Portuguese subtitles

← Vamos fazer o mundo voltar a ser selvagem

Get Embed Code
35 Languages

Showing Revision 20 created 06/23/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Eu e os meus irmãos crescemos
    na quinta do nosso avô,
  2. na Califórnia.
  3. Era a paisagem da nossa
    família e da nossa casa.
  4. Quando ficou claro
    que ninguém na nossa geração
  5. queria assumir
    o pesado fardo da agropecuária,
  6. a quinta foi vendida a um vizinho.
  7. A âncora das nossas vidas foi cortada,
  8. e sentimo-nos à deriva
    na ausência daquela terra.
  9. Pela primeira vez, eu percebi
  10. que algo valioso
    pode ser mais bem compreendido
  11. não pela sua presença,
  12. mas pela sua ausência.
  13. Era impossível saber então
  14. quão poderosa é a ausência
    das coisas que amamos
  15. e que teria um impacto no meu futuro.
  16. Durante 23 anos, a minha vida profissional
    esteve com Yvon Chouinard.

  17. Comecei quando ele estava
    a desenhar e a fabricar
  18. equipamento técnico
    de escalada em rocha e gelo
  19. num barracão de lata perto
    da via-férrea de Ventura.
  20. Quando Yvon decidiu
    começar a fazer roupas para alpinistas
  21. e chamar Patagónia a este negócio,
  22. tornei-me numa das primeiras
    seis colaboradoras,
  23. e, mais tarde, diretora executiva,
  24. e ajudei a construir uma empresa
  25. onde criar os melhores produtos
    e fazer o bem pelo mundo
  26. era mais do que um mero slogan.
  27. Doug Tompkins, que viria a ser
    meu marido, anos mais tarde,

  28. era um velho amigo
    e companheiro de escalada de Yvon
  29. e também um empresário.
  30. Foi um dos fundadores das empresas
    The North Face e Esprit.
  31. Todas estas três empresas
  32. foram criadas por pessoas
    que tinha crescido durante os anos 60,
  33. modeladas pelos movimentos
    dos direitos civis, contra a guerra,
  34. pessoas feministas e pacifistas.
  35. E esses valores
    foram aprendidos naqueles anos
  36. e transportados
    pelos valores dessas empresas.
  37. No final dos anos 80,

  38. Doug decidiu deixar
    completamente o negócio
  39. e consagrar o último terço da sua vida
    àquilo a que chamou
  40. "pagar a renda por viver no planeta."
  41. Quase ao mesmo tempo,
    quando cheguei aos 40 anos,
  42. eu estava pronta para fazer algo
    completamente novo na minha vida.
  43. No dia seguinte a ter-me
    aposentado da empresa Patagónia,
  44. viajei 9600 quilómetros até à Patagónia
  45. e juntei-me a Doug que iniciava
    o primeiro projeto de conservação
  46. desse terço da sua vida.
  47. Ali estávamos nós, refugiados
    do mundo empresarial,

  48. enfiados numa cabana
    na costa no sul do Chile,
  49. rodeados de florestas tropicais primitivas
  50. onde os ciprestes-da-patagónia
    podem viver milhares de anos.
  51. Estávamos no meio
    de uma grande área selvagem
  52. que forma um dos dois únicos vazios
    na autoestrada Pan-Americana,
  53. entre Fairbanks, Alasca, e Cape Horn.
  54. Uma mudança radical na nossa vida diária
  55. estimulou-nos enquanto
    começávamos a reconhecer
  56. como a beleza e a diversidade
    estavam a ser destruídas
  57. em quase todo o lado.
  58. Os últimos lugares selvagens
    protegidos na Terra
  59. ainda eram selvagens
  60. principalmente porque as implacáveis
    linhas de frente do desenvolvimento
  61. ainda não tinham lá chegado.
  62. O Doug e eu estávamos numa das áreas
    mais remotas do planeta,

