fins para esta história.
  212. Ou a balança funciona só para um lado,
  213. e só alguns tenham acesso ao produto,
  214. e a COVID continue a ser
    uma ameaça para todos,
  215. ou equilibramos a balança,
  216. todos temos acesso às armas certas,
  217. e seguimos todos em frente, juntos.
  218. A P&D inovadora
    não combate a COVID sozinha,
  219. mas uma gestão inovadora
    da P&D pode ajudar a fazê-lo.
  220. Obrigada.