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← O mito amazónico da vingança dos duendes — Nathan D. Horowitz

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Showing Revision 3 created 11/29/2020 by António Ribeiro.

  1. No interior profundo da floresta tropical
    da Amazónia, no rio Nea'ocoyá,
  2. vivia, segundo a lenda Siekopai,
  3. um cardume de peixes grandes e saborosos.
  4. Quando chegavam as chuvas
    e as águas subiam, os peixes apareciam

  5. e voltavam a desaparecer
    quando as águas desciam.
  6. Os aldeões ao longo do rio
    regozijavam-se com esta benesse ocasional
  7. e queriam mais.
  8. Seguiram-nos rio acima,
    penetrando na selva
  9. até uma lagoa que ribombava
    com o fragor dos peixes.
  10. Toda a aldeia acampou junto da lagoa.

  11. Levavam barbasco, um veneno
    que iam pôr na água
  12. para atordoar os peixes.
  13. Entretanto, o jovem xamã
    foi dar um passeio.
  14. Pressentia que talvez
    não estivesse totalmente só.
  15. Aproximou-se de uma árvore
    donde saía um ruído tão forte
  16. que ele conseguia ouvi-la,
    por cima do barulho dos peixes.
  17. Por isso, teve a certeza
    de que viviam ali espíritos.
  18. Quando voltou ao acampamento,

  19. avisou o seu povo
    de que os peixes tinham dono.
  20. Ele ia tentar encontrar o dono.
  21. Enquanto ele não voltasse,
    ninguém devia pescar.
  22. Voltou à árvore ruidosa.

  23. O tronco escavado era do tamanho
    duma casa, cheio de tecelões atarefados.
  24. O chefe convidou-o a entrar,
  25. explicando que os sumarentos frutos
    da "siripia" estavam a amadurecer
  26. e eles estavam a entrançar cestos
    para os colherem.
  27. Embora eles se parecessem
    e agissem como pessoas,
  28. o xamã percebeu que eram "juri",
    ou seja, duendes do ar
  29. que voavam e controlavam os ventos.
  30. Ensinaram-no a entrançar.
  31. Antes de o xamã se ir embora,

  32. o duende chefe murmurou-lhe
    ao ouvido umas instruções enigmáticas.
  33. Por fim, disse-lhe para pendurar
    uma coroa de ananás num tronco oco
  34. e dormir lá dentro naquela noite.
  35. Quando voltou ao acampamento,
    os aldeões tinham usado o barbasco

  36. e estavam a pescar,
    a cozinhar e a comer.
  37. Só a irmã mais nova do xamã
    lhe tinha obedecido.
  38. Então, toda a gente caiu
    num sono profundo.
  39. O xamã e a irmãzinha
    gritaram e abanaram-nos
  40. mas não conseguiram acordá-los.
  41. Estava a escurecer, por isso
    o xamã e a irmãzinha

  42. ataram a coroa de um ananás
    num tronco oco e enfiaram-se lá dentro.
  43. Levantou-se uma forte ventania
    — a marca dos duendes do ar.
  44. Quebrou ramos e derrubou árvores.
  45. Apareceram caimões, boas e jaguares.
  46. As águas começaram a subir.
  47. Os peixes saltaram das grades de secagem
    e desapareceram a nadar.
  48. O rebento de ananás
    transformou-se num cão.

  49. Ladrou durante toda a noite,
  50. afastando as criaturas da selva
    da árvore derrubada.
  51. Quando a madrugada rompeu,
    a cheia retrocedeu.

  52. Os peixes tinham desaparecido
    e a maioria das pessoas também:
  53. os animais da selva tinham-nas devorado.
  54. Só os parentes do xamã tinham sobrevivido.
  55. Quando a família se virou para ele,
  56. o xamã percebeu
    o que os duendes queriam dizer
  57. quando tinham dito que os frutos
    estavam a amadurecer:
  58. eles não queriam colher
    nenhuns frutos de "siripia",
  59. mas olhos humanos.
  60. A irmã mais velha do xamã chamou-o,

  61. tentando tocar-lhe na cara
    com as suas unhas longas e afiadas.
  62. Ele recuou e, lembrando-se
    das instruções do duende chefe,
  63. atirou-lhe à cara sementes de palmeira.
  64. As sementes transformaram-se em olhos.
  65. Mas, depois, ela transformou-se
    num javali de beiços brancos e fugiu
  66. — ainda viva, mas já não humana.
  67. Toda a comunidade do xamã
    e da sua irmãzinha tinha desaparecido.

  68. e eles foram viver para outra aldeia,
  69. onde ele ensinou toda a gente
    a entrançar cestos;
  70. como os duendes lhe tinham ensinado.

  71. Mas não conseguia esquecer
    as últimas palavras do duende chefe
  72. que lhe tinha dito como se vingar.
  73. Voltou à casa dos duendes do ar
    levando malaguetas embrulhadas em folhas.

  74. Enquanto os duendes o observavam
    dos seus locais de vigia,
  75. o xamã fez uma fogueira
    e colocou nela as malaguetas.
  76. As chamas começaram a consumir a árvore.
  77. Os duendes, que tinham comido
    os olhos das pessoas, morreram.
  78. Os que não tinham comido,
    eram suficientemente leves para voar.

  79. Assim, os duendes, tal como
    os seres humanos, pagaram um alto preço.
  80. Mas também viveram para contar
    a história, tal como o xamã.
  81. Na lenda Siekopai, no encontro
    dos mundos dos espíritos e das pessoas
  82. não há vencedores nem vencidos
  83. e até a morte é uma oportunidade
    para a renovação.