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← Como recuperar do esgotamento por ativismo

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Showing Revision 9 created 05/22/2019 by Margarida Ferreira.

  1. No verão de 2017,
  2. uma mulher foi assassinada
    pelo seu companheiro em Sófia.
  3. A mulher, vamos chamá-la de "V,"
  4. foi espancada durante mais de 50 minutos
  5. antes de morrer.
  6. Na manhã seguinte,
  7. os vizinhos contaram à imprensa
    que tinham ouvido os gritos dela,
  8. mas não intervieram.
  9. Estão a ver, na Bulgária
    e em muitas outras sociedades,
  10. a violência doméstica é vista
    como um assunto privado.
  11. Os vizinhos, no entanto, reagem depressa
    quando há qualquer outro tipo de barulho.
  12. Nós queríamos denunciar
    o absurdo que isto é.

  13. Então, concebemos uma experiência.
  14. Alugámos por uma noite o apartamento
    no andar por baixo de V.
  15. E às 10 horas da noite,
  16. Maksim, o artista do nosso grupo,
  17. sentou-se a uma bateria
    que colocámos na sala de estar
  18. e começou a tocar.
  19. Dez segundos.
  20. Trinta segundos.
  21. Cinquenta segundos.
  22. Um minuto.
  23. Acendeu-se uma luz no corredor.
  24. Um minuto e 20 segundos.
  25. Um homem estava à porta,
    hesitando em tocar à campainha.
  26. Um minuto e 52 segundos.
  27. A campainha tocou,
  28. um toque que poderia ter salvo uma vida.
  29. "Beat" é o nosso projeto
    para explorar o silêncio sinistro

  30. que envolve a violência doméstica.
  31. Filmámos a experiência
    que se tornou viral instantaneamente.
  32. A nossa campanha amplificou
    as vozes de sobreviventes
  33. que partilhavam histórias
    similares na Internet.
  34. Serviu de aviso específico
    para vizinhos
  35. e muitos deles comprometeram-se a agir.
  36. Num país onde todas as semanas
  37. o chão aceita silenciosamente
    o corpo de uma mulher,
  38. assassinada pelo seu parceiro ou parente,
  39. nós fizemos barulho,
  40. e fomos ouvidos.
  41. Eu sou uma ativista,

  42. apaixonada pela inovação
    nos direitos humanos.
  43. Lidero uma organização mundial
  44. para soluções criativas
    empenhadas socialmente
  45. No meu trabalho, penso em como levar
    as pessoas a preocuparem-se e agirem.
  46. Venho aqui para vos dizer que as ações
    criativas podem salvar o mundo,
  47. ações criativas e brincadeiras.
  48. Eu sei que é estranho falar de brincadeira
    e direitos humanos na mesma frase,
  49. mas aqui está a razão
    por que é importante.
  50. Cada vez mais, tememos
    não poder vencer isto.
  51. As campanhas parecem aborrecidas,
  52. as mensagens afogam-se,
  53. as pessoas cedem.
  54. Inúmeros estudos, incluindo um recente
    publicado pela Universidade da Colúmbia,
  55. mostram que o esgotamento e a depressão
    são comuns entre ativistas.
  56. Há anos, eu mesma sentia-me esgotada.
  57. Num mundo de infinitas possibilidades
    para avançar,
  58. eu sentia-me na última paragem.
  59. Então, como acabar com o medo,
    o aborrecimento ou o pessimismo?

  60. Brincar.
  61. Neste mesmo palco, o Dr. Stuart Brown,
    psiquiatra e estudioso de brincadeiras,
  62. disse que nada alegra tão bem
    o cérebro quanto brincar
  63. e que o oposto de brincar
    não é trabalhar,
  64. é a depressão.
  65. Então, para sair do meu esgotamento,
  66. decidi transformar o meu ativismo
    no que eu chamo de "brinca-tivismo."
  67. (Risos)

