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← Por que seu médico precisa da sua ajuda para combater o excesso de tratamento | Christer Mjåset | TEDxOslo

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Showing Revision 9 created 02/23/2020 by Maricene Crus.

  1. Sou neurocirurgião
  2. e estou aqui hoje para dizer que pessoas
    como eu precisam de sua ajuda.

  3. E em alguns instantes, eu direi como.
  4. Mas primeiro, vou começar contando
    sobre uma paciente minha.
  5. Ela era uma mulher na faixa dos 50 anos,
    em boa forma, de maneira geral,
  6. mas tinha sido hospitalizada algumas vezes
  7. devido ao tratamento que a curou
    do câncer de mama.
  8. Agora, ela apresentava uma hérnia de disco
  9. que causava dor intensa
  10. que irradiava para o braço direito.
  11. Examinando a ressonância magnética antes
    da consulta, eu decidi sugerir cirurgia.
  12. Cirurgias no pescoço, como essa,
    são padronizadas e rápidas,
  13. mas apresentam um certo risco.
  14. Você faz uma incisão bem aqui
  15. e afasta cuidadosamente
    a traqueia, o esôfago,
  16. e tenta não cortar
    a artéria carótida interna.
  17. Depois você pega o microscópio
  18. e cuidadosamente remove o disco
    e o prolapso no canal do nervo
  19. sem danificar a medula e a raiz do nervo,
    que estão apenas alguns milímetros abaixo.
  20. A pior das hipóteses é o dano à medula,
  21. que pode resultar em paralisia
    do pescoço para baixo.
  22. Quando expliquei à paciente,
    ela ficou em silêncio.
  23. E instantes depois,
  24. ela disse algumas poucas palavras
    que foram decisivas para mim e para ela.
  25. "Doutor, isso é mesmo necessário?"
  26. E sabem o que percebi naquele momento?
  27. Que não era.
  28. Na verdade, quando atendo
    pacientes como essa mulher,
  29. normalmente aconselho a não operar.
  30. Então o que me fez aconselhar
    a cirurgia dessa vez?
  31. Bem, essa hérnia era tão delicada
  32. que eu quase podia me ver
    tirando-a do canal do nervo