  63. e ainda na área periférica
    do Parque Pumalín,
  64. o nosso primeiro esforço de conservação,
  65. a aquicultura industrial
    estava a crescer como uma doença maligna.
  66. Em pouco tempo, outras ameaças
    chegaram à região da Patagónia.
  67. A extração de ouro, os projetos
    de barragens em rios intocados
  68. e outros conflitos.
  69. A vibração do enorme crescimento
    económico mundial
  70. podia ser ouvida até nas maiores
    altitudes de Cone Sul.
  71. Eu sei que o progresso é visto,
    geralmente, em termos muito positivos,
  72. como uma espécie de evolução
    cheia de esperança.
  73. Mas de onde estávamos,
  74. víamos o lado negro
    do crescimento industrial
  75. E quando as visões do mundo industrial
    são aplicadas aos sistemas naturais
  76. que sustentam toda a vida,
  77. começamos a tratar a Terra
  78. como uma fábrica que produz todas
    as coisas que pensamos precisar.
  79. Como dolorosamente todos sabemos,
  80. as consequências dessa visão do mundo
    são destrutivas para o bem-estar humano,
  81. para os nossos sistemas climáticos
    e para a vida selvagem.
  82. Doug chamava-lhe o preço do progresso.
  83. Era assim que víamos as coisas,
  84. e queríamos fazer parte da resistência,
  85. contrariando todas essas tendências.
  86. A ideia de comprar terrenos privados
    e, em seguida, doá-los

  87. para se criarem parques nacionais
  88. não é novidade.
  89. Qualquer um que já tenha apreciado a vista
    do Parque Nacional de Teton, no Wyoming,
  90. ou acampado no Parque Nacional
    da Acadia, no Maine
  91. beneficiou desta ótima ideia.
  92. Através da Fundação da nossa família,
  93. começámos a adquirir "habitats"
    de vida selvagem no Chile e na Argentina.
  94. Como acreditávamos
    na biologia de conservação,
  95. estávamos a apostar no grande,
    no selvagem e no conectado,
  96. nalguns casos,
    áreas que eram primitivas,
  97. e outras que precisavam
    de tempo para sarar,
  98. que precisavam de se tornar
    selvagens novamente.
  99. Por fim, comprámos
    mais de 800 mil hectares
  100. a vendedores dispostos a vender,
  101. reunindo-os em áreas protegidas
    e com uma gestão privada,
  102. enquanto se construíam infraestruturas
    como acampamentos e trilhos
  103. para uso futuro do público em geral.
  104. Todos eram bem-vindos.
  105. O nosso objetivo
    era doar todas essas terras

  106. sob a forma de novos parques nacionais.
  107. Pode-se descrever isto
    como uma espécie de jiu-jitsu capitalista.
  108. Mobilizámos riqueza privada
    da nossa vida empresarial
  109. e utilizámo-la para proteger a Natureza
  110. de ser devorada pela economia mundial.
  111. Soava-nos bem,
  112. mas no início dos anos 90 no Chile,
  113. onde a filantropia de terras selvagens
    — que foi como lhe chamámos —
  114. era completamente desconhecida,
  115. enfrentámos uma tremenda desconfiança,
  116. e a hostilidade de muitos setores.
  117. Ao longo do tempo,
  118. em grande parte porque fizemos
    o que dissemos que íamos fazer,
  119. começámos a conquistar as pessoas.
  120. Nos últimos 27 anos,
  121. protegemos de forma permanente
    quase 6 milhões de hectares
  122. de floresta tropical temperada,
  123. pastagens naturais da Patagónia,
  124. zonas costeiras,
  125. zonas húmidas de água doce,
  126. e criámos 13 novos parques nacionais.
  127. Tudo formado pelas nossas doações de terra
  128. e terras federais
    adjacentes a esses territórios.
  129. Após a morte de Doug,
    na sequência de um acidente de caiaque

  130. há quatro anos,
  131. o poder da ausência apareceu de novo.
  132. Mas nós na Tompkins Conservation
    reconhecemos a nossa perda
  133. e acelerámos os nossos esforços.
  134. Entre eles, em 2018, a criação
    de novos parques nacionais marinhos
  135. cobrindo cerca de 10 milhões de hectares
  136. no sul do Oceano Atlântico.
  137. Sem pesca comercial
    ou extração de qualquer tipo.
  138. Em 2019, concluímos a maior
    doação de terras privadas da história,
  139. quando os últimos 400 mil hectares
    de terras de conservação no Chile
  140. passaram para o governo.
  141. Uma parceria público-privada
  142. que criou cinco novos parques nacionais
    e ampliou outros três.
  143. Isto acabou por ser
    uma área maior do que a Suíça.
  144. Todos os nossos projetos
    são o resultado de parcerias.