  68. Quando brincamos,
    os outros querem participar.

  69. Hoje, o meu parque de brincar
    está cheio de artistas,
  70. de técnicos e de cientistas.
  71. Misturamos disciplinas
    numa colaboração radical.
  72. Juntos, procuramos novas maneiras
    de dar poder ao ativismo.
  73. Os nossos resultados
    não precisam de ser divertidos,
  74. mas o processo é.
  75. Para nós, brincar é um ato de resistência.
  76. Por exemplo, "Beat",
    o projeto que já referi,
  77. é um conceito desenvolvido
  78. por um baterista
    e um engenheiro de "software"
  79. que não se conheciam, dois dias
    antes de organizarem a ideia.
  80. "Beat" é o primeiro vencedor
    na nossa série de laboratório
  81. em que juntamos artistas e técnicos
  82. para trabalharem em questões
    de direitos humanos.
  83. Outros conceitos vencedores
    incluem uma padaria "pop-up"
  84. que fala de notícias falsas
  85. através de bolinhos bonitos,
    mas de sabor horrível.
  86. (Risos)

  87. Ou um jogo de tabuleiro que nos coloca
    no papel de um ditador

  88. de modo a entendermos a gama
    de ferramentas e táticas de opressão.
  89. Fizemos o nosso primeiro laboratório
    só para testar a ideia,

  90. para ver se há falhas
    e se podemos melhorar.
  91. Hoje, estamos apaixonados
    pelo formato que partilhamos "online"
  92. para toda a gente implementar.
  93. Não posso exagerar o valor
    da experimentação no ativismo.
  94. Nós só podemos ganhar
    se não tivermos medo de perder.
  95. Quando brincamos, aprendemos.

  96. Um estudo recente publicado
    pela Universidade de Stanford
  97. sobre o que é importante para as pessoas
  98. confirma o que nós ouvimos
    durante muitos anos:
  99. as opiniões mudam,
    não por mais informações,
  100. mas através de experiências
    que promovem a empatia.
  101. Aprendendo com a ciência e a arte,
  102. vimos que podemos falar
    de conflitos armados mundiais,
  103. através de lâmpadas,
  104. ou abordar a desigualdade racial nos EUA
  105. através de bilhetes postais,
  106. ou solucionar a falta de um
    monumento a uma mulher em Sófia,
  107. enchendo a cidade com eles.
  108. E, com todas estas ações,
  109. provocar o diálogo,
    a compreensão e a ação direta.
  110. Às vezes, quando falo de
    correr riscos, de tentar e falhar,

  111. no contexto dos direitos humanos,
  112. encontro sobrolhos franzidos,
  113. sobrolhos que dizem:
    "Que irresponsável"
  114. ou "Que insensato".
  115. As pessoas geralmente confundem
    brincadeiras com negligência.
  116. Não é.
  117. Brincar torna os nossos exércitos
    mais fortes ou dá-nos melhores ideias.
  118. Em tempos duma injustiça dolorosa,
  119. brincar traz a leveza
    de que precisamos para respirar.
  120. Quando brincamos, vivemos.
  121. Eu cresci numa época

  122. em que todas as brincadeiras
    eram proibidas.
  123. A vida da minha família foi destruída
    por uma ditadura comunista.
  124. Para a minha tia, o meu avô e o meu pai,
  125. sempre fizemos dois funerais:
  126. um para o corpo,
  127. mas, anos antes disso,
  128. outro para os seus sonhos.
  129. Alguns dos meus maiores
    sonhos são pesadelos.
  130. Eu tenho um pesadelo de que, um dia,
    todo o passado será esquecido
  131. e novas roupas estarão a pingar
    o sangue de erros do passado.
  132. Eu tenho um pesadelo
  133. de que um dia os faróis da nossa
    humanidade se desmoronarão,
  134. corroídos pelo ácido das ondas de ódio.
  135. Mas, muito mais do que isso,

  136. tenho esperança.
  137. Nas nossas lutas pela justiça
    e pela liberdade,
  138. eu tenho a esperança
    de que brinquemos,
  139. e que vejamos a alegria
    e a beleza de brincarmos juntos,
  140. É assim que venceremos.
  141. Obrigada.

  142. (Aplausos)