  33. antes da paciente entrar no consultório.
  34. Eu admito, eu queria operá-la.
  35. Eu adoraria operá-la.
  36. Afinal, cirurgias como essa são a parte
    mais divertida do meu trabalho.
  37. Acho que vocês conseguem
    se identificar com isso.
  38. Meu vizinho arquiteto diz
  39. que ama se sentar para desenhar
    e projetar casas.
  40. Ele preferiria fazer isso o dia todo
    do que conversar com o cliente
  41. que está pagando pela casa,
  42. o qual pode até impor
    restrições sobre o que fazer.
  43. Mas assim como os arquitetos,
  44. todo cirurgião precisa olhar
    o paciente nos olhos e juntos
  45. decidirem o que é melhor
    para a pessoa a ser operada.
  46. E isso pode soar fácil,
    mas vejamos algumas estatísticas.
  47. As amígdalas são dois caroços
    na parte de trás da garganta;
  48. elas podem ser removidas cirurgicamente,
    isso se chama tonsilectomia.
  49. Esse gráfico mostra a taxa
    de tonsilectomias na Noruega,
  50. em diferentes regiões.
  51. O que chama atenção é que há duas
    vezes mais chances de que seu filho,
  52. essa é uma cirurgia para crianças,
  53. sofra uma tonsilectomia
    em Finnmark do que em Trondheim.
  54. A indicação para cirurgia é a mesma
    em ambas as regiões.
  55. Não deveria haver diferença
    nas taxas, mas há.
  56. Aqui temos um outro gráfico.
  57. O menisco ajuda a estabilizar o joelho
    e pode ser lesionado ou rompido,
  58. geralmente durante a prática
    de esportes, como futebol.
  59. Vemos aqui a taxa de operação
    para essa lesão,
  60. e uma taxa de cirurgia em Møre og Romsdal
    cinco vezes maior do que em Stavanger.
  61. Cinco vezes.
  62. Como isso é possível?
  63. Será que jogadores de futebol
    em Møre og Romsdal jogam mais sujo
  64. do que em outras regiões do país?
  65. (Risos)
  66. Provavelmente não.
  67. Adicionei mais informação.
  68. Agora temos os procedimentos
    realizados em hospitais públicos,
  69. em azul claro.
  70. Os feitos em hospitais particulares
    estão em verde claro.
  71. Há muita atividade nas clínicas privadas
    de Møre og Romsdal, não é mesmo?
  72. O que isso indica?
  73. Possivelmente, uma motivação
    econômica para tratar os pacientes.
  74. E tem mais.
  75. Pesquisas recentes mostram que não há
    diferença entre o resultado do tratamento
  76. com fisioterapia regular
    e com cirurgia do joelho.
  77. Ou seja, a maioria dos procedimentos
    realizados no gráfico que mostrei
  78. poderia ter sido evitada,
    até mesmo em Stavanger.
  79. O que estou tentando dizer?
  80. Apesar da maioria
  81. das indicações para tratamentos
    serem padronizadas ao redor do mundo,
  82. há muitas variações desnecessárias
    nas decisões de tratamento,
  83. especialmente no Ocidente.
  84. Algumas pessoas não estão recebendo
    o tratamento de que precisam,
  85. mas um número ainda maior
    está recebendo tratamento excessivo.
  86. "Doutor, isso é mesmo necessário?"
  87. Eu só ouvi essa pergunta uma única vez
    durante minha carreira.
  88. Meus colegas dizem nunca terem ouvido
    essas palavras de um paciente.
  89. E para mudar a perspectiva,
  90. com que frequência vocês acham
    que ouvirão um "não" do médico
  91. se fizerem essa pergunta?
  92. Pesquisadores já investigaram isso
  93. e encontraram, aproximadamente,
    a mesma taxa de negativas em toda parte,
  94. uma taxa de 30%.
  95. Ou seja, três em cada dez vezes,
  96. seu médico prescreve ou sugere algo
  97. que é completamente desnecessário.
  98. E sabem qual a razão alegada por eles?
  99. Pressão por parte do paciente.
  100. Em outras palavras, vocês.
  101. Vocês querem que algo seja feito.
  102. Uma vez, um amigo me pediu
    aconselhamento médico.
  103. Ele pratica esportes,
  104. faz esqui cross-country no inverno,
  105. corrida no verão,
  106. mas estava sentindo dor nas costas
    sempre que fazia jogging,
  107. uma dor tão forte
    que ele teve de parar.
  108. Eu o examinei,
  109. questionei minuciosamente.
  110. Descobri que ele
  111. provavelmente tinha uma degeneração
    de disco na parte inferior da coluna.
  112. O disco causava dor quando era comprimido.
  113. Ele já tinha trocado jogging por natação.
  114. Não havia muito a ser feito,
    então eu disse:
  115. "Você precisa ser mais seletivo
    no treinamento.
  116. Algumas atividades são boas para você,
  117. outras, não".
  118. Ele respondeu:
  119. "Quero uma ressonância da minha coluna".
  120. "Por que quer uma ressonância?"
  121. "Eu posso fazê-la de graça
    pelo plano de saúde do trabalho."
  122. "Ora, por favor", disse eu;
    afinal, era meu amigo.