  145. Antes de mais nada, com os governos
    do Chile e da Argentina.
  146. E isto requer uma liderança
  147. que compreenda o valor da proteção
    das joias dos seus países,
  148. não só por hoje, mas para o futuro.
  149. Parcerias com filantropos de conservação
    que pensam da mesma maneira
  150. tiveram um papel em tudo
    o que temos feito.
  151. Há 15 anos, perguntámo-nos:

  152. "Além de proteger a paisagem,
  153. "o que temos de fazer para criar
    ecossistemas plenamente funcionais?"
  154. E começámos a perguntar a nós próprios,
    onde quer que estivéssemos a trabalhar,
  155. quem desapareceu,
  156. que espécies tinham desaparecido
  157. ou cujos números eram baixos e frágeis.
  158. Também tivemos de perguntar:
  159. "Como eliminamos a razão
  160. "que motivou a extinção destas espécies?"
  161. O que parece tão óbvio agora
  162. foi para nós uma total revelação.
  163. E mudou a natureza
    de tudo o que fazemos,
  164. completamente.
  165. A menos que todos
    os membros da comunidade
  166. estejam presentes e a florescer,
  167. é impossível deixarmos para trás
    ecossistemas em pleno funcionamento.
  168. Desde então, temos reintroduzido
    com sucesso várias espécies nativas
  169. nas zonas húmidas de Iberá:
  170. papa-formigas gigantes,
  171. veados-campeiros
  172. porcos selvagens
  173. e, finalmente, uma das mais difíceis,
    as araras-vermelhas,
  174. que desapareceram durante
    mais de 100 anos neste ecossistema.
  175. E hoje, elas estão de volta,
    a voar livremente, a dispersar sementes,
  176. a levar a sua vida como o devem fazer.
  177. O ponto alto destes esforços na Iberá

  178. é devolver os superpredadores carnívoros
    ao seu devido lugar:
  179. os jaguares em terra,
    as lontras-gigantes na água.
  180. Vários anos de tentativa e erro
    produziram crias
  181. que serão libertadas
  182. pela primeira vez há mais de um século
  183. nas zonas húmidas de Iberá,
  184. e agora, os 600 mil hectares
    do Parque Iberá
  185. vão proporcionar espaço suficiente
    para a recuperação
  186. das populações de jaguares,
    com baixo risco de conflito
  187. com os agricultores vizinhos.
  188. Os projetos de recuperação
    da vida selvagem no Chile
  189. estão a ter êxito,
  190. aumentando os números
    de várias espécies fundamentais
  191. na região da Patagónia.
  192. O cervo sul andino que está quase extinto,
  193. o nandu-de-darwin
  194. e os pumas e raposas
    cuja população está a aumentar.
  195. O poder do ausente
    não nos pode ajudar

  196. se apenas nos levar
    à nostalgia ou ao desespero.
  197. Pelo contrário,
  198. só é útil se nos motivar
  199. a trabalhar no sentido
    de trazer de volta o que desapareceu.
  200. Claro, o primeiro passo
    para recuperar a vida selvagem
  201. é, em primeiro lugar, ser capaz
    de imaginar que isso é possível,
  202. que a abundância da vida selvagem
    assinalada nos registos
  203. não são apenas histórias
    de alguns livros antigos empoeirados.
  204. Conseguem imaginar isso?
  205. Acreditam que o mundo
    pode ser ainda mais belo,
  206. mais equitativo?
  207. Eu consigo.
  208. Porque já o vi.
  209. Aqui está um exemplo.
  210. Quando comprámos
    um dos maiores ranchos

