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← O que acontece depois de desenvolvermos uma vacina contra a COVID-19?

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Showing Revision 19 created 11/22/2020 by Raissa Mendes.

  1. Meu filho nasceu em janeiro de 2020,
  2. pouco antes do isolamento total em Paris.
  3. Ele nunca teve medo
    de pessoas com máscaras,
  4. porque é tudo o que ele conhece.
  5. Minha filha de três anos
    sabe dizer "gel hydro-alcoolique",
  6. ou gel hidroalcoólico, em francês.
  7. Na verdade, a pronúncia dela
    é melhor que a minha.
  8. Mas ninguém quer usar máscara

  9. ou lavar as mãos com higienizador
    a cada 20 segundos.
  10. Estamos todos desesperados
    para que pesquisadores achem uma solução:
  11. uma vacina.
  12. É interessante que, em nossa mente,

  13. continuamos pensando na descoberta
    da vacina como se fosse o Santo Graal.
  14. Mas há alguns atalhos aqui
    que eu gostaria de explicar.
  15. Não sou médica, sou apenas consultora.
  16. Meus clientes são da área da saúde,
  17. empresas biofarmacêuticas, fornecedores,
    instituições globais de saúde,
  18. e eles me ensinaram.
  19. Precisamos encontrar as ferramentas
    para combater a COVID
  20. e torná-las acessíveis a todos.
  21. Primeiro: uma única vacina
    não nos livrará desta situação.

  22. Precisamos de um arsenal de ferramentas,
  23. vacinas, tratamentos, diagnósticos,
  24. para garantir que possamos impedir,
    identificar e tratar casos de COVID
  25. em diversas populações.
  26. Segundo: não se trata apenas
    de encontrar uma ferramenta.

  27. O que vai acontecer
  28. quando um desses ensaios clínicos
    demonstrar que a ferramenta é eficaz?
  29. Você acha que podemos
    correr para a farmácia,
  30. conseguir o produto, tirar a máscara
  31. e voltar a beijar?
  32. Não.
  33. A descoberta de uma ferramenta eficaz
    é apenas um passo nesta luta importante,
  34. pois há uma diferença
    entre a existência de um produto
  35. e o acesso a ele.
  36. Você deve estar pensando:

  37. "Ah, ela quer dizer
    que outros países terão de esperar".
  38. Não, não penso dessa forma.
  39. Não só os outros podem ter de esperar,
  40. mas qualquer um de nós.
  41. O aspecto desagradável da COVID
  42. é que, devido à velocidade
    e à magnitude da doença,
  43. ela expõe todos nós aos mesmos desafios
  44. e nos apresenta desafios
    aos quais não estamos acostumados.
  45. Lembra-se de quando a China
    entrou em isolamento total?
  46. Você imaginava que estaria
    na mesma situação
  47. algumas semanas depois?
  48. Com certeza, eu não imaginava.
  49. Vamos para o momento teórico
    em que temos uma vacina.

  50. Nesse caso, o próximo desafio
    de acesso será o estoque.
  51. A estimativa atual da comunidade global
  52. é que, até o final de 2021,
  53. ou seja, mais de um ano
    após a descoberta da vacina,
  54. teríamos doses suficientes
    para cobrir de 1 a 2 bilhões
  55. dos 8 bilhões de habitantes do planeta.
  56. Então, quem terá de esperar?
  57. Como consideramos o acesso
    quando o estoque é insuficiente?
  58. Primeiro cenário:

  59. deixamos as forças do mercado agirem,
  60. e quem pode pagar o preço mais alto
    ou ser o mais rápido em fazer acordos
  61. terá acesso ao produto primeiro.
  62. Não é nada justo,
  63. mas é um cenário muito provável.
  64. Segundo cenário:

  65. poderíamos concordar,
    com base na lógica da saúde pública,
  66. em quem obtém o produto primeiro.
  67. Digamos que profissionais de saúde
    recebam primeiro,
  68. depois os idosos
  69. e, em seguida, a população em geral.
  70. Agora, vou ser um pouco mais provocativa.