  123. "Isso não é motivo."
  124. "Acho que seria bom ver como está
    a situação nas minhas costas."
  125. "Quando você começou a fazer
    diagnóstico de imagens?", perguntei.
  126. (Risos)
  127. "Confie em mim, você
    não precisa de um exame."
  128. "Bom", ele disse, e depois completou:
  129. "Pode ser câncer".
  130. (Risos)
  131. Ele fez o exame, claro.
  132. E pelo plano de saúde do trabalho,
    se consultou com outro colega meu,
  133. que falou sobre a degeneração de disco,
    que não havia nada a ser feito,
  134. que ele deveria continuar
    com a natação e parar o jogging.
  135. Depois, nos encontramos
    de novo e ele disse:
  136. "Pelo menos, agora eu sei o que é".
  137. Mas vou fazer uma pergunta.
  138. E se todos vocês aqui com os mesmos
    sintomas fizessem uma ressonância?
  139. E se todas as pessoas na Noruega
    fizessem uma ressonância
  140. devido a dor esporádica nas costas?
  141. A lista de espera para ressonância
    aumentaria quatro vezes ou mais.
  142. E vocês tomariam as vagas nessa lista
  143. de pessoas que realmente têm câncer.
  144. Um bom médico às vezes diz não,
  145. mas o paciente sensato também recusa,
  146. às vezes, uma oportunidade
    de diagnóstico e tratamento.
  147. "Doutor, isso é mesmo necessário?"
  148. Sei que essa pode ser
    uma pergunta difícil de se fazer.
  149. De fato, se voltarmos 50 anos,
    isso seria até mesmo considerado rude.
  150. Se o médico tinha decidido o que fazer
    com você, você simplesmente fazia.
  151. Uma colega minha,
    que agora é clínica geral,
  152. foi enviada para um sanatório
    para tuberculosos
  153. quando era pequena.
  154. Por seis meses.
  155. Foi um trauma terrível para ela.
  156. Mas tarde, já adulta, ela descobriu
  157. que seus exames de tuberculose
    sempre deram negativo.
  158. O médico a mandou para o sanatório
    baseado unicamente em uma falsa suspeita.
  159. Ninguém ousou ou sequer considerou
    confrontá-lo a respeito.
  160. Nem mesmo os pais dela.
  161. Hoje, o ministro da Saúde da Noruega
  162. fala dos serviços de saúde para pacientes.
  163. O paciente deve receber aconselhamento
    do médico sobre o que fazer.
  164. Isso é um grande progresso,
  165. mas também coloca mais
    responsabilidade sobre vocês.
  166. Vocês precisam assumir o comando
    junto com seu médico
  167. e decidir juntos qual caminho tomar.
  168. A próxima vez que estiverem
    num consultório médico,
  169. quero que vocês perguntem:
  170. "Doutor, isso é mesmo necessário?"
  171. Percebam que, no caso de muitos pacientes,
    a resposta seria "não".
  172. Mas também poderia haver
    justificativa para cirurgia.
  173. Então, médicos, quais são os riscos
    relacionados a essa operação?
  174. Entre 5% e 10% dos pacientes
    apresentarão piora na dor.
  175. Entre 1% e 2% dos pacientes
    apresentarão infecção na ferida
  176. ou hemorragia, que pode levar
    a uma nova cirurgia.
  177. Desses pacientes, 0,5 % apresentará
    rouquidão permanente,

  178. e alguns apresentarão redução da função
  179. do braço ou das pernas.
  180. "Doutor, há outras opções?"
  181. Sim, repouso e fisioterapia
  182. durante algum tempo podem
    trazer recuperação plena.
  183. "E o que acontece se eu não fizer nada?"
  184. Isso não é recomendado, mas até
    nesse caso há uma pequena chance
  185. de recuperação.
  186. Quatro perguntas simples.
  187. Considere isso a sua nova
    caixa de ferramentas
  188. para nos ajudar.
  189. "Isso é realmente necessário?"
  190. "Quais são os riscos?"
  191. "Há outras opções?"
  192. "E o que acontece se eu não fizer nada?"
  193. Faça essas perguntas quando seu médico
    pedir uma ressonância,
  194. prescrever antibióticos
    ou sugerir uma cirurgia.
  195. As pequisas mostram
    que um em cada cinco de vocês,
  196. 20%,
  197. mudará de opinião quanto ao que fazer.
  198. E fazendo isso, vocês não apenas
    tornarão sua vida mais fácil
  199. e provavelmente melhor,
  200. mas todo o setor de saúde
  201. será beneficiado com sua decisão.
  202. Obrigado.
  203. (Aplausos)