  211. no Chile e na Patagónia, em 2004,
  212. ele tinha este aspeto.
  213. Durante um século, esta terra tinha sido
    pastoreada em excesso pelo gado,
  214. como a maioria das pastagens
    em todo o mundo.
  215. A erosão do solo era galopante,
  216. centenas de quilómetros de vedações
  217. mantinham a vida selvagem
    e o seu fluxo, encurralados.
  218. E isso era com a pouca
    vida selvagem que restava.
  219. Os pumas e as raposas tinham sido
    perseguidos durante décadas
  220. o que reduziu muito o seu número.
  221. Hoje, essas terras são os 300 mil hectares
    de Parque Nacional da Patagónia,
  222. e têm este aspeto.
  223. Arcelio, o antigo gaúcho,
  224. cujo trabalho nos últimos anos
    era encontrar e matar pumas,
  225. é hoje o principal rastreador
    da equipa de vida selvagem do parque
  226. e a sua história cativa a imaginação
    de pessoas de todo o mundo.
  227. O que é possível.
  228. Partilho estes pensamentos e imagens
    convosco não para me congratular

  229. mas para fazer uma observação simples
  230. e propor um desafio urgente.
  231. Se a questão é a sobrevivência,
  232. a sobrevivência da diversidade da vida
    e da dignidade humana
  233. e comunidades humanas saudáveis,
  234. então a resposta tem de incluir
    a recuperação da vida selvagem na Terra,
  235. o mais possível
    e o mais depressa possível.
  236. Todos têm um papel a desempenhar,
  237. mas especialmente aqueles
    que têm o privilégio
  238. do poder político,
  239. da riqueza,
  240. onde, sejamos francos,
    para o melhor e para o pior,
  241. se joga o jogo de xadrez
    do nosso futuro.
  242. Isto faz-nos chegar ao cerne da questão.
  243. Estamos preparados para fazer o que é
    preciso para mudar o fim desta história?

  244. As mudanças que o mundo tem sofrido
    nos últimos meses
  245. para impedir a propagação da COVID-19
  246. são, para mim, muito promissoras.
  247. porque mostram que podemos unir forças
    em circunstâncias desesperadas.
  248. O que estamos a passar agora
    poderá ser um precursor
  249. dos danos potenciais mais vastos
    como resultado da crise climática.
  250. Mas sem aviso, globalmente
  251. estamos a aprender a trabalhar em conjunto
  252. de formas que não
    podíamos ter imaginado.
  253. Tendo visto jovens de todo o mundo
  254. a levantar-se e a sair para a rua
  255. para nos lembrar a nossa culpa
    e castigar-nos pela nossa inação
  256. são aqueles que me inspiram.
  257. Sei que já ouviram tudo isto antes.

  258. Mas se alguma vez houve um momento
    para despertar para a realidade
  259. de que tudo está interligado
    com tudo o resto,
  260. esse momento é agora.
  261. Toda a vida humana
    é afetada pelas ações
  262. de qualquer outra vida humana
    em todo o mundo.
  263. E o destino da humanidade
    está ligado à saúde do planeta.
  264. Temos um destino comum.
  265. Podemos florescer
  266. ou podemos sofrer.
  267. Mas vamos fazê-lo em conjunto.
  268. A verdade é esta,

  269. já ultrapassámos o ponto em que
    a ação individual é uma ação opcional.
  270. Na minha opinião, é um imperativo moral
  271. que cada um de nós
  272. assuma o reimaginar
    do nosso lugar no círculo da vida.
  273. Não no centro,
    mas como parte do todo.
  274. Precisamos de nos lembrar
  275. que o que fazemos
    reflete o que escolhemos ser.
  276. Vamos criar uma civilização
  277. que honre o valor intrínseco da vida.
  278. Não importa quem seja,
  279. não importa com o que
    se tenha de trabalhar,
  280. sair da cama todas as manhãs,
  281. e fazer algo que não tem nada
    a ver connosco.
  282. Em vez disso, ter tudo a ver
    com aquelas coisas que amamos,
  283. com as coisas que sabemos serem verdade.
  284. Sermos alguém que imagina
    que o progresso humano
  285. é algo que nos move para a plenitude.
  286. Para a saúde.
  287. Para a dignidade humana.
  288. E sempre,
  289. e para sempre,
  290. para a beleza selvagem.
  291. Obrigada.