  71. Terceiro cenário:
  72. os países que demonstraram
    que conseguem administrar bem a pandemia
  73. teriam acesso ao produto primeiro.
  74. Pode ultrapassar os limites do bom senso,
    mas não é totalmente ficção científica.
  75. Anos atrás,
  76. quando o estoque de medicamentos
    para tuberculose era escasso,
  77. foi estabelecido um comitê especial
  78. para determinar quais países tinham
    sistemas de saúde sólidos o bastante
  79. para garantir que os produtos
    fossem distribuídos de forma adequada
  80. e que os pacientes seguissem
    o tratamento corretamente.
  81. Os países selecionados
    tiveram acesso primeiro.
  82. Ou o quarto cenário:

  83. decidiríamos por uma regra aleatória,
  84. por exemplo, que as pessoas
    fossem vacinadas no aniversário delas.
  85. Agora, vou fazer uma pergunta:

  86. como seria pensar num futuro
    em que a vacina existisse,
  87. mas você ainda tivesse de usar máscara,
    manter seus filhos fora da escola
  88. e não pudesse trabalhar do modo desejado
  89. por não ter acesso a esse produto?
  90. Cada dia que passasse
    pareceria inaceitável, não é mesmo?
  91. Mas veja só!
  92. Temos tratamentos e até curas
    para muitas doenças,
  93. mas, mesmo assim, as pessoas continuam
    sendo infectadas e morrendo todos os anos.
  94. Vejamos a tuberculose:

  95. 10 milhões de pessoas infectadas todo ano,
  96. 1,5 milhão de mortes,
  97. embora tenhamos a cura há anos.
  98. Isso só ocorre porque ainda
    não descobrimos completamente
  99. alguns dos principais problemas de acesso.
  100. Acesso justo é a coisa certa a se fazer,

  101. mas, além desse argumento humanitário,
  102. ao qual espero estarmos mais sensíveis
    agora que sentimos o problema na pele,
  103. há um argumento econômico e de saúde
  104. para o acesso justo.
  105. O argumento de saúde é
    que, enquanto o vírus permanecer ativo,
  106. todos nós corremos o risco
    de ter casos reimportados.
  107. O argumento econômico
  108. é que, devido ao fato de as economias
    serem dependentes entre si,
  109. a economia de nenhuma nação
    pode recomeçar totalmente
  110. se as demais também
    não estiverem melhorando.
  111. Pense nos setores
    que dependem da mobilidade global,
  112. como o aeroespacial, de viagens e turismo;
  113. nas cadeias de abastecimento
    que se espalham pelo mundo,
  114. como têxteis ou automotivas;
  115. na parcela do crescimento econômico
    proveniente dos mercados emergentes.
  116. A realidade é que precisamos
    que todos os países
  117. consigam acabar
    com a pandemia em sincronia.
  118. Portanto, o acesso justo
    não é apenas a coisa certa a se fazer,
  119. mas também a mais inteligente.
  120. Mas como nós fazemos isso?
  121. Vamos garantir que estamos alinhados
    com o significado de "acesso".

  122. Na verdade, significaria
    que o produto existe,
  123. funciona suficientemente bem,
  124. foi aprovado pelas autoridades locais,
  125. é acessível,
  126. mas também que há evidências
  127. de que funciona em todas as populações
    que necessitam dele,
  128. inclusive gestantes,
    imunodeprimidos ou crianças;
  129. que pode ser distribuído
    em diversos ambientes,
  130. como hospitais ou clínicas rurais,
    de clima quente ou frio;
  131. e que podemos produzi-lo na escala certa.
  132. Sei que é uma lista
    muito longa de verificação
  133. e, em uma situação sem crise,
  134. talvez resolvêssemos esses problemas
    um após o outro, de forma sequencial,
  135. o que levaria muito tempo.
  136. Então, o que fazemos?
  137. O acesso está longe de ser um desafio novo

  138. e, no caso da COVID,
  139. tenho de dizer que estamos vendo
    uma colaboração extraordinária
  140. de organizações internacionais,
    sociedade civil, indústria e outros
  141. para acelerar o acesso:
  142. execução de coisas em paralelo,
  143. aceleração de processos regulatórios,
  144. planejamento para o fornecimento,
  145. garantia de obtenção,
    mobilização de recursos, etc.
  146. No entanto, é provável que enfrentemos
    uma situação em que, por exemplo,
  147. a vacina precisasse ser
    constantemente armazenada
  148. a, digamos, menos 80 ºC;
  149. ou em que o tratamento
    tivesse de ser administrado
  150. por um profissional de saúde
    altamente especializado;
  151. ou em que o diagnóstico
    precisasse ser analisado
  152. por um laboratório sofisticado.
  153. Então, o que mais podemos fazer?
  154. Levando adiante a lógica

  155. que a comunidade global de saúde
    vem defendendo há anos,
  156. consigo pensar em mais uma coisa
    que pode ajudar.
  157. Há um conceito em desenvolvimento
    e fabricação de produtos
  158. chamado "projeto para custo".
  159. A ideia básica é que a conversa
    sobre gerenciamento de custos
  160. aconteça ao mesmo tempo
    em que o produto é projetado,
  161. em vez de o produto ser projetado primeiro
  162. e depois retrabalhado
    para reduzir o custo.
  163. É um método simples que ajuda a garantir
  164. que, ao ser identificado como um critério
    de prioridade para um produto,
  165. o custo se torne uma meta
    desde o primeiro dia.
  166. Agora, no contexto de saúde e acesso,

  167. acho que há um potencial inexplorado
    em P&D para o acesso,
  168. da mesma forma que os fabricantes
    projetam para o custo.
  169. Isso significaria que, em vez
    de desenvolver um produto
  170. e, em seguida, trabalhar para adaptá-lo
    para garantir acesso justo posteriormente,
  171. todos os itens da lista que mencionei
  172. seriam incorporados
    ao processo de P&D desde o início,
  173. e isso, na verdade,
    beneficiaria todos nós.
  174. Vejamos um exemplo.

  175. Se desenvolvermos um produto
    com acesso justo em mente,
  176. podemos otimizar o processo
    de planejamento mais rapidamente.
  177. Em minha experiência,
  178. o foco dos desenvolvedores de medicamentos
    é achar uma dose que funcione,
  179. e só depois a dosagem é otimizada
    ou são feitos ajustes.
  180. Agora imagine que se trata
    de um produto candidato
  181. para o qual o ingrediente ativo
    seja um recurso escasso.
  182. E se, em vez disso, nos concentrássemos
    em desenvolver um tratamento
  183. que use a menor quantidade possível
    desse ingrediente ativo?
  184. Isso pode nos ajudar
    a produzir mais doses.
  185. Vejamos outro exemplo.

  186. Se desenvolvermos um produto
    com acesso justo em mente,
  187. podemos otimizar para distribuição
    em massa mais rapidamente.
  188. Em países de alta renda,
  189. os sistemas de saúde
    têm capacidade sólida.
  190. Podemos sempre distribuir
    os produtos como quisermos.
  191. Achamos natural que eles sejam armazenados
  192. em ambientes com temperatura controlada
  193. ou requeiram um profissional de saúde
    altamente qualificado para administrá-los.
  194. Obviamente, ambientes controlados
    e profissionais altamente qualificados
  195. não estão disponíveis em toda parte.
  196. Se fôssemos abordar P&D
  197. com as restrições de sistemas de saúde
    mais deficientes em mente,
  198. poderíamos ser criativos
  199. e desenvolver mais cedo, por exemplo,
    produtos não afetados pela temperatura
  200. ou que pudessem ser ingeridos
    tão facilmente como uma vitamina
  201. ou formulações de longa duração
    em vez de doses repetidas.
  202. Se conseguíssemos produzir e desenvolver
    tais ferramentas simplificadas,
  203. teríamos o benefício adicional
  204. de colocar menos pressão
    sobre hospitais e sistemas de saúde
  205. tanto para países de alta
    como de baixa renda.
  206. Dada a velocidade do vírus

  207. e a magnitude das consequências
    que enfrentamos,
  208. acho que temos de continuar nos desafiando
  209. para achar o modo mais rápido
  210. de tornar produtos para combater a COVID
    e futuras pandemias acessíveis a todos.
  211. Pelo meu modo de ver,

  212. a menos que o vírus desapareça,
  213. essa história termina de duas maneiras.
  214. Ou a balança se inclina para um lado,
  215. apenas alguns de nós
    têm acesso ao produto,
  216. e a COVID permanece
    uma ameaça para todos nós;
  217. ou equilibramos a balança,
  218. e todos nós temos acesso às armas certas
  219. e seguimos em frente juntos.
  220. Um P&D inovador não consegue
    vencer a COVID sozinho,
  221. mas um gerenciamento inovador
    de P&D pode ajudar.
  222. Obrigada.